Não é mel para boca de asno/VII

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Não é mel para boca de asno por Machado de Assis
Capítulo VII


É inútil dizer que Meneses fizera em Hortênsia, depois da volta desta à casa, a mesma impressão que antes.

A moça compreendeu que era amada por ele, em silêncio, respeitosa, resignada, desesperançadamente...

Compreendeu mais.

Meneses ia poucas vezes à casa de Azevedo; não era como antes, que lá ia todas as noites.

A moça compreendeu a delicadeza de Meneses; viu que era amada, mas que, diante da sua dor, o rapaz procurava esconder o mais que pudesse a sua pessoa.

Hortênsia, que era capaz de delicadeza igual, apreciou aquela no seu justo valor.

Que havia de mais natural que uma aproximação de duas almas tão nobres, tão capazes de sacrifícios, tão feitas para se compreenderem?

Uma noite Hortênsia disse a Meneses que as suas visitas eram raras, que ele não ia lá como antes, o que entristecia a família.

Meneses desculpou-se; disse que os seus trabalhos eram muitos.

Mas as visitas tornaram-se menos raras.

O advogado chegou a conceber a esperança de que ainda podia ser feliz, e procurou abraçar o fantasma da sua imaginação.

— Contudo, pensou ele, é cedo demais para que ela o esqueça.

Tê-lo-á esquecido?

Nem de propósito sucedeu que nessa mesma noite em que Meneses fazia esta reflexão, uma das pessoas que freqüentavam a casa de Azevedo soltou imprudentemente o nome de Marques.

Hortênsia empalideceu; Meneses olhou para ela; viu-lhe os olhos úmidos.

— Ainda o ama, disse ele.

Nessa noite Meneses não dormiu. Vira desfeita, num instante, a esperança que chegara a manter no seu espírito. Era inútil a luta.

Não escapou à moça a impressão que causara em Meneses a sua tristeza ao ouvir falar em Marques; e vendo que ele outra vez rareava as suas visitas, compreendeu que o moço estava disposto a sacrificar-se.

O que ela já sentia por ele era estima e simpatia; nada disso, nem isso tudo forma o amor. Mas Hortênsia tinha um coração delicado e uma inteligência esclarecida; compreendia Meneses; podia vir a amá-lo.

Com efeito, à proporção que os dias se passavam, sentia ela que um novo sentimento a impelia para Meneses. Os olhos começaram a falar, as ausências já lhe eram dolorosas; estava no caminho do amor.

Uma noite achavam-se os dois na sala, um pouco isolados dos mais, e com os olhos fixos um no outro, esqueciam-se de si.

Caiu o lenço da moça; ela ia apanhá-lo, Meneses apressou-se também; os dedos de ambos encontraram-se, e como se fossem duas pilhas elétricas, aquele contato fê-los estremecer.

Não disseram nada; mas tinham-se entendido.

Na seguinte noite Meneses declarou a Hortênsia que a amava, e perguntou-lhe se queria ser sua mulher.

A moça respondeu afirmativamente.

— Há muito tempo, disse ele, que eu a trago no meu coração; tenho-a amado em silêncio, como entendo que se devem adorar as santas...

— Sei, murmurou ela.

E acrescentou:

— O que eu lhe peço é que me faça feliz.

— Juro-lhe!

No dia seguinte Meneses pediu a mão de Hortênsia, e um mês depois eram casados, indo gozar a lua-de-mel em Petrópolis.

Dois meses depois do casamento desembarcava do Rio da Prata o jovem Marques, sem a Sofia, que lá ficara depenando os outros Marques de lá.