Não é mel para boca de asno/II

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Não é mel para boca de asno por Machado de Assis
Capítulo II


Imaginamos que a leitora já está curiosa por saber o que queriam dizer os repetidos olhares de Meneses atravessando a praça da Constituição, olhares que não estão de acordo com a recusa de não ir ver as moças.

Para satisfazer a curiosidade da leitora, convidamo-la a entrar conosco em casa de Pascoal Azevedo, pai de Luísa e Hortênsia, dois dias depois da cena que narramos no capítulo anterior.

Pascoal Azevedo era chefe de seção em uma secretaria de Estado, e com esse ordenado e mais os juros de algumas apólices sustentava a família, que se compunha de uma irmã velha e das duas filhas.

Era um homem folgazão, amigo da convivência, mas modesto no trato e na linguagem. Não dava banquetes nem bailes; mas gostava que a sala e a sua mesa, despretensiosas ambas, estivessem sempre tomadas de alguns amigos.

Entre as pessoas que lá iam notavam-se Meneses e Marques.

Marques, logo no fim de dois meses, conseguiu fazer-se objeto de um amor grande e sincero. Hortênsia queria doidamente ao rapaz. Pede a fidelidade histórica que se mencione uma circunstância, e vem a ser que Marques já era amado antes que amasse.

Uma noite reparou ele que era objeto da preferência de Hortênsia, e desta circunstância, que lhe lisonjeou o amor-próprio, começou-lhe o amor.

Marques era, então, e continuou a ser, amigo de Meneses, com quem não tinha segredos, um pouco por confiança, um pouco por estouvamento.

Uma noite, pois, ao saírem de casa de Azevedo, Marques disparou estas palavras à cara de Meneses:

— Sabes de uma coisa?

— O que é?

— Estou apaixonado pela Hortênsia.

— Ah!

— É verdade.

— E ela?

— Igualmente; morre por mim. Sabes que eu conheço as mulheres, e não me engano. Que dizes?

— Que hei de dizer? Digo que fazes bem.

— Tenho até idéias sérias; quero casar-me.

— Já!

— Pois então! Eu sou homem de resoluções rápidas; nada de esfriar. Somente, não quero dar um passo destes sem que um amigo, como tu, o aprove.

— Oh! eu, disse Meneses.

— Aprovas, não?

— De certo.

Nisto ficou a conversa entre os dois amigos.

Marques foi para casa na firme intenção de envergar a casaca no outro dia, e ir pedir a moça em casamento.

Mas como no intervalo meteu-se o sono, Marques acordou com a idéia de adiar o pedido até alguns dias depois.

— Por que motivo precipitarei um ato destes? Reflitamos.

E entre esse dia e o dia em que o vimos entrar na casa do Rocio, havia o espaço de um mês.

Dois dias depois, amiga leitora, encontramos os dois amigos em casa de Azevedo.

Meneses é de um natural taciturno. Enquanto todos conversam animadamente, ele apenas solta de quando em quando um monossílabo, ou responde com um sorriso a qualquer dito chistoso. A prima das Azevedos chamava-o tolo; Luizinha apenas lhe supunha desmedido orgulho; Hortênsia, mais inteligente que as duas e menos estouvada, dizia que ele era um espírito severo.

Esquecia-nos dizer que Meneses tivera algum tempo o sestro de escrever versos para os jornais, o que lhe arredou a estima de alguns homens sérios.

Na noite em questão, acontecia uma vez achar-se Meneses com Hortênsia à janela, enquanto Marques conversava, com o velho Azevedo, sobre não sei que assunto do dia.

Meneses já estava à janela, com as costas para a rua, quando Hortênsia chegou-se a ele.

— Não tem medo do sereno? disse-lhe ela.

— Não tenho, disse Meneses.

— Olhe; sempre o conheci taciturno; mas agora reparo que é mais do que costumava a ser. Algum motivo há. Há quem suponha que a mana Luizinha...

Este simples gracejo de Hortênsia, feito sem a menor intenção oculta, fez com que Meneses franzisse levemente as sobrancelhas. Houve entre os dois um momento de silêncio.

— Será? perguntou Hortênsia.

— Não é, respondeu Meneses. Mas quem é que supõe isso?

— Quem? Imagine que sou eu...

— Mas por que supôs?...

— Por nada... supus. Bem sabe que entre moças, quando um rapaz está calado e triste, é que está apaixonado.

— Sou exceção da regra, e não sou eu só.

— Por quê?

— Porque eu conheço outros que estão apaixonados e andam alegres.

Desta vez foi Hortênsia quem franziu as sobrancelhas.

— É que para isto de amores, D. Hortênsia, continuou Meneses, não há regra estabelecida. Depende dos temperamentos, do grau de paixão, e mais que tudo da aceitação ou da recusa de um amor.

— Então, confessa quê?... disse Hortênsia vivamente.

— Eu não confesso nada, respondeu Meneses.

Serviu-se neste momento o chá.

Quando Hortênsia, saindo da janela, atravessava a sala, olhou maquinalmente para um espelho que ficava em frente a Meneses, e viu o longo, o profundo, o doloroso olhar que este prendera nela, vendo-a afastar-se.

Insensivelmente olhou para trás.

Meneses mal teve tempo de voltar para o lado da rua.

Mas a verdade estava descoberta.

Hortênsia tinha convicção de duas coisas:

Primeiramente, que Meneses amava.

Depois, que o objeto do amor do rapaz era ela.

Hortênsia tinha um coração excelente. Apenas conheceu que era amada por Meneses, arrependeu-se das palavras que dissera, aparentemente palavras de remoque.

Quis reparar o mal redobrando de atenções com o moço; mas de que valiam elas, quando Meneses surpreendia de quando em quando os belos olhos de Hortênsia pousarem um amoroso olhar em Marques, que andava e falava radiante e ruidoso, como um homem que não tem uma só coisa que exprobrar à fortuna?