O Último Concerto/XII

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O Último Concerto por Guimarães Júnior
Capítulo XII


Quando eu me apoderei da minha cadeira, a orquestra executava os prelúdios da ouverture. Percorria a sala do teatro, dos últimos camarotes às últimas gerais, uma espécie de ruído surdo e abafado, tal como acontece na atmosfera, carregada de eletricidade, quando através do pavilhão das nuvens a tempestade prepara-se para assombrar a natureza. Comecei a ter sérios receios pelo sucesso do Salustiano. Seria eu culpado ou não por haver insistido com o artista em levar-se a cabo uma empresa tão difícil e escabrosa? Arrependia-me da minha idéia, e o meu coração febril pulsava-me violentamente dentro do peito abrasado.

Terminavam os últimos sons da orquestra quando ela chegou à frente do camarote. Sua mão enluvada e graciosa sustentava sempre o hastil do cacto, cujas pétalas o calor das luzes e da noite fazia arrufar em um melindroso recato.

Ergueu-se o pano. A orquestra marcou os primeiros compassos do acompanhamento e as palmas vibrantes saudaram a aparição do Salustiano. Os olhos dele e os olhos dela encontraram-se de súbito e um flamejante clarão perpassou o rosto do artista, que se hasteou glorioso como um cetro triunfante.

A flauta, unida vertiginosamente aos lábios, desprendeu um trilo rápido, fugaz, lancinante, que parecia ferir os ouvidos na passagem. Em seguida as notas imponentes atacaram a introdução do Hino com um valor e uma sonoridade admiráveis. Todas as vistas estavam presas em cena, e um silêncio de morte pairava no ambiente luminoso. A pele úmida de Salustiano brilhava com as luzes e a flauta arquejava-lhe nas mãos convulsas. Com o busto meio pendido do camarote, a formosa criatura seguia a música, animando-se pouco a pouco de nota a nota, de compasso a compasso, como uma floresta virgem que desperta ao cântico matutino dos pássaros, e aos primeiros raios do sol no oriente. Entrou finalmente o Hino, o grande, o festivo, o indizível, o maravilhoso Hino da Mocidade! Era ele! Era a música, que em surdina cantarolavam os lábios túmidos e febris do artista na noite do Carnaval! Os sons tumultuosos e doces, tranqüilos e revolucionários, calmos e tempestuosos, enroscavam, serpenteando na atmosfera, serenos às vezes como a espiral de um perfume, e outras vezes arrogantes, amedrontadores, esplêndidos e voluptuosos como as iras, os gemidos e os beijos de um gigante.

A platéia inebriada e pasma estendia as mãos para a cena... Salustiano crescera a meus olhos; crescera prodigiosamente, assumindo a portentosa figura de um semideus. Ele batia-se com a sua criação, lutava com o seu talento, arcava com a fortaleza de sua alma, impetuoso, ardente, indomável, indescritível! As notas voavam no encalço cristalino de outras notas, confundindo-se em turbilhões, entrechocando-se, devorando-se, esvaindo-se em uma só e imensa harmonia!

Minha imaginação aterrorizada e acariciada a um tempo, via desenrolar-se, ante os seus olhos sôfregos, quadros de diversos matizes e cores, qual se o instrumento do artista fosse uma varinha encantada a cujo toque criavam-se novos mundos e abria-se de par em par o mitológico domínio das feiticeiras e dos duendes.

Galopavam corcéis de crinas flutuantes e dorso luzidio, cobertos de esmeraldas e rosas, montados por fogosas amazonas, cujo capacete de prata luzia ao clarão melancólico da lua!... O bando ruidoso fugia envolto na poeira argentina da noite, fazendo retinir no espaço radiante o choque das lanças sobre o dono dos animais, e o ruído das armaduras de ouro picando o ventre abrasado dos insaciáveis corcéis!

Imediatamente transformava-se o panorama e um grande lago, afagado pelos vislumbres da cadente madrugada, estendia até os confins do horizonte. Cortava a água um batel tripulado por anjos e seguido por uma falange de cisnes e garças, de asa espalmada.

Depois era uma floresta cheia de harmonias e sombras; depois a luta de dois gladiadores ofegantes; depois um templo majestoso em cujos altares celebrava o oficio divino, enquanto o órgão despejava a sua invisível urna de melodias e místicas emanações!

Contemplei a heroína de todos esses triunfos; ela pendia do camarote, trêmula, assustada, palpitante, de boca entreaberta, seio exausto e colo estendido, como se conhecesse que era a alma desse miraculoso Hino, e quisesse submergir-se no abismo luminoso que a atraía, fatalmente.

Salustiano tocava a meta do incompreensível. Não era a música de Verdi aquilo! Apaixonada e brilhante! Nem os soluços de Bellini; nem os caprichos provocadores de Rossini; nem a imponente inspiração de Meyerbeer, nem a chorosa loucura de Donizetti reveladas nas lágrimas de Lucrécia ou nos angustiados arroubos de Lúcia. Era o Hino da Mocidade! A alma de um artista feita em pedaços e ascendendo gigantescamente ao horizonte no meio de súplicas, de orações e de blasfêmias sublimes! As harmonias subiam, subiam, enovelavam-se, entrelaçavam-se como serpentes impalpáveis, e desfaziam-se de ímpeto como um dilúvio de estrelas e de raios!...

Salustiano cambaleava e o sopro estava quase a abandoná-lo.

O povo em pé entregava-se ao magnetismo daquela música, sem saber se ela o despedaçava ou comovia. Era a vitória do gênio! O triunfo irradiante da arte!

Enfraqueceram pouco a pouco as notas; diminuíram os sons, desenrolando-se como um colar de pérolas desmanchado; e em um último esforço, a derradeira harmonia ergueu-se palpitante do tubo da flauta e do peito do artista! O delírio fez explosão nesse momento! Os gritos, as palmas, os lenços, as flores coroavam tumultuosamente o intérprete da mocidade, e ela, à semelhança do aloés quando rompe do seio fecundo da terra, desprendendo um brado de entusiasmo, deixou cair aos pés do artista o cacto, úmido com as lágrimas que lhe choviam dos olhos deslumbrados.

Salustiano veio quatro vezes consecutivas à cena. Em todas elas unia aos lábios a flor, que era o resumo de todas as suas angústias, de todas as suas glórias, esperanças, desconforto, futuro e vida!

Quando eu corri à caixa, fui a tempo de recebê-lo entre os meus braços. O suor gotejava-lhe da fronte, e um calafrio intenso percorria-lhe o corpo forçando a contrair as mãos geladas.

A caixa foi invadida por grande parte do povo que reclamava o artista em altos brados.

Ele agarrou-me a mão e com a voz sibilante e breve:

— Vem! — exclamou.

Arremessou-se ao camarim e fechou a porta sobre nós. Sem me dar tempo de evitar-lhe o rápido movimento, despedaçou contra a parede a flauta, origem de seus recentes e deslumbrantes triunfos.

— Salustiano!

— Cumpro a minha promessa! E antes que me arrependa, olha!

Seus dedos nervosos rasgaram os papéis de música onde fora escrito o Hino, e ele lançou-se nos meus braços, chorando como uma criança. Batiam à porta do camarim, e a voz da velha chamou o artista.

Salustiano enxugou os olhos, afastou para longe os fragmentos da flauta e da música, dizendo-me ainda:

— Amanhã ou depois partirei deste céu e deste inferno. O destino permitiu, ao menos, louvado seja Deus, que caísse uma flor nas ondas do meu naufrágio!

E beijou respeitosamente as úmidas pétalas do cacto.