O Último Concerto/XI

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O Último Concerto por Guimarães Júnior
Capítulo XI


Fez-se um profundo e religioso silêncio em todo o teatro. Salustiano entrou em cena no meio de uma salva geral de palmas, enquanto o regente da orquestra entregava-lhe, em nome dos professores de música pernambucanos, uma gentil coroa de louros.

Estava pálido o artista como um sentenciado que aguarda o golpe do carrasco; estremeciam-lhe os membros visivelmente, e por duas vezes a flauta, conduzida à boca, resvalou mal suspensa dos dedos oscilantes.

O público, sem compreender aquela súbita comoção, procurou animar o seu predileto artista, fazendo-lhe soar de novo ao ouvido profusão de palmas e de bravos.

Só eu possuía o segredo, o lúgubre segredo de tão misterioso enleio. Salustiano não havia ainda erguido os olhos para o camarote fatal, e tentando descobrir o sentimento que se apoderava dela naquele instante, notei com desgosto que a sua misteriosa beleza, à semelhança da formosura das esfinges, não revelava a mais sutil comoção ou o menor abalo.

A orquestra lembrou o motivo dos Puritanos e deu começo ao acompanhamento. O maestro Colas não despregava a pupila ardente do semblante demudado de Salustiano.

Finalmente, depois de um supremo esforço, a flauta deixou voar as primeiras notas, tímidas, assustadas quase em murmúrio, como um enxame de mistérios suaves que têm medo de ser surpreendidos. Pouco a pouco foi ganhando alma o instrumento e entusiasmo o artista; pouco a pouco as notas mais firmes e vibrantes percorreram em deliciosas escalas os tesouros harmoniosos desse poema dos Puritanos, tão solene, no meio dos seus poéticos arroubos, e tão poético, em meio de suas lágrimas arrebatadoras!

A platéia prorrompeu em retumbantes aplausos.

Cai o pano, e dirigindo eu a vista ansiosa para o camarote, reparei que ela espalhava do lábio coralino aquele desdenhoso sorriso, que jamais a abandonava.

Fiquei indignado. Pois quê! Não haveria nada capaz de perturbar a eterna monotonia de tão peregrina formosura?! Seria realmente insensível essa menina a tudo quanto o céu formou para eletrizar as almas e produzir no coração humano o choque dos santos entusiasmos e dos irresistíveis delírios?!

Alva, tranqüila, primorosa, como a mais bem contornada estátua de mármore, obra do cinzel de Fídias, ela resistia com a impassibilidade das rochas ao fragor das palmas, que saudavam o artista inspirado, e as ondas de harmonias divinas que flutuavam através das luzes e do aroma, ora arquejantes como beijos insaciáveis, ora meigas, castas, puras e ternas, como um suspiro entre lágrimas ou as orações de um moribundo.

Fui encontrar o Salustiano no camarim, abatido e mudo.

— Creio que dou parte de fraco — disse-me ele. — Não posso mais.

— Saíste perfeitamente nos Puritanos.

— Pessimamente, deves tu dizer.

— Hás de permitir que eu não saúde com grandes exclamações a tua, aliás graciosíssima, modéstia!

— Graceja, graceja, inexorável amigo! Oxalá não te arrependas do passo que deste!

— Salvando-te?

— E terei eu forças bastantes para arrostar tão tremenda prova sem sucumbir nela?

— A imaginação dos artistas e dos poetas, Salustiano, é como o vidro do microscópio; faz de uma pulga um elefante.

— Tu é que pretendes transformar em rosas os espinhos que me cercam, mas meteste-me em uma empresa impossível!

— A propósito, quem vai tocar agora?

— Ninguém. O Roberto canta a Serenada do D. Pasquale.

— Eu tenho dito por aí cobras e lagartos a respeito do teu Hino.

— Maior será a desilusão do público!

— Veremos!

— Responda-me seriamente: não fizeram fiasco as variações dos Puritanos?

— A tua comoção serviu até de alvo aos aplausos, como viste!

— Palmas de compaixão!

— Estás insuportável, distintíssimo maestro!

Entrava no camarim a mãe do Salustiano. Mudamos de conversa. Dois minutos depois, fui ocupar o meu lugar nas cadeiras. O camarote estava vazio.

— Teria ela ido embora? — perguntei a mim mesmo com terror.

O R., que veio me falar, disse-me que ela e o pai passeavam no salão. Descansei. Enquanto se cantou a Serenada, e dois artistas, um violinista e outro perfeito violoncelista ocuparam a atenção pública, nem ela nem o velho dignaram-se vir ao camarote.

Desceu o pano, e eu dirigi-me ao saguão para fumar.

O tema da conversa entre todos era o Salustiano.

— Tiraria a sorte grande? perguntava um interlocutor a outro. – Despede-se da arte!

— Não sei. Ali está quem nos pode dizer alguma coisa.

Referiam a mim. O que fizera a pergunta era meu conhecido; encaminharam-se na minha direção, e o curioso questionou-me acerca da despedida à arte, anunciada pelo flautista.

— Ele anda doente — acudi eu, encontrando felizmente a tempo uma resposta banal; — quer tratar-se; vai para os sertões do Ceará um destes dias. Eis a explicação do anúncio!

— Coitado! Mal podia suster-se em cena, há pouco!

Salustiano fechara-se no camarim, através de cuja porta ainda pude ouvir os sons flébeis de sua flauta, recordando um ou outro motivo da música.

A mãe do artista, que se sentara junto aos bastidores, chamou-me.

— Parece-me que ele não está bom! — disse-me ela com cuidado.

— Por quê?

— Não sei, veja.

Salustiano abriu a porta do camarim e saiu com a flauta na mão. Realmente causava dó olhar-se para o pobre moço. Um terno sorriso, o sorriso do martírio resignado e do glorioso sofrimento aclarava-lhe como luz celestial os traços desfigurados.

Ele padecia atrozmente; sua alma a custo sustentava os ímpetos do coração opresso, e a sua inteligência por um esforço quase sobrenatural acudia às urgentes necessidades de momento; a flama do talento sobrepujava as aflições profundas da existência dilacerada.

— O que sentes tu?

Tive desejos de arrastá-lo do teatro; dir-se-ia que ele agonizava.

— Nada. Uma debilidade passageira.

— Acabemos com isto, Salustiano! És ou não és um homem? Tens ou não tens força suficiente para saltar sobre o ridículo que o teu misterioso sofrimento pode provocar ante os olhos do público?

— Ridículo; acreditas que seja ridículo isto?

E o artista espalhou por um nervoso movimento os cabelos revoltos, como um brioso corcel que se prepara para o combate.

— Acredito que o povo não sabe acompanhar as peripécias extravagantes de tua vida, e não poderá, portanto, desculpar-te as heróicas pusilanimidades. Cada um pagou o seu bilhete de cadeira, platéia, camarote ou galeria no honesto e louvável intuito de ouvir a tua flauta e admirar o teu talento. Ora, é pouco airoso apresentares-te como tipo de romance perante uma multidão pouco amiga, neste momento, de coisas imaginárias ou poéticas.

— Basta. Eu não te envergonharei, nem me envergonharei também. Vai descansando — continuou ele rapidamente e empurrando-me com brandura; — não tarda a subir o pano... vai! Oh! É verdade; conduz minha mãe ao camarote.

A velha persistia em ficar na caixa; Salustiano, enfadando-se, obrigou-a a subir para a terceira ordem onde lhe havia reservado um lugar.