Memórias de um pobre diabo/Terceira Parte - Capítulo 17

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Memórias de um pobre diabo por Bruno Seabra
Terceira Parte - Capítulo 17


Cahia a noite e a chuva.

Não se me dava a queda da noite, importava-me a queda da agua.

Eu não tinha guarda-chuva.

Identificando o corpo com as paredes das casas, cheguei ao Restaurant do Mangini ensopado como uma garoupa de escabeche, pois que fallei em restaurant.

Por felicidade das tres quatro partes do genero humano, se a agua da chuva tem a propriedade de ensopar o facto, este tem a de enxugar passado o preciso tempo. Panno para mangas tinha eu aqui, se quizesse mostrar até onde chego em physica.

Assentei-me junto a uma meza, onde não dava em cheio a luz.

Nenhum dos caixeiros do estabelecimento fez conta da minha humida-individualidade.

Cheguei no momento em que um sujeito, galhardamente vestido á moderna, travava razões com um dos caixeiros. Dizia elle, calçando as luvas e olhando de travez para a nota da despeza, que fizera:

—Oh! senhor! esta conta está exacta? em que despendi essa enorme somma? nem no hotel da Europa.

—V. S. veja a lista, acodia o caixeiro.

—Vêr o que, homem? pois eu quando como, olho lá o preço das iguarias? peço o que quero, porque não venho a estas casas comer de graça, fique sabendo, mas isto é um roubo.

—Confira pela lista e verá que lhe não levamos um vintem de mais...

—Não sou conferente de casas de pasto, ouvio? bradou o homem com nobre altivez. Confira vossê.

O proprietario do estabelecimento que se achava ao balcão, dirige-se ao cavalheiro, e com bons modos, lhe disse que se não amofinasse, que a conta estava exacta, mas se não queria pagar—seria o mesmo.

—Tenho muito dinheiro, alardeou o freguez; não preciso do seu jantar. Nem ando comendo nos botequins; se entrei neste, antes foi para esperar que passasse a chuva do que para outro fim. Almoço, janto e ceio no hotel da Europa, porém, não quero ser roubado, não estamos na Siberia.

Ein, Siberia?

—Pois, senhor, a chuva já passou, V. S. não deve nada, respondeu o proprietario.

—Então, não reforma a conta?

—Está exacta.

—Ah! está exacta! pois sim, já disse que não estamos na Siberia, adeus.

E partio.

O dono da casa aproximou-se-me dizendo;

—Veja isto; um homem, que calça luvas de pellica, almoça, janta e ceia no hotel da Europa, sahe d'aqui deixando o debito de dous mil setecentos e sessenta réis. Ha de vêr que é sustentado por alguma...

Não o-deixei acabar, todo o corpo se me arrepiou...

—Um calix de cognac!