Luzia-Homem/XVI

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Luzia-Homem por Domingos Olímpio
Capítulo XVI


Desde esse dia, cessaram as visitas de Luzia à cadeia. Teresinha tomou a si, com prazer, a piedosa incumbência de levar comida ao prisioneiro, que a recusou tenazmente.

— Deixe-se de asneiras, seu Alexandre – disse-lhe ela – Isto até parece desfeita. A Luzia não vem afetiva como dantes, porque não pode mais faltar ao serviço; e, agora, que a tia Zefinha vai melhor, não há mais desculpa para estar recebendo a ração sem trabalhar. Poderia vir à tarde, mas você sabe que, depois das quatro horas, não deixam mais falar com os presos.

— Não me iludo – respondeu-lhe o moço, em tom de funda tristeza – Luzia desconfiou de mim. Acreditou, talvez, na história da Gabrina, ou supõe que tenho alguma coisa com aquela grande mal-agradecida.

— Não suponha que ela esteja amuada... Qual o quê!... Aquela não se afoga em poucas águas, e a prova é que continua a fazer o possível para obter a sua soltura...

— Sei; mas somente para mostrar agradecimento e não por merecimento meu. Sinto que está tudo acabado entre nós. Luzia é decidida, e bem percebi que não tinha mais nada que esperar quando me disse, francamente, aí, nesse lugar em que você está agora: - quando for solto, cada um de nós tomará o seu rumo.

— Mas, por isso, não deve recusar o de-comer, que ela mesma preparou com tanto gosto.

— Não há mais razão para repartir comigo a porção, que mal chega para ela e a mãe.

— Pensei que só nós, mulheres, éramos caprichosas.

Desenganada de vencer a formal recusa de Alexandre, Teresinha distribuiu a comida pelos meninos, que estavam ali de visita aos pais presos, generosidade que lhe valeu agradecimentos de uns e, de outros.

Luzia voltara, com efeito, a trabalhar na penitenciária do morro do Curral do Açougue.

As paredes mestras estavam quase concluídas: trabalhava-se com afinco no madeiramento da coberta, e já estava em construção a muralha em volta do edifício, formando um recinto, onde os sentenciados pudessem trabalhar ao ar livre, ou sob telheiros destinados às oficinas. Nas barracas improvisadas moirejavam carpinteiros, de troncos nus e suarentos, no preparo das grandes vigas das amendoeiras e tacanieas do tabuado para o soalho e portas e da obra de esquadria. Ao ruído das enxós, falquejando o rijo pau-d'arco, ao sibilar das plainas e cepilhos raspando das pranchas de cedro, longas espirais encaracoladas e cheirosas, misturavam-se a dos malhos nas bigornas sonoras, onde grossos vergalhões de ferro, candentes nas extremidades, disparavam chispas de encontro aos aventais de coiro dos ferreiros, enegrecidos de fumaça e carvão, fabricando grades invencíveis, junto dos grandes foles ofegantes, como pulmões de um monstro.

A negra torrente de retirantes operários deslizava pela encosta áspera, em marcha de cobra, conduzindo materiais. Era o mesmo vai e vem ininterrupto de homens, mulheres e crianças envoltos em rolos de pó subtil, magros e andrajosos, insensíveis à fadiga, ao calor de culminar passarinhos, taciturnos uns, os semblantes deformados por traços denunciadores de íntima revolta impotente; outros, resignados, como heróis, vencidos pela fatalidade; muitos, alegres e sorridentes, cantavam e brincavam, como criaturas felizes de encontrarem refúgio do assédio angustioso da fome, da miséria, da morte.

Quando Luzia se apresentou ao apontador, houve um movimento geral de surpresa e curiosidade. Ninguém a esperava ver de novo; era considerado morto ou emigrado o trabalhador que desaparecia da obra. Notavam que estava mais esbelta, graciosa, a cor mais clara pelo repoiso de alguns dias. Havia misteriosa alteração no seu semblante. As vigorosas linhas de energia máscula se contraíam em curvas melancólicas, e, nos olhos meigos, flutuava a sombra do ideal morto entre chispas fulvas de anelos incontentados. As atitudes lânguidas e os gestos lentos denunciavam fadiga moral, ou a preguiça voluptuosa das felinas amorosas. Dir-se-ia que se lhe haviam atenuado os tons varonis, e, da crisálida Luzia-Homem, surgira a mulher com a doçura e fragilidade encantadora do sexo em plena florescência suntuosa. Irradiavam dela fluidos de simpatia, empolgando os companheiros de infortúnio, como prestigiosa transfiguração. Estes não experimentavam já a repulsa que lhes causava a moça bisonha, arredia, taciturna, sempre enrolada no amplo lençol de mandapolão branco.

— Como está mudada! – murmuravam as mulheres.

— E não é que a Luzia está ficando bonita! – diziam os rapazes, mutuando olhares sensuais.

— Parece que esteve doente.

— Só se foi de mal de amores.

— Quem sabe? Amor não mata, mas maltrata.

— Qual, mulher! Aquilo é o cansaço de estar fazendo quarto à mãe, que estava vai-não-vai. Não há nada para escangalhar uma criatura como labutar com doentes...

— Ela é um tanto soberba, mas é boa filha até ali.

— Quem é bom filho, é bom em tudo o mais – observou um velho.

Os comentários chegavam aos ouvidos de Luzia, como ecos do murmúrio de maldição, que a perseguia por toda a parte, até na igreja, no trabalho, quando atravessava a multidão de retirantes.

E ela, que antes os afrontava em retraimentos de cólera mal contida, estremecia, agora, pálida e tímida, em angustioso sobressalto de consciência perturbada por inteira e desconhecida mácula, estranha sombra de homem projetando-se no vácuo, que a inocência lhe deixara no coração, como a pegada de um crime, ou o espectro de um remorso. Devia ser assim cruciante, o primeiro momento após o pecado: a alma escondida, envergonhada e temerosa, nos mais íntimos refolhos das entranhas profanadas, aguilhoadas pelos instintos insaciados, agueados pelo gozo revelado, traída por eles, delatores impudicos e implacáveis. Através do corpo diáfano, penetrariam depois olhares da turba, compassivos ou rancorosos, devassando as peripécias e os destroços da secreta luta, e condenando a vítima, que não pudera vencer.

Luzia só se confessava culpada de haver perdido a energia inflexível, que a preservara até então, como invulnerável coiraça, sem a qual não tinha já integridade moral para resistir a si mesma, varrer do coração essa indelével imagem de homem, libertar-se do tormento de senti-la transfundida no seu ser, misturada com o seu sangue e os seus pensamentos. Ímpetos de rebeldia, assomos de reação esmoreciam na delícia de capitular, e sucumbir aniquilada. E se lhe figurava que toda a gente em derredor, amigos, indiferentes, adversários maliciosos, grandes e pequenos, testemunhavam os seus impotentes esforços, de passarinho fascinado pela cobra, a luta desigual, o prazer com que ela se deixava vencer, apoucada e débil.

O administrador da obra, seu protetor, percebera a transformação por que passara, designando-a para trabalhar com as costureiras.

— Sabe, Luzia – disse-lhe ele – A senhora do Promotor pediu-me que não lhe desse serviços braçais. Ela se interessa muito por você, como eu, como todos que a conhecem. Era também intenção minha deixá-la repousar. Está-se vendo quanto a fatigaram os cuidados, os vexames sofridos pela saúde de sua mãe.

Luzia baixou os olhos, e corou humilhada. Preferira à ocupação sedentária de costureira, continuar na faina de carregar água nos grandes potes, que estavam servindo de depósito, conduzir telhas em companhia daqueles infelizes, que vergavam ao peso de uma dúzia delas, ir às caieiras longínquas buscar tijolos nas altas tulhas, que ao Paulo, francês, se haviam afigurado paredes na cabeça de uma mulher, rolar pesados madeiros, grandes pedras, trabalhos que lhe exercitassem os músculos e lhe produzissem o atordoamento da fadiga.

Acudiu-lhe, então, à memória, a quadra da infância, passada no Ipu, em casa da mestra que lhe ensinara ler; os cocorotes e castigos sofridos por não resistir ao sono, quando condenada a ficar dias inteiros sentada diante de uma almofada a trocar bilros crepitamos, entretecendo delicadas rendas e curtindo a nostalgia do ar livre e puro nos campos verdejantes e floridos da fazenda Ipueiras.

Mas... era forçoso submeter-se à ordem do administrador, tão bom e compassivo, que lhe dera muitos dias de licença para tratar a pobre mãe enferma.

Na maioria das barracas, em forma de meia-água, coberta de folhas de carnaubeira, Dona Inacinha, que, desde as missões do padre Ibiapina, renunciara os efêmerosgozos mundanos, para se fazer beata professa, distribuía o serviço de agulha em tarefas. A Luzia, coube um enrolado de algodãozinho, onde estava cravada uma agulha, atravessando um molho de linha e sustentando, subposto, um dedal de cobre.

— Cosam com muito cuidado – recomendou ela às costureiras – que isto é trabalho especial para a comissão de senhoras, que me mandou seis peças de fazenda para desmancharmos em roupa. Não quero obra de carregação como a dos sacos. Vejam que as mãos estejam bem lavadas, pois tenho singular implicância com a costura suja.

Luzia ocupou o primeiro lugar vago, distanciada das outras, surpreendidas com o vê-la ali, quando trabalhava sempre com os homens; enfiou a linha na agulha e estava muito atrapalhada com o adaptar e alinhavar peças já cortadas, quando Dona Inacinha se acercou, como sempre, enfezada e rabugenta.

— Você parece que nunca viu costura – rosnou, em tom de áspero remoque – Tamanha mulher, e não sabe por onde há de começar um par de ceroulas de homem.

Luzia sentiu subir-lhe ao rosto, impetuosa onda de sangue.

— Olhe – continuou a beata, armando sobre o nariz rubro e adunco, grandes óculos de latão com as hastes ligadas em torno da cabeça por um cadarço preto, lustroso de banha – primeiro as pernas pospontadas e sobrecosidas; depois o gavião em separado, terminando nesta tira que serve de cós. Você ajunta as duas pernas, cosendo-as no gavião com as preguinhas que forem necessárias para dar certo. No meu tempo, dava conta de duas por dia sem me cansar.

As companheiras de trabalho sorriam, ironicamente, da lição e do desazo de Luzia, confusa e amesquinhada, injustamente, porque sabia coser bem e depressa, mas não estava habituada a fazer roupas masculinas.

Aquela tarefa, escolhida ao acaso, era um prolongamento da obsessão que a torturava; avivava-lhe, a cada ponto da agulha, a lembrança do prisioneiro a pungir-lhe o coração com o remorso de o haver abandonado num ímpeto de despeito, ciúme ou capricho pueril que ela tentava em vão justificar com o pretexto de preservá-lo da influência funesta com que a marcava o destino. Causava-lhe, também, imenso dó o haver deixado, com desdém, no parapeito da grade da cadeia, os cravos vermelhos, emurchecidos nos seus cabelos, ao calor do seu seio, onde os guardara carinhosamente, como um talismã prestigioso.

E assim passou o dia, até que o martelo do mestre da obra anunciou a terminação do trabalho, batendo, rijo, cadenciados golpes secos, vibrantes, sobre uma das tábuas dos andaimes.

Luzia ergue-se aliviada, entregou a tarefa concluída, e partiu, ansiosa por ver a mãe e Teresinha, que lhe daria notícias de Alexandre, notícias más porque ele devera ficar magoado, vendo-se tratado com tanto rigor por quem lhe devia, pelo menos, favores inestimáveis, desses que impõem o suave jugo de gratidão imperecível.

Justificando-se, ela ponderava que, em consciência, o reconhecimento não a obrigava ao extremo passo de consagrar-se para sempre a um homem preso, sob a imputação de um crime grave, envolto em densa atmosfera de suspeita, quando ela tinha outros deveres sagrados que cumprir, velar pela mãe e conservar a própria vida, ameaçada pelo assédio cada vez mais apertada de privações e miséria. Estava pagando a dívida de gratidão com o empenho sincero em libertá-lo. Demais, não se expusera, todos os dias, ao vexame de encontrar o soldado maldito? não repartira com ele o seu pão minguado? não chegava ao extremo sacrifício de afrontar a vergonha de vender os cabelos por causa dele?

Não, a consciência não a acusava,, mas outra vez, mais forte, vibrava dentro de seu peito, em acentos dolorosos, exprobando-lhe a covardia cruel de só haver abandonado o desditoso moço, quando, entre os dois, surgiu a figura odiada da mulher delatora, amante impudica, que apregoava a própria infâmia, carícias pagas com o produto do crime, e se vangloriava de haver provocado a ruína de um homem de bem. E a sinistra voz, que a vergastava, prosseguia em tom mais brando e carinhoso: Seja ele, embora, culpado; tenha sucumbido à tentação em momento de síncope do senso moral; ame outra menos digna; é um desgraçado, cuja sorte está ligada à tua por laços fatais, inquebrantáveis. O teu lugar seria junto dele, consorte do infortúnio, ajudando-o a carregar, o peso da sua falta, a arrastar a calceta, deprimente... porque o amas... Entretanto, Alexandre é inocente e sofre duplamente, porque lhe infringiste a tua desconfiança. Vai, mulher caprichosa e bárbara, prostra-te aos seus pés; unge-lhe as mãos impolutas com o bálsamo das tuas lágrimas, com os teus beijos de virgem, e pede-lhe perdão da tua fraqueza vil. Não lutes, debalde, contra o destino inexorável. Aquelas pobres flores murchas se radicaram no teu duro coração, como o cardo à rocha, e revivem enseivadas com o suor da tua angústia, coloridas com o teu sangue, envenenando-te com o filtro mágico e inebriante, que destila emanações de fragância suavíssima.

Luzia acelerou a marcha para chegar a casa, encontrar pessoas amigas e evitar a sugestão daquela voz íntima e eloqüente, que lhe derrubava todos os meios de defesa, engendrados para resistir ao secreto impulso, preservá-la da sorte de Teresinha, pranteando o homem cruel que a maltratava e relembrando, com saudade, a sua sensualidade, impetuosa e brutal como a dos toiros bravios; para ficar livre de eleger, oportunamente, aquele que deveria completá-la, que lhe abriria as portas do céu às aspirações de moça; ou o homem que ela empolgaria num atrevido lance poderoso, como o dos gaviões arrebatando a presa, conquistando-o vitoriosa.

No seu espírito inculto, essas idéias se chocavam em confusão, aterrando-a; sobre o tumulto, ardido fragor de peleja encarniçada, permanecia, dominando-o, inconfundível como um clangor de clarim, a sedutora, a máscula voz do demônio tentador...