Luzia-Homem/XIX

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Luzia-Homem por Domingos Olímpio
Capítulo XIX


Teresinha voltou, no dia seguinte, ao beco da Gangorra, à hora da revista, quando os soldados estavam reunidos no quartel, estabelecido em uma velha casa fronteira à cadeia. No sobressalto de quem se esconde, esgueirando-se para evitar a curiosidade da vizinhança, entrou no quarto, e se fechou por dentro. O silêncio aumentava-lhe o susto. Foi preciso repoisar para adquirir coragem.

A porta, que dava para o quintal, estava entreaberta, como ficara na véspera. O caixão velho lá estava, regurgitando de traços, lavado de luz intensa, um contraste da penumbra do aposento, sem o menor sinal de haver sido desviado, ou da presença de ser humano naquele sítio.

Com o peito ofegante, pálida de aflição, o ouvido atento ao menor ruído, a moça ajoelhou, e, com um esforço sobreposse, ergueu um dos ângulos do caixão, muito pesado, muito cheio; e, sustentando-o de encontro ao ombro, fendeu com mão trêmula, o espaço entre o fundo e o chão. Seus dedos crispados experimentaram repugnante contacto. Retirou, rapidamente, a mão, como se a houvesse passado pela polpa ascorosa de um réptil. Um calefrio varou-lhe os membros, as forças abandonaram-na, e o caixão caiu, percutindo o solo com um som cavo.

Transida de pavor, ela esperou alguns momentos, imóvel e atenta, sempre de joelhos, apoiada ao muro. Recobrado o ânimo limpou com a fímbria da saia o copioso suor que lhe inundava o rosto, respirou agoniada, como se lhe faltasse ar; abanou-se com o vestido, movendo de um para outro lado a cabeça, quase desfalecida. A bolsa de Crapiúna estava ali. Não havia dúvida; ela havia sentido o contacto eletrizante dos pêlos do coiro de onça. Aguilhoada pela curiosidade de examinar-lhe o conteúdo, não ousou de fazê-lo: seus músculos flácidos e fatigados não poderiam repetir a exploração. Além disso, começou a sentir a dolorosa junção inguinal e o aperto do peito, que a acometia toda vez que era assaltada por fortes abalos.

— Ah!... Se eu fosse mulher de talento, como Luzia - murmurou, desalentada, erguendo-se a custo.

Certa da permanência da prova do crime, restava escolher meio de utilizá-la. Seria necessário surpreender Crapiúna ali, quando voltasse em busca de dinheiro e obter o auxílio de um homem bravo e forte, capaz de entestar com o soldado, prendê-lo e conduzi-lo à presença da autoridade. Lembrou-se de Raulino Uchoa que era vigoroso e arrojado, quando menos pela brava fascinação das histórias que contava da vida aventurosa. Era, demais disso, amigo de Alexandre e devotado a Luzia, que o salvara dos chifres do toiro sanhudo. Era, porém, indispensável que ela e ele ficassem escondidos de tocaia, esperando, horas, talvez dias inteiros, a ocasião propícia.

Ocorreu-lhe, então, procurar o sargento Carneviva, que ela o sabia em excesso rigoroso para com os soldados, e andar muito prevenido com Belota e Crapiúna, por serem jogadores incorrigíveis. A essa idéia, duma felicidade que farte, ela vibrou de júbilo, ela vibrou de cólera, misturados, na mesma expansão impetuosa, os nobres anelos de vitória e antegozo cruel da vingança.

— Hás de Pagar o novo e o velho – exclamou ela, com ameaças, e triunfante – Hei de mostrar, ladrão safado, quem é tábua de bater roupa e quanto vale esta cachorra!...

E partiu em busca do sargento.

A essa hora, estava Luzia trabalhando na oficina de costuras do morro do curral do Açougue.

Confiara-lhe Dona Inacinha a superintendência das meninas taludas, depois de verificar a sua perícia, o seu exemplar procedimento, o recato de maneiras e linguagem, tão raros naquela quadra de carência de nutrição física e moral. Seria ela um exemplo vivo para aquelas pobrezinhas, condenadas à mendicidade, órfãs ou abandonadas pelos pais, expostas ao contágio da infecção, que diluía as baixas camadas da sociedade, desfibradas pelo inominado flagelo.

Entre elas estava Quinotinha, um futuro de formas, em cujas linhas, ainda angulosas, se debuxavam, nuns longes de curvas graciosas, os primeiros sinais da puberdade. Luzia acolheu-a com simpatia; e, quando soube que era a menina libertada por Alexandre da sanha monstruosa de Crapiúna, dedicou-lhe os mais carinhosos cuidados. Fruía deliciosa sensação ao contacto dela, ao exercitar-lhe as pequeninas mãos delicadas no manejo da agulha e no ajustamento das peças de costura, sensação de mãe testemunhando a florescência da força e da inteligência nos tenros rebentos do seu ser. Ela a distinguia das outras meninas, desasseadas, esgrouvinhadas, como pombas privadas do arminho das penas cândidas, de olhos toldados, como se por eles já houvesse passado a sombra funestra do crime; muitas indiferentes às carícias, aos conselhos, de grandes olhos parados, ardendo num brilho fulvo de febre, e sempre voltados para o telheiro onde roncavam, fumegando, os enormes caldeirões de comida. Quase todas pareciam esgalhos enfezados, condenadas ao estiolamento precoce, a se consumirem, varas estéreis, na coivara de vícios, que se ia alastrando, como incêndio em matagal ressequido, e mais não era outra coisa essa massa de famílias, erradicadas dos lares, desagregadas e descompostas.

Contemplando Quinotinha a trabalhar, Luzia se embebia no enlevo de um sonho, onde se dissolviam as amarguras, as tristezas do presente, e surgia, entre resplendores suaves de aurora, o desejo da maternidade, dar-lhe Deus uma filha assim, formosa e sadia. E já considerava, num gozo, em toda a sua sublimidade, esse prazer inefável de mãe, quando a estrelava ao seio fremente, lhe amimava os cabelos de menina e a beijava com afã, com a meiguice, o doce frenesi das mães amorosas.

Evolava-se o sonho, e ela considerava que a rapariguinha poderia servir de companheira à mãe enferma e a ela mesma, como irmã caçula, se os tempos não fossem tão ruins; poderia repartir, com ela, a sua pobreza, o seu quinhão parco, como fizera com Alexandre. Chegou mesmo a falar-lhe nisso, mas Quinotinha respondeu-lhe que era a mais idosa de oito irmãos, uma escadinha de meninos que terminava num de peito, e não podia abandonar a mãe, coitada, já abandonada pelo marido.

Depois disso, Luzia lhe teve mais amor, e mesmo mais sorrisos, e mesmo mais cuidados. Havia, entre ambas, a solidariedade do mesmo infortúnio, de sentimentos idênticos, dedicação e amor filial, com a diferença de ser a menina uma criatura ingênua e feliz, pela inconsciência da miséria, e ela mulher rebelada contra a sorte, assaltada de absurdas aspirações, tendo o coração apertado entre mágoas, dissabores, esperanças desfeitas, murchas como os cravos rubros de Alexandre.

Uma tarde, terminada a tarefa, Quinotinha saiu acompanhada de Luzia, que lhe notava algo estranho no semblante, de ordinário tranquilo e risonho.

Caminharam em silêncio, algum tempo.

— Há muitos dias – disse a menina, enteada e hesitante que ando para lhe dizer uma coisa.

— Você?! – exclamou Luzia, com interesse, com surpresa.

— Sim, eu mesma...

— Vamos lá... Diga...

— Vosmecê conhece seu Alexandre? Aquele moço que está preso por causa do furto da Comissão?...

— Conheço, sim.

— Quero muito bem a ele... Sa Luzia também gosta dele? Luzia não respondeu; e a menina continuou:

— Todo o mundo gosta daquele homem...

— Mas... a que vem isso?

— Eu lhe conto. Sa Luzia sabe onde é a casa de Chica Seridó? Pois fui lá, outro dia, buscar um remédio, que a mamãe mandou pedir e estava esperando entretida com a Gabrina, aquela mocinha bonita, que também gosta de seu Alexandre, quando ela me largou de repente, e foi para o terreiro conversar com uma pessoa. Espiei para fora e fiquei tremendo de medo: era o Crapiúna, aquele soldado que de uma feita, quase se pegou com seu Alexandre... Fiquei quieta e, então, ouvi ele falar muito zangado: ralhava tanto, que fiquei com pena de Gabrina. Ele dizia: - Você não tem palavra. Ficou de ir lá em casa e me enganou! Ela respondeu por aqui assim: - A Chica estava com os olhos em riba de mim, que não me deixou um instante. - Você está mentindo, menina - tornou ele a dizer-lhe com muita má-criação. - Nem por eu lhe dar o par de brincos de ouro e os cortes de chita... - Mas eu não fiz o que você disse? - respondeu a rapariga, também com maus modos. Não fui jurar em casa do Delegado?...

— Vamos. Conte-me tudo – irrompeu Luzia, ansiosa e alvorotada, devorando a menina com o olhar em fogo. – Vamos, diga a verdade.

— Não estou mentindo – balbuciou, Quinotinha, espavorida pelo gesto ardente da mestra – Creia-me por esta luz...

— Não tenho receio. É para bem dele, do pobre, que está penando inocente...

— Espere. Deixe-me lembrar. Ela disse mais: - "Que queria você, seu Crapiúna?" – "O que, me prometeu... Olha, diabinho, tu me tens custado os olhos da cara e se não fosse porque..." - Aqui, ela fastou pra trás, e disse-lhe: - "Se é por causa da porqueira destes brincos e daqueles molambos, pode levar tudo. Basta a dor de consciência de ter alevantado um falso... Ainda quer mais?!..." – Crapiúna, estava-se vendo, ficou fulo de raiva e em termos de arremeter para ela...

— Está bem certa do que dizes, Quinotinha?!...

— Eu? Como em Deus estar no céu... Por sinal que ele abandonou, quando ela disse que, se duvidasse, não se dava de contar tudo; que mentira por pique, para se vingar de Alexandre... que não fazia caso dela... O soldado ficou calado um instantinho e pediu-lhe que não fosse mazinha, que se falasse, seria presa com ele, desgraçando-se os dois para fazerem benefício a um homem que, além de tudo, a desprezava por causa de outra mulher. Se ficasse quieta e fizesse o que ele queria, poderiam viver, sem ninguém desconfiar, como Deus com os anjos. - "Olhe - disse ele por fim - se eu fosse malvado, poderia encalacrá-la... Mas não faço isso, porque você é o meu único amor da minha alma." Continuaram a conversar, mas tão baixinho, que não pude ouvir, até que a Chica Seridó gritou lá de dentro por ela... Então, eu disse comigo: Que gente malvada! Vou contar tudo a sa Luzia. Não contei logo, porque tive medo que ralhasse comigo por eu andar escutando conversa de gente grande...

— Ralhar contigo?!... Pois se foi Deus quem te colocou ali para seres testemunha da verdade... Fizeste muito bem, Quinotinha; assim é que faz uma menina bem-ensinada. Nem podes imaginar o bem que fazes a duas criaturas: a ele e a mim. A mim, que libertaste de um grande peso que me esmagalhava o coração.

E enlaçou a menina nos braços robustos; conchegou-a ao peito, convulso, que arfava, com alvoroço, desesperadamente beijou-a em febril transporte de ternura, como beijam aos filhos as mães amorosas.

— Agora - disse a menina, libertando-se dos afagos de Luzia - deixe-me ir que é tarde... Não diga nada., nem que lhe contei...

— Vai descansada...

Quinotinha partiu a correr, e Luzia continuou o caminho para casa.

A lucidez da narrativa, duma segurança minuciosa, atestava a sinceridade da menina. Alexandre, pensava Luzia radiante, está salvo, salvo da infâmia e reabilitado para ela, por sua vez libertada das sombras cruéis da suspeita. Ele ressuscitara, e, da prisão nojenta, ascendia para o céu das suas aspirações, aureolado pelo sofrimento. E ela abençoava a voz demoníaca, aquela voz sedutora e íntima, que lhe falava com a sonoridade mística de um canto angelical, e a impelia docemente para o mártir, repetindo: "Vai, curva-te como escrava e culpada, unge as suas mãos generosas com as tuas lágrimas, porque o amas."

Se Alexandre a amasse, ele perdoar-lhe-ia; ela era, agora, culpada de haver desconfiado, por mesquinho impulso de despeito, por ter recusado ao pobre a consolação da sua presença, a caridosa visita diária à prisão, e por não resistir, à crueldade pueril de devolver-lhe as pobres flores murchas, símbolo triste de afetos mortos.