O Coruja/II/XX

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O Coruja por Aluísio Azevedo
Segunda Parte, Capítulo XX


O Aguiar, ao lhe constar a entrada de Teobaldo para o escritório do tio, esteve a perder os sentidos, tal foi o abalo que lhe produziu a notícia; mas, ordenando as suas idéias e meditando o fato, tocou logo para a casa de Leonília, disposto a por mão em todos os meios que lhe servissem de arma contra o rival.

— Aposto que não adivinhas o que aqui me traz!... principiou ele, assim que a cortesã lhe apareceu no patamar da escada.

— Saberei se mo disseres..

— É uma revelação de amigo...

— Uma revelação? Entra.

— Com licença.

E, assentando-se defronte dela:

— Ainda gostas muito de Teobaldo?

— Loucamente, por que?

— Sentirias muito se ele te abandonasse?

— Se me abandonasse? Mas que queres dizer? Há alguma novidade? ele tenciona sair do Rio? Anda! fala por uma vez!

— Não, não é isso...

— Então que é? Desembucha!

Aguiar estendeu as mãos uma contra a outra, em sinal de casamento e fez um trejeito com os olhos.

Casar? ele? exclamou Leonília empalidecendo repentinamente. — Ele vai casar?!

— Está tratando disso e é natural que a consiga se lhe não cortarem os planos... Só uma pessoa o poderia fazer e essa pessoa és tu.

— Eu?! disse ela, afetando indiferença. — Ora, que me importa a mim! Que se case quantas vezes quiser!

Mas puxou logo o lenço da algibeira, escondeu os olhos e atirou-se depois sobre o divã, soluçando aflita.

— Bom, bom! pensou o rapaz — com esta posso contar!...

E foi assentar-se ao lado da cortesã, para lhe expor o caso minuciosamente. Soprou-lhe em voz baixa o nome da noiva, o número da casa do tio, falou sobre este e sobre Mme. de Nangis e terminou dando parte do novo emprego de Teobaldo.

— Se aquele patife continuar mais algum tempo no escritório, segredou ele, estará tudo perdido! É preciso antes de mais nada arrancá-lo dali. Conheço-lhe as manhas, é capaz de enfiar um camelo pelo ouvido de uma agulha!... Trata de evitar o casamento e podes, além do resto, contar com uma boa recompensa de minha parte. Adeus.

Leonília deixou-o sair, sem lhe voltar o rosto, nem lhe dar uma palavra. Só alguns minutos depois, ergueu-se, passou as mãos pelos cabelos das fontes, suspirou prolongadamente, mirou-se no espelho que lhe ficava mais perto e apoiou-se a um móvel, com o olhar cravado em um ponto da sala.

— Miserável! balbuciou ela depois de longa concentração. — Miserável! E ele que nunca me falou nisto... Iludir-me por tanto tempo!... Tinha um casamento ajustado, tinha um namoro, e eu supondo que era amada!... Ah! quando me lembro que ainda ontem lhe disse que seria capaz de tudo por causa dele, que tudo suportaria para não me privar dos seus carinhos!... Oh! mas hei de vingar-me, hei de fazê-lo sofrer o quanto for possível, hei de persegui-lo enquanto durar o meu amor! Ou este casamento será desmanchado ou Teobaldo não terá mais um momento de repouso em sua vida!

E desde então principiou Leonília a fazer planos de vingança, a imaginar maldades e represálias contra o amante, disposta a não lhe deixar transparecer o menor indício das suas intenções; mas, na primeira ocasião em que Teobaldo esteve ao seu lado, ela não se pode conter e, entre soluços, deixou rolar contra ele a formidável tempestade de ciúmes que a tanto custo reprimia.

— É exato, respondeu o moço sem se alterar. Já que sabes de tudo confesso-te que vou casar.

— Hipócrita!

— Hipócrita, por que? Então não posso dispor de mim?

— Não, decerto! a não ser que tenciones me dar o mesmo destino que teve a pobre Ernestina!

Teobaldo fez um gesto de contrariedade e Leonília acrescentou:

— Não, de certo, porque, quando uma mulher ama como eu te amo, não pode consentir que o seu amado se case com outra!

— Mas, filha, é preciso ser razoável!... Querias então que eu fosse eternamente o teu amant de coeur?... querias que eu não tivesse outras aspirações, outros ideais, senão representar a indigna e falsa posição que represento aqui nesta casa, que não é paga só por mim?...

Oh! Já tive ocasião de provar-te que não ligo importância a tudo isto!

— Sim, mas não compreendes que tenho aspirações e prezo o meu futuro? não vês que seria loucura de tua parte contar comigo para toda a vida?... Oh! às vezes nem me pareces uma mulher de espírito!

— E amas tua noiva?

— Se não a amasse, não desejaria casar com ela.

— Dize antes que lhe cobiças o dote; serias, ao menos, mais delicado para comigo.

— Bem sabes que eu não minto...

— Quando não te faz conta!...

— Desafio-te a citares uma mentira minha!

— Ora! não tens feito outra coisa até agora, escondendo de mim os teus projetos de casamento.

— Não! Isso seria falta de franqueza, mas nunca mentira.

— É mentir fazer acreditar em um amor que não existe.

— Eu nunca fiz semelhante coisa! Não fui eu quem te iludiu, foste tu própria!

— Confessas então que nunca me amaste, não é assim?

— A que vem esta pergunta?... Amar! amar! Oh! como tal palavrão me enjoa e apoquenta!

— É porque és um cínico!

— Não, é porque "amor" nada exprime, é um palavrão sem sentido; fala-me em simpatia, em gostar de ver alguém e senti-lo ao seu lado; fala-me na estima e no apreço em que temos aos bons e os generosos, e eu te compreenderei e eu te direi que te aprecio e te quero!

— Vais me oferecer a tua amizade. Aposto.

— Não te posso oferecer uma coisa que dispões há muito tempo... O que eu desejo é apelar justamente para essa amizade e pedir-te em nome dela que não sejas um obstáculo ao meu futuro e à minha tranquilidade.

— Não te compreendo.

— Meu futuro baseia-se todo neste casamento.

— E vens pedir que eu te auxilie?...

— Sim.

— Pois desiste de tal idéia!

— Não queres me proteger?

— Quero guerrear-te.

— Ah!...

— Hei de fazer o possível para que o teu casamento nunca se realize!

— É assim que és minha amiga?...

— É assim que sou rival de tua noiva! Hei de fazer o que puder contra ela! És meu! amo-te! hei de defender-te de toda e qualquer mulher, seja uma das minhas ou seja uma donzela de quinze anos!

— Queres então que eu me arrependa de haver consentido em ser teu amante?

— Não sei! quero é que não me deixes! Sou muito mais velha do que tu; espera que eu morra e casarás depois com uma das que aí ficarem.

— És má!

— Sou mulher.

— Adeus.

E fez alguns passos na direção da porta; ela atirou-se-lhe no pescoço e começou a soluçar, beijando-o todo, sofregamente, como quem se despede do cadáver de um ente querido a que vão sepultar.

Teobaldo, entretanto, conseguiu desviar-se-lhe dos braços e saiu, disposto a nunca mais tornar ao lado dela.

Mas, no dia seguinte, às duas da tarde, trabalhava no escritório do patrão, quando viu parar à porta o carro de Leonília e logo, em seguida, entrar esta pela casa, à procura do Sr. comendador Rodrigues de Aguiar.

— O comendador não está, disse-lhe um caixeiro. Leonília perguntou a que horas o encontraria; o caixeiro respondeu, e ela saiu com o mesmo desembaraço com que entrara.

Teobaldo, mal ouviu bater a portinhola do carro, atirou para o lado a correspondência, pôs o chapéu, abandonou o escritório, tomou um tílburi e seguiu na pista da cortesã. Quando esta se apeava à porta de casa, ele surgiu ao lado dela.

— Que deseja de mim? perguntou Leonília parando à entrada.

— Pedir-lhe um favor.

— Agora não lhe posso prestar atenção. Adeus.

— Olha! Ouve!

Ela não respondeu, arrepanhou as saias, galgou a escada e Teobaldo ouviu bater em cima uma porta fechada com arremesso.

Tornou à rua estalando de cólera.

— Maldita mulher! pensou ele. Maldita mulher, que tanto mal me faz!

E, quando mais reconsiderava as vantagens do seu casamento, mais furioso ficava contra Leonília e mais apaixonado se supunha pela graciosa filha do comendador.

Meteu-se de novo no tílburi e mandou tocar a toda força para o colégio onde trabalhava o Coruja. Era uma idéia que lhe aparecera de repente.

E assim que viu o amigo:

— Arranja uma saída já! disse-lhe, sacudindo a mão dele entre as suas. Preciso de ti no mesmo instante. É um caso urgente. Vem daí!

O Coruja, meio contrariado por interromper a sua obrigação, mas ao mesmo tempo já em sobressalto com as palavras do amigo, não se fez esperar muito.

— Então, que temos? perguntou logo que se viu a sós com Teobaldo na rua.

— André, preciso que me prestes um serviço, um verdadeiro serviço de amigo: Leonília quer desmanchar o meu casamento; é necessário convencê-la do contrário. Só tu me poderás fazer isso; és o único homem sério de que disponho! Vai ter com ela e chama-a à razão! Fala-lhe com franqueza, promete-lhe o que entenderes, contanto que a convenças!

— Ela ameaçou-te de fazer qualquer coisa?

— Nem só ameaçou, como até já foi ao escritório do comendador procurá-lo!

— Falou-lhe?

— Não porque felizmente ele não estava em casa, mas volta amanhã sem dúvida ou talvez ainda hoje mesmo, e tu bem sabes que, se ela fala ao comendador, estou perdido! e adeus casamento, adeus futuro, adeus tudo!

— É preciso então ir já?

— Sim, imediatamente! Olha! mete-te no tílburi e vai, anda!

Coruja fez ainda algumas perguntas, tomou certas informações e afinal seguiu para a casa de Leonília.

Veio ela própria recebê-lo, fê-lo entrar para a sala e assentou-se-lhe ao lado.

Só então o pobre André avaliou o alcance do seu compromisso; achou a comissão mais difícil do que julgara e a si próprio mais fraco do que supunha; mas vencendo o acanhamento, principiou sem transição:

— Sabe, moça, eu venho aqui para lhe pedir um favor...

— O senhor é o amigo de Teobaldo, não é verdade?

— Sou eu mesmo.

— O Coruja, não?

— Justamente.

— Que favor deseja pedir?

— Que a senhora não faça a desgraça do nosso amigo.

— Como?

— Desmanchando-lhe o casamento.

— Ele então já lhe falou nisso?

— Já, e eu vim pedir à senhora que tenha pena do pobre rapaz.

— E ele teve pena de mim, porventura? Ele não calculou que com esse casamento fazia a minha desgraça? Não se lembrou de que há já um bom par de anos que nos amamos e eu não poderia de braços cruzados vê-lo atirar-se nos de outra mulher?... Ele não calculou tudo isso?

— Mas é necessário, replicou André.

— Para quem? perguntou a rapariga.

— Para ele.

— Pois também é necessário para mim que ele não case.

— Não tanto...

— Não tanto? Ora essa! Por que?

— Porque a senhora já tem, boa ou má, a sua vida constituída, e ele precisa fazer um futuro, precisa arranjar uma posição.

— Ora!

— E que talvez a senhora não esteja bem informada, as coisas nunca se acharam para ele tão ruins! Teobaldo está em uma situação crítica, muito crítica; se não consegue realizar este casamento, fica perdido, perdido para sempre, e, como lhe conheço bem o gênio, receio pela vida dele!...

— Outro tanto não faz ele a meu respeito.

— Ah! mas a senhora não se vê nos mesmos apuros...

— Engana-se, meu amigo, estou até em muito piores condições. Todo este luxo que o senhor tem defronte dos olhos não significa opulência, significa miséria!... Sou mais infeliz do que qualquer das minhas companheiras, porque tenho coração, porque sinto e conheço o terreno em que piso, e sei avaliar cada passo que dou neste tristíssimo caminho de minha vida! Ah! vêem-me rir; vêem-me zombar de tudo e de todos, e no entanto só eu sei o que vai cá por dentro! Sofro e sofro mais do que ninguém! Cada beijo que tiro dos meus lábios para vender, é mais uma fibra que me estala nalma! Oh! daria todo o meu sangue para não ser quem sou!

O Coruja principiava a comover-se.

— Mas... prosseguiu Leonília, o senhor no fim de contas tem toda a razão: meu amor não é como o amor das outras pessoas, o meu amor, em vez de elevar, humilha e rebaixa! Quanto mais delicada, quanto mais escrava e amiga me fizer de Teobaldo, tanto mais o prejudico! Tem toda a razão! É indispensável que eu me afaste dele por uma vez! É preciso que eu acorde deste sonho para cair de novo na triste realidade do meu destino! Que importa que isso agrave os meus sofrimentos; que os torne perigosos; que os torne fatais?... Que importa, se nada lucram os outros com a minha vida ou perdem com a minha morte?... Ele quer abandonar-me? Pois não! faz o seu dever obrará como um "rapaz de juízo"! Todos os homens sérios e refletidos aplaudirão esse ato! Ele quer casar? Nada mais justo! O casamento é a moral, é a ordem, é a dignidade no amor! Pois alguém lhe perdoaria abandonar um casamento vantajoso só para impedir que sucumba uma desgraçada, uma mulher perdida? Ninguém, decerto! Ah! tudo tem seu tempo! Amou-me enquanto podia e precisava amar-me; depois nada mais tem que fazer a meu lado e vai buscar o que lhe convém, o que serve para o seu futuro! Aqui não se trata de mim; trata-se dele apenas; eu que não fosse tola! Quem me mandou tomar a sério o que não devia passar de uma brincadeira, de um capricho? Quem me mandou a mim sonhar com felicidades que me não pertencem?... Pois não devia eu calcular logo que as desgraçadas de minha espécie só tem direito à libertinagem, ao vício e à eterna degradação?...

E Leonília rompeu em soluços.

— Não se mortifique... aconselhou o Coruja, sem achar o que dizer.

— Ah! sou muito, muito desgraçada! Ninguém poderá calcular o quanto sofre uma mulher nas minhas condições, quando ela não sabe ser quem é e quer se dar à fantasia de revoltar-se contra o seu próprio meio! Por todos os lados sempre a mesma lama: o que se come, o que se veste, o que se gasta, é tudo prostituição; nada que não tenha a mancha de podre! E no entanto uma coisa boa e pura me restava ainda no meio de tanta imundícia: era o meu amor por Teobaldo; esse não tinha sido contaminado pelo resto... Quando eu me sentia aviltada por tudo e por todos, refugiava-me nele, lembrava-me de que o amo sem interesses mesquinhos, sem hipocrisias, nem baixezas; e esta idéia me fazia por instantes esquecer de mim mesma, esta idéia como que me transformava aos meus próprios olhos, e eu me supunha menos só no mundo e menos prostituta! Agora, querem arrebatá-lo; querem tomar-me o único pretexto que eu tinha para viver... pois levem-no! Mas, oh! por quem são! deixem-me morrer primeiro! Não há de custar tanto!

— Não pense nisso!

— E do que me serve a vida sem Teobaldo?... É que o senhor não conhece, não pode imaginar o que é a existência de nós outras, mulheres perdidas! É simplesmente horrível! Hoje ainda encontro quem me ampare, porque não estou de todo acabada; mas amanhã os homens principiarão a desertar e as suas vagas representarão mil necessidades — depois a moléstia, a fome completa e afinal — "Uma esmola por amor de Deus!" Eis aí o que me espera, como espera a todas as minhas iguais! Atravessamos uma existência de vergonhas para acabar num hospício de idiotas ou num hospital de mendigos! Pois bem! com a idéia em Teobaldo, eu me esquecia desse futuro implacável; bem sei que ele nunca me recolheria de todo à sua guarda... Quem sou eu para merecer tanto?.. . mas dizia comigo "Ele, coitado, tem-me amor, nada me pode fazer por ora; mais tarde, porém, quando me vir totalmente desamparada, virá em meu socorro e não consentirá que eu morra como um cão sem dono!"

— E quem lhe disse que ele não olhará pela senhora?... Por que o há de supor tão mau?

— Ah! Mas uma vez casado, a coisa muda logo de figura... Não há homem que se não modifique deixando o estado de solteiro! Quando eles até então só amam a mulher com que se casam, mal a possuem esquecem-na por outra; e, se antes do casamento já se dedicavam a qualquer amante, será esta sacrificada à legítima esposa. Esta é a lei geral; esta há de ser a lei de Teobaldo!

— Mas, segundo me parece, isso não impede que ele seja eternamente grato aos desvelos que a senhora lhe dedicou.

— Sim, creio, e é justamente por esse motivo que eu nada esperarei dele depois do casamento. Uma mulher aceita a compaixão seja de quem for e pelo que for, menos do seu amado, em substituição da ternura.

— Pois se lhe repugna aceitá-la das mãos dele, pode recebê-la das minhas; comprometo-me a olhar pela senhora.

Leonília, ao ouvir isto, voltou-se de todo para o Coruja e mediu-o em silêncio com os olhos ainda congestionados pelo choro. "Que significaria aquela proposição?..."

— O senhor tenciona tomar-me à sua conta?... perguntou ela surpresa. Tenciona fazer-se meu amante?

André tornou-se vermelho e balbuciou:

— Está louca?

— Mas não é essa a proposta que acaba de fazer?

— Eu lhe ofereci apenas o meu auxílio pecuniário...

— Quer ser então o meu protetor?

— Quero opor-me à desgraça de Teobaldo.

— Quanto o senhor é amigo daquele ingrato!

— Se a senhora se acha disposta a sair do Rio de Janeiro, arranja-se-lhe o necessário para a viagem. Concorda?

— Sim; creia, porém, que é mais pelo senhor do que por ele.

— Obrigado. Amanhã mesmo lhe chegará o dinheiro às mãos. Adeus.

Leonília foi acompanhá-lo até à porta e o Coruja saiu para ir ter com Teobaldo.

— Bonito! exclamou este, quando o amigo lhe prestou contas da sua comissão — Fizeste-la bonita!

— Como assim?

— Pois tu foste prometer dinheiro à mulher? Não sabes que não tenho onde ir buscá-lo?

— Dividiremos a despesa... eu posso arranjar a metade. Creio que, se lhe mandarmos uns duzentos mil réis.

— Duzentos mil réis! Isso nem dobrado vale nada para ela! Não conheces esta gente! Foi o diabo!

— E quanto entendes tu que é necessário dar-lhe?

— Sei cá! Nunca menos de cem libras esterlinas!

— Um conto de réis!

— Com menos disso duvido que ela se vá embora!

— Há de se lhe dar um jeito! Não te aflijas.

— É que eu estou sem vintém!

— Arranja-se...

— Não admito que te sacrifiques tão estupidamente! Ora essa!

— Descansa que não me sacrificarei.

Mas, ao tirar-se daí, André foi direitinho à sua secretária, sacou de uma das gavetas um pequeno pacote de notas de cem mil réis, meteu-o no bolso e saiu.

Quando tornou ao lado de Teobaldo, disse-lhe:

— Sabes? Está tudo arranjado.

— Hein? Como? Ela parte?

— Sim. Levei-lhe em teu nome oitocentos mil réis. Seguirá no primeiro paquete para Buenos-Aires e não tornará cedo ao Brasil.

— Ó desgraçado! Querem ver que lhe deste as tuas economias!

— Não; apenas o que fiz foi adiantar-te o dinheiro; depois de casado me pagarás.

— Nesse caso vou passar-te uma letra.

— Para que? Não precisa.