Luzia-Homem/XV

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Luzia-Homem por Domingos Olímpio
Capítulo XV


Tão preocupada regressara Luzia da cadeia, que não reparou em Dona Matilde, debruçada sobre uma das janelas da casa do Promotor. Foi preciso que a formosa senhora a chamasse para arrancá-la da funda meditação absorvente, em que imergira o espírito, como num antro caliginoso.

— Aonde vai tão apressada, Luzia?...

— Desculpe-me, dona – respondeu ela, estacando, confusa e enteada, como se lhe houvessem surpreendido a tortura moral - Estava tão atarantada que não vi vosmecê, quando era minha intenção falar com o seu doutô a respeito do processo.

— Entre. Estou com saudades dos meus bonitos cabelos...

— Aqui estão sempre bem tratados e muito mais cuidados do que quando eram meus – disse Luzia, libertando a opulenta cabeleira do pente que a sustinha.

— Que lindos!... – exclamou Matilde, acariciando, com mimo, as bastas madeixas – Como estão macios... Oh! nunca vi coisa igual...

Luzia agradecia, com um sorriso contrafeito de melancolia.

— Você – continuou a senhora – parece contrariada... Que lhe aconteceu?... Sua mãezinha vai melhor?...

— Muito melhor...

— E Alexandre?...

— Como preso, quase sem esperança de se ver livre da enxovia...

— Tenho grande dó de você, Luzia, moça capaz, merecedora de melhor sorte. Mas, que significa esse ar sombrio, esses olhos amortecidos?...

Luzia não respondeu.

— Diga-me – continuou a senhora, com meiguice quer muito a Alexandre?...

— Por que me pergunta?

— A sua dedicação ilimitada àquele infeliz só pode ser inspirada por um grande afeto, desses que não esmorecem ante os maiores sacrifícios.

— Não sei se lhe quero muito... Sei que lhe devo muita gratidão por ter sido bom para nós, o protetor e amigo, que nos ajudou...

— E é somente por gratidão, que o defende com tanta dedicação?...

— Só por gratidão. Por que, então, havia de ser?...

Luzia respondia com esforço. As palavras irrompiam de seus lábios, ásperas, aos pedaços, com uma falaz aparência de calma e indiferença.

— Você não é sincera, Luzia; não confia, talvez, em mim. Ninguém é superior ao próprio infortúnio; e mais humano, mais nobre, é confessá-lo que o sufocar ou esconder. Sofre-se mais no repúdio à consolação e ao lenitivo... É possível que não tenha consciência do estado do seu coração, ou não saiba explicar o que, nele, se passa? Não é crime amar, e Deus abençoa o amor das criaturas honestas, como um sagrado impulso da natureza, tanto mais forte quanto mais contrariado. Você é mulher forte. Os seus afetos devem ser mais intensos e impetuosos que os das outras, frágeis e passivas, entre quem vive deslocada, sempre como estranha, porque não foi feita para nascer e viver entre essa gente. Nisto consiste a sua infelicidade. Você sente que, em volta, entre os seus amigos e conhecidos, ninguém a compreende e a estima como merece. Daí, é fácil imaginar quanto sofreria se viesse a amar algum indigno de você... É um desastre que, vulgarmente, acontece, causando desgraças irremediáveis...

— Por que me diz isto?

— Sabe que, nesse trama, contra Alexandre, aparece uma rapariga que o acusa?

— A Gabrina...

— Como soube?...

— Alexandre, ainda há pouco, contou-me tudo...

— Ah!... Ele lhe falou nisso?!... E você?...

— Que importa... Tanto se me dá que ele queira bem a ela como a outra qualquer...

— Empenha-se ainda em libertá-lo?...

— Por certo. Não penso noutra coisa...

— Admirável!...

— Puno por ele porque me diz o coração que está inocente. Ainda que fosse culpado, confessasse o crime, eu não era capaz de abandoná-lo na desgraça...

— Mesmo tendo cometido o crime por causa de outra mulher?

— Que tem isso?... Ele é senhor do seu coração, pode dá-lo a quem quiser. Demais, querer bem não é obrigação. Eu não poderia exigir que ele me pagasse alguns serviços de amizade, ligando-se a mim, ele um moço branco, eu uma pobre mulher de cor, sem eira nem beira, com à mãe doente às costas, neste tempo de seca e carestia de tudo. Além disso, ninguém gostaria de casar com uma criatura, que tem o apelido de Luzia-Homem, como esse que o meu fado ruim me deu...

— De homem só tem a força; é bem bonita rapariga... Que pretende, então, fazer?...

— Quando Alexandre for solto, pego em minha mãe, que está melhor, e marcho para a praia, como os outros retirantes.

— Você é uma extraordinária criatura, Luzia. Cada vez mais interesse me desperta...

— Reconheço que faz isso por bondade de santa... Só lhe peço que se empenhe com seu doutô para acabar esse tal de inquérito, para libertar Alexandre e a mim, que não devo me arredar daqui, enquanto ele padecer...

— Fique descansada. Farei o possível... Aqui para nós... Meu marido não acredita na história da tal Gabrina; desconfia mesmo que ela foi insinuada...

— Ah! Não acredita, não é?!.. acudiu Luzia, com estranha vivacidade, iluminado o rosto, num fulgor de vitória.

— Pobre coração, que te atraiçoas – observou dona Matilde, sorrindo, deliciosamente irônica.

— Gabrina é ingrata e vingativa como uma cobra...

— Meu anelo é que você e meu marido tenham razão, mas desconfiarei até verificar a verdade... Oh! os homens...

— A senhora é ciumenta?...

— Como uma leoa, como toda a mulher apaixonada até à loucura...

Luzia espetara na bela senhora, os olhos espavoridos, onde havia algo de surpresa e prazer, ante a revelação, que estalou vibrante.

— Deve ser assim – murmurou como se monologasse – Raiva de onça contra quem lhe bole na carniça, ou lhe rouba os filhos... Fui má; ofendi Alexandre. Agora é tarde... O que está feito não está mais por fazer...

— Não desespere, Luzia. É bem possível que tudo acabe do melhor modo e você seja recompensada de tantas aflições e cuidados. Tenha coragem. Não se amofine. Não quero que os meus belos cabelos embranqueçam por muito apurar o juízo em coisas tristes...

— A senhora é do céu, dona Matilde.

— Vá sossegada que, hoje mesmo, à tardinha, cuidarei da sua causa.

— Faça isso. Será obra de caridade, que não cairá no chão.

Luzia, retendo as lágrimas, rorejantes nos negros olhos ansios, e muito grata, beijou-lhe as mãos brancas, duma maciez fina de camurça, e partiu.

Na rua, atravancada por enormes e pesados carros toscos, arrastados por muitas juntas de bois magros, escapados da devastação do gado, carros de pesadas rodas inteiriças e oblongas para que as excrescências do círculo, os tombadores, diminuíssem o esforço da tração, sobrecarregados de fardos, caixas de víveres e mercadorias, amarradas entre os altos fueiros; por entre eles e os bois, deitados, rendidos de fadiga, e ruminando tranqüilos, sonolentos, e os lábios cinzentos, lubrificados de baba espessa, deslizava a intérmina torrente de retirantes andrajosos, esquálidos, torpemente sórdidos, parando de porta em porta, a mendigarem uma migalha, ossos, membranas intragáveis, os resíduos destinados a repasto de cães.

No largo da feira, a aglomeração asfixiava em redor das vendas ambulantes de mantimentos, expostos em caixões, sacos, sob os tamarineiros, trapiás frondosos, à sombra de toldos de estopa, manchada de largos remendos variegados.

Magotes de crianças nuas, de hedionda magreza de esqueleto, de grandes ventres, obesos e lustrosos como grandes cabaças, lançavam olhares, terríveis de avidez, sobre pilhas de rapaduras, grandes medidas de quarta, desbordantes de farinha e feijão, pencas de bananas, rimas de beijus, alvíssimas tapiocas, montes de laranjas pequeninas e vermelhas, colhidas na véspera, nos pomares murchos da Meruoca.

Os míseros pequenos, estatelados ao tantálico suplício da contemplação dessas gulodices, atiravam-se às cascas de frutas lançadas ao chão, e se enovelavam, na disputa desses resíduos misturados com terra, em ferozes pugilatos. Era indispensável ativa vigilância para não serem assaltadas e devoradas as provisões à venda, pela horda de meninos, que não falavam; não sabiam mais chorar, nem sorrir, e cujos rostos, polvilhados de descamações cinzentas, sem músculos, tinham a imobilidade de coiro curtido. Quando contrariados ou afastados pelos mercadores aos empuxões e pontapés, rugiam e mostravam os dentes roídos de escorbuto. Eram órfãos quase todos, ou abandonados pelos pais; não sabiam os próprios nomes, nem donde vinham. Privados de memória, bestificados pela carência de carinhos, anestesiados pelo contínuo sofrer, eram esses pequeninos mendigos gravetos de uma floresta morta, despedaçados pelos vendavais, destroços de famílias, dispersadas pela ruptura de todos os laços de interesses e afetos.

Às vezes, a morte os surpreendia durante o sono, junto de um tronco ou na soleira de uma porta. Trespassavam como pássaros, sem contorções, sem estertor, sem um gemido, silenciosos, tranqüilos, num sossego de morte, num sossego de liberdade.

Luzia atravessou, rapidamente, o largo da feira, evitando o contacto e desviando os olhos dos grupos de mendigos nauseabundos, pois se ainda não habituara ao pungente espetáculo da miséria ínfima, degradada e feroz. Empolgada pela comoção da entrevista com Alexandre, pelas palavras de conforto da sua adorável protetora, rememorando o que esta lhe dissera sobre o amor e o ciúme, quase esbarrou em Crapiúna, que a saudou cortês; e, bamboleando em ademanes amáveis, arriscou:

— Adeus, feitiço...

A moça estremeceu de susto, fez um gesto de cólera, e seguiu mais depressa.

— Você não tirou ainda o juízo da Luzia-Homem? - perguntou a Crapiúna o Cabecinha, que fazia com ele, o serviço de policiar a feira.

— Qual o quê!... – respondeu o soldado, carregando a caraça, muito despeitado – Aquilo é uma fera, braba como cascavel; mas hei de amansá-la por bem ou por mal...

— Aquela mesma não cai com duas razões...

— Há de ser como as outras: muita soberba, muito luxo... tudo bobages. A demora é a gente teimar e esperar com paciência. Já lhe teria dado uma ensinadela se o estupor do Delegado não estivesse atravessado comigo...

— Eu acho que você faz mal em se meter com a vida daquela mulher...

— Já agora é impossível recuar. Por causa daquela não-sei-que-diga tenho perdido noites de sono, maginando na raiva que ela tem de mim, só porque me engracei dela...

— Só faltava dar o Crapiúna, em namorado sem ventura.

— Não caçoe, Cabecinha. Há mulheres mandingueiras, que põem na gente um veneno que só elas podem tirar. Fica-se tomado por dentro de uma dor que não dói, mas sofre-se sem saber porquê; não se tem onde botar o corpo; não há cama nem rede, que caiba a gente; finge-se não fazer caso; procura-se distrair com outras mulheres, como quem se embebeda para ficar valente, ou para esquecer... Tudo peta... O veneno vai queimando o sangue, faz febre, dor de cabeça e fastio. E o coração vai inchando, crescendo, até que estoira...

— Você, então, cabra velho, está mesmo ervado?... Tibes! Que cobra te mordeu!...

— Não tenho a vida para negócio; nem conheço a cor do medo; nunca fiz caso da morte, e queria ter de anjos para acompanharem a minha alma, as vezes que tenho visto boca de bacamarte e faca de ponta em cima de mim... mas, fico mesmo mole diante dessa mulher encantada; fico sem ação e aluado, quando ela passa por mim, e me repuna...

— O melhor, já lhe disse, seu Crapiúna, é pensar noutra coisa.

— Isso é bom de dizer... Nem que queira não posso. É urna desgraça. A você, que é amigo, posso falar a verdade. Tenho feito tudo para reduzi-la. Lembrei-me até de botar dormideira na jarra d'água...

— E se ficar doente; se morrer?!

— Não há perigo. A Joana Cangati sabe fazer a mandinga. Mas o diabo da velha Zefinha não dorme; passa a noite tossindo e gemendo; e, agora, havia a Teresinha de se meter de gorra com elas para me atrapalhar. Tem-me dado vontade de torcer o pescoço daquela galinha...

— Você está se metendo numa rascada...

— Saberei manobrar para me desapertar, quando for preciso. Agora, estou esperando que ela se desengane do ladrão do Alexandre...

— Qual! Mulher, quando principia a querer bem, fica viciada: larga um, arranja outro.

— Aquela não é dessas. Luza é séria...

— Ora, adeus, seu Crapiúna. Quando dorme...

— E honrada...

— Só se for na testa.

— Já lhe disse.

— Está bom; está bom!... Não vale se zangar por tão pouco. Nada tenho com isso. Você mesmo é quem está puxando conversa... Arrume-se com a sua donzela, ruim de amansar, e seja muito feliz. Faça-lhe bom proveito aquela jóia.

— Também maldei que aquilo tudo era soberba, luxo ou aleijão da natureza, mas entrei a especular a vida, os particulares dela, e, verifiquei que é mesmo dura como pedra. Quanto mais certeza tenho, de ser ela bem procedida, mais o diacho da rapariga se me encravilha na cabeça. Eu não gosto de mulher que me azucrine, mas também refugar como aquela é da gente desesperar.

— Por que não lhe prometes casamento?

— Se ela não me quer ver nem pintado... Além disso, por mal dos meus pecados, sou casado.

— E a mulher?...

— Sei lá. Não combinava com o meu gênio, nem pegava do meu jeito... Era um demônio em figura de gente, rezinguenta e respondona. Um dia, brigamos mesmo de verdade: dei-lhe uns pescoções, e o diabinho anoiteceu e não amanheceu. Levantei as mãos para o céu. Boi solto, lambe-se todo...

— Por essas e outras, é que nunca fiz semelhante asneira. Para peso, basta a granadeira e a mochila.

— Deixe lá... Sempre é bom ter quem pregue botões na farda, engome as calças, a tempo e à hora.

— Se contas com aquela, ficas desabotoado toda a vida. Tome o meu conselho, seu Crapiúna. Quem me avisa, meu amigo é. Deixe a Luzia de mão. Olhe que lhe acontece desgraça, quando menos pensar. Você tem sangue na guelra e o coração perto da goela. Tome cuidado.

— Sei o que hei de fazer, e ando de rédeas tesas. Quando a vejo, ardo por dentro; dá-me vontade de reinar, mas fico quieto e mudo como cascavel de tocaia, esperando a minha vez para dar bote certo. Então nem reza de cigano, nem oração de padre velho a livra de mim. Eu cá sou homem de tenência. Quando viro a cabeça para uma banda, nem o diabo a endireita...

Crapiúna sacou da ilharga uma grande faca, fina e pontiaguda, e pôs-se a cortar um pedaço de fumo mapinguim para fazer um cigarro.

— Que bonita faca! – observou Cabecinha.

— Pasmado verdadeiro. Traspassa uma moeda de dois vinténs – disse Crapiúna, fazendo vibrar com a unha o gume afiado. – Ah! se este ferro falasse!...

— Vamos ali, ao Antônio Benvindo, tomar uma terça?

— Vamos lá, mas só tomo zinebra.

— Está feito.

Os dois soldados se dirigiram para a bodega, continuando a conversar.

O sol dardejava, a pino, intensa luz sobre o largo da feira, coalhado de gente. Redemoinhos intermitentes revolviam o pó cálido, que se elevava em espirais, envolvendo retirantes e mercadores em bulcões amarelados e sufocantes.