O Coruja/II/XIV

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O Coruja por Aluísio Azevedo
Segunda Parte, Capítulo XIV


Voltou a casa às horas de jantar, e mais aborrecido do que nunca. Para isto contribuía em grande parte a insociável catadura com que o tio recebeu.

Ao entrar na alcova soltou uma exclamação:

— Pois a senhora ainda está aí? perguntou ao dar com Ernestina estendida na cama. — Ora esta!

— Você é um malvado! respondeu ela com dificuldade, por causa de uma formidável rouquidão. Você é um judeu!

— Está incomodada?

A teimosa meneou a cabeça afirmativamente e explicou, mais por mímica do que por palavras, que aquela sua ida à janela a pusera naquele estado.

— Estou ardendo em febre, disse. — Seu amigo chamou um médico, foi buscar os remédios e deu-me um suadouro. Creio que vou transpirar. É preciso não abrir a janela.

— Pois eu hei de ficar fechado aqui com este calor? Ora, minha senhora!

E o pior, pensava ele, é que estou sem vintém.

Entretanto, desceu ao banheiro, lavou-se, mudou de roupa e, antes de assentar à mesa de jantar, chamou pelo Caetano e, entregando-lhe o seu relógio e a sua corrente, ordenou-lhe que levasse esses objetos a uma casa de penhores.

— Irei depois, objetou o criado: — por enquanto tenho de servir o jantar.

— E o Sabino?

— O Sabino desapareceu há três dias.

— Bem, nesse caso irás depois.

E mais baixo:

— A Ernestina almoçou?

— Bebeu um caldo. O médico recomendou que não lhe dessem nada de comer.

— Bom. Não te descuides dela.

— É verdade, acrescentou o criado, — aqui está uma carta de Minas para vossemecê.

— Por falar nisso: o Hipólito chegou; já sabias?

— Ainda não senhor. Vossemecê falou com ele? Como ficou sinhá Gemi?

— É dela justamente esta carta. Vejamos.

Querido sobrinho — Teu tio segue amanhã para aí, vai tratar da compra de um engenho e conta demorar-se um mês ou mais: desejaria eu que o procurasse logo que esta recebesses. Ele há de falar-te sobre um pedido que lhe fiz a teu respeito: é uma questão de mesada, visto que, segundo me consta, tens, aí, depois da morte de teu pai, lutado com grandes dificuldades. Eu, se há mais tempo não fui ao teu socorro, é porque teu tio está cada vez mais apertado em questões de dinheiro e não queria por coisa alguma entrar em acordo comigo.

Mas agora consegui dele prometer-me que te havia de procurar e que te daria 50$ por mês; não é muito, bem sei, mas com esse pouco e alguma boa vontade poderás continuar os estudos, que muito lamento haveres interrompido.

Acredita, meu filho, que, se a coisa dependesse só de mim, não chegaria a sofrer a menor privação; posto que nunca te lembres desta tua pobre tia, que muito te ama e quer.

Adeus. Receba um abraço, dá lembranças ao Caetano e, quando puderes, vem fazer um passeio à fazenda.

O criado, que ouvira atentamente a leitura, chorava de alegria, quando o amo acabou a carta.

— Sim senhor! Gostei! exclamou ele — não esperava outra coisa de sinhá Gemi!

— E no entanto, respondeu Teobaldo, nada disto me adianta, pois já estive hoje com meu tio e recusei de antemão a mesada!

— Pois vossemecê recusa a mesada de sua tia?

Não é por ela, é por aquele malcriado do Hipólito.

— Vossemecê faz mal.

— Embirro com ele. Acabou-se! E erguendo-se da mesa: — Mas que ainda fazes aí? Dá-me o café e vai onde mandei. Anda! — Então! Não te mexes?

Caetano dirigiu-se para a porta, mas voltou hesitando.

— Então! fez Teobaldo.

— É que, se vossemecê permitisse.. . eu tenho aí algum dinheirinho, que...

— Não, não, obrigado, meu amigo, não te incomodes; desejo mesmo empenhar o relógio... Anda! Vai!

— Então faça ao menos uma coisa...: empenho-o em minhas mãos; sempre é mais seguro...

— Ah! Que és mais impertinente do que o próprio Samuel! disse o rapaz.

E o Caetano, aproveitando esse bom humor, correu ao seu quarto e voltou com uma pequena caixa de folha.

— Vossemecê tenha a bondade de servir-se...

Teobaldo retirou duas notas de vinte mil réis.

— Estás satisfeito, usurário? Não sabia que era essa a tua vocação!

— Agora, Vossemecê faz-me um favor...

— Ainda?

— É de guardar-me esses objetos; podem roubá-lo e...

— Mas, que diabo! eu não devo ficar com o dinheiro e com o penhor!

— Vossemecê pagará depois os juros...

— Também já entendes de juros, hein?...

— Oh! se entendo.. . Fosse vivo nhô Miló, coitado! que ele lhe daria as contas que eu sabia fazer de cabeça?... Nunca me passaram a perna num vintém!

— Pois olha, se com todos fazias negócios desta ordem, podes limpar as mãos à parede!

O velho, satisfeito com o que acabava de dar-se, prendeu por suas próprias mãos a corrente ao colete do amo, meteu-lhe o relógio na algibeira e afastou-se receoso de comovê-lo com a sua presença.

Logo depois Teobaldo saiu e dirigiu-se diretamente para o colégio onde trabalhava o Coruja.

Encontrou-o ainda ocupado com a última aula e dispôs-se a esperar por ele.

— Tu por aqui? disse André, quando lhe apareceu no fim de meia hora.

— É verdade, procurei-te para te pedir um obséquio.

— Estou às tuas ordens.

— Quando fores para casa, se ainda encontrares lá aquele estafermo, despede-o por uma vez e dize-lhe que eu não voltarei enquanto me constar que ela não se foi embora.

— A Ernestina? mas sabes que ela está doente?

— Apenas constipada; não é motivo para não ir.

— Coitada. Ela parece gostar tanto de ti...

— De acordo, mas eu é que não tenho nada com isso. São muito engraçadas estas senhoras: entendem que um homem, pelo simples fato de que as agrada e lhes merece amor, deve ficar submisso às ordens delas.

— Mas...

— Imagina tu que vinte mulheres pensam do mesmo modo e ao mesmo tempo a meu respeito; algumas, pelo menos, ficarão fatalmente sacrificadas, porque a gente não pode dedicar-se a tantas... E note-se que nenhuma delas admite divisões de ternura; cada uma quer tudo para si e leva o egoísmo ao ponto de não consentir que o objeto do seu amor pense em outra pessoa que não seja ela! Ah! É uma bela coisa, não há dúvida!

— Escolhe uma entre todas e dedica-te só a essa. A Ernestina, por exemplo...

— Não, não quero Ernestina, como não quero nenhuma. Trata tu de despachá-la, que eu me encarrego das mais. Daqui, vou já principiar a cuidar disso; é preciso não perder tempo. Adeus.

Coruja quis ainda detê-lo:

— Olha, ouve!

— Nada! Faze-me o que te pedi e, se ela de todo não quiser sair, amanhã mesmo nos mudaremos. Adeus.

E ganhou a rua, tomando logo a direção da casa de Leonília.

Durante o caminho fez ainda várias considerações sobre aquela "terrível fatalidade" que lhe prendia aos calcanhares uma inevitável cauda de mulheres. Suplício estranho, contra o qual não havia remédio possível, a não ser que ele fugisse para um lugar onde só houvesse homens.

Teobaldo tinha um desses tipos de que em geral gostam infinitamente as senhoras de moral fraca. Nele tudo parecia feito de propósito para cativá-las: os seus grandes olhos apaixonados, ora ternos, ora atrevidos, tão prontos a desmaiarem de amor como a ferirem com arrogâncias; o seu pequeno bigode crespo, arrepiado; a sua boca desdenhosa, aristocrata e sensual a um tempo; a sua fronte de homem de talento, sobre a qual uma bela cabeleira caía em anéis que se agitavam ao menor movimento da cabeça; o seu largo pescoço de estátua, pálido e rijo como o mármore; o seu perfil sereno e firme, orlado pela fina transparência da epiderme; as suas mãos longas e formosas; o seu porte gracioso e desafetadamente altivo; a sua voz insinuante e ligeiramente irônica; a sua verbosidade original, cheia de espírito e alheia aparentemente ao efeito que levantava; tudo isso, e mais os pequeninos nadas do seu todo, que ninguém poderia determinar, mas que todos sentiam como se sente um perfume sem saber donde ele vem: tudo isso parecia destinado a encher de sonhos a fantasia das mulheres ávidas de ideal. E cada uma delas via nele o homem ambicionado; e cada uma, por amá-lo como as outras, entendia-se com o direito exclusivo de persegui-lo.

Triste martírio para quem, como Teobaldo, não queria aceitar favores de qualquer gênero que fosse, e para quem era necessário cuidar seriamente do futuro.

E a graça é que a pobreza, a que ele se via agora reduzido, longe de ser uma barreira de resguardo contra aquela invasão, era como que um novo atrativo ajuntado aos seus encantos. E quanto mais fugia delas, com tanta mais insistência o rebuscavam; quanto era maior a sua indiferença, tanto maior o empenho que elas faziam. Se as tratava pelo modo por que tratou Ernestina, se as ameaçava, se lhes chegava a bater, como fizera a diversas, então é que o não deixavam de todo e a perseguição contra o belo desgraçado tomava um caráter horroroso.

E ele, que a princípio com isso se divertia, chegando até a julgar-se lisonjeado no seu amor-próprio, já por último andava sinceramente aborrecido com tanto amor; já o irritavam os beijos soluçados e as delirantes palavras de ternura. — Ah! não queria ouvir falar em paixão, e fugia de certas mulheres como um criminoso foge da polícia.

A Ernestina, então, uma atriz de segunda ordem em tudo, mas que não perdia as esperanças de conquistá-lo, essa o trazia num cortado. Era bispá-la, quebrava ele a primeira esquina, metia-se no primeiro corredor, enfiava pela primeira escada, e, apesar disto, não conseguia escapar-lhe, porque o demônio da mulher parecia ter faro de cão matreiro.

Quando ele chegou à casa de Leonília, disseram-lhe que esta havia-se mudado para um hotel na Tijuca, porque o médico assim lho ordenara.

— Está doente? perguntou Teobaldo.

Responderam-lhe que sim, que lhe aparecera febre, uma enorme sobreexcitação nervosa, fastio e dores na caixa do peito.

Entrou na alcova: O isolamento desta, em vez de o impressionar desagradavelmente, trouxe-lhe ao contrário um certo prazer íntimo de quem se vê livre de uma maçada que já tinha como inevitável.

Deitou-se na cama e tomou um livro que estava sobre o velador. Dentro do livro havia uma carta sobrescritada para ele.

— Escreveu-me, mas não se animou a remeter-me a carta, pensou, abrindo-a.

Teobaldo.

És um miserável. Melhor seria que, em vez de procederes infamamente para comigo, como acabas de proceder, me houvesse falado logo com toda a franqueza e tivesse me mandado para o diabo. Seria mais simples e muito mais digno. Até hoje homem nenhum teve a petulância de fazer-me a vigésima parte do que tens feito; envergonho-me de me haver iludido ao ponto de contar, já não digo com o teu amor, que tu só amas a ti próprio, mas ao menos com o teu reconhecimento, que era dever teu para comigo.

Saíste-me vulgar e mesquinho como os outros — paciência!

Ontem fui â tua casa; mas, ao subir as escadas ouvi uma voz de mulher, espiei pela fechadura, vi-te a discutir e a ralhar com uma sujeita; alguma cena de ciúmes! quis entrar e confundir a ambos, resolvi, porém, não ligar tanta importância a um fato que afinal não a merecia, e saí com a intenção de nunca mais te procurar.

"Ao chegar á casa, ardia em febre; à noite não pude me levantar da cama; veio o médico, aconselhou-me todo o repouso, e que eu evitasse contrariedades e que, mal me achasse em estado de sair, procurasse um arrabalde bem tranquilo e salubre.

"Não sei qual é a minha moléstia, posso apenas afiançar que estou muito doente, nervosa a um ponto de fazer lástima, sem poder comer e sem poder dormir; a boca muito amarga, a caixa do peito muito dorida, e que a causa de tudo isso, — és tu.

"Não obstante perdôo-te, porque não és o culpado de te amar eu tanto. Só desejo que nunca te façam passar pelo que me tens feito sofrer.

"Adeus. Amanhã sigo para a Tijuca, e é natural que em breve esteja de viagem para a Europa. Se quiseres me ver antes disto procura-me e, se não queres, remete-me o teu retrato. Adeus.

Assinara o nome dela.

— Sempre a mesma coisa!... pensou Teobaldo com um gesto de aborrecimento; mas foi interrompido pelo criado, que vinha fazer entrega de uma carta que deixara a senhora.

— Uma carta!... Para mim!... perguntou o rapaz.

— Sim, para o Sr. Teobaldo.

Lembrou-se este então de que a outra, que acabava de ler, não lhe tinha sido remetida e abriu a nova com uma certa curiosidade.

Querido Teobaldo.

Peço-te que não me procure. Deixo esta casinha por interesses particulares e é natural que do lugar a que me destino siga logo para a Europa.

Sou inconstante, perdoe, é uma questão de temperamento.

Adeus. Seja feliz!

Teobaldo sorriu ao terminar a leitura.

— Coitada! disse consigo. — Foi infeliz! esqueceu-se de inutilizar a outra carta, sem o que talvez produzisse esta o efeito a que se destina. Definitivamente não nasci para sofrer pelas mulheres!...

E ganhando de novo a rua:

— Daqui nada mais tenho a recear! Desta estou livre!

Ao entrar na cidade encontrou logo o Aguiar.

— Amanhã, hein? disse-lhe este, não te esqueças!

Teobaldo já se não lembrava de que.

— Oh! homem, da festa de meu tio! Amanhã é o dia dos anos de Branca.

— Ah! sim! É bem possível que eu vá.

E seguiram juntos para tomar alguma coisa.