Memória sobre a ilha Terceira/III/I

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Memória sobre a ilha Terceira por Alfredo da Silva Sampaio
Parte III — Capítulo I - Ideias gerais sobre a fauna terceirense


PARTE III
FAUNA DA ILHA TERCEIRA
Ideias gerais sobre a fauna terceirense

Sendo pobre a fauna açoriana em espécies aborígenes, a da ilha Terceira não podia deixar de compartilhar da mesma pobreza. Todas as classes do reino animal têm seus representantes, mais ou menos numerosos, na nossa fauna, mas nenhum tem importância absoluta ou interesse particular para um naturalista.

Godman, Drouët e Morelet, e ultimamente Sua Alteza o Príncipe do Mónaco, são os naturalistas que, mais de perto, têm estudado a fauna terceirense, sobretudo as classes mais inferiores do reino animal. Os dois primeiros entregando-se mais especialmente ao estudo dos insectos, Morelet à classe dos moluscos, e Sua Alteza o Príncipe do Mónaco à fauna marítima.

Passemos em revista as diferentes classes de animais que constituem o reino animal, e das quais se encontram algumas espécies nesta ilha.

I — Vertebrados[editar]

1.º — Mamíferos

Não se encontra na ilha Terceira, do mesmo modo que em todo o arquipélago açoriano, uma só espécie própria que se possa considerar como aborígene.

Todos os mamíferos açorianos pertencem à fauna da Europa temperada, e parecem ter sido introduzidos nesta ilha pelos primeiros colonizadores, ou voluntaria ou involuntariamente; isto é, ou como associados do homem, ou para lhe fornecer o alimento preciso. Estão no primeiro caso, o cão, o gato e o cavalo; e no segundo, o gado vaccum, o caprino e o suíno, e provavelmente os coelhos. Por último vieram os ratos, os murganhos e a doninha, segundo a opinião de Godman, e talvez, fortuitamente introduzidos nas cargas dos navios.

Entre os mamíferos, encontra-se uma espécie única dos quirópteros, o Vespertilio leisleri (morcego), idêntica à que se encontra na Alemanha e ao nordeste da Europa.1

Dos cetáceos temos o grande cachalote, ou «cachalote macrocéfalo, que é bastante frequente, e que aparece em bandos nos mares da Terceira. Este animal constitui o objeto duma pesca importante no arquipélago açoriano, pela grande quantidade de óleo que se extrai, para depois ser exportado.

Encontra-se também muitas vezes grandes bandos de toninhas nas proximidades da costa marítima, e de que os pescadores não fazem caso.

Drouet faz também menção do golfinho e do «black-fish»,2 nome dado pelos baleeiros americanos ao Delphinus fraenatus3 Dussum.4, mas hoje são raríssimos nestes mares. Também a verdadeira baleia (Balaena biscayensis5) se encontra nos mares do norte e oeste do Oceano Atlântico.

2.° - Aves

Das quarenta espécies que se encontram nesta ilha, a maior parte deve ser considerada como de arribação. As que se observam mais frequentemente no estado selvagem são os «milhafres» (Buteo vulgaris6), conhecidos desde o descobrimento dos Açores, e que, sendo naquela época em grande quantidade, e conhecido dos portugueses pelo nome de «açor», deram assim o nome ao arquipélago.7

Os pássaros são, como os palmípedes, as aves mais numerosas que se encontram na Terceira, do mesmo modo que em todas as outras ilhas. O «canário» ordinário (Fringilla serinus8) ou «canário-da-terra», como vulgarmente é conhecido, constitui uma das espécies abundantes da Terceira, do mesmo modo que o «tentilhão» (Fringilla canariensis), o «estorninho» (Sturnus vulgaris), o «melro-preto» (Turdus merula), o «toutinegro» (Sylvia atricapilla), etc. Dos columbídeos, temos o «pombo-bravo» (Columba domestica), muito apreciado, e os poucos pombais que se encontram ainda hoje nalguns quintais particulares constituem, por assim dizer, um objeto de luxo.

Nos galináceos não se encontra nada digno de menção, assim como nos outros grupos de aves, a não ser nos palmípedes que constituem talvez um dos mais abundantes da fauna terceirense e entre os quais se notam mais frequentemente a «garça-branca» ou «gaivota» (Larus argentatus), a garça cinzenta (Larus trydactylus), o garajau (Sterna hirunda), etc.

3.° — Répteis

Desta classe de animais, apenas se encontram três espécies pertencentes, cada uma, ao seu género. Assim, temos a «tartaruga-comum» (Chelonia mydas) pertencente ao género dos cheloneos9, não muito frequente nos mares da Terceira, e muito apreciada como alimento.

A «lagartixa-ordinária» (Lacerta dugesii10), importada não há muitos anos da ilha Graciosa, onde vive em grande quantidade, e que pertence ao género dos saurius.11

Finalmente a «rã-comum» (Rana esculenta12) também importada da ilha de São Miguel e que hoje se encontra em quase todos os charcos.13

4.° — Peixes

Das várias ordens em que se subdivide esta classe, a dos acantopterígios14 é a mais abundante e a que fornece numerosos e deliciosos peixes, que servem de alimentação aos habitantes da ilha. Temos, por exemplo, a garoupa (Serranus scriba), muito abundante em toda a costa da ilha, o cherne (Polyprion cernium15), a bicuda (Sphyraena vulgaris16), a salema (Pagellus bogaraveo), a cavala (Scomber colias), o chicharro (Caranx trachurus17), etc. Nos malacopterígios, a espécie mais comum é a «abrótea» (Motella vulgaris18). II — Invertebrados É nesta grande divisão do reino animal que se encontram, entre as diversas classes, alguns tipos novos, em pequeno número é verdade, mas peculiares ao arquipélago açoriano, o que lhe imprime um certo cunho de originalidade, podendo pois serem considerados como aborígenes. 1.° — Moluscos Esta classe, particularmente estudada por Morelet, tem um grande número de representantes na fauna terceirense. Os mais frequentes o polvo (Octopus vulgaris), a lula (Loligo vulgaris), a lesma (Arion rufus), o caracol-ordinário (Helix aspersa), uma espécie do género Helix, descoberta por Morelet e Drouet, e que vive em abundância na Caldeira grande e nos caules de Myrsine retusa, e que recebeu daqueles naturalistas o nome de Helix terceirana19, o caramujo (Littorina


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striata20), muito frequente nas pedras à beira-mar, a água-viva (Janthina communis21), frequente quando o vento sopra do quadrante do sul, a «lapa-ordinária» (Patella candei), a craca (Balanus tintinnabulum22), etc. 2.° — Annelados Este ramo da escala zoológica pouco tem sido estudado em todas as suas divisões, exceto a dos insectos, e destes, os coleópteros. A história dos coleópteros da ilha Terceira deve-se aos naturalistas Drouet, Morelet e Godman. Os primeiros estudaram esta ordem de animais em 1857 e o terceiro em 1870. Drouet foi o primeiro que, visitando os Açores, se entregou à pesquisa dos coleópteros, sendo para esse fim auxiliado por Morelet, que na mesma época tinha vindo aos Açores estudar os moluscos terrestres. Ambos estes naturalistas permaneceram pouco tempo na Terceira e por isso o seu estudo não pode nem deve ser considerado como completo, e apenas enumeram 60 espécies, das quais algumas ainda até então não classificadas. Mais tarde Godman explorou os Açores, e, nas suas pesquisas e explorações, serviu-se dos trabalhos empreendidos por Drouet e Morelet e dos catálogos e coleções de T. Vernon Wollaston23. Os coleópteros encontrados por Godman nos Açores, e antes dele por Wollaston, montam a 212 espécies, das quais 12 ainda não estavam estudadas até ao tempo em que ele visitou os Açores. Existentes na Terceira, apenas temos conhecimento de 85 espécies, e portanto 127 devem encontrar-se nas outras 8 ilhas do arquipélago açoriano. Os ortópteros são pouco numerosos e parecem provir na maior parte da Europa meridional. Os hemípteros encontram-se em maior escala, bem como os lepidópteros, mas com poucas variedades, o que já não acontece com os dípteros que são numerosos e variados. Com os nevrópteros24 e miriápodes25 sucede o mesmo, isto é, são apenas conhecidas poucas espécies, de modo que podemos concluir que os insectos da ilha Terceira estão ainda muito mal estudados. Finalmente o grupo dos aracnídeos foi determinado por Eugène Simon26, e a sua enumeração foi publicada no livro Excursions zoologiques dans les îles de Fayal et de San Miguel (Açores)27, por Jules de Guerne28, em 1888. Este último naturalista, fazendo parte da comissão de sábios que acompanhou Sua Alteza o Príncipe do Mónaco, nas campanhas que este sábio Príncipe empreendeu no seu iate L'Hirondelle nos anos de 1887 e 1888, era o encarregado das classificações zoológicas, e visitando as ilhas do Faial,


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Flores, Graciosa, Pico e Corvo, acrescentou 17 espécies novas de aracnídeos à lista que já tinha apresentado em 1883, que encerrava 48 espécies. Atualmente contam-se 51 espécies de aracnídeos no arquipélago açoriano, das quais 8 são exclusivamente açorianas.

3.° — Crustáceos

Esta classe compreende um pequeno número de representantes na ilha Terceira, e esses mesmos não têm nada de particular, e encontram-se igualmente disseminados por toda a Europa meridional e ocidental. As espécies mais frequentes são o caranguejo (Cancer maenas29) e a lagosta (Palinurus vulgaris30). III — Radiados 1.º Equinodermes Compreende-se, neste grupo, um número muito restrito de indivíduos. Os mais frequentes são o «ouriço-do-mar» (Echinus brevispinosus31), e a «estrela-do-mar» (Asterias glacialis32). IV —Zoófitos33 Este ramo da série zoológica compreende um grande número de animais muito mal estudados ainda. Drouet apenas enumera algumas espécies, ultimamente Sua Alteza o Príncipe de Mónaco, nas suas excursões marinhas, descobriu algumas espécies que serão indicadas em lugar competente.


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