Luzia-Homem/XIII

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Luzia-Homem por Domingos Olímpio
Capítulo XIII


Esteve-se Luzia absorta, fitando em Teresinha demorado olhar aceso de admiração, como se lhe ela se revelasse sob a forma estranha e sugestiva de uma heroína provada nos mais rudes lances da luta pela vida, e conservando ainda o coração sensível aos nobres impulsos de ternura, de dedicação e piedade do infortúnio alheio. Os episódio romanescos, que ouvira num enlevo de surpresa e espanto, como as crianças ouvem, tímidas, maravilhosas histórias de fadas e princesas encantadas, ou as proezas de lobisomem e cavalos sem cabeça, vagando pelos campos, nas noites tétricas em que os jacurutus sinistros piam à beira dos rios; todos aqueles casos da paixão dominadora arrastando, lentamente, para a voragem, a rapariga franzina, indiferente ao perigo, sem saudades da casa paterna e sem remorso da culpa que a poluíra, incapaz de resistir, e reincidindo no pecado como um vicioso na absorção de licores capitosos que o intoxicam, flutuando na embriaguez da volúpia e despertando maculada e resignada à própria vergonha, assumiam, na sua imaginação excitada, proporções gigantescas de feitos valorosos, extraordinárias façanhas de uma criatura forte, disfarçada sob ilusórias aparências de debilidade doentia. Disseram-lhe que o sofrimento embotava as delicadas fibras do coração; que o pecado o esterilizava, como o sol esteriliza a terra, e estiolava as florações sadias da semente do bem; entretanto, Teresinha era a negação viva dessas verdades afirmadas por uma moral de convenção, sentimental e absurda. Tinha a superioridade da mulher contente de sofrer pelo seu amor, como um crente pela sua fé, o martírio ultrajante do desprezo, o vilipêndio de viver execrada; aceitara, com resignação de forte, as conseqüências todas do primeiro passo, dado no enlevo de um sonho delicioso, para o declive fatal, onde ninguém mais se detém e se equilibra. Deveriam ser fortes, admiráveis, as mulheres que sobrevivessem às provações do opróbio, com a alma imaculada; e Luzia, apesar de seus músculos exuberantes, se sentia aniquilada, ao pensar em ser colhida por um só dos incidentes da pitoresca vida de Teresinha; morreria extenuada como um pássaro cativo na arapuca. Seria horrível ver morrer o homem amado, o abandono, o ser surrada pelo amante, brutalmente sensual, e, todavia, lamentar-lhe a morte... Seria horrível, seria monstruosa essa escravidão da mulher desbriada ao senhor do seu corpo, essa passividade de animal, de coisa a mudar de dono. Ocorria-lhe, então, que não havendo experimentado essa abjeção, não tinha direito de maldizer da sua sorte, incomparavelmente mais propícia que a de Teresinha, a heróica rapariga que se não queixava.

Surgia no horizonte o Cruzeiro rutilante, reclinado nos coxins nebulosos da Via-Láctea e a bafagem morna da madrugada parecia o arfar da terra extenuada, sucumbida de cansaço, quando, interrompendo a conversa, as duas se entreolharam espantadas: tinham percebido algo de suspeito, estalidos de galhos secos, rumor de passos precavidos, vozes abafadas, sumidas, muito perto da casa, na direção das touceiras de mandacarus que defendiam, com intransponível cerca de espinhos, o pequeno quintal abandonado.

— Ouviu? - perguntou Luzia.

— É talvez – respondeu Teresinha, que escutava atenta – o barulho do terral nos galhos, algum animal roendo o mandacaru.

— Não é a primeira vez que ouço esses passos furtados, fora de horas, ali pela cerca e no terreiro... Parece que alguém nos espia.

— Tens medo, fracalhona?...

— Não tenho medo, não; mas é melhor irmos lá para dentro.

— Pois sim. Não se me dava de ver o que é.

Recolheram ao quarto. Luzia abeirou-se da rede onde, encolhida como uma criança, a velha ressonava tranquila. Teresinha ficou a espreitar, cozida à porta entreaberta em estreita fenda; com um aceno de alvoroço, chamou a outra, e viram, ao lusco-fusco, um grupo.

— Parece que são soldados – observou-lhe Teresinha.

— Talvez a ronda... – balbuciou Luzia.

Não: são dois homens e uma mulher. Espera... Olha: estão conversando...

Então, muito juntas e apavoradas, ouviram:

— Eu não dizia que estão dormindo?!...

— Qual – teimou uma voz feminina – estão acordadas. Juro que ouvi, ainda agorinha, falação de gente no alpendre...

— Também ouvi – afirmou outra voz mais clara e forte - Deixemos de histórias. É melhor não teimar. Elas botam a boca no mundo e estamos perdidos... Nada. Aquilo, aquela bruta, não é mulher de brincadeira...

O conselho foi aceito pelo grupo, que se esgueirou sorrateiro, apressadamente.

— O diabo roncou-lhe na tripa – disse Teresinha triunfante, mostrando a Luzia, a lâmina nua do grande canivete de mola Era tocarem na porta, eu fisgar logo um deles, para não ser atrevido.

— Parece que ouvi a voz de Crapiúna.

— Pode ser; mas não estava fardado. Só queria saber quem foi a safada que veio com eles...

— Que intenções teriam? Olha, Teresinha, não é a primeira vez que ouço esses passos suspeitos. Há muito tempo, desconfio que andam rondando a nossa casa.

— Também ouvi, mas não maginei que fosse gente. Não maldei nada.

— São capazes de tudo.

— Lá isso é verdade.

— Várias noites, Crapiúna e Belota andaram a cantar fora de horas, aqui por perto...

— Só me dá que pensar a mulher... Será possível que viessem botar feitiço? E... não é outra coisa; é mandinga...

— Outro dia, quando abri a porta de manhã cedo, topei, mesmo na soleira, um saquinho com penas de galinha pretas arrepiadas...

— E não o abriu para ver o que continha?...

— Deus me livre. Eu não. Tive nojo e varri tudo com o cisco para dentro daquele buraco, cheio de carrapateiras e que foi barreiro.

— Pois eu não resistia. Havia de revistar tudo, pegasse-me, embora, o malefício.

— E você acredita nisso?...

— Não sei o que é, se feitiço ou obra do cão; mas, tenho visto casos de pôr tonto o juízo da gente. Há malefício para abrandar coração, curar ciúmes e até para produzir moléstias. Lá em casa havia um velho, que curava bicheiros dos bezerros pelo rasto...

— Abusões...

— Busões?!... Conheci um moço que foi enfeitiçado por uma rapariga, embelezada por ele. A criatura, de repente, ficou toda torta, como se lhe desse o ar... Ave-Maria; foi murchando, secando até ficar pele e osso. Parecia mais um defunto em pé, que gente viva. Desenganado de remédios de botica, foi se receitar ao padre João Crisóstomo; chupou chave de sacráriol do Santíssimo, mandou fazer orações fortes... Foi bobage... A felicidade dele foi topar uma cigana, que lhe deu contra-feitiço, uns poses para beber com leite de peito... Santo remédio, menina!... Uma coisa é ver outra é dizer, como ele se levantou, já tendo os pés na cova.

— Bem, fecha a porta e vamos dormir que é quase de madrugada.

— É mesmo... E eu que estou moída... Parece que levei uma surra...

Fechada a porta com precaução para não despertar a doente, Teresinha despiu-se rapidamente; coçou o vinco do cordão das saias na cintura; enrolou, espreguiçando-se, em gestos felinos, os cabelos; persignou-se e derreou-se na esteira.

Lentas passaram as horas para Luzia, sentada na rede, estremecendo ao menor ruído do vento nas folhas da latada, e aguardando, ansiosa, o quebrar das barras, com os primeiros fulgores da aurora. Seu olhar compassivo flutuava entre a doente, a moça adormecida e a candeia a crepitar melancólica, no caritó enfumarado.

Renascia-lhe, no coração, a esperança de melhoras da mãe adorada; e, ao mesmo tempo, suspeitava que aquele prolongado sono fosse efeito de dormideiras, que lhe houvesse dado o médico. Meditava na tranquilidade angélica de Teresinha, seminua, apenas coberta por uma leve camisa de esguião, preciosa relíquia de antiga abastança, e acreditava que lhe houvera Deus perdoado as culpas, porque era boa na essência, e as purgara neste mundo. Entretanto, ela, que nunca havia feito mal a ninguém, que não abandonara os pais, nem traíra, nem ocasionara a morte de homens que a amassem, ela que tudo sacrificara, aspirações de moça e prazeres, que resistira aos instintos de mulher, para manter, em meio do paul, a sua pureza imaculada, ali estava, acabrunhada de pensamentos tristes, cruciantes como remorsos, com a alma inquieta e o coração latejando de susto, à previsão de perigos tremendos.

Que havia feito para sofrer tanto? Que funesta influência exercia sobre as pessoas que lhe queriam? Fora, talvez, ela que trouxera desgraça a Alexandre. Bastou que ele lhe desse os cravos rubros, crestados ao calor de seu seio, para lhe imputarem um crime infamante e ser preso como um réprobo.

Teria má sina, mau olhado?... Seria dessas criaturas fatídicas, cujo contacto desorganiza e destrói? Conhecera uma formosa moça, em cujas mãos, ovos batidos para mal-assadas, não cresciam e desandavam em aguadilha choca; talhava o leite; definhava e morria a planta de que ela colhesse uma flor, ou matava com o olhar ninhadas de pintos espertos e lindos, como macias borlas de veludo? Havia, então, criaturas, predestinadas para o bem e para o mal?... Nasciam umas para o sofrimento, outras para o gozo, da mesma forma que as havia destinadas ao céu ou ao inferno?... E Deus, Deus, pai de misericórdia, permitia isso, essa iniquidade revoltante?!...

E o seu espírito, flutuando à mercê de noções incompletas do bem e do mal, das causas e efeitos reguladores da vida, se rebelava, em assomos impotentes, contra as injustiças do destino cego e louco.