Memória sobre a ilha Terceira/V/IV/XIII

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Memória sobre a ilha Terceira por Alfredo da Silva Sampaio
Parte IV — Capítulo XIII — A ilha Terceira desde a morte de D. Maria II até à actualidade


Capítulo XIII
A ilha Terceira desde a morte de D. Maria II até à actualidade


Restabelecida novamente a tranquilidade em toda a ilha Terceira, entraram as autoridades no exercício regular das suas funções, procurando estabelecer a prosperidade dos povos, que, até hoje, se têm conservado livres das revoluções políticas, que tantos estragos causam na vida social.

Nicolau Anastácio de Bettencourt, a quem os seus inimigos procuraram sempre desprestigiar no seu governo, conseguiu deixar, à custa de muito trabalho, vários melhoramentos públicos, que atestam aos seus vindouros quão profícua fora a sua administração.

A ele sucedeu António José Vieira Santa Rita, que tomou posse no dia 19 de julho de 1848. Poucos meses depois, na noite de 4 para 5 de novembro, foram os habitantes de Angra acordados por um grande abalo de terra, ao qual se seguiram outros, com copiosas chuvas, chegando a causar estragos no palácio, paço do Bispo, cadeia e nas igrejas da Misericórdia e São Francisco.

Nos dias seguintes continuou o tempo ameaçador, refugiando-se algumas famílias no Mercado Duque de Bragança, que o governador civil mandara abrir. Repetiram-se os abalos no dia 13, às 5 horas da manhã; no dia 14 às 6 horas e 20 minutos da manhã; e no dia 15 às 8 horas. Felizmente não houve vítima a lamentar, dissipando-se, pouco depois, o receio dos terceirenses, em cuja memoria se não apagara o terramoto de 15 de junho de 1841.

Foi durante o governo de Santa Rita que apareceu uma nova tentativa para a construção de uma doca para o porto de Angra, chegando a ser nomeada uma comissão dos seguintes cidadãos: conselheiro Alexandre Martins Pamplona Corte-Real, João Pereira Forjaz Sarmento de Lacerda, Luís Pacheco de Lima e Lacerda, João do Carvalhal da Silveira, comendador António José Vieira Rodrigues Fartura, Tomás José da Silva, Manuel Mendes Correia, João Eduardo Abreu Tavares, diretor da Alfândega e do capitão do porto Francisco da Costa Martins Mesquita, para estudarem o meio de se obter tão útil melhoramento. Já em 1642, Francisco de Ornelas da Câmara, o herói da Restauração na ilha Terceira, tentara, perante D. João IV, um molhe de abrigo para o porto de Angra, alegando a navegação que de continuo se fazia para o Brasil e Índias, com escala pelos Açores, necessitando os navios de um porto seguro onde pudessem reparar as avarias ou escapar à fúria das tempestades tão frequentes nos mares açorianos. Fizeram-se estudos e orçamento, mas nada fez D. João IV.

Em 1789, a pedido dos governadores interinos D. frei José, Bispo de Angra, Luís de Moura Furtado e D. Pedro António Castilblanque do Canto, procedeu-se ao estudo de um molhe de abrigo no Porto de Pipas, capaz de abrigar 12 a 15 navios, o qual teve a mesma sorte do antecedente.

Durante o governo de José Silvestre Ribeiro, e a seu pedido, requereu a Câmara de Angra um molhe de abrigo, secundando o seu pedido em 1846; e destas tentativas nada resultou de benéfico para a ilha Terceira. E ainda hoje se encontra deserto o porto de Angra, onde, não há muitos anos, a navegação era superior à das outras ilhas.

Qual a causa? Quais os factores desta decadência? Não queremos nem desejamos criminar pessoas, nem atribuir ao desleixo do povo, o seu atraso comercial. A política local, tão pequena como estreito é o meio em que ela vegeta, tem sido um travão poderoso à grande roda do progresso e da civilização, contribuindo sobremaneira para o estacionamento da nossa riqueza social. De que servem essas estradas, serpenteando pelas povoações rurais, estreitando as comunicações entre os diferentes membros da sociedade terceirense, se não há atividade e iniciativa industrial, se não há impulso na agricultura e se se desprezam essas grandes campinas completamente estéreis, a que dão o nome de baldios?! Que fonte de riqueza ali não estava, se, à ganância do capital e da política, antepusessem o progresso da sua pátria, concorrendo todos para o desenvolvimento progressivo da agricultura, das indústrias e do comércio?!

Restabelecida a calma política em Portugal e ilha Terceira nos últimos anos do reinado de D. Maria II, começaram os poderes públicos a olhar com mais atenção para o atraso material em que se encontrava o povo terceirense, autorizando a construção desses edifícios públicos que hoje vemos, já ordenando a abertura de estradas que pusessem em fácil comunicação os habitantes das povoações rurais.

Dirigia novamente o Distrito de Angra em 1853 o conselheiro Nicolau Anastácio de Bettencourt, quando no dia 26 de novembro daquele ano foi recebida a notícia do falecimento da Rainha. No dia 3 de dezembro procedia-se aos atos fúnebres, próprios de tão alto personagem e que consistiam na quebra de escudos e em solenes exéquias na Catedral.

A primeira cerimónia, que se efetuou com todo o aparato, teve legar no Largo Vinte e Dois de Junho, onde o vereador António José Vieira Rodrigues Fartura Júnior quebrou o primeiro escudo, como vereador da Câmara, no Largo Onze de Agosto, onde o vereador Dr. José Augusto Nogueira Sampaio quebrou o segundo; e, último na Praça da Restauração, competindo ao vereador Aniceto António dos Santos, a quebra do terceiro escudo.

No dia 30 de setembro de 1855 realizava-se em Angra, com toda a solenidade, a aclamação do novo Rei D. Pedro V, para seis anos depois se prantear a sua morte! Durante o curto reinado de tão benemérito Rei, foi a ilha Terceira visitada pelo Infante D. Luís, Duque do Porto e depois Rei de Portugal, no dia 31 de outubro de 1858.

Durante o longo reinado de D. Luís I, cuja aclamação teve lugar em Angra no dia 29 de janeiro de 1862, com toda a pompa e solenidade, completaram-se grandes melhoramentos em toda a ilha, cuja descrição ficou feita na parte IV deste nosso trabalho.

Longe da sua mãe pátria e sem os recursos da navegação, com a qual se estreitam as relações comerciais, as artérias principais da vitalidade social, permaneceu por muito tempo a Ilha Terceira quase isolada no meio do Atlântico.

Só em 1848 é que apareceu, pela primeira vez, um anúncio de uma carreira regular a vapor entre as três ilhas principais dos Açores, Madeira, Canárias e Lisboa, sendo concedida, por Lei de 22 de agosto daquele ano, a uma companhia formada por Luís Vicente de Afonseca e José Maria da Silva.

Como não chegasse a funcionar esta companhia, foi posta novamente a concurso a carreira de vapores entre Lisboa e Açores, no dia 25 de agosto do mesmo ano. Em 1856 apareceu uma nova companhia de Low Brothers & Company, de Londres, cuja concessão terminou dois anos depois, formando-se uma nova companhia — União Mercantil[1] — que alguns serviços prestou ao comércio de Angra. Terminou esta companhia em princípios de 1864 e daí até 1874 deixou de haver comunicações regulares com Portugal.[2]

Hoje estão mais estreitas essas relações já com a navegação regular de vapores, já com o telégrafo, inaugurado em 1893, que nos colocou em comunicação com o mundo civilizado. Este importante melhoramento teve legar no reinado do atual Rei, o Senhor D. Carlos I, cuja aclamação teve lugar na cidade de Angra no dia 18 de janeiro de 1890.

Finalmente, em 1901, recebiam os terceirenses, com a mais viva alegria e entusiasmo, a visita dos Monarcas Portugueses, o Senhor D. Carlos I e a Excelsa Rainha a Senhora D. Maria Amélia, cujo desembarque se realizou no cais de Angra no dia 1.° de julho daquele ano.

Durante a curta visita que Suas Majestades fizeram a esta ilha, realizou-se a cerimónia de lançamento e bênção da primeira pedra de um monumento comemorativo da visita régia, na Praça da Restauração. E, por mais uma vez, mostrou a Ilha Terceira os sentimentos altamente patrióticos de seus filhos, o seu eterno amor à causa da Liberdade, e a cordialidade que une atualmente os diferentes membros da sociedade terceirense, bem como o respeito que tributam aos seus Monarcas.

Notas do editor[editar]

  1. 1
  2. 2