Noções Elementares de Archeologia/II

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Noções Elementares de Archeologia por Joaquim Possidónio Narciso da Silva
Capitulo II: Era gallo-romana


Era gallo-romana[editar]

Entreapparece-nos um dos mais amplos horisontes da historia dos povos occidentaes na conquista do imperador romano Cesar. Nos Commentarios d'este grande general temos perfeita idéa do estado da Gallia na época da conquista; conhecem-se tanto os grandes factos que consumou, quanto se inferem as consequencias que d'elles advieram á civilisação.

Cesar encontrou a Gallia dividida em tres nações principaes: os Belgas, os Celtas e os Aquitanios.

O imperador Augusto, que pretendeu organisar o governo regular nos paizes conquistados, formou tres novas provincias d'essas tres regiões.

Segundo esta divisão, foram desannexados e encorporados na Aquitania 14 povos da Celtica; além de dois que passaram do Norte para a Belgica. Assim ficou modificado o territorio dos primitivos povos d'esta parte da Europa.

Vias de communicação

Começaremos a nossa revista dos monumentos da grande época romana, descrevendo as vias publicas ou as grandes estradas; tanto mais que foram as primeiras obras que o povo rei executou e de que nos deixou vestigios.

As cidades e as estancias eram accessiveis por meio de estradas solidas, ou calçadas. Nos intervallos que separavam estes estabelecimentos uns dos outros, é que principalmente se encontravam vestigios das vias romanas. Seguiam em geral linhas rectas, excepto quando obstaculos naturaes, como as montanhas, os barrancos profundos, as lagôas, se oppunham a isso, e prolongavam-se tanto quanto possivel nas planicies, afim de evitar os terrenos pantanosos.

Além das estradas principaes, que communicavam uma cidade com outra, havia os caminhos vicinaes, viae vicinales, que conduziam ás aldeias, e estabeleciam relações entre estas e as cidades. Não eram alinhados como as primeiras, nem feitos com egual esmero.

Nas estradas mais bem executadas, a primeira camada, ou a mais funda, compunha-se de pedras collocadas em raso, ás vezes assentes com argamassa, mas em geral postas simplesmente umas sobre as outras: era o que chamavam statumen. Em algumas vias, as pedras do statumen eram postas de cutello e com inclinação, como explicaremos quando fallarmos das paredes construidas em espinha de peixe.

A largura ordinaria das vias romanas era de 15 a 20 pés. As bordas das partes alteadas não se conservam em muitas localidades; arruinaram-se por modo que não apresentam hoje sufficiente largura para um carro poder passar; e em certos pontos aproximam-se mais de um fôsso, que de uma estrada.

Os caminhos romanos atravessavam os rios sobre pontes, e vaus calçados. Em grande numero de localidades, encontram-se os alicerces das pontes, ou dos vaus, debaixo da agua, seguindo a directriz das antigas vias. Em certos casos o trilho era estabelecido sobre travessas de madeira.

Columnas itinerarias.—Os caminhos romanos eram divididos por marcos situados em espaços regulares, e com inscripções que indicavam o numero de leguas ou de milhas, comprehendido entre as diversas povoações.

As capitaes serviam de ponto central para marcar as distancias em todo o territorio.

Os marcos milliares tinham 5 a 6 pés de altura; eram de fórma cylindrica; chamavam-se milliares, milliaria, ou simplesmente lapidas.

D'aqui provem as phrases tão frequentes nos auctores antigos, ad primum, secundum, tertium lapidem, a primeira, a segunda e a terceira pedra, ou só ad primum, secundum, tertium, etc. ficando subentendido lapidem ou milliarium.

A segunda camada, chamada ruderatio, era formada de pedras britadas de dimensão menor que as anteriores.

A terceira camada, nucleus, compunha-se, ora de cal misturada com fragmentos de telha pisados, ora de areia misturada com argila.

Figura 26: Columna milliar que existe em França

Seixos inteiros, apertados uns contra os outros, ou postos simplesmente em leito de areia grossa, glarea, formavam a quarta e ultima camada, chamada summa crusta.

Era excepcionalmente nas cidades, aldeias ou nos paizes pantanosos, que formavam a summa crusta com calçada de pedras cubicas ou polygonaes irregulares.

Em geral, serviam-se para estes trabalhos dos materiaes que encontravam na localidade, ou a pequena distancia; sómente os mandavam buscar mais longe quando eram de má qualidade no terreno das obras.

Em muitas partes, as vias antigas foram alteadas do solo, e um agger servia de base á calçada. Estes caminhos alteados conservam ainda o seu nivel superior em espaços muito extensos, e são faceis de reconhecer.

As estradas antigas eram tambem cavadas, como se as preparassem para o leito de um rio. As excavações em algumas partes podiam ser consequencia do uso prolongado de viandantes e vechiculos; porém, em outras, foi visivelmente praticado com o fim de tornar mais suaves as subidas muito ingremes.

Figura 27: Torre de Pirelonge

O uso das columnas milliares data do anno 183 antes da era christã. Foi determinado em lei proposta por C.S. Graccho, e depois ampliada ás provincias do imperio.

As inscripções collocadas n'estas columnas foram primitivamente laconicas; indicavam apenas o numero de milhas comprehendidas de uma a outra localidade. Augusto foi o primeiro que mandou gravar os seus nomes e qualificações nos marcos levantados por sua ordem, e os successores seguiram-lhe o exemplo.

Pyramides.—As vias romanas não eram sómente guarnecidas pelas columnas itinerarias; aos seus lados viam-se tambem torres massiças, ou pyramides, ora circulares, ora quadradas.[1]

Consideravam-se essas pyramides como tumulos; mas a maior parte parecia terem sido levantadas para ornar os caminhos, ou antes dedicadas a Mercurio, como deus protector das estradas, das artes, e do commercio. Em algumas d'ellas abriam especies de nichos que deviam receber a estatua de Deus.

Formavam-se taes construcções de bases quadradas de alvenaria, que sustentavam uma serie de grandes pedras de cantaria; o remate apresentava a configuração conica, tendo a superficie coberta de entalhos sobrepostos, representando folhas de arvores em camadas. A torre de Pirelonge, em França, de 74 pés de altura, é um especimen d'este genero.

Mansão.—Encontravam-se nas estradas mansões, ou pousadas, mais especialmente destinadas para o serviço dos correios, e para os que viajavam com auctorisação do imperador. Eram administradas por uns funccionarios chamados mancipes, cathegoria pouco mais ou menos egual á dos nossos directores do correio. Os logares das mudas de menor importancia e situadas com pequenos intervallos, chamavam-se mutações. Denominavam-se emfim diversoria as casas construidas ao longo das estradas, quer pertencessem a proprietarios que hospedavam ahi os seus amigos, quer recebessem viajantes como os nossos hospedeiros.

As principaes estradas romanas tinham a classificação de publicas ou militares, consulares ou pretorianas, e os caminhos menos frequentados designavam-se com os nomes de particulares, agrarios ou vicinaes.

Architectura[editar]

Os romanos imitavam na sua architectura os Etruscos e os Gregos, porém foram menos cuidadosos na pureza das formas, do que no aspecto grandioso; e preferiram á formosura monumental o effeito da apparencia e da utilidade; portanto, procuravam sempre adpotar um systema que lhes desse logar a utilisar nas obras publicas o trabalho dos soldados, e dos escravos, dirigidos sómente por limitado numero de architectos ou engenheiros. Comprehendiam que era poderoso meio de dominação dotar o paiz vencido com os monumentos que não possuissem, introduzir em toda a parte a civilisação, transmittindo aos subordinados as vantagens, as instituições e os estabelecimentos uteis, dos quaes estavam até então privados.

Figura 28: Pequeno aparelho, e de espinha como está construido o monumento romano de Theséo

Em logar, pois, de empregar, como os Gregos, materiaes de extraordinaria dimensão, e por consequencia difficies de se ajustarem, preferiam, salvo em casos excepcionaes, pôr em obra materiaes de pequena dimensão, alvenaria, tijolos reunidos entre si por abundante argamassa.

Um grande facto architectonico, como foi a adopção da abobada cylindrica composta de peças em forma de cunhas, fez com que pudessem afastar-se do systema da edificação grega, no qual dominavam as architraves e os apoios verticaes. Com a abobada e as arcadas de volta perfeita, de que os romanos tiravam tão vantajoso resultado, effectuaram-se notaveis construcções, que não se deveram nunca ao genio dos gregos.

Pequeno apparelho.—As paredes de pequeno apparelho, o modo de construir mais habitualmente empregado, tem as faces formadas de pedras symetricas, quasi quadradas, e cuja face não tem mais de 3 a 4 pollegadas e raras vezes de 5 a 6. O centro da parede mostra um massiço de alvenaria irregular feito com pedra miuda imbebido de cimento.

Notam-se em varias construcções, de pequeno apparelho, zonas horisontaes e continuas de grandes tijolos, destinados a sustentar o nivel das pedras pequenas do refôrço da alvenaria. Estas zonas compôem-se geralmente de dois ou tres, e tambem de cinco, seis ou sete fileiras de tijolos separados por camadas de cimento, cuja espessura é quasi egual á dos tijolos.

Os romanos dispozeram tambem as pedras com o feitio de folhas de fetos, ou em espinhas, como se vê na gravura da pagina anterior.

A argamassa era sempre applicada com grande espessura entre as pedras e nenhuma das quaes estava em contacto immediato, mas de certo modo imbebidas no cimento.

As dimensões dos tijolos variavam muito para poder indicar-se absolutamente a mais usual; comtudo era entre 14 a 15 pollegadas de comprimento por 8 a 10 de largura; mas havia maiores, e até alguns mui pequenos.

Apparelho reticular.—Os architectos romanos empregavam egualmente a obra articulada, ou alvenaria em forma de malhas, differente do pequeno apparelho ordinario, por que as pedras do revestimento eram cortadas com esmero, de tamanhos eguaes, e collocadas de modo que as juntas apresentavam linhas diagonaes, simelhando uma rede. Este genero de reforço de alvenaria empregavam-no geralmente como ornamento, pois não se encontra applicado exclusivamente, mas quasi sempre combinado e intercalado com o pequeno apparelho.

Figura 29

As paredes do grande apparelho encontram-se nos mais importantes e grandiosos edificios, como os templos, os arcos de triumpho, os theatros, etc.

Argamassa e cimento.—As argamassas dos romanos compunham-se de cal viva e de areia, e frequentemente de tijolo pizado, em proporções variaveis, e que seria difficil determinar. A presença do tijolo pisado distingue-se de quasi todas as que depois foram empregadas. Todavia encontram-se tambem argamassas romanas que não contem nenhuma parcella de tijolo, assim como não apresenta nenhum caracter particular.

Ordens.—chama-se Ordem a combinação de diversas partes salientes dispostas, com proporções fixas, para compôr um conjuncto regular e harmonico de ornamentação das fachadas dos edificios importantes.

Divide-se uma ordem de architectura em tres partes, ou membros, que são pedestal—columna—e um entablamento. Cada membro divide-se em tres partes d'este modo:

Primeiro membro ou pedestal
Base
Soco
Cornija
Segundo membro ou columna
Base
Fuste
Capitel
Terceiro membro ou entablamento
Architrave
Friso
Cornija

Os romanos empregavam cinco ordens:

A Toscana.
A Dorica.
A Jonica.
A Corinthia.
A Composita.

A Dorica, a Jonica e a Corinthia, eram de origem grega.

A Toscana e a Composita nasceram na Italia.

É por isso que se designam algumas vezes as tres primeiras sob a denominação ordens gregas, e as duas outras sob a de ordem latina.

Nas ordens Toscana, Dorica, Jonica e Corinthia, a columna tem proporções differentes; as da Corinthia e Composita são eguaes.

Eis o quadro d'estas proporções conforme o architecto Vignola, que é o auctor mais seguido pela simplicidade das subdivisões:

A altura da columna vem a ser para a ordem:
Toscana, de 7 vezes.
Dorica, de 8 idem.
Jonica, de 9 idem.
Corinthia, de 10 idem.
Composita, de 10 idem.
Do diametro inferior, isto é a grossura tomada no fuste junto da base.

Portanto, as quatro primeiras ordens differem nas proporções; a da quinta ordem são eguaes ás da quarta. Os pedestaes e os entablamentos differem tambem nas quatro primeiras ordens.

Em geral, o pedestal tem o terço da altura da columna, e o entablamento a quarta parte, conforme o auctor citado.

O modulo é medida convencional que serve de escala para desenhar as ordens; é sempre a metade do diametro inferior do fuste da columna, o qual se divide em 12 partes para as tres primeiras ordens, e em 18 partes para as duas ultimas.

Toscana
A menos elevada e a mais simples das cinco Toscana ordens.
Cornija sem modilhões, nem denticulos.
Dorica
Modilhões, denticulos ou mutulos na cornija, triglyphos no friso, gottas na architrave.
Capitel da mesma forma que o da Toscana, porém um pouco mais ornado, caneluras ou estrias no fuste.
Jonica
Capitel com volutas, cornija ornada de Jonica denticulos.
Architrave dividida em três platebandas ou faixas.
Figura 30: Fachada d'um templo Dorico
Figura 31: Dorico
Figura 32: Jonico
Figura 33: Corinthio
Corinthia Capitel ornado de dois renques de folhas de acantho e dezeseis volutas.—Dois renques de denticulos e um de modilhões na cornija.—Architrave dividida em tres platebandas ou faixas por baguetas ornadas de molduras.
Composita Capitel imitando o das Ordens Corinthia e Jonica.—Cornija com denticulos.—Duas platebandas ou faixas na architrave.
Figura 34: Portico da Ordem Toscana'

As columnas não são sempre applicadas para decoração dos edificios; substituem-se ás vezes por pilastras, que, sem ter o aspecto gracioso das columnas, produzem não obstante um effeito agradavel á vista. As pilastras tem em geral pouca saliencia, não excedendo a mais da metade da largura; e não se lhes diminue o diametro da parte superior do fuste, como acontece ás columnas.

Eis a disposição de um portico da ordem Toscana: quando se collocam muitas ordens de columnas ou pilastras em um edificio, é preciso que as Ordens mais delicadas fiquem sobrepostas ás mais solidas: portanto, não se collocam nunca as columnas Toscanas sobre as columnas Jonicas, e se o architecto empregar a Jonica, ou a Corinthia, seguirá a regra de sobrepôr a segunda á primeira.

Não julguemos que a architectura antiga está representada pelas cinco ordens classificadas e regularisadas pelos insignes architectos italianos do Renascimento das artes. Ficaremos muito surprehendidos quando, examinando os restos da architectura romana existentes nas antigas cidades, particularmente na Italia, e n'este paiz em especial Roma, virmos que não differem, quasi em parte alguma, na rigorosa similhança, as cinco celebres Ordens desenhadas e medidas por Vignola, Palladio, Serlio, Scamozzi e outros architectos illustres. Pelo contrario, os typos principaes da architectura antiga apresentam infinita variedade, que augmenta nos edificios cuja data se aproxima dos ultimos tempos do imperio, a tal ponto que vem a ser realmente mui difficil determinar a Ordem a que pertencem taes ou taes entablamentos, capiteis, bases, columnas, etc.

Os capiteis, principalmente, apresentam diversidade de formas e ornamentações, que será baldada a classificação rigorosa; mostram todavia na composição riqueza e delicadeza de cinzel, sobejamente notaveis; observando-se pelo conhecimento dos effeitos pittorescos, produzidos no claro-escuro, o esmero do trabalho. As partes em relevo são conservadas com acerto e habilmente executadas.

Os architectos modernos, creando typos unicos sob a denominação de cada uma das Ordens; desejando subordinar tudo a esses typos, privaram-se de produzir combinações graciosas, em quanto os artistas do estylo romano, engenhosos e fecundos, tiravam partido da liberdade de composição, enriquecendo a architectura em que reproduziam as formas, não punham peias á imaginação, e evitavam executar obras monotonas, pobres e sem attractivos, como succede em muitas presentemente levantadas.

Os edificios publicos e muitas casas particulares eram durante a dominação romana, revestidas de marmore, ou de cimento e cal; e algumas tinham mosaicos, e aqueciam-n'as por meio dos hypocaustos.

Os mosaicos[2] antigos, dos quaes se tem encontrado repetidamente fragmentos em localidades hoje inhabitaveis, compõem-se de pequeninas peças cubicas imbebidas em especie de massa e assentes em cimento misturado com tijolo moido.

Figura 35

Estas pequenas peças de diversas cores eram combinadas de maneira que formavam differentes desenhos. Alguns mosaicos representavam combates de animaes e outras scenas.

A mais importante descoberta feita em Portugal foi a que fizemos perto de Leiria, em 1874, de um mosaico de cinco côres e com difficeis combinações de linhas geometricas, pertencente a uma villa rustica romana.

Hypocaustos.—Os hypocaustos, estabelecidos no pavimento terreo das habitações romanas, eram empregados como os caloriferos modernos.

Para formarmos idéa exacta do hypocausto, é preciso figurarmos um sobrado levantado quasi a 2 pés acima do solo, e sustentado sobre pequenos pilares A de egual altura, distantes uns dos outros 1 pé, por meio dos quaes o calor circulava e aquecia por egual o piso que cobria esta especie de subterraneo. Os pilares dos hypocaustos eram geralmente quadrados, compostos de tijolos de 7, e 8 ou 10 pollegadas de comprimento, uns sobre os outros, com o intervallo de uma camada de argamassa.

Figura 36

Os pilares do hypocausto recebiam grandes tijolos de 18 a 20 pollegadas em quadrado B, formando a base do pavimento das habitações.

Em muitas localidades, os tijolos eram sobrepostos de modo que apresentavam o cimo menos largo que a base.

O calorico não ficava concentrado no subterraneo onde estava o hypocausto: circulava nos pontos mais elevados, e entrava egualmente em todas as partes da atmosphera das salas, passando dor tubos quadrados de barro cozido 4 e 5, introduzidos na grossura da parede, 3 e 3, gravura de pag. 46 [fig. 37], um dos quaes, em posição vertical, penetrava no hypocausto, emquanto outros, collocados horisontalmente, circumdavam os aposentos.

O lume que aquecia o hypocausto era acêso n'um forno posto em pequenos pateos ou vestibulos proximos do hypocausto.

Embutidos e ornamentos.—O marmore foi frequentemente empregado para a decoração das paredes.

Em geral, os architectos romanos souberam tirar grande partido dos materiaes que fornecia o paiz em que se faziam as obras.

Não era raro vêr entrar em combinação os materiaes indigenas com os exoticos mais preciosos, taes como o porphyro, os marmores cipolino, os ophitos, etc., etc.

O uso de pintar as paredes era tão geral que as simples construcções em taipa e os tectos revestidos de barro tambem recebiam essa ornamentação. A pintura era applicada sobre delgado guarnecimento de cal.

Os methodos usados pelos romanos para a pintura das paredes são-nos imperfeitamente conhecidos. Comtudo, um d'elles consistia em applicar com a broxa cera colorida e derretida, estendendo-se ainda quente nas paredes.

Figura 37: Tubos verticaes (4 e 5) para circular o calor, mettidos nas paredes

A cêra não era empregada só, mas misturavam-n'a com azeite para a tornar mais liquida: todavia, a maior parte d'essas pinturas parece ter sido assente a frio, e a sua adherencia seria produzida, talvez, por uma especie de colla que lhe ajuntavam.

As paredes e os tectos eram tambem em algumas habitações revestidos de mosaicos de vidro preto, azul, branco, verde escuro, etc., decorações que se encontravam em muitas salas de banhos.

Plinio diz-nos que empregavam o vidro nos mosaicos das abobadas e das paredes, advertindo que este uso era recente, comparativamente com o dos mosaicos de pedra ou barro cozido. Achâmos na villa rustica romana, descoberta por nós em Leiria, duas casas com mosaicos d'este ultimo modo, e outra de argila cozida.

Telhas e telhados.—Os telhados das casas romanas eram formados de telhas chatas de grande dimensão, mais compridas que largas com um resalto sobre os dois lados: assim como havia telhas curvas similhantes ás dos telhados modernos.[3] As primeiras adaptavam-se umas ás outras pelas extremidades que não tinham resalto; as segundas ligavam-se entre si no sentido da inclinação do telhado, ficando em fiadas parallelas as telhas chatas e para cobrir as juntas e evitar a infiltração das aguas da chuva.

Os fragmentos das telhas com resalto tem resistido quatorze seculos á acção destruidora dos elementos, e das pancadas do arado; encontram-se espalhados e enterrados em grande quantidade em quasi todos os logares onde existiram construcções romanas.

Em fim, estes restos são o melhor indicio para o reconhecimento das regiões antigamente occupadas pelos romanos.

Pontes

As pontes, obra de tamanha utilidade, tornam-se mui notaveis pelas suas ousadas dimensões. Existem presentemente poucos vestigios d'ellas: o maior numero ficou destruido, pela força das correntes, ou reconstruido em diversas épocas e alterado na primitiva construcção. Podemos apenas citar poucas das compostas na época romana.

Nas pontes, como em outros monumentos gallo-romanos e luso-romanos, empregou-se o grande apparelho, e muitas vezes de alvenaria com argamassa (empleton) revestido de pequenas pedras symetricas (opus incertum).

Figura 38: A ponte de S. Chamas, e as suas duas portas monumentaes

Quando usavam os materiaes de grande dimensão, as pedras ficavam prezas umas ás outras com os cancros de ferro ou de bronze, e algumas vezes com malhetes de madeira de oliveira, previamente secca no forno.

Nas pontes construidas com pequeno apparelho a boa qualidade da argamassa dava-lhes tal solidez, que os pegões que sustentavam os arcos não soffreram depois nenhuma alteração.

Os pegões apresentavam algumas vezes, do lado da corrente, uma parte saliente triangular, para cortar assim a força da agua; e se o rio tinha demasiada extensão, acontecia então dividil-o em muitos braços, afim de construir a ponte em secções. D'este modo corrigia-se a rapidez dos rios pela divisão das aguas, e tornava-se menos difficil a construcção das pontes. Na idade media foram imitadas.

As pontes construidas com mais esmero e regularidade eram ás vezes verdadeiros monumentos, que serviam tambem para aformoseamento. Algumas tinham portas monumentaes ou arcos de triumpho.

Pontes de madeira.—Tratámos das pontes de pedra, porque só estas poderiam subsistir até os nossos dias; mas, durante o dominio dos romanos, tinham elles egualmente grande numero de pontes construidas de madeira.

Passava-se tambem os rios servindo-se de barcos de passagem, com jangadas sustentadas em odres ou tonneis vazios, como é usado ainda hoje em casos urgentes. Havia tambem pontes firmadas em barcos, como se vê figurado na columna de Trajano em Roma.

Muralhas e caes.—Os caes ou as grandes muralhas de supporte, construidas nas margens dos rios, vinham ligar-se ás pontes, quando estas existiam nas cidades.

Aqueductos

Os aqueductos, pela sua consideravel extensão e a importancia das ruinas que se conhecem em differentes pontos, offerecem interesse especial.

Os romanos, como todas as nações civilisadas, gastavam grande quantidade de agua para os usos domesticos; sendo muito escrupulosos na boa qualidade da agua, embora a fossem buscar a grandes distancias para os centros da povoação, empregando para esse fim canaes ou aqueductos.

Figura 39: Restauração de um aqueduto em siphão

Os aqueductos antigos que ainda existem, como os que possue a Italia, e os vêmos em outras partes, apresentam os canos de alvenaria feitos com mais ou menos solidez, e mais ou menos cuidadosamente betumados. Serviam-se geralmente das pedras de pequenas dimensões, embebidas na argamassa. Os canos, sendo proporcionados ao volume de agua que deviam levar, eram formados com abobada em volta perfeita, se ás vezes cobertos com grandes lageas assentes e sobrepostas sem cimento.

Para se obter o nivel das encostas que se encontravam na juncção dos encanamentos, faziam-n'os passar então sobre arcos mais ou menos elevados, que reuniam os dois lados do valle; outras vezes sobrepunham-se dois ou tres renques de arcos, com receio de que a demasiada altura dos pilares lhes diminuisse a solidez.

Quando o valle era muito profundo, para por este meio poder firmar-se o encanamento do aqueducto em nivel conveniente, conduziam a agua em tubos de chumbo que subiam até o cume da collina opposta, onde a agua pudesse seguir a sua corrente natural, conforme Vitruvio descreve mui claramente no seu 8.º livro de architectura.

Figura 40: Canal subterraneo do aqueducto
Figura 41: Canal de aqueducto sustentado sobre arcadas
Figura 42: Vista geral da ponte do Gard

Para evitar trabalhos sempre difficies e dispendiosos, faziam seguir aos encanamentos subterrâneos, rodeios, ou sinuosidades, e por esta maneira as aguas podiam transpôr grandes espaços sem encontrarem encostas, e sem ficarem impedidas pelos obstáculos das montanhas.

Os aqueductos eram todavia mais communs soterrados, e só apparentes nos valles, onde necessariamente os canos passavam sobre paredões ou arcarias.

Os encanamentos que distribuiam as aguas nas fontes para os banhos e para outros estabelecimentos publicos e particulares das cidades gallo-romanas, eram feitos de chumbo ou barro. Saiam de um reservatório commum, ou castello de agua, castellum, como se vê um em Évora, do tempo de Sertorio.

A primeira gravura da pag. 51 [fig. 40], mostra o encanamento do aqueducto de Fréjo, um dos mais extensos que subsistem, tal qual se apresenta á vista quando se mantém subterraneo, ou collocado nas encostas das collinas, fig. 41. Este exemplo explica todo o systema empregado pelos engenheiros romanos.

Os aqueductos seguem a construcção egual das obras de arte executadas nos caminhos de ferro, transpôem como ellas os valles sobre viaductos, e atravessam as montanhas por meio de vallas ou tUneis.

Pontes e aqueductos serviam para transpôr os valles, e alguns tinham 90 arcos. A ponte do Gard, em França, era formada de três renques de arcadas sobrepostas, servia para o transito e o ultimo conduzia a agua á cidade, correndo na extensão de 41:000 metros. Indica a gravura da pagina anterior a sua construcção.

O numero dos aqueductos era extraordinario; não só se encontravam nas proximidades das grandes povoações, mas tambem das pequenas, e até junto das casas de campo de limitada apparencia.

Cloacas

As cloacas constituiam outra especie de aqueductos subterraneos para receber as aguas inuteis, ou para as aguas da chuva e immundicies.

Em Roma, estendiam-n'as por toda a cidade, e subdividiam-n'as em muitos ramaes que vinham desaguar no Tibre. O principal cano de despejo, com o qual os outros communicavam era chamado cloaca maxima. Tinha abobadas elevadas construidas com grande solidez, por debaixo das quaes se passava em barcos[4].

Praças publicas

O forum era geralmente uma praça onde se reuniam as assembléas do povo, onde se administrava a justiça e onde se tratavam os negocios publicos. Estava em certas partes rodeado de porticos, edificios e lojas.

Nas cidades de importancia secundaria, onde os porticos não eram repetidos como em Roma, achavam-se principalmente perto dos monumentos publicos, taes como os theatros, as thermas, os palacios, os templos, etc. etc.; collocavam muitas vezes os porticos do forum, por detraz da scena dos theatros, afim de que, conforme diz Vitruvio, quando inopinadamente chovesse durante o espectaculo, o povo pudesse abrigar-se ali.

A forma das praças, ou fora, era a do quadrilongo. Vitruvio affirma que devia ter um terço em comprimento, a mais de um lado que de outro.

Basilicas

A palavra basilica, significa casa real: designava em Roma um edificio sumptuoso dentro do qual os magistrados faziam justiça, por isso a distinguiam do forum, onde as sessões eram celebradas ao ar livre. As basilicas tinham tambem a fórma de um quadrilongo.

Parte dos porticos, interiormente decorados, ficava occupada pelos commerciantes: portanto, estes edificios eram ao mesmo tempo destinados aos negocios forenses, e uma especie de praça de commercio.

Em quanto á disposição das basilicas as primitivas egrejas christãs transmittiram-nos a imitação, e conservaram o nome. As basilicas consistiam pois em vasto recinto, tres vezes mais comprido que largo, dividido em renques de columnas formando muitas naves. Não ha a certeza de que as basilicas fossem rodeadas de paredes por todos os lados; julga-se que algumas eram abertas, pelo menos de um lado, para dar mais facil accesso ao povo, e para que as galerias communicassem melhor com a praça publica.

Não se pode duvidar de que não tivessem existido basilicas nas cidades gallo-romanas; porém seria difficil indicar o sitio que occupariam, porque desappareceram completamente os vestigios.

Arcos de triumpho e portas monumentaes

Os arcos de triumpho, porticos levantados á entrada das cidades, no logar da passagem publica, perto dos forums, diante dos templos, e na cabeça das pontes, etc. etc.; afim de indicar a memoria de uma victoria, de um grande serviço prestado ao imperio, e algumas vezes sem outro intuito mais que o de aformosear as cidades onde se erigiam.

Figura 43: Arco de triumpho

Dá-se tambem esta denominação ás portas das cidades antigas, que apresentavam uma disposição quasi similhante á dos arcos de triumpho. Estes, porém, eram monumentos isolados, formando um só corpo, e não se ligavam ás construções das trincheiras ou muralhas.

Era o contrario do que succedia nas portas da cidade, as quaes não obstante patentearem por vezes nas fachadas grande magnificencia, todavia as extremidades lateraes ficavam encravadas nas muralhas dos recintos fortificados, formando-lhes assim o accessorio ou a ornamentação.

Figura 44: Portas de Santo André em Autun

Entre as portas, a disposição mais seguida era a que a gravura apresenta, copiada da de Santo André de Autun, em França.

Templos

Duas formas eram consagradas para estes edificios religiosos, a quadrilonga e a circular. Seguiam mais geralmente a primeira. Os templos receberam differentes denominações, conforme a disposição das columnas que os decoravam; distinguindo-se pela seguinte maneira:

Os templos com pilastras—Os prostylos, fig. 45.—Os amphiprostylos, fig. 46.—Os peripteros, fig. 47.—O monoptero, fig. 48.—Os pseudo-peripterios, fig. 49.—Os hypetheros, fig. 50.—Os monopteros.

Figura 47: Periptero quadrado
Figura 48: Periptero redondo
Figura 45: Prostylos
Figura 49: Pseudo-Periptero
Figura 50: Hypethreos
Figura 46: Amphiprostylos

Os primeiros não tinham senão pilastras nos cunhaes da frente, e só uma columna de cada lado da porta.

Os templos prostylos apresentavam quatro columnas na face exterior, e não tinham nenhuma aos lados, nem na parte posterior.

Nos templos peripteros, as columnas rodeavam completamente o edificio; sendo em o numero de seis nas fachadas anterior e posterior.

Nos templos pseudo-peripteros differençavam-se dos antecedentes em que as columnas estavam embebidas nas paredes lateraes e na parede do fundo, em logar de ficarem separadas.

Duplo renque de columnas rodeava os templos dipteros, oito das quaes ornavam a fachada.

Finalmente, o templo monoptero apresentava simplesmente a cupula sustentada sobre columnas dispostas em circumferencia; e o santuario não era fechado.

Resulta pois, do que fica exposto, que em todos os templos, excepto nos monopteros, havia uma parte fechada que era o santuario; em muitos templos, corriam em roda d'esse santuario galerias abertas, como especie de porticos para a ornamentação externa do edificio. A parte encerrada era designada sob o nome de cella ou nau. Ahi collocavam a estatua da divindade, em honra da qual o templo fôra erigido.

Na frente da cella, e por detraz das columnas da fachada, estava o pronaus ou vestibulo, no qual abriam a porta da entrada; á extremidade opposta do templo dava-se-lhe o nome de posticum. Algumas vezes reservavam, na parte posterior da cella, um quarto A destinado a guardar o thesouro do templo, e que se designava sob o nome de opisthodomos.

As columnas eram sempre em numero par nas fachadas dos templos; e conforme que se contava quatro, seis, oito ou dez, os templos tomavam a denominação de tetrastylos (4 columnas), hexastylos (6 columnas), octostylos (8 columnas), ou decastylos (10 columnas).

Finalmente, certos templos eram rodeados de uma cerca peribobos ou antecedidos de pateo fechado, e ornados com portico, á roda do qual estavam os aposentos dos sacerdotes.

A estatua da divindade, feita de bronze, marmore, ou pedra, collocava-se no fundo da cella, em pedestal um pouco mais elevado que o altar, e fazia face á porta da entrada. Em geral, os templos ficavam voltados para o oriente.

Figura 51: Fachada da Casa Quadrada de Nimes

Não se deve julgar que os templos fossem muito vastos; alguns d'elles tinham até pequenissimas dimensões, e isso explica-se facilmente pelo conhecimento dos usos religiosos antigos, porque o exercicio do culto era individual; cada um tinha dias proprios para o sacrificio, em quanto, no christianismo, o exercicio do culto é collectivo.

O templo pseudo-periptero hexastylo ha em Nimes (França), da ordem corinthia, o qual serve actualmente para museu de archeologia. A gravura mostra as suas bellas proporções e belleza.

As dimensões e a disposição do templo de Diana, em Evora, apresenta-nos outro exemplo d'esta ordem de edificios do antigo paganismo, que felizmente se conserva em Portugal nas suas magestosas ruinas, como se vê na presente gravura.

Figura 52: Templo de Diana, em Evora

Os templos rectangulares ficavam dispostos como indica a gravura da pag. 60 [fig. 53], rodeados de porticos; no meio d'elles havia o logar da cella e dentro o pedestal para a divindade.

Os templos circulares dividiam-se em duas classes: a primeira chamada monoptero, compunha-se sómente de recinto formado por columnas collocadas em pedestal commum, stylobato; o segundo periptero, apresentava uma cella á roda da qual havia columnas, pousada egualmente sobre um stylobato, com degraus para ganhar a altura do pedestal, e dar entrada para o templo.

Fragmentos achados dos templos antigos, fizeram vêr que as suas esculpturas tinham sido pintadas de branco e amarello com traços encarnados, para dar mais relevo aos contornos.

Não só havia templos nas cidades, mas tambem nos campos. Alguns d'estes eram de grande veneração, pois que serviam de deposito aos mais ricos thesouros, principalmente os dedicados a Mercurio.

Figura 53: Plano do templo rectangular de Izernore (França)

Altares.—Já dissemos em que parte do templo se collocavam as estatuas das divindades; agora nos occuparemos da forma dos altares.

Havia entre elles differença de forma e de materia, proporções e usos.

A maior parte dos que se conservaram até hoje mostra a construcção de marmore ou cantaria simples; havia-os tambem de madeira; mas em menor numero. Os altares de metal apresentavam o feitio de tripode; os altares de marmore ou madeira eram quadrados, redondos, e ás vezes triangulares.

Os ornatos mais usados nos altares antigos eram os que representavam as cabeças das victimas, taças, e outros vasos e instrumentos para os sacrifícios, entrelaçados de grinaldas de flores e folhas[5]. Liam-se em alguns altares inscripções indicando a data da consagração, o nome do fundador, e as razões da devoção. Os mais bellos e custosos tinham ornamentações em baixo-relevo representando a divindade que se queria venerar e os seus attributos.

Figura 54

Costumavam fazer em cima dos altares e no meio d'elles, uma cavidade para receber as libações ou o sangue das victimas.

Alguns altares eram fundados nas encruzilhadas, junto das estradas mais frequentadas, onde depois se ergueram cruzeiros, nos tempos modernos, para memoria.

Edificios destinados aos jogos publicos

Tinham os povos antigos tres especies de edificios destinados aos jogos publicos: o circo, o theatro, e o amphitheatro. Muitas vezes teem confundido os três sob a mesma denominação, de circos; porém a forma, as dimensões, e o destino estabelecem entre elles diferenças notaveis.

Os circos eram mais bem considerados que os amphitheatros e os theatros; a forma d'aquelles edificios era de um parallelogrammo prolongado, circular em um dos topos, e quadrado ou levemente convexo do lado opposto. Os dois lados maiores apresentavam exteriormente duas ordens de architectura sobrepostas, limitadas por uma attica e cobertas com terraço. Lojas e passagens cobertas conduziam ao interior do circo, e occupavam o primeiro renque das arcadas. Seis torres quadradas, quatro d'estas nos pontos de juncção dos grandes e pequenos lados do circo, e duas nas extremidades, sobresaiam aos terraços; as quaes torres eram ornadas de quadrigos, ou grupos de andarilhos.

Figura 55: Circo Maximo de Roma

A entrada para os carros destinados ás corridas era pela extremidade convexa do circo; doze arcadas, não comprehendida a que se achava debaixo da torre, fechadas por grades de ferro, serviam de cocheiras, carceres, onde os cavallos eram guardados antes do começo das corridas.

É fácil comprehender a disposição dos assentos postos no interior de um circo: sobre os dois grandes lados e no hemiscyclo opposto aos carceres, levantavam-se os palanques, tendo acima a galeria ornada de columnas correspondentes ás paredes que separavam as arcadas exteriores da segunda ordem, e por meio das quaes podiam circular os espectadores.

Havia tambem, por cima dos carceres, outros palanques, e era ahi, superior á entrada principal na torre collocada ao centro das cocheiras, que estava a tribuna reservada para o imperador ou para o magistrado que presidia aos jogos.

Figura 56: Tribuna de um circo

Entre os assentos dos espectadores e o espaço destinado para os jogos (area), havia, em alguns circos, um canal, de largura de 10 pés, cheio de agua (euripus), resguardado por engradamento do lado da area. Porém os circos não eram rodeados de tal fosso: ainda não se encontrou nenhum vestigio no de Caracalla em Roma, embora fosse um dos principaes, assim como em outros explorados depois.

O euripus não se abria nunca do lado dos carceres, para não interromper a entrada para o circo.

No centro da area dos circos levantavam uma parede de 4 pés de altura e 12 de largura, prolongando-se em quasi todo o comprimento do recinto. A esta construcção, que dividia o circo longitudinalmente, davam o nome de spina. O imperador Augusto foi o primeiro que fez levantar sobre a spina um obelisco dedicado ao Sol.

Havia também sobre a spina dos circos pequenos templos, altares, estatuas e sete bolas, ova, sustentadas em eixos, que serviam para indicar o numero de voltas executadas pelos carros, ova ad metas curriculis numerandis, e sete delphins postos em pedestaes, ou em architrave sustentada por columnas. Os delphins tinham sido escolhidos em veneração de Neptuno, porque se suppunha serem estes os animaes mais ageis do mar. Nas duas extremidades, e na parte exterior da spina, havia sempre tres pyramides firmadas na mesma base, e servindo de ponto de limite. Era junto d'estes marcos (metœ) que os carros deviam voltar para as extremidades do circo, evitando tocar no marco. O ponto de partida era collocado de modo que os concorrentes tinham sempre á esquerda a spina e os marcos.

Os conductores de carros (aurigæ) traziam um vestuario como especie de librés de côres differentes e formavam partidos ou facções. Primeiramente houve quatro librés: a branca, alba; a encarnada, russea; a azul, veneta, e a verde, prasina. O imperador Domiciano juntou a estas mais duas: a purpura, purpurala; e dourada, aurata.

Quando os espectadores se enthusiasmavam faziam apostas para que alcançasse triumpho outra facção, ou côr. Tempos depois, as côres usadas nos circos deram logar a formarem-se verdadeiras facções politicas, a que pertenciam milhares de cidadãos.[6]

Naumachia.—Suppõem-se que os circos serviam ás vezes de naumachia. A naumachia era para a simulação de combates navaes, que se davam em grandes caldeiras cheias de agua, rodeadas de construcções análogas ás dos circos; todavia, concebe-se difficilmente como um circo podia estar apropriado para este genero de divertimentos sem grandes inconvenientes e sem obras preparatorias. A transformação da area dos circos em lagos devia acontecer raras vezes, porque em algumas cidades mandavam abrir lagos apropriados para os combates navaes.

Theatros

Quasi todas as cidades importantes da Gallia possuiam theatros edificados no reinado de Adriano e Antonio, o Piedoso; esses monumentos eram encostados ás collinas sobre o declive das quaes se dispunham os assentos de cantaria em semi-circulo. Na parte inferior d'estas bancadas estava a orchestra, que correspondia ao que chamâmos platéa nos actuaes theatros, e que ficava sobre um terreno plano, assim como a scena.

Figura 57: Plano de um theatro antigo

Esta ultima disposição do theatro dividia-se em tres partes, a saber: o proscenium, ou pulpitum, o palco em que representavam os dramas; a scena, grande fachada muitas vezes ornada com as diversas ordens de architectura, e o post cenium, onde os actores se preparavam para entrar em scena.

A scena apresentava tres portas no fundo: a do centro, mais alta e ornada que as outras, chamava-se porta real; entrava por ali o personagem principal da peça, que representasse o dono do palacio; as figuras secundarias entravam pelas outras portas que se designavam hospitalia, porque de certo representavam os hospedes ou familiares do dono do palacio.

A parede do fundo da scena formava dois lados ou alas (versuræ,) onde havia outras duas portas, uma á direita e outra á esquerda, as quaes faziam suppôr darem saida para o campo e para a praça publica. A configuração de um theatro apresentava pois de um lado a forma semi-circular, do outro a de quadrado. Para chegar ao logar dos espectadores havia muitas escadas partindo do circuito e dirigindo-se da circumferencia para o centro, afim de estabelecer muitas divisões que, pela rasão de sua forma de cunha, eram designadas com o nome de cunei.

Havia, além d'isso, na elevação do amphitheatro (cavea) que cercava a orchestra, duas ou tres divisões principaes, indicadas por separações chamadas præcinctions e ficavam parallelas ás filas dos assentos.[7] Estas divisões tinham o nome de cavea prima, cavea media, cavea maxima ou ultima, conforme estivessem mais ou menos proximas da orchestra.[8]

Havia tambem, em muitos theatros, aberturas quadradas, correspondentes a corredores abobadados dispostos sob os degraus do theatro, e por onde cada qual podia passar para occupar o seu logar, sem ser obrigado a subir da orchestra ou a descer da summa, summa cavea. Estas aberturas chamavam-se vomitorios (vomitoria,) porque parecia que lançavam fóra os espectadores, quando estes entravam em multidão para os seus logares.

Tinham os antigos tres especies de scenas, a scena tragica, a scena comica e a scena satyrica.

As vistas do theatro eram diversas, conforme o genero das peças que se representavam.

As mudanças da decoração praticavam-se por varios systemas. Chamava-se aos bastidores ductiles, quando giravam em corrediças; versatiles, quando se viravam sobre pião.

Muitas machinas fraccionavam na scena e coadjuvavam os papeis dos actores.

Como os theatros não eram cobertos, estendia-se acima das paredes um grande toldo para dar sombra aos espectadores. Este velarium[9] estava fixo ou suspenso em mastros cravados no alto das paredes. Vitruvio recommenda que não exponham os theatros do lado do sul, para evitar que os raios do sol aqueçam demasiadamente o ar.

Figura 58: Plano do theatro de Champlieu

O theatro de Orange, em França, é uma ruina digna de ser contemplada, e poucas ainda ha que se lhe possam comparar. As suas columnas tinham 18 pés de altura e 2 pés e 4 pollegadas de diametro; a altura das paredes era de 108 pés com tres ordens de columnas. A fachada exterior era decorada por duas fileiras de arcadas sobre as quaes havia um attico. O theatro fôra construido com cantaria de extraordinarias dimensões; notando-se n'estas pedras vestigios de incendio violento.

Figura 59: Exterior da scena do theatro de Orange

Amphitheatros

De todos os monumentos romanos existentes são os amphitheatros os que offerecem ainda as ruinas mais collossaes e magestosas. Eram, como indica a etymologia da palavra amphitheatro, dous theatros collocados em frente um do outro, e separados por um espaço livre de forma oval destinado para os combates dos gladiadores e animaes ferozes.

A este espaço davam o nome de arena arena, por causa da areia que espalhavam pelo chão, afim de fazer desapparecer o sangue dos homens e dos animaes derramado durante a luta.

Figura 60: Plano de um amphitheatro

Os palanques eram dispostos á roda da arena, de maneira que de todos os lados os espectadores podessem gosar o espectaculo. Nos amphitheatros, como nos theatros, esses logares eram divididos horisontalmente por cintas curvas ou baltei; e verticalmente pelas escadas em subdivisões cuneiformes, como explicamos acima. Os degraus apoiavam-se nas abobadas, que iam estreitando para o lado da arena, alargando-se e elevando-se á medida que se aproximavam do portico ou galeria, contornando o edificio. Estas abobadas, inclinadas para o centro e alargando para o exterior, eram sobrepostas umas ás outras, e formavam muitas ordens, onde havia muitas cintas curvas.

Figura 61

A vista do corte de um grande amphitheatro mostra claramente esta disposição, com as cintas e o effeito produzido no meio dos palanques pelos vomitorios da cavea. Outro corte apresenta parte do amphitheatro de Aries, mostrando como as grandes escadas, partindo das galerias, conduziam ao interior da cavea.

Figura 62: Corte do amphitheatro de Aries

Na arena havia combates de gladiadores,[10] de homens e animaes, e só de animaes.

Nos dias de combate eram os gladiadores conduzidos processionalmente em volta da arena; depois punham-n'os aos pares, juntando os de força egual. O signal do combate era dado por uma banda de trombetas.

Figura 63: Fachada exterior do amphitheatro de Arles (França)

Havia diversas classes de gladiadores, conforme as armas que empregavam no ataque e na defeza.

O amphitheatro de Arles, ruina das mais pittorescas que existem n'este genero em França, tinha de comprimento do grande eixo 420 pés de Norte ao Sul; e do pequeno eixo 309 de Leste a Oeste. A arena tinha no grande diametro 209 pés, e no pequeno diametro 119: gravura da pag. 71 [fig. 63].

Figura 64: Uma das principaes entradas do amphitheatro de Bordeos

Uma cousa particular, que não existe nos outros amphitheatros, é que as galerias subterraneas giravam por baixo e á roda do podium.

O podium estava a 14 pés acima do solo da arena. A parede do sucalco que o levantava a esta altura, era furada na parte inferior, com oito passagens, conduzindo das galerias subterraneas para a arena, passagens que saiam da galeria exterior.

Figura 65: Plano do amphitheatro de Chenevières (Loiret)

O amphitheatro era construido com boa cantaria de grande apparelho, posta sem cimento algum, e era tal a grandeza das pedras que, apesar de tantos seculos decorridos, ainda se conservam solidas nos seus leitos.

O plano da gravura da pag. 73 [fig. 64] mostra a disposição de outro amphitheatro, que pelo seu genero custava muito menos a construir, que outros compostos de dois lados, porque sendo marcada a inclinação para a encosta, bastava edificar o podium do lado aberto. Podia-se também facilmente transformar os amphitheatros em theatros com outras disposições para o scenario e então constituíam monumentos mixtos, que foram numerosos durante a dominação romana.

Banhos publicos

Os romanos tinham muitas especies d'estes estabelecimentos, que se conheciam com os nomes de thermæ, lavacra e balnea.

As thermas[11] eram vastos edificios que continham não só os banhos, mas tambem porticos e passeios arborisados, salas onde os philosophos e os rhetoricos davam lições publicas e liam as suas obras; onde se exercitavam na luta: chamavam-lhes gymnasios.

Citavam, entre as mais sumptuosas de Roma, as de Agrippa, Nero, Tito, Caracalla,[12] Antonino e Diocleciano, das quaes existiam ainda consideraveis vestigios.

Não se deve suppôr comtudo que haveria similhantes estabelecimentos em todas as cidades onde os romanos dominaram. O mais geral era construir lavacra ou balnea, de limitada dimensão, á qual estavam ás vezes reunidas algumas dependencias dos gymnasios.

Taes edificios eram mais ou menos espaçosos conforme deviam ser francos ao publico de uma cidade bastante povoada, ou simplesmente destinados ao uso de pequena localidade, ou de uma unica familia.

O apodyterium era a sala de vestir, ou em que ficavam depositados os fatos antes do banho.

O aquarium continha os reservatorios, nos quaes a agua era recebida e podia clarificar-se antes de distribuida no edificio.

O vasarium, tirava este nome de tres grandes vasos, ou depositos cheios de agua quente, de agua tepida e de agua fria.

O laconicum, estufa aquecida por um hypocausto, tinha ás vezes uma das extremidades em semicirculo, onde havia um disco de bronze, pelo movimento do qual, abaixando-se ou levantando-se, podia augmentar-se a intensidade do calor, ou diminuir a temperatura.

O tepidarium era, segundo Vitruvio, a estufa menos quente que a antecedente, e em contacto com ella.

Havia outra casa destinada para o banho de agua quente, que se tomava n'uma especie de tina, labra.

O pequeno pateo ou vestibulo que precedia o forno do hypocausto chamava-se o propnigeum ou o proefurnium.

A parte destinada ao banho frio era o frigidarium, ou sala não aquecida, onde os banhistas descançavam alguns instantes antes de sairem para a rua, afim de evitarem o perigo da mudança rapida da temperatura.

A piscina natatilis ou frigida lavatio, reservatorio de agua fria em que as pessoas robustas podiam banhar-se depois do banho quente, e de que se fazia uso principalmente no verão.

O eleothesium, onde os banhistas podiam esfregar o corpo com oleo ou perfumes[13].

Uma curiosa pintura a fresco, copiada das thermas de Tito, em Roma, e que representava o interior de uma casa de banhos, faz comprehender muito bem a disposição geral de taes estabelecimentos, como se vê na gravura da pag. 76 [fig. 66].

Distinguem-se, no primeiro plano, duas salas sob as quaes arde o fogo do hypocausto.

Figura 66: Vista de uma pintura a fresco tirada dos banhos de Tito.

Uma d'estas salas devia ser a concamerata sudatio, ou a estufa abobadada para fazer transpiração.

Ha n'esta sala um pequeno forno, cuja abobada fecha em escudo de bronze que se movia por meio de corrente, afim de deixar sair mais ou menos o vapor da agua quente.

Junto do laconicum está a sala do banho, separada por um corredor. Vêem-se muitas pessoas n'uma grande tina labrum, em volta da qual estão assentos encostados á parede.

Mais afastado apparece representado o vasarium, com os tres grandes vasos collocados em diversos niveis: o primeiro menos elevado contem agua a ferver; o segundo agua tepida, e o terceiro agua fria.

No segundo plano, e por detraz da estufa para suar, vê-se a sala chamada tepidarium.

Passado o tepidarium, distingue-se a sala fria, frigidarium, que em alguns banhos servia tambem ao apoditerium. Em ultimo plano está o eleothesium, ou sala dos perfumes.

Para se formar idéa exacta d'estes monumentos, convem examinar e comparar entre elles que se têem descoberto em differentes partes; para o que apresentamos as gravuras dos banhos de Verdes e de Landunum.

Explicações crestas casas de banhos

Entrava-se por dois pateos sobre o comprido ou corredores G, K, nos banhos de Verdes, para os salões P, S, os quaes tem ainda no chão mosaicos. D'estes dois salões passava-se para o vestibulo B, e d'ahi para a sala D, cujo piso estava sobre hypocausto.

A sala imediata C, devia ser de temperatura mais elevada á antecedente; pois o forno collocado em F, no pequeno pateo proximo, recebia d'elle o calor que circulava primeiro debaixo do piso da referida sala C.

Havia outras casas que não eram aquecidas pelo hypocausto, especie de saletas pelas quaes se entrava e saía P, A, B, S.

Figura 67: Banhos de Verdes (França), vistos de alto.
Figura 68: Plano dos banhos de Landunum (França).

Duas bandeiras muito notáveis que serviriam para banhos frios ML, tinham communicação por uma passagem com a sala D; cada uma d'ellas tinha em S e em R um reservatorio para agua.

Os pateos H e I serviam de deposito para o combustivel.

Em cada uma das salas O e P havia um nicho para uma estatua.

Nos banhos de Laudunum (pag. 79 [fig. 68]), no vestibulo D, o chão tinha mosaicos. D'aqui passava-se á bella sala (n.º 8), tambem com mosaico. Seguiam-se outras casas com o solo suspenso e aquecido pelo hypocausto; em uma (n.º 7) de um lado tem um nicho circular, e do outro, quadrado d c, que serviam para as banheiras.

A sala n.º 6 seria a reservada para conservar maior gráo de calor, porque o forno do hypocausto tinha a boca d'elle no centro d'esta casa.

O forno tinha serventia pelo pequeno pateo n.º 4. Antes de atravessar a sala n.º 6 aquecia tres reservatorios revestidos de cimento f. f.

As salas E, e os n.º 9, 10, 11 eram casas para depositos do estabelecimento.

Palacios

Quasi todas as cidades de pequena importancia tinham palacio destinado para os aposentos dos imperadores, quando as visitavam; porem antes serviam para os seus representantes, os intendentes ou funccionarios encarregados da administração do paiz.

Os palacios que deviam offerecer as disposições analogas ás das casas nobres dos particulares, differençavam-se principalmente pela extensão, pelos peristylos, pateos e diversas dependencias. Os de maiores dimensões, como o de Trajano, eram ligados ao forum, junto do qual havia basilica, onde se julgavam os criminosos, e tambem thermas.

Tal era a grandesa do palacio de Diocleciano, em Spalatro (na Dalmacia), cujas columnas e paredes estão ainda de pé, comprehendendo grandes divisões: templo, basilica, pretorio, independentemente dos aposentos imperiaes.

Casas particulares

Daremos algumas explicações a respeito das construcções particulares.

Chamavam prothyrum, nas casas das cidades, á passagem por onde se entrava no interior d'ellas.

Era n'esta passagem o quarto do porteiro cella ostiarii, e ás vezes a parte que servia de vestibulo, com habitação de mediana extensão.

O atrium era a galeria quadrada (3)[14] tendo ao centro um pateo descoberto (impluvium), no meio do qual havia um tanque á superficie do chão (compluvium) para receber as aguas da chuva (D).

O atrium era ornado com os retratos da familia; o dono da casa recebia n'elle os seus clientes. Havia muitas especies de atrium.

O atrium toscano, que se encontrou em Pompeia em grande numero de casas e usado unicamente nos primitivos tempos, tinha o telhado sustentado por madeiros cruzados em angulos rectos: o telhado tinha escoantes para todos os lados e para o centro do pateo.

Existia a mesma disposição no atrium tetrastylo; apenas quatro pilares ou columnas, collocadas nos angulos do impluvium, sustentavam as vigas do tecto nos pontos de juncção.

No atrium corinthio, as columnas para ponto de apoio eram mais numerosas, e o impluvium era também mais espaçôso. Construiram o atrium só para as grandes habitações.

O atrium displuviatum tinha os telhados inclinados em sentido inverso dos precedentes, de modo que lançavam as aguas da chuva para fora da casa, em logar de as conduzir para o impluvium.

Finalmente, no atrium testudinatum, o pateo central era coberto de telhado um tanto mais elevado, que os das galerias.

Figura 69: Plano de uma casa nobre na cidade romana.

Nos predios importantes, como é representado no plano junto, havia em roda da galeria do atrium aposentos destinados a diversos usos, com saidas para a galeria, e alguns dos quaes serviam de tribuna ou sala de festim (C, C, C).

Na extremidade do atrium, e em frente do prothyrum, estavam o tablinum (4) e duas casas mais pequenas, chamadas azas, communicando com elle (5-6).

O tablinum e as azas encerravam a imagem dos parentes fallecidos, os livros, archivos e papeis pertencentes aos negocios do proprietario, assim como os documentos relativos ao emprego que exercia.

O peristylo apresentava, além do tablinum, uma galeria ornada de columnas, como a do atrium corinthio (17-17), cuja extensão porém era mais consideravel.

Os aposentos eram distribuidos á roda d'estas galerias (18-19); um espaço quadrado, inteiramente descoberto e plantado de flôres e arbustos no centro, devia parecer a imitação da parte central de alguns claustros.

Os œci correspondiam aos nossos salões.

A exedra era outra grande sala para conversação, tendo n'um dos lados a parede curvilinea, como se fosse construida para nicho.

Encontravam-se tambem, ás vezes, nas habitações das pessoas abastadas, jogos de péla, sphæristerium, e salas destinadas para outros jogos.

O banho era composto em geral de apodyterium, frigidarium, tepidarium, sudatorium e eleothesium:

A basilica;

A pinacothéca ou galeria para quadros;

As cosinhas e as officinas dependentes para o fabrico do pão;

As cavalhariças, cocheiras e armazens;

Finalmente, havia um numero mais ou menos consideravel de quartos para dormir e para acommodar os creados.[15]

Eis agora o plano de outra casa de muito menor importancia que a anterior, na qual não encontrâmos nem as commodidades nem a regularidade das grandes habitações particulares; mas veremos que as residencias se modificam conforme a necessidade da familia e as suas posses pecuniarias. Examinemos a disposição de uma das casas descobertas nas minas de Pompeia.

A entrada ou prothyrum n.º l, conduz ao atrium n.º 2, chamado displuviatum, isto é que servia para o despejo das aguas da chuva para fora da habitação. Tinha na grossura da parede o impluvium n.º 3 e 4, e os alegretes para as flôres.

Figura 70

Uma escada de madeira n.º 5, conduzia ao aposento que occupava o dono da casa e a sua familia. Posto que a escada estivesse inteiramente destruida, era facil observar o feitio do corrimão, porque o artista a riscara na parede que lhe servia de caixa.

Os quartos 6 e 7 eram destinados para receber os estrangeiros e os amigos. O escravo que guardava a porta da rua devia dormir no quarto n.º 8, onde se conservava tambem de dia. Era pequena a cosinha n.º 9 collocada ao lado do corredor.

Casa de campo (villæ)

Suppõe-se que as mais bellas casas de campo romanas tinham só um andar; tambem não se differençavam essencialmente das da cidade, e continham pouco mais ou menos as mesmas divisões, mais arbitrarias, conforme exigia o terreno, a belleza do sitio, a importancia da exploração rural e outras circumstancias da edificação.

Columella,[16] distingue tres partes em uma casa de campo occupando-se de trabalhos ruraes, e o maior numero das villæ gallo-romanas e luso-romanas estavam n'este caso. As tres partes eram:

A villa urbana, ou habitação do proprietario;

A agraria, ou habitação dos lavradores, e dos animaes necessarios para a lavoura;

A villa fructuaria, onde se recolhiam as colheitas e os outros fructos das terras.

As casas anuesas ao segundo pateo, chamadas agrariæ, ou fructuariæ, apresentavam menos interesse com relação á arte, que a villa urbana. Eram pertenças do casal ou dos trabalhos ruraes, villa agraria.

No centro do pateo da villa via-se, como se pratica ainda hoje, um tanque ou lagôa compluvium, para se banhar o gado. Á roda do pateo estavam dispostos, a cosinha, o abrigo para os escravos, a abegoaria (bubilia), o curral das ovelhas (ovilia), as cavallariças (equilia.) Achava-se tambem ali o gallinheiro (gallinaria) e o chiqueiro para os porcos (haræ).

Pode-se citar como pertenças da villa fructuaria, que estava ora separada ora junta da agraria, a adega (cellæ) o palheiro (horrea), a casa da fructa (apothecæ), etc.

Tem-se encontrado numerosos vestigios das villæ ou casas de campo fabricadas durante a dominação romana. Em 1874 descobrimos em Portugal uma proximo de Leiria, no logar de Martim Gil, na profundidade de 1m, 59; havia ali differentes casas com mosaicos, e na principal achámol-o de cinco côres. Fizemol-o transportar para o museu da archeologia, que fundáramos em Lisboa em 1866. Não tem acontecido outrotanto com essas casas antigas edificadas nas cidades, pois foi arrasado o solo que ellas occupavam, e isso deu logar a aproveitarem-se os alicerces que ficaram enterrados.

Para darmos idéa mais completa, descreveremos a villa de Bignor em Sussex (Inglaterra), por ser a mais bem conservada que existe.[17]

Compõe-se de dois pateos: um (A) mais vasto que o outro, rodeado de muros bastante grossos, não formava angulo recto com os do segundo pateo. O muro de leste tinha 277 pés de comprimento, o do norte 385 pés, e o do sul 322.

Este pateo, que representava a villa rustica, comprehendia muitas e amplas construcções, mas nenhuma tinha vestigios de pintura nem de pavimentos de mosaicos.

O outro pateo (B), que formava propriamente a villa urbana, estava cercado de casas ricamente ornadas e quasi todas tinham mosaicos.

Um corredor ou crypto-portico (1, 2, 3, 4), que era construido á roda do quadrado do pateo servia para communicar com os aposentos; o comprimento do corredor era de 160 pés, de leste a oeste.

Figura 71: Villa de Bignor em Sussex.

Uma grande parte d'estes corredores tinha mosaicos.

Ao longo do crypto-portico septentrional estavam dispostos os aposentos (n.º 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13).

No n.º 14 via-se um mosaico de 8 pés de quadrado dividido em formas de rhomboides e triangulos.

O n.º 15, era uma das melhores casas da villa, tinha 19 pés por 30, com uma grande camara de 12 pés, o que lhe dava 32 pés por todo o comprimento do norte ao sul; o pavimento era formado de mosaico muito notavel, porque um dos desenhos representava o rapto de Ganymedes.

No meio do aposento, e ao centro da maior composição circular de mosaico, via-se uma cisterna de pedra branca e de 4 pés de diametro, no fundo da qual existia um orificio com tubo de chumbo.

Esla sala e o aposento immediato eram aquecidos por um hypocausto, cujo forno se abria pela parte exterior da casa na base da parede.

O n.º 19 era um atriolum, ou pequeno pateo ornado de columnas. Os aposentos do pateo do norte e do sul (21, 22, 23, 24, 25), eram em geral ornados de pinturas, e com o chão de mosaicos.

No n.º 22 encontrou-se um fogão de 31 pollegadas de boca, e 17 pollegadas de fundo; tijolos ligados com ferro ao fogão formavam-lhe as paredes lateraes. Outro fogão similhante foi achado no quarto n.º 23.

Os aposentos menos importantes occupavam o lado sul até o n.º 35. Aquelles que se lhe seguiam haviam feito parte de um banho.

Depois da sala das estufas, vinha a que era destinada para o banho frio (n.º 40), que tinha 35 pés por 30. O chão estava menos mal conservado e compunha-se de pedras brancas e pretas de 6 pollegadas em todos os sentidos, dispostas em xadrez.

O sitio do banho achava-se pouco mais ou menos no meio do aposento. Era um reservatorio com aproximadamente 18 pés de leste ao oeste, de 3 pés e 2 pollegadas de profundidade. Descia-se por tres degraus do lado de leste, do oeste e do norte.

A bella sala (n.º 41), situada a leste da precedente, apresentava um quadrado de 35 pés, porém era um tanto irregular por causa da direcção diagonal da parede de leste. Admirava-se um mosaico mais bem conservado que os restantes.

A maior parte destas villæ teria sido construida nos tres primeiros seculos da era christã, julgando-se assim pelas medalhas encontradas nas suas ruinas, e que algumas datam do seculo IV.

Monumentos funereos

Depois de descrevermos os edificios, onde os antigos passavam a vida de confortos da civilisação romana, a ordem natural nos conduz aos monumentos que encerravam os despojos mortaes.

Ainda que algumas familias mandassem enterrar os corpos, todavia o uso de queimal-os foi quasi geral em Roma antes da conquista da Gallia, e n'este ultimo paiz, nos dois primeiros seculos da era christã.[18]

A fogueira funebre (rogus ou pyra) era formada de lenha de facil combustão e faziam-n'a mais ou menos alta conforme a cathegoria das pessoas finadas. O corpo era posto sobre uma especie de leito de ferro ou maca, e os parentes do defuncto, depois de lhe terem dirigido o ultimo adeus, voltavam o rosto e acendiam a fogueira com uma acha.

Quando a fogueira estava extincta, lançavam vinho nas cinzas do defuncto, e então estas eram cuidadosamente encerradas em uma urna que mettiam em seguida na terra com certo numero de vasos de differentes formas e tamanhos, que se collocavam em roda, os quaes estavam cheios de liquidos ou algum manjar offerecido aos deuses manes.

As urnas de barro descobertas em grande numero de cemiterios são em geral do feitio simples, e muitas apresentam côr cinzenta; comtudo, notam-se por suas formas perfeitas e graciosas. As mais ornadas tem filetes, entre os quaes se traçaram riscos parallelos. Algumas tem estrias ao alto, outras molduras entrelaçadas, em zig-zags, etc. etc. As formas mais geraes são as das gravuras seguintes a, b, que se encontram nos antigos cemiterios.

Figura 72: Urnas de vidro, do museu de Tours.

As urnas de vidro, muito mais raras que as de barro, eram reservadas para os finados de familias abastadas. Tem um tanto o feitio das urnas de barro, porém o mais é apresentarem a configuração de um grande frasco com gargallo redondo com uma ou duas azas, sendo o corpo ora cylindrico, ora quadrado.

As urnas mais notaveis são de cobre batido e lavrado, e tambem estas difficilmente se encontram.

Em Alcacer do Sal fez-se em 1874 o descobrimento de um necropole romano, no qual se acharam quatro urnas cinerarias com pinturas, imitando o genero etrusco, obra executada por artista grego. Eram de differentes tamanhos, tendo a maior 0,59 de altura, 0,34 de largura; esta rara descoberta feita em Portugal causou bastante admiração entre os archeologos estrangeiros.

Figura 73

O orificio das urnas era tapado, ou com um prato voltado, ou com um pedaço de tijolo, ou ardozia, e até com um bocado de lagea.

Encontram-se geralmente junto d'estas urnas, taças de differentes generos e pequenos vidros com gargallo estreito e sobre o comprido, especie de galheta com feitios variados; mas o maior numero é de barro encarnado, e suppõe-se terem servido para conservar o vinho, o leite, ou algum licor offertado aos manes do finado.

Figura 74

A maior parte das urnas, foram mettidas dentro da terra sem caixas de resguardo; porém muitas tiveram esses cofres para a conservação. Se a madeira que serviu para isso apodreceu a primitiva existencia parece provada pelos pregos que ligavam as taboas, que se encontram ás vezes em roda das urnas. É possivel que as urnas de vidro ou crystal, que pertenciam a defunctos de cathegoria, fossem mettidas nos cofres de madeira ou de pedra. Alguns d'estes ultimos, encontrados em varios cemiterios, eram compostos de duas peças e bastante espaçosas para conterem a urna cineraria, e os vasos accessorios de que já fallámos. Finalmente, construiam ás vezes, no proprio local, e no momento do enterro, o cofre ou resguardo que devia conservar a urna cineraria.

Em quanto ás cinzas do finado de humilde condição e pobre eram mettidas em vasos de formas simples, e accumuladas nos cemiterios sem cousa alguma que as indicasse; as que pertenciam á classe media da sociedade tinham por cima da urna um cippo, e os mais opulentos apresentavam um monumento ainda mais importante.[19]

Em geral, os monumentos mais sumptuosos estavam postos em fileira nas vias que davam entrada nas cidades.

As pedras sepulchraes, ou estélas,[20] tomavam differentes feitios e algumas apresentavam inscripções e a effigie do finado. [fig. 75]

Figura 75: Estéla.

Não se deve cessar de recommendar as explorações dos cemiterios romanos. Quando se procede a obras publicas, ou particulares, descobre-se a sua existencia no meio dos campos, principalmente nos terrenos incultos, onde as urnas tem sido conservadas por faltas de convenientes excavações.

Algumas sepulturas, destinados á classe inferior, são tambem monumentos importantes como se vê na presente gravura.

Figura 76: Monumento de S. Ramiro.

O monumento pyramidal de S. Ramiro, é um edificio composto de tres ordens de andares sobrepostos, com aproximadamente 50 pés de altura. O primeiro andar é quadrado, e serve de pedestal, com baixos relevos nas quatro faces; pilastras sem pedestaes ornam-lhe os angulos.

O segundo andar é egualmente quadrado com quatro arcos de archivolta que assentam em pilastras; nos angulos tem quatro columnas corinthias com estrias; o friso é ornado de arabescos em que se distinguem cavallos marinhos alados, sereias, etc.

O terceiro de fórma circular, mostra uma cobertura conica sustentada por columnas corinthias, semelhando d'este modo o lanternim do pequeno templo circular monoptero: debaixo d'esta especie de cupula estão collocadas duas estatuas em pé, uma de homem, outra de mulher.

Não pode haver duvida de que esta pyramide seja monumento sepulchral; pois sobre o friso do segundo andar, ficando orientado ao Nordeste, vê-se a seguinte inscripcão:

SEX L M IVLIEI C F PARENTIBVS SVEIS

que se tem lido d'este modo:

Sextus Lucius Marcus Julii curaverunt fieri parentibus suis. As duas estatuas representariam pois o pae e a mãe de Julius, os quaes erigiram a pyramide.

Figura 77: Sarcophago do museu de Ruão.

Enterramentos.—Os corpos que não eram queimados, enterravam-n'os em sarcophago de pedra ou em caixões de chumbo, resguardados em outro cofre de madeira, ou de pedra, como se vê na gravura da pag. 93 [fig. 77].

Figura 78: Sarcophago com inscripção e a ascia, (está collocada por cima do M).

Em numerosos sarcophagos dos pagãos está representada a ascia,[21] e o nivel, em esculptura. Alguns tem uma inscripção na tampa, porém esta vê-se mais geralmente no meio do cofre, como indicamos na gravura da pag. 94 [fig. 78].

As inscripções eram mui interessantes por quanto expressavam o maior sentimento das familias. Os antigos nada tinham que invejar aos povos modernos a este respeito: e é facil comproval-o. Eis um epitaphio que patenteia o profundo affecto de uma infeliz mãe chorando a perda da filha querida:

Ó dôr! quão amargas tem sido as lagrimas derramadas n'esta sepultura em que jaz Lucinia... Lucinia, suave alegria de tua mãe. Sim! aqui está sob este gelido marmore. Prouvesse aos Deuses que o espirito de novo se animasse porque ella conheceria quão dolorosa é a minha afflicão. Viveu 27 annos, 10 mezes e 25 dias. Parthenoca, mãe infeliz, lhe mandou erigir este monumento.

Os Aliscamps deixaram-nos outros que se distinguem por sua philosophia, e a cujo sentido se dá muitas vezes a interpretação da philosophia christã. Taes são as duas inscripções seguintes:

D. M.
FVI, NON SVM; ESTIS, NON ERITIS;
NEMO IMMORTALIS

Fui, não sou; sois, não sereis; ninguem é immortal.

Por outra vemos que entre os romanos, como entre nós, os herdeiros eram mais solicitos em apoderarem-se dos bens dos paes, que dispostos a levantarem-lhes jazigos; de modo que os homens avisados mandavam construir os tumulos em vida, para terem a certeza de que não se lhes perdia a memoria.

D. M.
LVCIVS GRATIVS EVTICHES
DOMVM AETERNAM
VIVVS SIBI CVRAVIT
NE HAEREDEM ROGARET
TAVTA

Lucio Grado Eutichis erigiu, ainda vivo, esta morada eterna, para não pedir ao seu herdeiro que lhe prestasse este serviço.

Ao findar a dominação romana, quando o christianismo estava solidamente estabelecido na Gallia, a incineração dos mortos já não se praticava.[22]

Os sarcophagos christãos em marmores são faceis de distinguir dos sarcophagos pagãos por causa das esculpturas symbolicas, ou das scenas biblicas que os ornam.

Objectos de barro

Os objectos de barro são, na maior parte, fragmentos que se encontram nas localidades habitadas no tempo da dominação romana.

As peças mais notaveis pela fórma delicada e pela conservação, são de barro vermelho envernisadas com bastante brilho, e ornadas com figuras em relevo. Encontram-se em grande quantidade nos logares que tiveram importancia sob o dominio romano. É raro, sem duvida, acharem-se vasos inteiros; mas pode julgar-se pelos fragmentos encontrados quaes seriam a forma e as dimensões dos objectos a que pertenciam.

Os vasos de barro encarnado apresentavam quasi o mesmo feitio, vasos bojudos, tijelas ou gamellas de differentes tamanhos [fig. 79], taças com pé, compoteiras, pequenas taças, travessas redondas de diferentes tamanhos com borda saliente [fig. 80], pratos, pires, etc, etc.

Pode suppôr-se que a boa louça encarnada servia principalmente para o serviço da mesa, e para o de toucador.

Figura 79
Figura 80

A forma dos vasos era geralmente perfeita: os que tinham figuras eram fabricados com moldes, e isto explica a apparencia gasta de alguns; o interior era liso, notando-se apenas alguns circulos concentricos formados pelo torno. Por baixo do fundo do vaso achava-se, quasi sempre, o nome do operario ou do fabricante, gravado com uma especie de estampilha ou sinete.

Estes nomes estão umas vezes no genitivo, outras antecididos ou seguidos das lettras o ou of, para designar officina, assim: of Severi; Bassi; of o, Croci, Crassi o; o que quer dizer que os vasos sairam da officina ou da fabrica de Severo, de Basso, de Croco, de Crasso, etc, etc.

Figura 81

A palavra manu, escripta com todas as lettras ou em abreviatura, como nas inscripções de: Priscilli manu, Silvani m, significa da mão de Priscillio, de Silvanos, etc.

Alguns d'estes vasos eram inteiriços, não podendo sair do molde senão depois do barro ter seccado para que o relevo se tirasse sem damno do concavo do molde.

A maior parte porém era tirada de duas ou mais peças, porque seria impossivel formar um molde de uma só peça para os vasos bojudos.

Se os fabricantes de louça de barro imprimiam os seus nomes no fundo d'esses vasos, os artistas que fariam as formas e compunham os assumptos que deviam apparecer nos relevos exteriores, inscreviam tambem os seus nomes nos moldes, entre as figuras.

Barro preto.—As peças de barro preto são mais raras que as encarnadas, embora se encontrem misturadas com estas.

Tem-se encontrado cobertas com bom verniz côr de ébano, e mostrando argila, menos compacta que a dos vasos encarnados; ora cinzenta, ora esbranquiçada, ou avermelhada.

Objectos de barro bronzeado.—Apparecem tambem em muitas localidades pequenos vasos muito leves, de barro encarnado ou amarellento, misturado de quartzo cobertos de verniz de furta-côres, suavemente applicado.

Figura 82

Barros avermelhados, cinzentos escuros, ou esbranquiçados, etc.—São mais ou menos apurados; a massa ou argila de differentes côres foi empregada para fabricar travessas, pratos, vasos de diversos feitios destinados para varios usos, botijas, etc.

Figura 83

Nos vasos destinados para os liquidos, como são as nossas garrafas, encontram-se, quer de barro vermelhado, quer cinzento ou esbranquiçado, formas mui elegantes, das quaes se conservaram algumas até o presente.

Os vasos, como os que se vêem em seguida, ora de barro encarnado, ora cinzento, apreciam-se um tanto com as saladeiras, ou tijelas grandes, de que ainda se faz uso.

Figura 84

Encontram-se, egualmente, em terrenos cultivados, onde se acham também telhas e vestigios de habitações romanas.

Figurinhas de barro

As estatuetas de barro cozido de côr alvacenta acompanham, muitas vezes, os fragmentos que assignalam o logar occupado pelas construcções gallo-romanas, e ainda constituem objectos pertencentes á arte de oleiro.

Encontra-se sobre tudo, frequentemente entre ellas, a figura de Venus Anadyomena,[23] e taes estatuetas são tão similhantes, que parece terem saido do mesmo molde; estão completamente nuas, com a cabeça coberta de abundantes cabellos, a mão direita apanhando-os, e a esquerda tomando a roupagem.

As outras figurinhas que se encontram mais vezes junto das Venus, representam uma mulher amamentando uma ou duas creanças, sentada n'uma cadeira de braços feita de vime encanastrado. Alguns archeologos suppôem ser esta a imagem de Latona,[24] outros a de Lucina:[25] porém, julga-se que estas figuras serviam para ex-voto, tanto das mulheres que desejavam obter feliz parto, como d'aquellas que mostravam a sua gratidão pelo terem alcançado, ou em fim das mães que creavam os filhos, e que o offereciam á deusa invocada por ellas n'esta circumstancia.

Figura 85

A imagem de Mercurio encontra-se em grande numero entre as estatuetas de barro cozido.

Mas nem todas as figurinhas antigas que se encontram eram destinadas para reproduzir a imagem das divindades. Eram vazadas nas formas como se faz presentemente um grande numero de objectos profanos, caricaturas, brinquedos para creanças, etc.

Figura 86

Entre estes ultimos, podem citar-se as figuras de aves, animaes diversos, carneiro, javali, etc., e também chocalhos como os achados em tantas localidades diversas, e que se compôem d'um pequeno globo de barro cozido tendo dentro seixosinhos que produzem o effeito de um cascavel.

Objectos em metal, joias e utensilios

Havia egualmente reproduzido em cobre grande parte dos vasos que se faziam de barro, principalmente as travessas, bacias, garrafas e baldes para sacrificios.

Fizeram-se até magnificos de prata, com figuras em relevo batido: a prova d'isto são os utensilios de todas as formas, em bronze, que existem em tantas collecções publicas e particulares: broches, fivelas, e joias tão variadas como as que ahi se vêem, mostram a que ponto os romanos tinham alcançado a perfeição no trabalho dos metaes, nas pedras preciosas, no marfim, etc., etc. A descripção de todas estas riquezas artisticas, não pode figurar n'este resumido compendio.

Os objectos de metal, e os restos mais preciosos pertencentes á antiguidade, foram descriptos por Caylus, Winckelmann, Chabonillet, etc., sabios antiquarios que deram a mais completa explicação a este respeito.

Pela mesma razão, não nos devemos occupar das medalhas romanas, não obstante o estudo ser util e importante, porém necessitaria augmentar demasiadamente este livro, e o nosso intuito foi unicamente apresentar resumida apreciação da architectura pertencente á época gallo-romana, e descrever os vestigios dessiminados no solo habitado pelo povo-rei.

Muralhas de defeza ou forticações[editar]

Sem discutir aqui sobre qual seria a época a que pertencem as muralhas que defendiam as cidades gallo-romanas, devemos comtudo fazer menção d'ellas, porque constituem ainda provas muito importantes d'essa grande época.

Quasi sempre estas muralhas foram construidas com pedra miuda, mostrando na face exterior o pequeno apparelho, separado por cadeias de tijolos, e cuja base formada por pedras de grande apparelho deviam já ter servido nos monumentos da architectura, que provavelmente foi preciso sacrificar para lhe aproveitar o material afim de se fortificarem em momento de apuro.

O sabio Mr. de Caumont já tinha ha muitos annos insistido sobre um grande facto, que nenhum historiador indicára, e que ainda ignoram quasi todos, e é a existencia em differentes localidades d'um castrum, cujas muralhas estão em grande parte formadas de cantaria mostrando obra de esculptura dos seculos II e III, taes como os fustes de columnas, frisos, capiteis, tumulos, pedras com inscripções; e por isso o illustre archeologo julgou poder determinal-o como obra dos fins do seculo IV, sendo a execução d'essas fortificações em todos os logares apropriados para tal fim.

Seja como fôr, tendo-se as cidades concentrado cada vez mais, era preciso restringir o perimetro do recinto á parte mais facil para ser defendido, e na possivel extensão com os materiaes disponiveis, cercado de muralhas. Podiamos citar diversos recintos fortificados com 3 a 10 hectares sómente, em quanto essas cidades onde os havia, occupavam antes 100 e até 200, durante o tempo que disfructavam a paz.

No fim de tres seculos de espantosa prosperidade, a Gallia viu, no seculo IV, a desorganisação e o enfraquecimento gradual das instituições romanas. Custa a comprehender a que grande aviltamento chegaram no seculo V.

Um esboço rapido sobre os acontecimentos politicos da Gallia, no quarto quartel do seculo III explicará claramente a marcha progressiva da decadencia das artes do seculo IV. Depois das invasões, a miseria publica augmentou, os abusos mutiplicaram-se, a energia moral diminuiu, as grandes obras da architectura cessaram, e o gosto foi-se alterando cada vez mais.

As artes, para prosperarem, tem necessidade de paz e liberdade: estas condições essenciaes faltaram-lhe no seculo IV; vê-se portanto declinar tanto mais rapidamente quanto os lapsos da paz eram mais curtos e raros.

Todavia, assim como as instituições romanas não desappareceram com a quéda do governo romano, assim tambem as artes trazidas para a Gallia pelo grande povo sobreviveram ao imperio.

«Tal era a robustez da organisação romana, diz Michelet, que, quando a existencia parecia desemparal-a, quando até os barbaros estavam prestes a distruil-a, sujeitaram-se a ella sem o quererem. Foram obrigados, de boa ou má vontade, a habitar sob as abobadas invenciveis que não podiam abalar; a curvar a cabeça e receber ainda por cima, embora vencedores, a lei de Roma vencida.»

O que expressa Michelet com relação ás instituições romanas, poderemos applical-o ás artes, com que o povo-rei dotou a Gallia. Os monumentos em ruinas serviram em breve de modelos aos barbaros que apparecem armados com o facho de incendio. Os barbaros começaram a trabalhar tambem, a edificarem templos, palacios, mosteiros, etc, etc; foram procurar nas tradicções dos antepassados os conhecimentos para repararem as proprias devastações. A architectura gallo-romana, mais ou menos alterada nos seculos V e VI, seguiram seu caminho, até que uma grande revolução, no fim do XII seculo, substituiu por principios inteiramente novos as antigas tradições. É o que nós propomos demonstrar nos capitulos que vão seguir-se.

Figura 87

ADDITAMENTO

Inscripções Latinas[editar]

Como o estylo lapidar tem certas formulas, abreviaturas especiaes e signaes particulares, sem adquirir algumas explicações a este respeito, a interpretação ficaria baldada para quem não as possuisse; embora seja tambem preciso não ignorar os acontecimentos historicos, todavia julgamos conveniente ajuntar a este compendio alguns esclarecimentos epigraphicos afim de facilitar aos principiantes a leitura das lapidas: portanto, acrescentamos a esta publicação um quadro succinto das principaes abreviaturas que se encontram nas inscripções luso-romana, por serem estas as de mais difficil interpretação.

Ainda que a mesma lettra inicial corresponda a diversas palavras, o sentido geral da inscripção indicará a que fôr mais apropriada á sua significação. É pois facil distinguir, com alguma sagacidade, os nomes proprios dos nomes substantivos.

A palavra tribu, á qual as familias romanas pertenciam, fica sempre subentendida, e só se menciona o nome.

As datas, em geral, sabem-se pela indicação do anno do reinado do imperador, ao tempo do qual o monumento foi erigido. Finalmente, deu-se o epitheto de Divus, a cada um dos imperadores, depois da sua morte.

A.—ager; augustales: augustatis.—A. A.—apud agrum.
AB. AC. SEN.—ab actis senatus.
æ. CVR.—ædilis curulis. A. FRVM.—a frumento.
A. H. D. M.—amico hoc dedit monumentum.
A. K.—ante kalendas.—A. O. F. C.—amico optimo faciendum curavit.
A. P.—ædilitia potestate; amico posuit.
A. S. L.—animo solvit libens; a signis legionis.
A. T. V.—aram testamento vovit.
A. XX. H. EST.—annorum viginti hic est.
B. A.—bixit (pro vixit) annis.
B. DE. SE. M.—bene de se meritæ, vel merito.
B. M. D. S.—bene merenti, vel bene merito de se.
B. P. D.—bono publico datum.
B. Q.—bene quiescat.—B. V.—bene vale.
BX. ANOS. VII. ME. V. DI. XVII.—vixit annos septem, menses, sex, dies decem septem.
7.—centuria; centurio.—C.—centurio.
C. B. M.—conjugi bene merenti; et F.—conjugi bene merenti fecit.
CENS. PERP. P. P., vel CENS. PERP. p. r., vel CENS. P. P. P.—censor perpetuus; pater patriæ
COH. I. AFR. C. R.—cohors prima africanorum civium romanorum.—FL. BF.—-flavia beneficiariorium.
C. I. O. N. B. M. F.—civium illius omnium nomine bene merenti fecit.
C. K. L. C. S. L. F. C.—conjugi carissimo loco concesso sibi libenter fieri curavit.
C. P. T.—curavit poni titulum.
C. R.—civis romanus; civium romanorum; curaverunt refici.
C. S. H. S. T. T. L.—communi sumptu hæredum, sit tibi terra levis.
D.—Decimus; decuria; decurio; dedicavit; dedit; devotus; dies; diis; divus; dominus; domo; domus; quinquaginta.
D. C. D. P.—decuriones coloniæ dederunt publice.
D. D.—dedit, dedicavit.
D. D. D. S.—decreto decurionum datum sibi; dono dedit de suo.
D. K. OCT.—dedicatum kalendis octobris.
D. M. ET. M.—diis manibus et memoriæ.
D. N. M. E.—devotus numini majestati ejus.
D. O. S.—deo optimo sacrum; diis omnibus sacrum.
D. P. P. D. D.—de propria pecunia dedicaverunt; de pecunia publica dono dedit.
D. S. F. C. H. S. E.—de suo faciundum curavit, hic situs est.
D. T. S. P.—dedit tumulum sumptu proprio.
E. CVR.—erigi curavit.—EDV. P. D.—edulium populo dedit.
E. E.—ex edicto; ejus ætas.
E. H. T. N. N. S.—exterum hæredem titulus nostre non sequitur.
E. I. M. C. V.—ex jure manium consertum voco.
E. S. ET. LIB. M. E.—et sibi et libertis monumentum erexit.
E. T. F. I. S.—ex testamento fieri jussit sibi.
E. V. L. S.—ei votum libens solvit.
FAC. C.—faciendum curavit.
F. C.—facere curavit; faciendum curavit; fevit conditorium; felix constans; fidei commissum: fieri curavit.
F. H. F.—fieri hæres fecit: fieri hæredes fecerunt.
F. I. D. P. S.—fieri jussit de pecunia sua.
F. M. D. D. D.—fecit monumentum datum decreto decurionum.
F. P. D. D. L. M.—fecit publice decreto decurionum locum monumenti.
F. Q.—flamen quirinalis.
F. T. C.—fieri testamento curavit.
F. V. F.—fieri vivens fecit.
G. L.—genio loci.—G. M.—genio maio.
G. P. R.—genio seu gloria, populi romani.
G. R. D.—gratis datus, vel dedit.
G. S.—genio sacrum; genio senatus.
G. V. S.—genio urbis sacrum; gratis votum solvit.
H.—habet; hac hastatus; hæres; hic; homo; honesta; honor; hora; horis; hostis.
H. B. M. F.—hæres bene merenti fecit.—F. C.—faciendum curavit.
H. C. CV.—hic condi curavit; hoc cinerarium constituit.
H. D. D.—hæredes dono dedere; honori domns divinæ.
HE. M. F. S. P.—hæres monumentum fecit sua pecunia.
HIC. LOC. HER. N. S.—vel HIC. LOC. HER. NON. SEQ.—hic locus hæredum non sequitur.
H. L. H. N. T.—hunc locum hæres non teneat.
H. M. AD. H. N. T.—vel H. M. AD. H. N. TRAN.—hoc monumentum ad hæredes non transit.
H. N. S. N. L. S.—hæres non sequitur nostrum locum sepulturæ, vel hæredem ... locus, etc.
HOC. M. H. N. F. P.—hoc monumentum hæredes nostri fecerunt ponere.
H. P. C.—hæres ponendum curavit; hic ponendum curavit;—L. D. D. D.—hæres ponendum curavit loco, dato decreto decurionum.
H. S. C. P. S.—hic curavit poni sepulcrum; hoc sepulcrum condidit pecunia sua; hoc sibi condidit proprio sumptu.
H. T. V. P.—hæres titulum vivus posuit, hunc titulum vivus posuit.
I. AG.—in agro.—-I. C.—-judex cognitionum.
I. D. M.—inferis diis maledictis: Jovi deo magno.
I. F. P. LAT.—in fronte pedes latum.
II. V. DD.—duumviris dedicantibus.
II. VIR. AVG.—duumvir Augustalis.
II. VIR. COL.—duumvir coloniæ.
II. VIR. L. D.—duumvir juri dicundo.
II. VIR. QQ. Q. R. P. O. PEC. ALMENT.—duumviro quinquennali qætori reipublicæ operum pecuniæ alimentariæ.
III. VIR. AED. CER.—triumvir ædilis cerealis.
IIII. V.—quatuorviratus.
IIII. V. A. P. F.—quatuorviri argento publico feriundo, vel auro.
IIII. VIREI. IOVR. DEIC.—quatuorviri juri dicundo.
IIIIII. VIR. QQ. L. D.—sexvir quinquennalis juri dicundo.
IN. AG. P. XV. IN. F. P. XXV.—in agro pedes quindecim in fronte pedes viginti quinque.
I. O. M. D. D. SAC.—Jov. optimo maximo, diis deabus sacrum.
I. P.—indulgentissimo patrono; innocentissimo puero; in pace; jussit poni.
I. S. V. P.—impensa sua vivus posuit, vel vivi posuere.
K. B. M.—carissimæ bene merenti, vel carissimo.
K. CON. D.—carissimæ conjugi defunctæ.
K. D.—kalendis decembris; capite diminutus.
L.—liberta; lucia.—L. B. M. D.—libens bene merito dicavit; locuno bene merenti dedit, vel libertæ, seu liberto.
L. F. C.—libens fieri curavit; libertis faciendum curavit; libertis fieri curavit, vel locum aut lugens.
LIB. ANIM. VOT.—libero animo votum.
L. L. FA. Q. L.—liberlis libertabus familiisque libertorum.
L. M. T. J.—locum monumenti testamento fieri jussit.
LOC. D. EX. D. D.—locus datus ex decreto decurionum.
L. P. C. D. D.—locus publice concessus, datus decreto decurionum.
L. Q. ET. LIB.—libertisque et libertabus.
L. XX. N. P.—sestertiis vigenti nummum pendit.
MAN. IRAT. H.—manes iratos habeat.
M. B.—memoriæ bonæ; merenti bene; mulier bona.
M. D. M. SACR.—magnæ deum matri sacrum.
MIL. K. PR.—milites cohortis prætoriæ.
M. P. V.—millia passuum quinque; monumentum posuit vivens, vel memoriam.
NAT. ALEX.—natione Alexandrinus.
NB. G.—nobili genere.—N. D. F. E.—ne de familia exeat.
N. H. V. N. AVG—nuncupavit hoc votum numini augusto.
N. N. AVGG. IMPP.—nostri Augusti imperatores.
NON. TRAS. H. L.—non transilias hunc locum.
N. T. M.—numini tutelari mumicipii.
N. V. N. D. N. P. O.—neque vendetur, neque donabitur, neque pignori obligabitur.
OB. HON. AVGVR.—ob honorem auguratus; ... H. VIR.—duumviratus
O. C.—ordo clarissimus.
O. E. B. Q. C.—ossa ejus bene quiescant condita.
O. H. IN. R. S. F.—omnibus honoribus in republica sua functus.
O. LIB. LIB.—omnibus libertis libertabus.
O. O.—ordo optimus.—OP. DOL.—opus doliare, seu doliatum
P. B. M.—patri bene merenti, vel patrono, seu posuit.
P. C. ET. S. AS. D.—ponendum curavit et sub ascia dedicavit.
PED. Q. BIN.—pedes quadrati bini.
P. GAL.—præfectus Galliarum, vel præses.
PIA. M. H. S. E. S. T. T. L.—pia mater hic sita est: sit tibi terra levis.
P. M.—passus mille; patronus mnnicipii; pedes mille: plus minus; pontifex maximus; post mortem; posuit merenti; posuit mærens; posuit monumentum.
P. P.—pater patriæ; pater patratus; pater patrum; patrono posuit; pecunia publica; perpetuus populus: posuit præfectus; prætorio præpositus; propria pecunia; pro portione; proprætor; provincia Pannoniæ; publice posuit; publice propositum; publii duo.
P. Q. E, vel P. Q. EOR.—posterisque corum.
P. S. D. N.—pro salute domini nostri.
P. V. S. T. L. M.—posuit, voto suscepto, titulum libens merito.
Q. K.—quæstor candidatus.
Q. PR. vel Q. PROV.—quæstor provinciæ.
Q. R. vel Q. RP.—quæstor reipublicæ.
Q. V. A. I.—qui vixit annum unum, vel quæ. A. III. M. II.—annos tres, menses duos.
A. L. M. IIII. D. V.—onnos quinquagnita, menses quatuor, dies quinque. A. P. M.—qui vixit... annos plus minus.
R. C.—romana civitas; romani cives.
R. N. L. ONG. P. X.—retro non longe pedes decem.
ROM. ET. AVG. COM. ASI.—Romæ et Augusto communitates Asiæ.
R. P. C.—reipublicæ causa; reipublicæ conservator; reipublicæ constituendæ, retro pedes centum.
R. R. PROX. CIPP. P. CLXXIIII.—rejectis ruderbusi proxime cippum pedes centum septuaginta quatuor.
R. S. P.—requictorium sibi posuit.
S.—sacellum; sacrum; scriptus; semis; senatus; sepulcrum; sequitur; serva; sibi: singuli; situs: solvit; stipendium.
S.—uncia.—S.—centuria.
S.—semuncia.—SB.—sibi; sub.
S. D. D.—simul dederunt, vel dedicaverunt.
S. ET. L. L. P. E.—sibi et libertis libertabus posteris ejus.
S. F. S.—sine fraude sua.—SGN. signum.
S. M. P. I.—sibi monumentum poni jussit.
SOLO. PVB. S. P. D. D. D.—solo publico posuit, dato decreto decurionum
S. P. C.—sua pecunia constitut; sumptu proprio caravit.
S. T. T. L.—sit tibi terra levis.
S. V. L. D.—sibi vivens locum dedit.
TABVL. P. H. C.—tabularius provinciae Hispaniae citerioris.
T. C.—testamento constituit, vel curavit.
T. T. F. V.—titulum testamentum fieri voluit.
V. C. P. V.—vir clclarissimus praefectus urbi.
V. D. P. S.—vivens dedit proprio sumptu; vivens de pecunia sua.
V. E. D. N. M. Q. E.—vir egregius devotus numini majestatique ejus.
VI. ID. SEP.—sexto idus septembris.
VII. VIR. EPVL.—septemvir epulonum.
V. L. A. S.—votum libens animo solvit.
VO. DE.—vota decennalia.
V. S. A. L. P.—voto suscepto animo libens posuit.
V. S. L. M.—votum solvit libens merito.
V. V. C. C.—viri clarissimi.
VX. B. M. F. H. S. E. S. T. L.—uxor bene merenti fecit, hic situs est. sit bibi terra levis.
X.—mille.—X. ANNALIB.—decennalibus.
X. IIII. K. F.—decimo quarto kalendas februarii.
X. VIR. AGR. DAND. ADTR. IUD.—decemvir agris dandis attribuendis judicandis.
XV. VIR. SAC. FAC.—quindecemvir sacris faciendis.
XXX. P. IN. F.—triginta pedes in fronte.
XXX. S. S.—trigesimo stipendio sepultus.

Figura 88

Notas[editar]

  1. Collocavam tambem nas estradas pedras que serviam para descançar os viajantes, e para os cavalheiros montarem a cavallo. [N. A.]
  2. Talvez seja derivado da palavra musæ, as musas, porque era principalmente nos templos d'estas deusas que o pavimento de musaico fôra empregado. [N. A.]
  3. Como foi descoberto, n'este anno, no Outeiro de Ferreira de Zezere um forno romano, tendo dentro telhas curvas com lavôres. [N. A.]
  4. Actualmente está entulhada até a nascença do arco da abobada. [N. A.]
  5. As de oliveira para Minerva; as de murta para Venus; as do pinheiro para Pan, etc. [N. A.]
  6. No tempo do imperador Justiniano houve uma luta entre a facção verde e azul, em que pereceram 40:000 homens. Depois d'este horrivel acontecimento ficaram abolidas as côres. [N. A.]
  7. Caligula consentiu em que pozessem almofadas ou tapetes nos assentos de pedra. [N. A.]
  8. Os logares estavam numerados e gravados na pedra, e cada espectador entrava com um bilhete de forma circular tossera theatralis, que designava o logar que devia occupar. [N. A.]
  9. Foi Quinto Catulos o primeiro que mandou estender um toldo de purpura. [N. A.]
  10. Suppõe-se que o uso de immolar os primeiros sobre o tumulo dos guerreiros, e os escravos sobre a sepultura de seus donos, deram origem a estes combates. [N. A.]
  11. Pompeu foi quem introduziu este uso em Roma; e Mecenas quem construiu primeiro estes monumentos publicos. [N. A.]
  12. Nas thermas d'este imperador havia 1:600 banheiras de porphyro e marmore; e n'este edificio podiam 3:000 pessoas tomar banho [N. A.]
  13. Havia em Roma 856 thermas. [N. A.]
  14. Veja-se na gravura da pag. 82 [fig. 69], os algarismos da planta que designam os diversos aposentos. [N. A.]
  15. Depois do incendio de Roma, no tempo de Nero, contavam-se ainda 48:000 casas, separadas umas das outras. [N. A.]
  16. O maior sabio agronomo da antiguidade, nascido no seculo I da era christã. [N. A.]
  17. A mais importante foi a do imperador Adriano, pois comprehendia uma superficie de dez milhas. [N. A.]
  18. O uso de se queimarem os corpos procedia de um mytho religioso que se conservou na Grecia e na Italia até o estabelecimento do christianismo. [N. A.]
  19. O maior cippo descoberto em Portugal foi achado em Citania (Guimarães). É de granito e de extraordinarias dimensões. [N. A.]
  20. Esta palavra de origem grega tem a mesma significação que os romanos davam ao cippo. [N. A.]
  21. Espécie de enxadão, de que os coveiros se serviam. [N. A.]
  22. Em Cetobriga (Setubal) existem cemiterios com os dois modos de enterramentos; o de incineração, estava collocado no centro de Troia, e o outro para os corpos sem serem queimados, existia na margem do Sado. [N. A.]
  23. Que é como a espuma: Venus saindo do mar. [N. A.]
  24. Latona, da qual nasceram, na ilha de Dellos, Apollo e Diana. [N. A.]
  25. Lucina, divindade romana que presidia aos partos. [N. A.]