Memória sobre a ilha Terceira/I/IV

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Memória sobre a ilha Terceira por Alfredo da Silva Sampaio
Capítulo IV — Vulcanismo na ilha Terceira


Capítulo IV
Vulcanismo na ilha Terceira


Este capítulo, que se prende mais ou menos com o antecedente, pois que nele encontraremos algumas particularidades que dizem respeito à geognosia da ilha Terceira, trataremos não só dos grandes terremotos e erupções vulcânicas de que fazem menção os historiadores e de que resultaram estragos, mas também de alguns abalos de terra que se sentiram nesta ilha com grande violência.

Ano de 1547

No Archivo dos Açores, vol. I, pág. 358, vem publicada uma carta do contador da ilha de São Miguel, de 27 de maio daquele ano, noticiando este terremoto nos seguintes termos:[1]

«Senhor. — Aos dezasete dias deste mes de maio deste anno de 1547, amtre as omze e as doze oras do dia, ouirão na Ilha 3.ª hum muito grande tom e logo supitamente a Ilha toda tremeo muito grandemente, que foy muito grande espanto e duraria em quanto se poderão dizer dous ou tres credos. E deu a terra tres aballos tão grandes que se virão as casas aballar de hũa parte pera outra, que as pessoas, que dentro estão, fugião pera a rua que parecia se virem ao chão; como de feito allgũas casas cairão e outras abrirão por muitos lugares, he estão de maneyra que não ousão de dormir nas casas e em espiciall foy mais isto do cair e abrir das casas da banda do norte, e morrerão alguns pessoas, e cayo hũa casa de Gomez Pamplona e matou lhe hũa filha de IX ou X anos e a hum Rui Gill; e nos Folhadais ha hum Joam Luis e a outros que eu não sei; aballou a igreja de Sam Roque e lhe derribou a samcristia; e abrio huma igreja de nossa senhora d'Ajuda e ficou encostada para hũa bamda e não ousão entrar dentro, e da igreja de Pero Eanes do Canto caio hum pedaço e das cases de Pero Eanes outro pedaço, tudo he da parte do norte, e d'aquella parte nom ficou casa que nom quaisse ou abrisse, quer fossem nouas quer velhas; e as paredes das vinhas e pumares dos bizcoytos todas quairão, de que está toda a gente como pasmada. Neste dia se acharão muitas pessoas no mato na mesma Ilha, e dizem, que faziam as arvores tão grandes terramotos, que fugião do mato para os escampados. E as pessoas que se acharão nos bateis a pescar na mesma Ilha sentiam no mar como que lhe passauam per debaixo dos bateis pexes grandes, que lhos querião derribar e virar. Isto soo aconteceo na Ilha 3.ª e nas mais não se semtio nada. Isto sam obras do Sernhor Deus, praza a elle sejam para nossa emmenda como nos saluemos. [...]».
Ano de 1614

Em 9 de abril deste ano de 1614, pelas 9 ou 10 horas da noite, teve lugar um violento terremoto, sem dúvida o maior e mais terrível de todos os que tem experimentado a ilha Terceira, incluindo mesmo o de 1841, porque os seus estragos foram mais consideráveis, e operados numa área maior, e porque produziu muitas vítimas. Este terremoto destruiu totalmente a Vila da Praia da Vitória e as freguesias de Vila Nova, Lagens, Fontinhas, Cabo da Praia e Fonte do Bastardo, e estragou também a Vila de São Sebastião. Calcularam-se em duzentas e tantas pessoas as que pereceram neste cataclismo.[2]

Ano de 1647

Segundo os historiadores antigos, foi este ano considerado como o «ano de fome e ano de terremotos», porque além da escassez das colheitas, sentiram-se grandes abalos que começaram no dia 9 de junho e terminaram a 4 de julho, tendo arruinado na cidade um grande número de casas e alguns templos.

Ano de 1720

Na Folhinha da Terceira para o ano de 1832,[3] lê-se a notícia de um vulcão submarino que se formou em 1719, a distância de 7 a 8 léguas da Terceira, originando o aparecimento de um ilhéu de forma quase circular e com o diâmetro de 3 léguas. Este ilhéu desapareceu em 1723 e, no seu lugar, a sonda acusou a profundidade de 80 braças. Comparando esta descrição com a de alguns historiadores acerca do aparecimento de um ilhéu em 1720 entre a Terceira e São Miguel, parece tratar-se do mesmo fenómeno vulcânico e, como só a Folhinha da Terceira marca a primeira data, inclinamo-nos para que seja em 1720 e não em 1719.[4]

Ano de 1755

À mesma hora em que Lisboa era destruída pelo terremoto que teve lugar no dia 1.° de novembro, das 9 para as 10 horas da manhã, em que a maior parte dos seus edifícios foram demolidos, em todas as ilhas dos Açores se sentiram os efeitos de tão horrorosa catástrofe.

Na ilha Terceira houve àquela hora, uma grande enchente de mar, entrando por terra dentro nas partes mais baixas da costa do sul e leste. No Porto Judeu chegou a altura de 10 palmos, na rocha mais elevada, e na cidade chegou até à Praça da Restauração. Na Vila da Praia cobriu todo o Paul bem como o areal até à Ribeira Seca, demolindo completamente quinze casas, derribando paredes e enchendo de areia as terras e vinhas.

Ano de 1757

No dia 9 de julho deste ano, às onze e três quartos da noite, sentiu-se um violento tremor de terra que causou grandes estragos em quase todos os edifícios, e especialmente na igreja do Colégio dos Jesuítas, convento de São Francisco, no dos Capuchos e no mosteiro das religiosas da Conceição. Foi este terremoto que destruiu a Vila do Topo, na ilha de São Jorge, ocasionando a separação de várias porções de terra nesta mesma ilha.[5]

Anos de 1760-1761

É a esta época que se refere a aparição da única erupção vulcânica que tivesse lugar no solo da ilha Terceira, desde a sua descoberta até aos nossos dias. Em fins de novembro de 1760 começaram a sentir-se violentos terremotos, e com muita frequência continuaram até 14 de abril de 1761, em que se sentiu o mais violento abalo. A 17 do mesmo mês arrebentava o fogo por detrás dos Picos Gordos, o qual veio revolvendo o terreno até ao sítio denominado Mistério Velho, onde se localizou e durou por espaço de oito dias.[6]

Durante todo este tempo esteve o vulcão em grande atividade, lançando pelas suas bocas enormes pedras, muitas areias e gases inflamados e uma enorme quantidade de lavas que se dividiram em três correntes distintas. Destas, uma dirigiu-se para Este e chegou até ao lugar denominado o Chama, e a sua extensão foi de 330 metros pouco mais ou menos; a segunda, cujo comprimento foi de 2:000 metros pouco mais, dirigiu-se para Oeste e chegou ao sítio chamado Tamujal; e finalmente a terceira e principal, dirigiu-se para o Norte chegando até à freguesia dos Biscoitos, onde parou perto da igreja, ficando com o comprimento de 6:000 metros, e nalguns lugares do seu curso com 2:000 metros pouco mais ou menos de largura.

Em volta do ponto pelo qual saíram os produtos vulcânicos, formaram-se vários cones de pequena altura, e sobre eles, bem como sobre a corrente de lavas que hoje se observa, apenas se notam alguns fetos e líquenes.

Nas proximidades do lugar onde se deu esta erupção, e que é um dos pontos mais elevados do interior da ilha, existe a denominada Criação do Galhardo, onde se encontra uma sulfatara, impropriamente chamada pelo povo Furnas do Enxofre, da qual se exalam vapores aquosos e gases sulfídrico e hidrogénio, e apresentando nos bordos das fendas várias incrustações de enxofre nativo. O terreno, na proximidade desta sulfatara, é mole e deixa-se perfurar facilmente com qualquer varapau.

Provavelmente este vestígio de atividade vulcânica é ainda o resto do vulcão que na sua antiga erupção expeliu a lava, hoje conhecida como o nome de Mistério Velho, junto do qual surgiu o vulcão que acabamos de mencionar. O que é digno de notar-se é que, todas as vezes que na ilha Terceira se tem manifestado agitações do terreno, intensas, esta sulfatara interrompe o seu trabalho para só o continuar depois da cessação dos movimentos terrestres da localidade.

A corrente de lavas, a que acima nos referimos, era assaz tranquila, de forma que, segundo as informações de alguns historiadores daquela época, andando o povo em procissão ao redor dela, acontecia acenderem nela as tochas quando se apagavam. Nos primeiros tempos, a água das fontes daqueles sítios, junto ao mar, causavam um ardor na língua como o da malagueta.

Ano de 1800

José Acúrsio das Neves,[7] nos seus Entretenimentos Cosmologicos,[8] diz que neste ano todas as ilhas dos Açores, e com especialidade a Terceira, foram muito agitadas por violentos terremotos.

Desde o dia 24 de junho ate 4 de setembro deste ano, raros foram os momentos em que se não sentia algum movimento cósmico, acompanhado de ruídos subterrâneos. Os terremotos deste ano causaram grandes estragos em toda a ilha, especialmente na Vila Nova, Lagens e Vila de São Sebastião.

Ano de 1801

No dia 26 de janeiro deste ano, pelas três horas e meia da tarde, segundo diz Francisco Ferreira Drummond[9] nos seus Anais da ilha Terceira,[10] sentiu-se em toda a ilha um violentíssimo terremoto que destruiu e desmoronou a maior parte dos edifícios, nos lugares onde se dera o do ano anterior, sobretudo na Vila de São Sebastião onde os estragos foram maiores, deixando assolada uma boa parte da freguesia. O estrago que fez este terremoto, sobre a ruínas do de 1800, foi muito maior do que o de 15 de junho de 1841 (excetuando o que sucedeu na Vila da Praia).

Continuaram depois os abalos por espaço de 15 dias, ainda que brandamente, sem produzirem muitas vítimas.

Ano de 1841

No dia 15 de junho deste ano, teve lugar a queda da Vila da Praia da Vitória, em consequência de um violento e horrível terremoto, precedido por outros menos violentos que principiaram no dia 12 do mesmo mês.

Poucos foram os edifícios que não desabaram neste infausto dia, e, nos poucos que se conservaram erguidos, produziram-se grandes estragos. As freguesias de São Sebastião, Fonte do Bastardo, Cabo da Praia, Lagens, Fontinhas, Vila Nova e Agualva, também sofreram consideráveis estragos.

Vejamos a descrição desta horrível catástrofe, que faz o falecido escritor Félix José da Costa:[11]

«No dia 12 de junho, pelas dez horas da manha começaram-se a sentir em toda a ilha os tremores de terra. Era o funesto prelúdio das desgraças que nos aguardavam. Pelas quatro horas, e às cinco e vinte e cinco minutos da tarde, houve outros abalos, que se repetiram no dia 13 com mais intensidade e violência. No dia 14, pelas quatro horas e vinte minutos da manhã, houve um bastante grande e violentíssimo, seguido de outros dois bem semelhantes. Assim continuaram com menos duração. O terror principiava a espalhar-se e a notícia, que por todo esse dia corria na cidade, de que na Praia tinham caído algumas casas, aumentou o susto e a consternação dos angrenses. Um contínuo receio e pavor os cercava: desde o avizinhar da noite até ao alvor da manhã estavam ansiosos, vigilantes como quem esperava ser atacado. Para gozar algum alívio, desejavam ardentemente o dia — e era o dia 15 — tão mal pensavam, que durante o seu espaço sofreriam um trato mais tormentoso! Marcavam-se as três horas e vinte e cinco minutos da manhã, quando um espantoso terremoto, veio trazer-lhes a mais aflitiva situação. Este flagelo que acabavam de experimentar, e de que estavam ameaçados, redobrou entre eles o susto e a insofrível amargura! A ansiedade de saber o estado da Vila da Praia depois daquele novo sucesso, aumentou o cuidado e a impaciência dos angrenses. Ainda mal corriam na afogueada imaginação estas tristes ideias, quando um novo e doloroso som de queixume se ouvia. Dilatada agonia! O grande e horroroso terremoto chegou... e veio abalar todos os edifícios, que pareciam despedaçar-se. As paredes lascaram-se, os tectos rangeram e pareciam desabar! O relógio da catedral tanto sofreu que deixou de marcar aquelas horas de angústia, aqueles momentos de morte, e o seu sino chegou a tocar com o violento impulso do tremor de terra! Em um instante — e quão horrível! — quase todos repassados de veemente dor saíram de suas moradas.
[...] Mas a Praia! era a penosa lembrança de todos. Lá havia soado logo no dia 14 mais furioso o terremoto.
Todos se acautelaram como podiam, parecendo que cuidadosos tinham lido tão desastroso futuro nesse volume das infelicidades, que o Fado guarda no escuro arquivo do porvir. Ao luzir a madrugada (do dia 15) sentiram-se amiudados abalos de terra, e um grande grito de pavor, um som doloroso se escutou de todas as partes. Desde os fraguedos do Pico do Seleiro até nos bordos do mar não se ouviam por essas campinas senão gemidos de íntima aflição e susto! Enevoou-se o tempo. Entumeceram-se os mares. Nuvens de negro pó se levantaram. Era um inferno de martírios. Pareciam rodar brônzeos canhões atroadores, que traziam a morte e a destruição. O momento tão temido havia chegado. Sim: lá em baixo, no coração da terra, rugia e vinha bramando, naquela hora de amargura, o medonho terremoto. A terra despedaçava-se, revolvia-se, parecia abrir-se, e em sua terrível convulsão, envolver no seu seio uma população inteira, uma avultada fortuna, uma Vila considerável e distinta! Troavam rijamente nos ouvidos um nunca imaginado estrépito e pavoroso estrondo das paredes que caíam e das casas que se desmoronavam. Era o formidável e horrível terremoto, que tinha abalado fortemente a terra. Era a Vila da Praia da Vitória, que arquejava nos últimos momentos da sua gloriosa existência! Sibilavam na larga praia arenosa as aves, que esvoaçavam horrorizadas do repentino de tanta mudança. Eram os animais que corriam a esconder-se entre as brenhas. Eram três horas e meia da manhã, e a essa hora fatal tudo tremia: tremia a terra e tudo que o que sobre ela existia! Os desditosos praienses sem alento, e sem tino, soltando mil soluços e ais doridos, julgavam ver aproximar-se a morte... abrir-se o túmulo, aparecer-lhes a eternidade... ! Mais um momento, talvez teriam perecido nas profundezas da sua terra natal! Ainda bem: não foi assim...
[...] Cumpre escrever aqui as ruínas destas freguesias:
  • São Sebastião — Vila ereta em 1503, situada uma milha distante do mar, e duas léguas e meia da cidade. Tem 252 fogos e 1511 almas: apresentou 14 casas totalmente arruinadas e 154 com grande ruína, principalmente as que ficam fronteiras ao nordeste. A matriz ficou rachada do lado da capela e as três ermidas filiais também sofreram.
  • Fonte do Bastardo. — Nesta freguesia, que tem 146 fogos e 639 almas, raras são as paredes que não fossem demolidas: apresentou 6 casas totalmente arruinadas, e 32 com grave ruína.
  • Cabo da Praia. — Situada uma légua ao sul da Praia, que tem 205 fogos e 962 almas, apresentou 5 casas com total ruína, e 70 gravemente arruinadas.
  • Lajes. — Tem 577 fogos e 2:663 almas. Teve 12 casas totalmente arruinadas e 50 com grave ruína.
  • Fontinhas. —Tem 242 fogos e 1:066 almas. Teve 137 casas totalmente arruinadas e 88 com grave ruína. A demolição dos edifícios, segundo a posição em que tombaram, assaz mostra que a grande concussão veio do lado do nordeste, e que o abalo ali foi vertical pelo arrojo dos alicerces.
  • Vila Nova — Tem 247 fogos e 1:303 almas. Apresentou 3 casas totalmente arruinadas, e 81 com grave estrago.
  • Agualva — Tem 267 fogos e 1:186 almas. Teve 2 casas com total ruína e 30 gravemente arruinadas [...].
É de notar que, no meio de tantos horrores, não houve uma morte a lamentar.»
Ano de 1867

Neste ano sobreveio a erupção submarina a oeste da Terceira, à distância, pouco mais ou menos, de 5 quilómetros da costa da Serreta. No jornal L'Année scientifique et industrielle (douzième année, 1867, pp. 312-316)[12], encontra-se detalhadamente a descrição deste acontecimento vulcânico, cuja tradução facilmente se poderá encontrar no Archivo dos Açores, tomo 5.°, que aqui reproduzimos:[13]

«No primeiro de junho de 1867 as ilhas Terceira e Graciosa, nos Açores, foram abaladas per trepidações da terra, em breve seguidas por uma verdadeira erupção vulcânica. Ferdinand Fouqué, o jovem sábio que parece ter recebido plenos poderes da Academia das Ciências para a representar junto destes grandes fenómenos da natureza, não deixou de ir fazer a sua visita obrigada aos lugares em que apareceu esta nova erupção. Mas é principalmente na relação apresentada à Academia pelos senhores Charles Sainte-Claire Deville[14] e Jules Janssen,[15] composta segundo as narrativas das testemunhas oculares,[16] que se acha a descrição deste importante fenómeno.[17]
Durante os seis primeiros meses do ano de 1867, sentiram-se nas ilhas Terceira e Graciosa alguns abalos mais ou menos fortes. A partir de 25 de maio tornaram-se tão frequentes os tremores de terra, que só neste dia se contaram cinquenta e sete. De 25 de maio ao 1.° de junho a agitação do solo era contínua e particularmente sensível na Serreta e no Raminho. Algumas pedreiras desabaram com estrondo, o terreno fendeu-se, e quase todas as casas sofreram prejuízos ou ficaram arruinadas. Tao somente na freguesia da Serreta oitenta cases foram destruídas e as restantes abaladas […] No 1.° de junho, pelas oito horas da manhã, houve um violentíssimo tremor de terra que foi seguido, no resto do dia, por muitos outros mais fracos. Pelas dez horas da noite rompeu a erupção em pleno mar, a distância da costa de pouco mais ou menos de 5 quilómetros.
Começou este fenómeno por detonações semelhantes a descargas de artilharia. Toda a superfície do mar ficou coberta com uma substância amarelada, que se julgou ser enxofre, sem que disso haja a certeza, porque a tal matéria não foi recolhida. No dia seguinte (2 de junho) pelas 6 horas da manhã, as substâncias gasosas que se desenvolviam no mar produziam uma espécie de ebulição, fraca ao princípio e com largas intermitências, mas que depois cresceu progressivamente.
Pelas 9 horas da noite do mesmo dia 2 viu-se três vezes, num quarto de hora, elevar-se um jato de água a grande altura, em um ponto entre a erupção e a costa. Nos seguintes dias, grandes penedos se elevaram ao ar a certa altura, no meio de repuxos de água e de vapores. As bocas de erupção estavam assim dispostas: a principal estava no centro, e em redor mais sete outras colocadas muito irregularmente limitando um espaço de 3 a 4 léguas de circuito e de uma légua de diâmetro.
No centro a ebulição gasosa era contínua, tornando o mar branco, enquanto na circunferência ele aparecia escuro. Julgou-se por algum tempo que as pedras lançadas durante muitos dias, produzissem um ilhéu ou banco, mas nada disso sucedeu. A erupção foi acompanhada de um cheiro muito pronunciado de ácido sulfídrico, a ponto que algumas vezes era muito difícil suporta-lo junto à costa.
Quando o fenómeno vulcânico atingiu a máxima intensidade, oferecia um espetáculo verdadeiramente imponente. Numa linha de perto de 2 quilómetros, saíam com impetuosidade, a distância umas das outras, seis enormes colunas de água, que cedendo ao impulso do vento, a uma certa altura, formavam uma nuvem branca e espessa. Do pé de uma dessas colunas, viam-se grandes penedos expelidos pela cratera elevar-se e cair pesadamente. Este terrível fogo da natureza era acompanhado de detonações semelhantes às da artilharia.
O dia 5 de junho foi aquele em que o fenómeno apresentou a máxima intensidade. Depois a projeção de grandes blocos cessou e gradualmente tudo o mais diminuiu.
No dia 7 de Junho já não se viam sair pedras, e de tarde também os jatos de água e de vapor tinham cessado. A parte ativa da erupção tinha desaparecido. As ondulações do solo diminuíram igualmente, mas sem todavia cessarem. As mais notáveis tiveram lugar nos dias 12 e 13 de junho.
Fouqué, chegando a 20 de setembro à Terceira, fez uma excursão ao longo da costa sudoeste da ilha. Tratando primeiro que tudo de reconhecer se o fenómeno vulcânico tinha produzido alguma elevação sensível no fundo do mar, achou o fundo a 205 braças, no centro da erupção, a 5 quilómetros da ilha. As sondagens efetuadas neste e noutros pontos vizinhos, mostraram que o fundo do mar não subira por efeito da erupção, visto encontrarem-se as mesmas profundidades apontadas no mapa inglês

Infelizmente Fouqué, nesta sua excursão, não conseguiu obter os dados precisos para a história do grande fenómeno vulcânico, porque já nada e existia, e a pequena quantidade de gás, que com dificuldade pode obter, não era suficiente para uma análise segura.[18]

Notas do editor[editar]

  1. “Carta a Elrei, do Contador da Ilha de S. Miguel, de 27 de Maio de 1547, noticiando o terremoto da Ilha Terceira” em “Vulcanismo nos Açores IV – Anno de 1547 : Terremoto na ilha Terceira” , Archivo dos Açores, vol. I (1878), pp. 358-359.
  2. Conhecido pela «Primeira Caída da Praia», este sismo deu origem à conhecida passagem do Sermão Sermão ao Enterro dos Ossos dos Enforcados, do Padre António Vieira, sobre a justiça, a misericórdia e a verdade. (cf.: Sermam que prégou o P. Antonio Vieira, ao enterro dos ossos dos enforcados, na Misericordia da Cidade da Bahia, havendo guerras naquelles Estados, § II. Lisboa, Oficina dos Herdeiros de Antonio Pedroso Galraõ, 1754).
  3. Folhinha da Terceira para o Anno de 1832 (bixesto). Angra, Imprensa do Governo, 1832 (a referência à erupção aparece a pp. 91-92, integrada numa descrição do arquipélago cuja autoria é atribuída ao major de engenheiros Bernardo de Sá Nogueira, depois marquês de Sá da Bandeira).
  4. Esta erupção do vulcão submarino do Banco D. João de Castro ocorreu nos anos de 1719-1721 e foi descrita, entre outros, por Charles Pierre Claret, conde de Fleurieu (1738 – 1810), hidrógrafo, explorador e político francês. A erupção formou uma ilha que foi demolida pela combinação da erosão marinha e da subsidência tectónica, desaparecendo em 1723. [cf.: “Volcanoes of the Azores” in The Nautical Magazine and Naval Chronicle for 1841, pp. 752-761, incluindo a p. 759 uma figura representando uma das fases da erupção; José Agostinho, “Tectónica, sismicidade e vulcanismo nas ilhas dos Açores”, in Açoreana, Sociedade Afonso Chaves, vol. I (1935), n.º 2, pp. 86-98; José Agostinho, Actividade Vulcânica nos Açores, Tipografia Andrade, Angra do Heroísmo, 1960 (sep. da Açoreana, vol. I, n.º 5, 1960)].
  5. O grande terramoto de 9 de Julho de 1757, que ficou conhecido na tradição pelo nome de Mandado de Deus, abalou São Jorge e ilhas vizinhas causando grande destruição e mortandade. É o maior sismo de que há registo nos Açores e dele resultou a morte imediata de pelo menos 1053 pessoas na ilha de São Jorge e 11 na ilha do Pico. Com os feridos que vieram a perecer e os desaparecidos, estima-se que tenham morrido cerca de 1500 pessoas. (Cf.: Colecção das Memórias Literárias para a História de Portugal, por frei Vicente Salgado, pregador geral, ano de 1770 - ms. da Biblioteca de Jesus, anexa à da Academia das Ciências de Lisboa, in História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta, de António Lourenço da Silveira Macedo, Horta, 1871, vol. I, pp. 186-188).
  6. Para uma moderna descrição do evento cf.: A. Pimentel et al., “Stress-induced comenditic trachyte effusion triggered by trachybasalt intrusion: multidisciplinary study of the AD 1761 eruption at Terceira Island (Azores)”. Bull Volcanol (2016) 78:22 (DOI 10.1007/s00445-016-1015-6).
  7. José Acúrsio das Neves (Fajão, 1766 — Sarzedo, 1834), político, magistrado, historiador, ensaísta e pioneiro no estudo da economia portuguesa. Precursor do industrialismo em Portugal, destacou-se como político conservador, defensor acérrimo do miguelismo, e como um dos principais inimigos das ideias do liberalismo nas Cortes de 1828. São notáveis, e ainda actuais, os seus escritos sobre economia política e sobre história sua contemporânea.
  8. José Acúrsio das Neves, Entretenimentos Cosmológicos, Geográficos e Históricos, Lisboa, 1826. Existe edição recente: Obras Completas de José Acúrcio das Neves, vol. 5, Edições Afrontamento, Lisboa, 1987, edição na qual o texto referente à erupção de 1761, correspondente ao «Entretenimento XVII», está a pp. 329-331).
  9. Francisco Ferreira Drummond (Vila de São Sebastião, 21 de Janeiro de 1796 — Vila de São Sebastião, 11 de Setembro de 1858), historiógrafo, paleógrafo, músico e político local, com grande actividade cívica na sua vila natal. É autor dos Anais da ilha Terceira, obra marcante para a história da ilha e dos Açores.
  10. Francisco Ferreira Drummond, Anais da Ilha Terceira, vol. II, Angra do Heroísmo, 1856, pp. 288-290.
  11. Félix José da Costa (Angra, 27 de Fevereiro de 1819 — Angra do Heroísmo, 17 de Janeiro de 1877), político, publicista e escritor que se destacou no campo da história local. O texto transcrito pertence à obra: Memória histórica do horrível terramoto que destruiu a vila da Praia da ilha Terceira em 15 de Junho de 1841, Angra do Heroísmo, Imprensa da Administração Geral, 1841.
  12. “Une éruption volcanique aux îles Açores” in Louis Figuier, L'Année scientifique et industrielle: Douziéme année (1867), pp. 312-316. Paris, Librairie de L. Hachette et Cie., 1868.
  13. “Vulcanismo nos Açores : XXXIV – Anno de 1867 : Erupção submarina junto à ilha Terceira”, Archivo dos Açores, vol. V (1884), pp. 499-503.
  14. Charles Sainte-Claire Deville (1814 – 1876), geofísico e meteorologista francês, conhecido principalmente pelos seus trabalhos sobre o vulcanismo na Macaronésia e nas Antilhas.
  15. Pierre Jules César Janssen (1824 – 1907), mais conhecido por Jules Janssen, astrofísico francês. Em companhia do geofísico Charles Sainte-Claire Deville visitou os Açores em 1867, numa expedição financiada pela Académie des Sciences de França.
  16. Jules Janssen, “Sur un voyage fait aux Açores e dans la péninsule ibérique”, Comptes rendus hebdomadaires des séances de l'Académie des sciences (CRAS), t. LXV (65) (juillet-décembre 1867), séance du 14 octobre 1867, pp. 646-647. A viagem foi levada a cabo, com o apoio da Academia, na sequência da comunicação a 1 de julho de 1867 de uma carta que transcreve um artigo do jornal A Persuasão, de Ponta Delgada que relata a erupção. Ver “M. Ch Sainte-Claire Deville communique l’extrait suivant d’une Lettre publié par le journal A Persuasão, de Saint-Michel (Açores)” em Comptes rendus hebdomadaires des séances de l'Académie des sciences (CRAS), t. LXV (65), séance du 1.er juillet 1867, p. 29.
  17. Récit de l'éruption sous-marine qui a eu lieu, le 1er juin 1867, entre les îles Terceira et Graciosa, aux Açores par MM. Ch. Sainte-Claire Deville et Janssen, [Paris] : [Gauthier-Villars], 1867. O opúsculo é uma separata do texto com o mesmo título publicado em Comptes rendus hebdomadaires des séances de l'Académie des sciences (CRAS), t. LXV (65), séance du 21 octobre 1867, pp. 662-668.
  18. Ferdinand Fouqué, “Sur les gaz qui se dégagent, en mer, du lieu de l’éruption que s’est manifestée aux Açores, le I.er juin 1867”. Comptes rendus hebdomadaires des séances de l'Académie des sciences (CRAS), t. LXV (65) (juillet-décembre 1867), séance du 21 octobre 1867, pp. 674-675.