Minha formação/XV

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Minha formação
Joaquim Nabuco
O meu diario de 1877
Edição de referência: Rio de Janeiro: H. Garnier, Livreiro-editor (1900). páginas 147-157.
Parei ainda alguns trechos do meu diário dos Estados Unidos; não são tanto impressões americanas que pretendo reproduzir, já antes o disse, como o meu modo de sentir naquela época:

“20 de junho. Hoje foram enforcados 11 criminosos de uma associação da Pensilvânia, os Molly Naguires. Onze pessoas enforcadas em um dia no Brasil! Quantos discursos isso não daria na Câmara dos Deputados? Aqui só faz vender maior número de extras dos jornais”.

“Junho, 8. Há duas espécies de movimento em política: um, de que fazemos parte supondo estar parados, como é movimento da terra que não sentimos; outro, o movimento que parte de nós mesmos. Na política são poucos os que tem consciência do primeiro, no entanto esse é, talvez, o único que não é uma pura agitação.”

“Julho, 8. A temperatura moral do futuro, a julgar pela americana, deve ser muito baixa. O sentimentalismo resfria aqui diariamente. A Inglaterra é um forno em comparação.”

“Junho, 26. A França parece-me a casa de Ulisses cheia de pretendentes a consumirem entre si a fortuna de Telêmaco, à espera que Penélope se decida por um deles. Cada um está certo de ser o preferido e, enquanto ela pede a Minerva que acabe com os seus insuportáveis perseguidores, eles continuam a devorar os bois e os carneiros, repetindo: ‘Não há dúvida que ela se está preparando para o casamento’. Infelizmente não parece provável que Ulisses volte para exterminá-los e tomar conta da casa.”

Essa nota é, quase, puramente literária. Ulisses aí era o conde de Chambord, e os pretendentes os partidos que arrastavam a França, depois da derrota nacional, talvez para a guerra civil. Eu pensava escrever um ato, intitulado Os Pretendentes, com a idéia do arco de Ulisses. Era, como o drama de que falei, um caso da falta de coincidência que se dava em mim, entre a imaginação literária e a simpática política.

Há outras notas, com relação aos Pretendentes. Em 16 de julho:

“O conde de Chambord representa a teoria de que a política é uma arte religiosa, e um reinado uma espécie de monumento das crenças de uma época. A concepção de que governar é um ato religioso, como o de confessar, e tem um fim religioso, destrói toda liberdade de pensamento. Um homem pode fazer da sua vida uma forma de arte, mas não da vida de todo mundo, que quer viver a seu modo. A política, se é uma arte, não é arte ascética, religiosa – nem mesmo no seu período hierático. A política, arte religiosa, converte em crime de sacrilégio o menor ato de liberdade individual.”

Em 30 de julho: “Estive a pensar nos Pretendentes. O appel au peuple é feito pelo candidato respectivo às rãs, e a prova real é tirada por outro, que apela também para elas. A tudo elas respondem: couac”.

“Julho, 5. A posição do presidente Hayes é a mais singular que já se viu neste país. Ele chegou ao poder por fraudes eleitorais sem exemplo, empurrado até a Casa Branca pelos carpet-baggers do Sul e wire-pullers do Senado, depois de uma campanha de que os empregados públicos fizeram os gastos: deve, assim, a sua eleição, ou, melhor, o seu posto, a um sem-número de politicians de todos os matizes, desde os fabricadores de atas falsas até os juízes da Corte Suprema, que as apuraram. Chegando ao poder, porém, tem vergonha de tudo isso e torna-se ele o representante da pureza administrativa e eleitoral. Os últimos carpet-baggers do Sul, com a amputação da membrana que os ligava ao presidente eleito com eles e por eles, desaparecem para sempre da cena política. Os politiquistas são enxotados, os senadores snubbed; os empregados públicos, senhores da máquina eleitoral e que se cotizavam para a eleição solidária, intimidados a mudar de vida e a não subscrever mais um cent. De tudo isso se conclui que Hayes, assim como não quer outra vez ser eleito, entende que ninguém mais deve ser eleito presidente como ele foi. Poucos homens teriam feito tão bom uso de um poder tão mal adquirido. Isto resgata quase a falta de coragem cívica que o levou a aceitá-lo.”

“Julho, 19 e agosto 9. Não se pode dizer deste país que tenha ideal. É o país prático por excelência, e que tem a admirável qualidade, se bem ou mal, governa-se a si mesmo. Não lhe falta manhood, mas tudo nele preenche um fim material. O americano é, acima de tudo, um homem positivo, em cuja vida a metafísica tem pequena parte, reconhece a cada instante que a vida é um business, que é preciso um lastro para não afundar nela; põe a arte, a ciência, a cultura, a polity, depois do que é essencial, isto é, do dollar, indo sempre ahead como a locomotiva, tratando a mulher com o maior respeito, mas na vida prática como uma obstruction, por isso entregando-a a ela mesma, ambicionando, acima de tudo, a riqueza de um grande operator de Wall Street, depois a influência de um boss, insensível à inveja, à má vontade, ao comentário, a tudo o que em outros países emaranha, complica e, às vezes, inutiliza grandes carreiras; nunca procurando o prazer para si, dando-os aos hóspedes em sua casa, como se dão brinquedos às crianças, superior às contrariedades, sóbrio de dor, calmo na morte dos seus, e tratando a própria apenas como uma questão de seguro... ‘A vida privada’ aqui é apenas uma expressão conservada do inglês. Todo o homem é um homem público, e ele todo.”

São impressões de simples transeunte. Eu hoje não escreveria dos Estados Unidos que é uma nação sem ideal; diria que é uma nação cujo ideal se está formando. Assim como o inglês trata de adquirir fortuna e independência antes de entrar para a Câmara dos Comuns, dir-se-ia que a nação americana trata de crescer, de povoar o seu imenso território, de chegar ao seu completo desenvolvimento, her full size, para depois fazer falar de si e pensar no nome que deve deixar. Até hoje os Estados Unidos têm feito vida à parte e se tem ocupado de si só; mas um país que caminha para ser, se já não é, o mais rico, o mais forte, o mais bem aparelhado do mundo, tem, pela força das coisas, que ligar a sua história com a das outras nações, que se associar e lutar com elas.”

“Agosto, 18. Gladstone, por ter atendido às reclamações da guerra civil, é ainda mais impopular no Sul do que na Inglaterra entre os governadores. O tempo em que se assinou o tratado de Washington, era entretanto para o estrangeiro, de perfeita unificação americana. Há entre o Norte e o Sul mais que uma desinteligência política, há reserva tácita de uma má vontade hereditária, um estado de guerra latente.

O que torna os dois grandes partidos nacionais coligações acidentais e impossibilita a unidade de vistas em cada um deles, é a divergência dos interesses dos Estados de Leste, dos pagamentos em ouro e do resgate do papel, com a política dos Estados do Oeste, dos green-backs; e o Partido Republicano tem que harmonizar a política de intervenção de Grant com a política de Hayes de completo self-government para os Estados do Sul.”

“Julho, 25. As cenas destes últimos dias (a parede das estradas de ferro) dão muito que pensar... Victor Hugo diz que o culpado de terem os comunistas pegado fogo a Paris é quem não lhes ensinou a ler. Cada um dos incendiários, porém, era provavelmente assinante do Rappel. Que povo calmo, o americano! A grande excitação de que se fala, não passa de uma conversa particular do bar-room de um hotel. Nova York está, talvez, a ponto de se tornar o teatro de um riot amanhã, e as autoridades concedem um parque aos comunistas para o seu meeting. tudo fraterniza: a tropa com os strikers, grevistas, os citizens com a mob, e ninguém perde a calma. O pessimista francês não existe neste país de otimistas que dizem sempre: Não haverá nada, e se há: ‘Isto passa logo’, e se dura: ‘Podia ser pior’. A barba do vizinho, de que fala o ditado, não se entende aqui de cidade a cidade, nem de bairro a bairro, mas quase de casa a casa. Os próprios que perdem tudo não acham meio de queixar-se senão de si mesmos.”

“1º de setembro. Há poucos homens em política que prefiram cair por seus princípios a sofismá-los para ficar de pé. O ministro que sustenta a preeminência da Câmara dos Deputados, procurará, se a Câmara lhe for contrária, provar que ela não representa o país e apoiar-se na Câmara alta. Durante o Império, Gambetta não falaria do sufrágio universal com o entusiasmo de hoje, e nenhum bonapartista se submeteria agora, como sob os Napoleões, a um apelo ao povo. No fundo só há duas políticas: a política de governo e a política de oposição.”

“Setembro, 8. Bradley, o juiz da Corte Suprema, que de fato fez a Hayes presidente, tendo sido atacado pelos jornais democratas e acusado de ter mudado de opinião depois de ouvir os diretores do caminho de ferro do Pacífico, entendeu dever justificar-se pela imprensa. Nessa justificação, admitindo a possibilidade de ter expressado a seus colegas durante o processo uma opinião diversa da que deu, ele conta que escrevia razões ora em um sentido, ora em outro, sobre o voto da Flórida, tendo chegado ao voto que deu, depois de muita dúvida. Esta carta a um jornal de Nova York é curiosa em muitos pontos de vista. Um juiz que vacila, que chega a conclusões diferentes durante muitos dias, deveria considerar definitiva a opinião que ocasionalmente predomina em seu espírito no momento de ser tomado o voto? Não será provável, pelo menos possível, que ele mude ainda de juízo, depois de emitido o seu voto, isto é, de irreparável? Por outro lado, essas dúvidas não provarão a sinceridade do processo lógico de investigação, e poder-se-á exigir do juiz que tenha, desde o começo de uma causa, opinião formada: A vacilação quadra menos com a distribuição da justiça, a qual deve sempre proceder de uma convicção inabalável e inabalada, do que a obstinação, que muitas vezes é falta de percepção e exclusivismo de juízo. Quanto à força que a reflexão posterior tem dado em seu espírito ao voto que emitiu, é esse um fenômeno de assentimento de consciência, muito comum na magistratura. Cometido o erro, a inteligência o toma como verdade, porque é o interesse do bom nome do juiz.”

“Setembro, 4. Thiers morreu ontem. Por toda a parte a notícia vai produzindo a mesma impressão. Pobre França! é o que se exclama. A perda é irreparável. O leme fica sem homem. A confiança que a Europa toda tinha no velho conselheiro da França não acha a quem se entregar... O último em França dos grandes homens do passado não nomeou sucessor...”

“Setembro, 11. Muito se tem dito sobre as mudanças de Thiers. Quando se procura saber por que esse pequeno marselhês, nascido pobre, sem família, exposto ao ridículo e ao desdém dos seus competidores aristocratas, atravessou tantos governos diversos, sem nunca perder a sua importância política, até vir a ser, na extrema velhice, o Libertador do Território, encontra-se a explicação dessas mudanças. Quando tantos homens de talento, caráter, fortuna e prestígio social representavam o seu papel em um regime e desapareceriam, Thiers era sempre contado como um poder político. Foi seu destino fundar e destruir governos, mas não se pode acusá-lo de se ter divorciado da França em nenhum desses momentos. Mudou sempre com o país. A sua grande mudança final de monarquista para republicano coincidiu com o seu interesse pessoal como primeiro presidente da República, mas coincidiu também com a conversão das classes médias, não ao princípio republicano, mas à idéia de que só a República era possível. Sempre a França, nos seus movimentos liberais, o encontrou ao seu lado. Durante o Império, ele fez uma oposição patriótica, que teria, talvez, evitado Sedan e conservado a dinastia, se o não considerassem orleanista. Quando concorreu para colocar Luís Filipe no trono, o pensamento era que uma Monarquia republicana dispensava a República. A fraqueza da Monarquia de 1830 foi que o princípio da hereditariedade a minou desde o começo. Luís Filipe destruiu o direito divino para subir, e depois, quis servir-se dele para durar, transformando-o em bom senso, princípio de autoridade etc. O que faz a unidade da carreira de Thiers, é que ele foi sempre pelo governo parlamentar, pelo direito popular representado nas assembléias legislativas. Por esse princípio renunciou à presidência da República em mão suspeitas. O segredo da sua fortuna política consistiu em guardar fidelidade à França.

Muitas vezes um país percorre um longo caminho para voltar, cansado e ferido, ao ponto donde partiu. É possível que a França volte ainda à Monarquia legítima, e se Thiers tivesse vivido mais tempo e a República trouxesse novas desgraças para a França, como a Comuna, talvez fosse o mesmo Thiers quem entregasse a França ao herdeiro dos seus reis. Mesmo assim, quando a França comparar os dois tipos de estadistas; Berryer, que não mudou nunca, fosse por uma convicção monárquica sempre renovada, fosse por um cavalheirismo digno do seu caráter, e ficou sempre no mesmo lugar à espera de que a França voltasse aí, e Thiers, que a acompanhou nas suas vicissitudes, eu acredito que ela se reconhecerá a si mesma no homem que encontrou sempre como seu conselheiro, que por vezes mudou para ficar ao lado dela e poder valer-lhe com a sua consumada experiência nos dias em que viesse a precisar de uma palavra amiga.”

Ao reler hoje esta página do meu diário de 1871, vejo que a minha explicação da unidade da carreira política de Thiers se parece muito com a que, há alguns anos, foi publicada de Talleyrand, justificando-se em suas Memórias de só ter mudado com a França e por causa da França.

Esses trechos mostram que em Nova York eu não me achava sob influência americana, mas que continuava em mim a influência européia e eu era o espectador, que tinha sido em Londres, quase desinteressado da política, desinteressado pelo menos de toda a política que não pudesse converter em assunto literário, ou em nota crítica e observação. Agora direi a minha impressão geral dos Estados Unidos, o que é hoje a minha idéia da democracia na América.