Mattos, Malta ou Matta?/X

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Mattos, Malta ou Matta? por Aluísio Azevedo
Capítulo X: Romance ao correr da pena


Antes de dar conta da primeira e memorável entrevista que a terrível Dona Leonarda cometeu contra o seu compadre Quintino, peço ao leitor que me acompanhe de novo à minha casa, onde iremos encontrar o nosso extravagante João Alberto, estendido sobre a cama, a fumar voluptuosamente um charuto dos que encontrara na algibeira do seu substituto de morte.

— Então? — disse-lhe ao entrar no quarto. — Como vai isso?

— Magnificamente! — respondeu ele. — Sinto-me melhor do que nunca! Ah! Vejo que não há para a saúde e para o bom humor como algumas horas de morte e um passeio ao Cemitério de São Francisco!... Gostei tanto da brincadeira que, se fosse homem de recursos, havia de lá ir todas as semanas; dentro de um caixão e puxado pelo burrinho da Misericórdia!

— Bem — volvi eu. — Mas deixe por enquanto as considerações, e passemos uma revista nas algibeiras daquele fraque, porque desconfio que encontrarei aí alguns esclarecimentos úteis para as minhas pesquisas.

— Então o senhor quer me revistar as algibeiras?

— Perdão! não lhe quero revistar as algibeiras, as suas, mas sim as algibeiras do fraque do homem que eu procurara.

— Que procurara? Explique-se!

— Sim. Aquele sujeito que ficou no cemitério é o homem que eu procurara.

— Para quê?

— Negócios particulares...

— Não! Desde que eu me apossei do lugar, da roupa, da carteira e do nome daquele pobre homem, entendo que sou o seu único representante sobre a terra e estou disposto a responder por ele. Diga pois o que deseja do meu infeliz cliente. Os seus negócios tratam-se comigo!

— Já lhe disse que são negócios particulares, e só tratáveis com ele próprio. Quero dar uma busca nessas algibeiras, porque é natural que o miserável trouxesse consigo algum documento dos seus crimes.

— Ah! Ele era um criminoso?

— Dos piores.

— E que lhe queria o senhor?

— Matá-lo.

— Sim?

— Com certeza.

— E não poderia o amigo, com um pouco de boa vontade, substituir essa intenção por outra?

— Por outra?

— Sim; visto que agora, neste bom momento de repouso e ventre cheio, não me seria muito agradável cumprir com essa desagradável formalidade...

— De que formalidade está o senhor a~ a falar?

— Da formalidade de morrer pelo meu homem. Já não lhe disse que aceitei com todos os ônus o lugar vago que ele deixou no mundo?

— Vago parece-me você!

— E sou.

— Vago e cínico!

— Também, mas confesso que neste momento não estou muito disposto a morrer. Ponhamos de parte esta questão por enquanto e mais tarde entraremos em qualquer acordo. Pode todavia ficar tranqüilo, que se faz muito empenho em matar o Castro Malta, eu não fugirei ao dever. Descanse.

— O senhor é idiota.

— É exato talvez, mas veja se pode ir dar um passeio; tenho sono e preciso dormir. Vá!

Dizendo isto o ressuscitado bocejava, encolhendo-se na cama e aconchegando-se aos travesseiros.

— Olhe! — acrescentou ele — se faz muito gosto em revistar-me as algibeiras, reviste-as durante o meu sono e, se quiser roubar o dinheiro que aí tenho, peço-lhe o obséquio de não roubar tudo. Deixe-me alguma cousa...

E bocejava de novo.

Eu, para não lhe distrair o sono, deixei de responder e sai do quarto.

Daí a pouco o boêmio ressonava como um porco, e eu tratei de apoderar-me da roupa que ele trouxera do cemitério.

Principiei a revista pelo fraque, passei depois ao colete e afinal às calças.

Encontrei o seguinte, cujos objetos inventariei em uma folha de papel, que hoje se acha em poder do compadre de minha sogra:

Uma carteira com três bolsos, havendo em um deles uma conta de charutos da Casa Havanesa; um pedaço de papel sujo e meio roto, no qual se liam os seguintes versos:

Amei te um dia, oh! que triste sorte!
Amei-te muito; amei-te por demais
Visto que tu, mulher, eras mais forte
Do que...

O resto não se podia ler.

Havia ainda nesse bolso da carteira um décimo da loteria de São Paulo; uma receita passada pelo Dr. Silva Araújo, e uma pequena trança de cabelos castanhos amarrados por uma fita azul toda nodoada de óleo cheiroso.

No outro bolso da carteira encontrei duas notas de vinte mil-réis e uma de dez; ao lado das notas um outro décimo da loteria de São Paulo e uma cautela do Monte-do-Socorro, que constava de — um broche de ouro em forma de coração, guarnecido por um chuveiro de diamantes.

Calcule-se o interesse que me produziu essa denunciadora cautela, logo que me saltou à cabeça a idéia de um broche justamente naquelas condições, que possuía minha mulher.

Foi já com as mãos trêmulas e o coração aflito que prossegui à busca no terceiro bolso da carteira.

Encontrei uma fotografia. E adivinhe-se de quem!

Da Jeannite.

Nas costas do retrato lia-se escrito em bastardinho:

A mon petit bien aimé.

E grudado ao fundo do bolso estava uma estampiIha do correio.

Passando á segunda algibeira do fraque, encontrei um maço de papéis, que trarei logo de inventariar, declarando pelo seguinte modo o que eles continham:

1.º — "João Alves. Se já não precisas da Nana, devolve-ma, que o dono ma reclamou por duas vezes. — Teu, Costa Rosas."

2.º — "O Sr. João Alves Castro Malta deve a Gaspar Leite & C. cinco mil-réis, importância de um jantar. — Recebi, 8 de Novembro de 1883. — Gaspar Leite & C."

3.º — "Joãozinho. — Espero-te hoje. Meu marido está de serviço. — Tua, X."

A letra deste bilhete não me era conhecida, felizmente.

4.º — "Ilmo, Sr. Castro Malta, — Segunda-feira mato um peru e minha filhinha fiz anos. Venha jantar conosco. Se quiser pode trazer o Mello. — P. S. Não esqueça o violão. — Seu, Mendonça de Freitas."

5.º — "Sr. Castro. Estou cansado de procurá-lo em casa e na rua. O senhor tem caçoado deveras comigo; pensei que tratava com um homem sério e tratei com um velhaco. Se até o dia 31 deste mês o senhor não pagar o que me deve, entrego a sua conta a um procurador. — Thomaz Cardoso."

6.º — "João Alves. — Vê se me aprontas o discurso. O dia do casamento está a bater à porta, e tu bem sabes que eu prometi fazer um improviso. — Teu primo e amigo, Cazuza."

O sétimo documento era um artigo de fundo cortado da Gazeta da Tarde.

8.º — Seis cartões iguais de uma casa de móveis.

9.º — Um lápis com bainha de metal.

10.º — "Ir à Rua Primeiro de Março n.0 20, procurar no escritório dos fundos a ordem do Sr. Comendador Manoel da Silva Braga para me ser entregue a chave de sua chácara, em Catumbi."

11.º — "Amônia — 30 gramas. H2O — 100 gramas.

Nessa algibeira havia mais dous charutos e um caderninho de mortalhas Abbadie.

Passando ao bolso de fora do fraque encontrei um lenço barrado de azul, com um monograma composto de um R, um S e um B.

Este lenço cheirava a água-da-colônia misturada com fumo.

Nas algibeiras de trás havia um outro lenço sem marca e enxovalhado e uma caixa de fósforos de pau.

Nas algibeiras do colete encontrei um relógio, cuja corrente pendia a uma das casas dos botões; uma fosforeira de platina cheia de fósforos de cera; uma pequena chave de trinco e uma outra de gaveta; um botãozinho de colarinho, obra de madrepérola; três níqueis de 200 réis e mais dous vinténs embrulhados em papel; ainda um décimo da loteria de São Paulo; um limpador de unhas; um pedaço de papel em que estava escrito Rua do Conde d'Eu, n.º 8" e mais um vidro esfumado de óculos ou lunetas,

Nas calças encontrei quatro mil-réis em notas miúdas, oito cigarros, um pedaço de vela estearina, um canivete, e atrás, perto do cós, em uma algibeira disfarçada, havia um revólver de seis tiros, completamente carregado e em descanso.

Já desanimado, ia abandonar a roupa do miserável amante de minha mulher, quando descobri o bolsinho da luva e, aí, rebuscando avidamente, encontrei uma carta que me elucidou mais do que todos aqueles documentos e da qual darei parte ao leitor no seguinte capítulo.

A essa carta devo eu o bom resultado das minhas pesquisas. Mas, não precipitemos os acontecimentos.