Memória sobre a ilha Terceira/III/II

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Memória sobre a ilha Terceira por Alfredo da Silva Sampaio
Parte III — Mamíferos


Mamíferos


Por ocasião da descoberta desta ilha, segundo se colige dos diferentes autores que escreveram sobre este assunto, não existia animal algum desta classe. Apenas o Marquês de Sá da Bandeira pretende, na Folhinha da Terceira, que já aqui existia o morcego, quando desembarcaram os primeiros descobridores. Porém, o Padre António Cordeiro, que tão minucioso foi na descrição de tudo quanto dizia respeito à historia insulana, não faz menção alguma do morcego, nem doutro qualquer animal da classe de que nos ocupamos, que fosse encontrada pelos primeiros povoadores dos Açores.1 A descrição que pretendemos fazer dos mamíferos, que se encontram na ilha Terceira, não abrange só a dos animais que vivem no estado selvagem, mas também a de todos aqueles que se encontram domesticados.

1.ª ordem— Quirópteros

Desta ordem encontra-se a espécie : 1. Vespertilio leisleri Kuhl.2 — Vulgarmente «morcego». Esta espécie tem as orelhas curtas e terminadas em ponta arredondada: os pelos são compridos, de cor escura na base e castanho na extremidade. Ao longo dos membros anteriores, a membrana alar é muito peluda e a cauda é muito curta. Encontra-se em grande quantidade, sobretudo nas ruas cidade, onde, ao anoitecer, volteja nas ruas próximo dos graneis onde existem cereais. Supõem os naturalistas que esta espécie, que habita a Alemanha e a região situada ao noroeste da Europa, foi introduzida casualmente pelos colonos flamengos, e que o seu aparecimento no arquipélago açoriano coincide com a época da sua colonização.3 2.ª ordem — Carniceiros 2. Mustella furo Linn. — Vulgarmente «furão». Outrora introduzido e criado para a caça do coelho selvagem, hoje vive nesta ilha em cativeiro, e só em S. Miguel e S. Jorge se encontra em liberdade.


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3. Mustella vulgaris Linn. — Vulgarmente «doninha». Existe nos campos, próximo das habitações, nutrindo-se especialmente dos ratos, coelhos domésticos e galinhas. 4. Felix catus Linn. — Vulgarmente «gato». Raras vezes se encontra no estado selvagem, e quando se encontra nos matos, é sem dúvida fugitivo das casas onde nasceu e de onde emigrou por qualquer motivo. Atualmente encontram-se vários produtos de cruzamento e raças estrangeiras, francesa e inglesa, e como raças puras apenas se notam a maltesa e a de angorá. 5. Canis familiaris Linn. — Vulgarmente «cão». Relativamente a este fiel e inseparável companheiro do homem, pouco a a dizer, pois que existindo na ilha Terceira uma infinidade de animais desta espécie com caracteres de diversas raças misturadas, e por isso, inclassificáveis, apenas temos, como digna de mencionar, apesar de ir desaparecendo em toda a sua pureza, a raça peculiar a esta ilha, conhecida pelo nome e «cão-de-fila», cujos caracteres são: corpo retangular, pescoço curto, cabeça volumosa, proximamente quadrangular, ausência de depressão no chanfro, boca bem rasgada, guarnecida da fortíssimos dentes, lábio superior pendente aos lados da boca, abóbada palatina de cor negra, focinho preto, pelugem fusca ou amarelada, em diferentes graduações, e (carácter constante) irregularidade na articulação dos primeiros cocígeos, o que produz o desvio na direção da cauda, dando-lhe a aparência duma volta de S, de que provem a estes animais o epíteto de «rabos-tortos». São de máxima utilidade para os pastores de gado bravio, ajudando-os e defendendo-os nos rudes serviços do seu labor. Afora esta raça, aparecem alguns perdigueiros e podengos, mais ou menos legítimos, e Terra-Nova, quase todos provenientes de cruzamentos com outras raças. Drouet assinala também uma outra raça de cães, denominada vulgarmente «cães-de colo», e que tende a desaparecer. Ultimamente tem-se introduzido uma outra raça de pequenos dogues denominada «King-George». Estes apontamentos, bem como os que dizem respeito à pecuária da ilha Terceira, foram-nos fornecidos pelo esclarecido e inteligente veterinário, o Ex..° Sr. José Maria Leite Pacheco.


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3.ª Ordem — Roedores 6. Mus musculus Linn. — Vulgarmente «morganho» (ou «murganho»). Existe em grande quantidade, tanto nas habitações urbanas como nas rurais. 7. Mus rattus Linn. — Vulgarmente «rato-preto». Esta espécie tende a desaparecer em consequência da guerra que lhe faz o rato ordinário ou cinzento ; e apenas nos campos, um pouco longe das habitações, é que se encontram, mas em pequena quantidade. 8. Mus decumanus Pabl. — Vulgarmente «rato-ordinário». Este roedor é excessivamente abundante e um verdadeiro flagelo, não só na cidade, vilas e povoações rurais, como também nos campos agricultados onde causa devastações enormes. São frequentemente importados nas mercadorias que chegam nos navios de vela ou em quaisquer outras embarcações. 9. Lepus cuniculus Linn. — Vulgarmente «coelho». O coelho selvagem, de cor acinzentada, vive em grande quantidade em toda a ilha, onde não é menos daninho que o rato, tornando-se muito prejudicial à agricultura. Drouet admite que a importação do coelho é mais antiga, no arquipélago açoriano, do que a de qualquer outro mamífero. Há também algumas outras variedades domésticas, resultantes em geral do cruzamento de várias raças estrangeiras, mas que não constituem por enquanto uma raça peculiar desta ilha. 10. Cavia cobaya, sp. Vulgarmente «porquinho-da-índia». Este pequeno e interessante roedor existe em pequena abundância e é educado particularmente por alguns amadores. Têm sido tais os cruzamentos que têm feito de várias espécies que se conhecem deste género que atualmente não existe nenhuma perfeitamente caracterizada.


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4.ª ordem — Paquidermes 11. Sus scrofa Linn.— Vulgarmente «porco». Os porcos domésticos existem em grande quantidade em toda a ilha. Constituem, em grande parte, a alimentação do povo desta ilha, não só pela carne que é consumida tanto pelo pobre como pelo rico, mas também pela gordura que é altamente utilizada na arte culinária, em substituição do azeite de oliveira. A raça que primeiro povoou a ilha Terceira, vinda do continente, afigura-se ter sido a dos celtas, de grande estatura, pernaltas, focinho muito comprido e de difícil engorda completa. Por muitos anos conservou-se exclusivamente esta raça pura, porque supria com vantagem às necessidades da população rural. Mais tarde, pelas exigências crescentes, foram introduzidos suídeos de raças menos corpulentas, mas mais temporãs e de melhores condições. Em 1862 foi importado um reprodutor masculino da raça «Grignon» que veio modificar, em sucessivas descendências, os caracteres já um tanto confusos das sub-raças existentes. Ultimamente os «Berkshires» importados pelo ex..° sr. João Nogueira de Freitas, e os «varrascos-americanos» pelo ex, sr. José Luís de Sequeira, vieram beneficiar poderosamente a criação suína, podendo, sem erro, assegurar-se que é hoje razoavelmente próspera esta interessante indústria, aparecendo todos os anos alguns produtos do cruzamento da raça «Berkshire» e dos «varrascos-americanos», em estado de perfeita engorda com o peso de 280 a 320 quilogramas. Segundo o recenseamento feito em 31 de dezembro de 1900, existiam em toda a ilha Terceira 13:640 suídeos, sendo 8:140 no concelho de Angra e 5:500 no da Praia. Exportam-se hoje em grande quantidade para as ilhas de S. Jorge, Pico e S. Miguel. 12. Equus caballus Linn. — Vulgarmente «cavalo». Esta tribo dos paquidermes é atualmente representada por animais de acanhada estatura que como animal de sela tem hoje pequena importância. Em outras épocas, existiam excelentes cavalos, quase todos oriundos de Alter. Porém, esta raça tem-se abastardado a tal ponto que, presentemente, apenas se encontra um pequeníssimo número de cavalos de marca. As raças de gado cavalar que nesta ilha se encontram, são representadas por um grupo de pequenos animais (raça da terra), tendo simplesmente de recomendável a robustez. Se aparece um ou outro animal de sela ou de tiro ligeiro, de raça distinta, é importado do continente português ou de países estrangeiros. Pelo recenseamento feito em 31 de dezembro de 1900 existiam na ilha Terceira 525 cabeças, sendo 215 no concelho de Angra e 310 no da Praia. Do cruzamento do gado cavalar com o asinino, resultam os animais


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híbridos denominados o «macho» e a «mula», cujos indivíduos são, em geral, de pequena estatura, mas bastante vigorosos e mais aptos para transporem as estradas deste ilha que são irregulares. Não constituem uma raça bem definida, não só porque as éguas reprodutoras destes híbridos são, de ordinário, as da terra, mas porque os jumentos que têm aparecido para aperfeiçoamento do gado asinino e muar têm sido detestáveis para tal fim. Pelo último recenseamento feito, existiam em toda a ilha 368 cabeças, sendo 228 no concelho de Angra e 140 no da Praia. 13. Equus asinus Linn. — Vulgarmente «burro». Esta espécie de animais, que outrora existia em grande quantidade e era empregada não só como meio de transporte, mas sobretudo como animal de carga, está hoje muito reduzida. A raça asinina que aparece nesta ilha é a comum, não tendo ficado do reprodutor «Poitou-espanhol», que o Governo mandou há 6 anos para o posto hípico, descendente algum digno de menção. Pelo último recenseamento, existiam na ilha Terceira 134 cabeças, sendo 119 no concelho de Angra e 15 no da Praia. 3.ª ordem — Ruminantes 14. Capra oegagrus Pall. — Vulgarmente «cabra». Existem grandes rebanhos de cabras em toda a ilha, porque se faz um grande consumo de queijos, feitos com o seu leite, e este mesmo é muito empregado como alimento. Não nos parece que haja atualmente uma raça especial e distinta desta espécie na ilha Terceira, como não há para outra qualquer espécie de animais, visto o pouco cuidado que há nos poucos lavradores e proprietários da ilha. À exceção de alguns produtores mais aperfeiçoados, vindos de fora da ilha, a raça aqui espalhada é a da cabra comum da Europa. Pelo último recenseamento existiam na ilha Terceira 2 782 cabeças, sendo 2 082 no concelho de Angra e 700 no da Praia. 15. Ovis aries Desm. — Vulgarmente «carneiro». Os carneiros dos Açores são, em geral, pequenos, e os desta ilha participam dos mesmos caracteres. Têm a lã comprida e grossa, e bastante frisada, e só própria para ser empregada em grosseiros panos.


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Não seria difícil, atualmente, visto os caracteres particulares, mas não bem distintos, que estes animais apresentam com relação aos que se encontram nos outros países, obter uma raça peculiar dos Açores, se porventura houvesse mais cuidado nos cruzamentos com raças estrangeiras e bem escolhidas. A única raça ovina que ainda se encontra é a resultante do cruzamento dos «bordaleiros» com algumas cabeças importadas, há mais de 40 anos, do norte de África. Pelo último recenseamento, existiam na ilha Terceira 10 292 cabeças, sendo 6 292 no concelho de Angra e 4 000 no da Praia. 16. Bos taurus Linn. — Vulgarmente «boi». Constituem hoje a espécie pecuária mais importante, não sé pelo número de cabeças, como pelo elevado valor que representa, constituindo, por si, a principal riqueza agrícola e pecuária. Seria difícil afirmar qual foi a primeira raça de bois introduzida na ilha Terceira e qual a sua proveniência. Drouet diz ter encontrado nos Açores duas raças distintas, sendo uma proveniente do Minho e outra do Algarve, conhecida hoje pelo nome de «raça-do-corvo». É de crer que os primeiros bovídeos que vieram para a ilha Terceira fossem procedentes do Algarve, por ordem do imortal Infante D. Henrique, que residia em Sagres quando mandou colonizar os Açores. Há trinta anos, pouco mais ou menos, existiam nesta ilha alguns bovídeos, especialmente vacas de mato, com muitos dos caracteres distintivos do gado algarvio. O aparecimento, na Terceira, do gado vaccum de raça flandrina, supõe-se ter sido pela época em que aqui chegou o primeiro capitão do donatário, Jácome de Bruges, que, provavelmente, traria no seu navio, algumas cabeças provenientes do país dos flamengos, de onde era oriundo. Atualmente, não se encontram bovídeos com os distintivos daquelas raças: as sucessivas gerações, em geral, mal dirigidas, e os viciosos processos de criação, concorreram para que se extinguissem ou se deformassem, até à confusão, os sinais característicos da bela raça flandrina de inapreciável valor lactígeno. Hoje, além de um avultado número de cabeças, cuja classificação em raças definidas é completamente impossível, e que são conhecidas pela designação vaga de «gado da terra». Há na ilha uma certa quantidade de bovídeos pertencentes a três raças bem conhecidas e de aptidões económicas adstritas às necessidades das principais indústrias, e que são: a 1.ª, «taurina», de ótimas disposições lactíferas e sofrível para trabalho; a 2.ª, «Schwitz», menos má produtora de leite e de trabalho; e a 3.ª, a «Durham», particularmente apropriada


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à cava. Há também, em pequena quantidade, alguns produtos de «Jerseys», aqui introduzidos, há bastantes anos, mas que não se têm propagado em grande escala. Possui também a ilha Terceira uma raça brava que, segundo todas as probabilidades, foi aqui importada do continente, pouco depois de povoada a ilha. Não é muito corpulenta e apresenta muitos caracteres da raça brava do Ribatejo. Pelo último recenseamento, feito em 31 de dezembro de 1901, existiam na ilha Terceira 21 533 cabeças, sendo 12 033 no concelho de Angra e 9 500 no da Praia. 6.ª ordem — Cetáceos 17. Delphinus delphis Linn. — Drouet. Vulgarmente «golfinho». É hoje muito raro nos mares da ilha Terceira. 18. Delphinus fraenatus Dussum. — Drouet. Vulgarmente «bllack-fish». É este o nome vulgar dado pelos baleeiros americanos, a uma espécie, que, atualmente, é mais rara que a espécie antecedente. 19. Phocoena communis Cuv. — Drouet. Vulgarmente «toninha». É frequente nos mares da Terceira, aparecendo sempre em grandes bandos, muito próximo das costas. Poucas vezes os pescadores lhe dão caça. 20. Physeter maorocephalus Linn. — Drouet. Vulgarmente «cachalote» ou «espermacete». É muito frequente nos mares da ilha Terceira, onde o povo o trata pela nome genérico de baleia. Constitui hoje um comércio importante da ilha óleo que se extrai deste animal, que é muito procurado pelos pescadores. 21. Balaena biscayensis. — Vulgarmente «baleia». Antigamente, não era raro encontrar-se esta espécie nos mares dos Açores, que, pela grande caça que se lhe tem feito, tende a desaparecer e hoje pode-se considerar como muitíssimo rara.

Notas do editor[editar]