Luzia-Homem/XII

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Luzia-Homem por Domingos Olímpio
Capítulo XII


A velha dormia tranqüilamente, e as duas moças continuavam a conversar no alpendre.

Queria você muito bem ao Cazuza? – perguntou Luzia a Teresinha, de súbito emergindo de um vago cismar.

— Se queria!... – respondeu-lhe ela, com saudoso suspiro. Por ele larguei pai, mãe e irmã de quem eu era um ai-Jesus! Era o seu tudo e sentia-me tão feliz com ele que, desde o dia em que Deus o levou, fiquei insensível como uma pedra, vivendo por viver, rolando à toa pelo mundo...

— Nunca teve inclinação para outro?

— Eu, não. Vendo-me sozinha e desacostumada a trabalhar para comer, não tive remédio senão me resignar à minha sorte e estar por tudo. Quando algum homem se engraçava de mim, eu fingia gostar dele. Encontrei um desalmado que me queria como uma fera; tinha maus bofes e me trazia, ciumento como o demônio, que nem negra cativa. Aquilo não era homem; era o cão em figura de gente. Por qualquer suspeita ficava danado como se me quisesse comer viva. De uma feita, arranchou-se na casa em que morávamos como marido e mulher, um moço rico e bonito, que se pós a olhar muito para mim; e eu, ao levar-lhe o café, cai na asneira de sorrir para ele. Ah! Luzia, se você me visse naquele tempo!... Não é por me gabar, alva como uma imagem, com duas rosas nas faces e carnes rijas como pau!... Meus cabelos pareciam de oiro e meus olhos eram azuis e claros como duas contas. O mundo e a pobreza estragam a gente. Hoje, veja como estou murcha, engelhada, cheia de sardas... Mas, para encurtar razões, quando o moço foi embora, o homem pôs-me de confissão; e, não sabendo eu o que lhe dizer para me desculpar de falta que não me passara pela cabeça, disse-me uma porção de desaforos porcos, nomes de mãe; chamou-me sem-vergonha, safada, deslambida, e, agarrando-me pelos cabelos, deu-me tabefes...

— E você? – perguntou Luzia, indignada.

— Eu chorei muito; lamentei a minha desgraça; jurei por todos os santos do céu, que era inocente, até que ele, com um pontapé, me atirou para dentro da camarinha, berrando possesso: "Anda, peste!... Amanhã não me ficas aqui em casa; ponho-te fora na estrada, onde te apanhei como uma cachorra vadia... "E fechou, com estrondo, a porta. Fiquei na escuridão, maginando no que faria de mim, quando amanhecesse. Ao mesmo tempo que me fervia o coração, estava contente com ver-me livre de semelhante bruto; mas tive medo de apanhar outra vez, e esperei quieta o que desse e viesse. – Que me importa – disse comigo – Hei de achar quem me queira... E, pensando no moço causador daquela desgraceira, peguei no sono, deitada numa rede velha que ali estava armada. Quando os galos estavam amiudando, ouvi bulir na porta; levantei-me de um pulo; fui deitar-me no mesmo lugar onde havia caído e pus-me a soluçar baixinho. Abriu-se a porta, e a claridade do copiar, alumiado por uma vela, deu em cheio sobre mim. Eu estava derreada, no chão, sustendo o corpo com a mão esquerda, enquanto tapava os olhos com as costas da direita, olhando por baixo. O desalmado entrou devagarinho; chegou perto de mim; ficou alguns minutos parado e disse-me, depois, em voz sumida e zangada: "Vá se deitar no seu quarto... " Eu não respondi, nem me mexi; entrei a soluçar mais forte. Tocou-me, então, de mansinho, no braço, dizendo, já com outra voz, manhosa e adocicada – "Teresa, você está zangada comigo?" Repeli o agrado com um safanão do cotovelo. Ele continuou, procurando abraçar-me: - "Este meu gênio!... Às vezes faço coisas!... Veja: estou arrependido... do que fiz..." Estava quase acocorado junto de mim. "Só o que falta - resmunguei, soluçando mais forte – é mandar-me surrar pelos seus vaqueiros com um nó de peia." - "Perdoa, coração – continuou, tentando ainda me abraçar – Eu não sou mau, mas o ciúme me tira o juízo. Esqueça tudo, minha cunhãzinha da minha alma... Prometo nunca mais te ofender. Pede o que quiseres, benzinho; serei teu escravo..." E, suspendendo-me do chão, levou-me ao colo como uma criança... Todo ele tremia; eu sentia-lhe o baticum do coração; suava e bufava como um novilho... Eu, nem como coisa: zangada, gemendo e soluçando. No outro dia, enquanto ele se derretia e se babava em agrados e promessas, eu maginava no moço e no Cazuza que, lá do céu, me pedia vingança...

— Você não abandonou logo esse malvado?!...

— A falar a verdade, não era de todo mau. Fiquei por medo e por não ter coragem de começar a vida de novo... Já tinha padecido tanto, que mais um pouco não me fazia mossa. Mal com ele, pior sem ele, que, tirante as venetas de ciúme, era bom para mim; dava-me tudo: era só pedir por boca, como dona de casa... Maridos, casados na igreja, batem nas mulheres, quanto mais... Ora, deixei-me estar, mas pensando sempre que o meu adorado Cazuza nunca me havia maltratado, e que eu devia, mais cedo ou mais tarde, tomar desforra; porque, apesar de franzina, ninguém mas faz, que não as pague, tão certo como Deus estar no céu.

— Vingou-se então?...

— Ora, ora, ora!... Eu lhe conto. Seu Berto (ele se chama Bartolomeu, mas todos o tratavam assim) foi em fins d'águas fazer a ferra em uma fazenda dos Crateús. O outro parece que soube disso, e se apresentou uma tarde, debaixo de um pé d'água, que se diria vir o céu abaixo. Eram relâmpagos e trovões de encandear e ensurdecer a gente. Aboletou-se e passou a noite. Soube, então, que era um tal capitão Bentinho, de família muito rica e poderosa. Trajava bem, gibão, guarda-peito, e perneiras de coiro de capoeiro, muito macio, bordados de flores, pospontadas à sovela, com abotoadura e esporas de prata. Não imagina como tinha a cor fina e branca, e uma barba parecida, comparando mal, com a de Jesus Cristo. Como estou falando com o coração aberto, não tenho vergonha de confessar que me engracei dele, acho que por capricho ou por ser em tudo diferente do outro. De madrugada, ainda chuviscando e antes que a gente da casa acordasse, arrumei algumas peças de roupa e meti-as em sacos com alguns patacões dados pelo Berto; e fugimos: ele montado num possante quartau pedrez, eu à garupa. Arre! que foi uma viagem de arrebentar. Tivemos de atravessar muitas léguas de sertão, passando rios a nado, dormindo no mato e comendo de alforje até chegarmos a uma povoação, perto da fazenda onde moravam os pais dele. Aí fui aboletada em casa de uma velha. Passamos três dias como noivos: ele, fino como seda; eu, cheia de denguices e manhas, como rapariga donzela. E contudo, Luzia, você não é capaz de acreditar que, amimada pelo Bentinho, todo delicadezas e cerimônias, tinha saudades do Berto com o seu sangue na gueira, aqueles olhos devoradores, aquela brutalidade...

— É possível?!... Pai do céu!...

— Você não sabe de quanto o bicho mulher é capaz, quando vira a cabeça.

— Anda; conta o resto.

— Eu fazia idéia da fúria, da danação dele, quando deu por falta de mim, da cunhãzinha russa. Imaginei os berros, os despropósitos, as pragas, que me irrogou, as ameaças de desforra, pois sabia que não era homem para se conformar com o roubo da mulher. Meu dito, meu feito. Um dia chegou Bentinho muito assustado, recomendando que me escondesse, porque lhe haviam inculcado gente do Berto nos arredores da povoação. Fiquei mais morta do que viva. Não me podia levar para a fazenda, porque a família, que tudo ignorava, não consentiria nisso. A velha que quase não dava fé de mim e vivia muito ocupada na criação, entrou a tomar precauções para ninguém suspeitar a minha estada em sua casa. Um dia, era dia de, feira, e eu tinha um desejo doido de ver a reunião de gente de uma redondeza de vinte léguas, vendendo legumes, farinha, rapadura e outras produções da lavoura; mas a megera não consentiu que eu botasse o nariz de fora. Ali por volta de meio-dia, ouvimos tiros de bacamarte e uma algazarra dos demônios, um bate-boca desadorado. Pouco depois soubemos que houvera um pega entre cangaceiros, desconhecidos no lugar, e a gente do Bentinho, e que já havia morrido um homem... Que seria?... Fiquei numa aflição, tremendo de susto, mas experimentava uma secreta satisfação que fosse por minha causa a briga e o sangue derramado.

— Que horror!...

— Estava num pé e noutro para ter notícias certas do barulho, quando, entrou, de repente, Bentinho. Vinha muito amarelo, com a mão enrolada em um pano e acompanhado por dois cabras, armados até os dentes. – Que foi? – perguntei-lhe assustada - "Nada, um arranhão no pulso, respondeu com voz sacudida – amarre-me, endireite-me isto, sa Quitéria." Enquanto a velha punha mezinha na ferida, um talho que ia da palma da mão esquerda ao meio do braço, Bentinho, fora do seu natural, com os olhos espantados, a voz surda e seca, ainda trêmulo de raiva, contou-me que, chegando à feira, fora desfeiteado por uns cabras, novatos na terra, já muito encachacados e intimando com todo o mundo. Chamou a gente para amarrá-los, mas um deles, saltando como um gato sobre o ginete, disse-lhe: - Você pensa, seu alvarinto, que amarrar homem é furtar, à traição, mulher alheia? Nisto chegou, à toda, o João Brincador com três homens escolhidos, e eu disse-lhe: - Amarra essa cambada de desordeiros. – Em cima das minhas palavras, riscou o Berto, e foi dizendo: Você, pode amarrá-los seu filho desta, filho daquela, mas depois de me pagar e ajustarmos as contas. – Eu e os meus demos de rédea para sairmos do meio do povo; eles, rente, atrás da nossa poeira. A certa distância rodamos sobre os pés os animais, e os cabras que também estavam bem montados, quase esbarram em riba de nós. – Agüenta, rapazes! – disse ao João, que me respondeu sorrindo: Não há novidade, capitão. Deixe eles para nós. Palavras não eram ditas, o Berto papocou-me fogo. Abaixei-me, e a bala tirou um taco da beira do chapéu do João –O cabra mata seu Bentinho! – gritou ele – Os outros cangaceiros atiraram, e os meus responderam com uma descarga. O cavalo de um deles empinou-se e rodou morto por cima do cavaleiro, também ferido. O Berto, então, veio seco em cima de mim, e correu dois palmos de faca do Pasmado – Tenha mão, capitão Berto – disse-lhe eu, aparando o golpe, com a minha parnaíba – Tenha mão que se desgraça. Mas o homem estava roxo de raiva; espumava como um touro feroz. Avançou outra vez num ímpeto, que não era para graças. Suspendi o russo-pombo passarinhando como um gato; salto pra aqui; pulo pra acolá, e o homem decidido atravessando-se na minha frente, com o cavalo preto e ligeiro que nem um tigre. Na terceira investida, meteu-me o ferro com vontade. Rebati com a mão; mas quando senti o aço ranger-me na carne e o sangue espirrar, saquei da garrucha. O homem estava cego, arremeteu de novo e meteu-me o ferro outra vez aqui na aba do gibão. Vendo, então, que o diabo me matava mesmo, e que eu não podia com vantagem brigar com ele a ferro frio, perdi as cerimônias, e lasquei-lhe fogo... O homem soltou um berro; abriu os braços como se quisesse abraçar o vento, e derreou pra trás. O cavalo, sentindo falta de rédea, deu quatro galões e meio, como um poldro brabo e desembestou desapoderado, arrastando Berto enganchado no estribo. Morreu?!... – perguntei, tiritando de frio, e batendo os dentes como se tivesse sezões. "Não sei. Foi batendo por troncos e barrancos até desaparecer de nossa vista com os dois cabras restantes metidos em uma nuvem de poeira. Dois dos dele ficaram no barro. Da minha rapaziada,, o Chico Pintado levou uma bala aqui na coxa – lá nele -; o Borburema perdeu o gibão, e foi ferido com um pontaço nas cruzes; o Brincador ficou com o chapéu, novo em folha, estragado. Todo o mundo sabe que ele tem o corpo fechado. Enquanto brigávamos, o povo fazia um barulho medonho. Todos viram que me defendi o mais que pude, negaceando, para lhe poupar a vida. O diabo do ferro cortava como navalha. O talho está doendo de verdade. "E voltando-se para mim, disse: - "Não chores, Teresa. Isto, com sumo de angico ou de maçã de algodão, sara depressa.... É uma arranhadura de nada." Supunha que eu chorava por ele; mas, naquela ocasião, meu pensamento acompanhava Berto, desfigurado pelos encontrões, coberto de sangue e pó, arrebatado pelo Moleque, cavalo de estimação que eu bem conhecia. Minha vontade era correr atrás do pobre, apanhar os pedaços da sua carne, arrancados pelos tocos e pedras. Talvez o encontrasse ainda vivo para pedir-lhe perdão... Desde esse dia, ficou decretada a minha desgraça. Bentinho me achava sempre triste e sucumbida. Eu tinha repugnância daquele homem manchado com o sangue do outro. Não era já a mesma mulher... Ele parece que percebeu isso, e foi também esfriando, até que me participou o seu casamento com uma prima bonita e rica. Eu respondi que lhe fizesse bom proveito... Deu-me um maço de dinheiro e não voltou mais a casa da velha Quitéria.

Luzia, embebida nas palavras de Teresinha, acompanhava a narrativa com intenso interesse, intenso abalo.

— E... depois? – perguntou.

— Depois? Enquanto durou o dinheiro, quase um ano, fiquei com a tal velha que foi a minha asa-negra. Tomou conta de mim como de uma besta de carga; fazia de mim o que queria; mandava e eu me sujeitava, calejada, estando por tudo sem protestar, sem me aborrecer. A. velha, que era toda agrados enquanto eu estava rica, virou para me insultar e, uma vez por outra, me atirava à cara que era necessário ganhar com que pagar o pirão que eu comia, porque não era minha escrava...

— Não prenderam Bentinho?...

— Qual prisão, qual nada!... Ficou solto, e respondeu o jurado quando muito bem quis. O pai dele, o coroné Manel Fernandes era o maioral dono da terra.

— Ficou um ano, dizia você...

— Pouco mais ou menos, contando do dia da briga, até quando a velha morreu de um nó na tripa. Dei graças a Deus por me haver livrado de semelhante bruxa, e resolvi voltar para a casa de meu pai, embora ele, que era teimoso e ríspido, me matasse; mas, em caminho, tentou-me o demônio e fui rolando de um lado para outro, de povoação em povoação, até que a seca me apanhou. E aí está, minha camarada, como vim bater aqui.

Ela, com efeito, peregrinara pelo vasto sertão, de miséria em miséria, rastolhando, perdida como um pedaço de pau arrastado pela correnteza do rio, caindo nas cachoeiras, mergulhando nos rebojos, surgindo adiante, para bater de novo sobre pedras, tornando a ser arrebatado, até que, ao baixar das águas, pára, coberto de paul e ervas secas, garranchos e flores, que transportou de longe, esperando a enchente na próxima estação, e continuando a trágica jornada, até apodrecer em ribas desoladas, ou perder-se na imensidade do oceano.

É essa a história da peregrinação mundana das desgraçadas, que se desterram no seio amigo da família, quebrando o suporte dos afetos puros, e vagando sem rumo, na ebriedade de gozos efêmeros, à mercê da fatalidade intangível e cega.