Luzia-Homem/XXI

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Luzia-Homem por Domingos Olímpio
Capítulo XXI


Propagou-se, rapidamente, a notícia da prisão de Crapiúna, como verdadeiro autor do roubo do armazém da Comissão de socorros. Não havia dúvida. Um conjunto de provas esmagadoras: a bolsa reconhecida por todos os camaradas; as declarações de Belota que, insistindo em ignorar o fato, confessava causar-lhe admiração o dispor ele de tanto dinheiro para perder ao jogo grandes somas e fazer prodigalidades com raparigas e pagodes; o depoimento de Teresinha, confirmado, de uma irrefutabilidade minuciosa; o rascunho da carta ameaçadora, entregue por Luzia ao delegado, no dia da prisão de Alexandre, e os testemunhos de Chica Seridó e Gabrina, encerraram o soldado numa culpa evidente, indiscutível.

Seridó confessou que nutrira sempre instintiva repugnância ao soldado, por seus modos atrevidos com as mulheres, muita falta de respeito, caçoadas inconvenientes; nunca, porém, lhe passara pela cabeça que ele fosse capaz de tão feia ação, como essa de levantar um impute que clamava aos céus e – o que lhe parecia ainda mais grave – reduzir uma rapariga inocente e bestalhona, como Gabrina, para ajudá-lo na obra nefanda de culpar um inocente.

— A pobrezinha fez isso – dizia ela ao delegado, na sala de audiência da câmara municipal, apinhada de curiosos – sem maldade; e (para que hei de estar com histórias mal contadas?) porque andava inclinada para seu Alexandre, depois dos benefícios que dele recebeu. Ponha o caso em si, meu senhor. Vossa senhoria sabe que mulher, quando vira a cabeça, é capaz de tudo. Quem quer bem não toma conselhos; não enxerga desgraças, nem se importa com perigos. Ela tinha no coração aquele amor encoberto e não me disse nada. Esta bichinha que aqui vê, esta não-sei-que-diga disfarçou tão bem que eu, macaca velha, nada maldei. Metia a mão no fogo por ela, creia-me... Aquele malvado homem, percebendo que a pobre estava enciumada, seduziu-a, com promessas de mimos, a tomar uma vingança do moço. Eu sabia que seu Crapiúna gostava de Luzia-Homem, tanto assim que, uma noite, me pediu para ir fazer uma reza, na casa dela para abrandar-lhe o coração. Fui com ele e mais o seu Belota, muito contra a minha vontade; mas (para que hei de negar?) fui e não pudemos fazer nada, porque estiveram acordadas até fora de horas. Saberá vossa senhoria que sou mulher de propósito; mesmo contra mim, falo a verdade. Fui fazer a reza, mas não há mal nisso. É com as minhas orações e mezinhas que arranjo o bocado para a boca, sem ser pesada a ninguém, Deus louvado.

— Que oração forte era essa? - perguntou-lhe o Promotor.

— Se eu disser sem ser rezando, mesmo de verdade e com fé, ela perde a virtude.

— E acredita nela?

— Ah! seu doutô, queria ter de anjos para acompanharem minha alma, as pessoas beneficiadas por ela. Não foi uma nem duas... Muita senhora dona de família e consideração...

Enquanto a Seridó falava, Gabrina, de pé, ao lado dela, cravava os olhos sombrios na fímbria do casaco de cassa, cujas rendas enrolava e destorcia maquinalmente, entre os dedos hirtos. Os músculos do seu rosto, lindamente oval e duma cor lindamente morena, emoldurados em cabelos negros e crespos, não traíam abalos violentos: estavam imóveis, e apenas se percebia pelas narinas dilatadas e palpitantes, a sua respiração entrecortada de suspiros abafados.

Contemplavam todos a mocinha de formas flexíveis e delicadas, apenas livres das linhas incompletas da infância e desdobrando-se em contornos graciosos; e, lastimando achar-se ela complicada no crime, todos a envolviam numa atmosfera de simpatia que os impulsos passionais despertam.

Por fim, perguntou-lhe o Promotor:

— É verdade o que diz esta senhora?

— É, sim senhor – respondeu com voz que mais parecia um sopro.

— Foi Crapiúna quem lhe insinuou esta calúnia?

— Foi, sim senhor...

— Por que não resistiu?

Gabrina ficou calada.

— A senhora amava Alexandre?

Como se o coração, muito tímido, lhe despejasse no seio a repoisada torrente de lágrimas, ela prorrompeu em convulso pranto, escondendo o rosto no seio da Seridó, que a amparou, que a enlaçou nos braços, com maternal carícia.

— Bem, bem – concluiu o Promotor – Não a martirizarei mais. Sossegue...

E, voltando-se ao Delegado, disse-lhe, em voz baixa:

— Realizaram-se as minhas previsões. Temos a eterna história, um drama de amor...

Nesse momento, entrou Alexandre no recinto, fechado por uma balaustrada, e destinado aos jurados. Seu olhar aceso de febre, luzindo na sombra das pálpebras roixeadas, fixou-se piedoso na febril rapariga; e, no rosto macilento, assomou um ligeiro sorriso amargurado.

— Aproxime-se – ordenou o Delegado.

Ele deu alguns passos vacilantes para a frente, perturbado pelas mal contidas exclamações de dó, que chegavam aos seus ouvidos sequiosos, naquele instante, do caricioso eco de vozes amigas. Os que ali estavam eram todos curiosos, enviscados pelo escândalo, ou indiferentes e desocupados, procurando diversão no desenlace do inquérito policial, à exceção de Teresinha, que o contemplava silenciosa, sentada a um canto.

Muitos comentavam os estragos que a infecta enxovia produzira na saúde do moço.

— Senhor Alexandre – disse-lhe o Promotor, a voz sonora e grave – um conjunto, de indícios, de elementos de prova bem acentuados e persuasivos, determinou o vexame que sofreu. Ia sendo vítima de um desses erros que, infelizmente, não são raros na história dos tribunais e que, por lamentável lacuna, não encontram nas leis, meios completos de reparação. Órgão da justiça, lamento, sinceramente, fosse recolhido por infundadas suspeitas de tão grave imputação; teve, porém, a ventura de sair ileso dessa provacão suportada com heroísmo. O verdadeiro criminoso está descoberto. Nada impede, agora, que a justiça proclame a sua honra restaurada com a liberdade que, neste momento, lhe é concedida.

Perpassou pelo ambiente, um sussurro de aprovação unânime, porque, desmascarado o ardil do soldado, ninguém nutria dúvidas sobre a autoria do crime.

Não era possível que um moço bem procedido e de abonados precedentes fosse capaz de tão vil ação. Por outro lado, todos confessavam, então, justificados suspeitas contra Crapiúna, quando não fosse por qualquer motivo definido, nela má cara do homem, seus costumes dissolutos, ou por mero palpite. Não fora, entretanto, o feliz acaso de surpreender Teresinha o esconderijo do dinheiro, ou, como ela afirmava sinceramente, a intervenção do glorioso Santo Antônio, o inocente seria denunciado, processado e condenado. E toda aquela gente aprovaria, com igual entusiasmo, a justiça inexorável.

O Delegado, voltou-se para o Carcereiro e, indicando-lhe a Seridó e Gabrina, ordenou:

— Recolha aquelas mulheres.

— O quê?!... – exclamou a Seridó apavorada – Pois eu sou presa por falar a verdade? Que culpa tenho, seu Delegado, do malefício dos outros? Eu, que não matei, não roubei, que nunca fiz, mal a ninguém... que não tenho rabo de palha!...

Gabrina olhava em torno espantada, como se despertasse atordoada pelo nevoeiro de mau sonho. Estancaram-se-lhe as lágrimas e sucederam-lhes violentos soluços.

Quando o Carcereiro se aproximou, e a intimou com a frieza fulminante do ofício, dizendo: "Vamos", acometeu-a o terror da prisão. E enquanto a Seridó implorava piedade, justificando-se com protestos de inocência, lamentos e súplicas, ela, com desenvoltura de criança que se refugia no seio paterno, agarrou-se a Alexandre.

— Perdoe-me, seu Alexandre – suplicava, com gritos vibrantes – Não deixe que me levem presa! Que vergonha!... Não, não é possível!... Peça por mim; valha-me pelo amor de Deus!... Ai!... ai!... que eu morro!... Quem me acode!... Minha gente, tenha pena de mim, de uma pobre filha sem mãe?... Ah! seu Alexandre da minha alma, pelo leite que mamou, peça por mim que lhe quero tanto bem... Valha-me, valha-me por tudo quanto há de mais sagrado. Peço por alma de sua mãezinha, pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo... Sim, por tudo, pela luz dos seus olhos, pela vida de... de... Luzia!...

Esgotadas, nesse esforço sobre-humano, as derradeiras energias, a pobre inteiriçou-se; seus braços froixos penderam dos ombros de Alexandre; a cabeça, escondida nos cabelos desgrenhados, inclinou-se sobre o seio e ela caiu emborcada, como um corpo desarticulado e morto, aos pés do moço, transido de espanto e piedade.

Acercaram-se da mísera algumas mulheres e a Seridó, que pedia um caneco dágua, um capucho de algodão queimado, e a esfregava, com força, sobre o peito.

Alexandre dirigiu-se ao Promotor:

— Se lhe mereço alguma coisa, seu, doutô, tenha compaixão daquela pobre. Ela não soube o que fez... É quase uma criança...

— Tem razão – observou o Promotor, convindo docemente – É possível evitar... Demais seria uma violência inútil.