O Dote/III

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O Dote por Artur de Azevedo
Ato terceiro


(Terraço em casa de Rodrigo, em Santa Teresa, com uma balaustrada ao fundo, e o panorama da cidade. Porta à direita. Trepadeira à esquerda. cadeiras de jardim .E ao cair da tarde. Ainda é dia claro, mas durante o ato anoitece pouco a pouco, e a cidade ilumina-se.)

CENA I[editar]

ÂNGELO, PAI JOÃO

(Ao levantar o pano, Ângelo, estirado numa preguiceira ao fundo, junto da balaustrada. Pai João de pé junto dele, contempla-o com carinho.)

PAI JOÃO — Nôte z’tá flesca. Se siô moço doutló pudesse dlomi um bocadinho, ela bem bom.

ÂNGELO — Dormir... quem me dera!...

PAI JOÃO — Cando sió moço doudô ela cliança, Pai Zoão cantava, e siô moço doutlô dlomia logo.

ÂNGELO — Ainda te lembras das cantigas com que me adormecias?

PAI JOÂO — Non sabe... Naquele tempo Pai Zoão podia cantá... inda ela zente... depose ficou ton velo... ton velo.., que non tem mase voze... Mas se sió moço doutlô tivesse filinho, Pai Zoão reclodava toda zi cantiga.., pala adlomecê filinho de siô moço doutló...

ÂNGELO — Experimenta, Pai João... vê se te recordas... Faze de conta que ainda sou pequenino... Parece-me que, se cantasses, eu adormeceria, como outrora.

PAI JOÃO — Déssa vlê. (Recordando-se.) Um... um... um... Tá bom, Pai Zoão vai cantá cantiga de pleto-mina.

ÂNGELO — Canta.

PAI JOÃO (cantando.) —

Pleto - mina quando zeme
No zemido ninguém clê
Os palente vai dizendo
Que não tem do que zemê.

Pleto - mina quando çola
Ninguém sabe ploque é.
Os palente vai dizendo
Que cicote é que ele qué

Pleto - mina quando mole
E começa aplodecê,
Os palente vai dizendo
Que ulubú tem que comê.

CENA II[editar]

OS MESMOS, RODRIGO

RODRIGO (Entrando.) — Canta-se, Pai João?

PAI JOÃO ( Vivamente, impondo-lhe silêncio.) — Psiu! ... Tá dlumindo... Passou essa z’nóte turo em clalo.., pegou no sono agolinha memo... Zá viu? Cantiga de cativêlo semple sleve p‘laguma cósa. Péla aí. (Sai.)

RODRIGO — Pobre Ângelo! (Pai Joãp volta com uma colcha, com que cobre carinhosamente as pernas de Ângelo.) Com que então, a sua música faz dormir, hein, Pai João? Não é um elogio para ela... É verdade que o mesmo acontece a muitas composições de autores célebres.

PAI JOÃO (Descendo.) — Siô moço doutló tá passonado pela siá Henlicleta... non pode vivlê sem ela!...

RODRIGO- Qual não pode! Isso passa!

PAI JOÃO — Non passa, non. Felida de mulé não sala.

RODRIGO — As únicas feridas que não saram são as da honra. Ele vivia num inferno.., não digo que viva agora num céu aberto, mas está melhor assim.

PAI IOÃO — Vivia, mas agola non vive mase, que isto non é vida. E dêssa lá, sió doutló Lodligo, siá Hen/icleta é munto boa.., se non tem zuízo, culpa non é dela, mase de pai dela, que non z’educou ela delêto.

RODRIGO — Pois sim. Mas uma senhora sem juízo não pode fazer feliz um homem de bom-senso. O divórcio amigável foi requerido há trinta dias. Divórcio amigável.., aí estão duas palavras que nunca esperei ver juntas. O pretor recebeu o requerimento, e deu às partes vinte dias para refletirem.

PAI JOÃO — Tenho pena que non se alanze turo sem sepalá pala semple duase cleatula que palecia memo fetinha pala se quelê bem.

RODRIGO — Deixe-se vossemecê de pieguices. O seu senhor moço doutor já não deve nada a ninguém... Com o produto da casa e dos móveis, vendidos particularmente a um ricaço providencial que os namorava, pagou os cinquenta contos que entreguei ao sogro, e mais trinta e tantos que devia. Ficou com as mãos a abanar, é verdade, mas tem a sua profissão, que é rendosa. Pode muito bem viver sem mulher que o mortifique. Sofre de insônias? anda macambúzio? não se alimenta? Tudo isso passa, Pai João. Vá vossemecê com o que lhe digo!

PAI JOÃO — Non passa, non, sió doutlô Lodligo há de vlê. (Toque de campainha.) Quem selá? (Sai. Rodrigo aproxima-se de Ângelo e contempla-o. Pai João volta.) É uma senhora cobleta com véu... Pleguntou plo siô moço doutlô... eu disse que ele tava dlomindo e eu non aclodava ele... então pleguntou plo... O/á! Ela tá aí! (Entra Isabel, coberta com uma mantilha.)

CENA III[editar]

ÂNGELO, dormindo, PAI JOÃO, RODRIGO, ISABEL

RODRIGO (Indo ao encontro de Isabel, sem a reconhecer.) — O doutor Ângelo está dormindo, minha senhora. Como tem passado noites e dias em claro, e aquele sono é um benefício, não convém despertá-lo, seja sob que pretexto for. Quem é a senhora?... que deseja?... (Isabel descobre-se.) Oh! Vossa Excelência aqui!

ISABEL — Sim, sou eu.

RODRIGO (Oferecendo-lhe uma cadeira em que ela se senta.) —Mas como?...

ISABEL (Adivinhando a pergunta e atalhando-a.) — Estamos aqui perto, no hotel da Vista Alegre, minha filha, meu marido e eu. Soube hoje, por acaso, que meu genro... Ainda posso chamar-lhe meu genro?

RODRIGO — Sem dúvida.

ISABEL — Soube que ele estava aqui. Vim vê-lo. Preciso falar-lhe.

RODRIGO — A que respeito, minha senhora? Perdoe a minha indiscrição, mas... sabe que sou o maior amigo de Ângelo.

ISABEL — Se é o seu maior amigo, ajude-me a salvar minha filha.

RODRIGO — Como assim, minha senhora?

ISABEL — Arrependida de tudo quanto praticou, Henriqueta não pode suportar a separação que aceitou com tanta leviandade. Parece-me gravemente enferma. O médico aconselhou-nos que a trouxéssemos para Santa Teresa, onde estamos desde ontem. Mas não é de mudança de ares que ela precisa, senão do marido de quem se separou sem motivo.

RODRIGO — Sem motivo não, minha senhora. Desde que num casal os gênios não se liguem, as vontades não se combinem, as opiniões divirjam, a mulher veja e sinta as coisas de um modo, e o marido de outro, motivo há, e mais que suficiente, para uma separação.

ISABEL — Não me diga isso! Eu tenho vivido em paz com meu marido durante vinte e três anos, e jamais concordei com ele. O que fiz, para chegar a esse resultado, foi submeter-me, embora muitas vezes protestando, a tudo quanto ele dizia e fazia. Ainda nesta questão, em que minha filha foi estupidamente sacrificada por seu próprio pai, ele açulava o escândalo, ao passo que eu daria a vida para evitá-lo.

RODRIGO — Daria a vida para evitá-lo, mas conformou-se, obedeceu, submeteu-se. E o mesmo que sucederia a dona Henriqueta, se voltasse para a companhia de Ângelo. Ou se submetia ou, de novo, se separava. Em ambos os casos é melhor que as coisas fiquem no pé em que se acham. Foi uma solução, e, depois de uma solução, nada mais há que fazer.

ISABEL — Que interesse tem o doutor em que esse casal esteja separado?

RODRIGO — O mesmo interesse que teria em vê-lo cada vez mais unido se fosse um casal feliz. É o interesse do amigo... do amigo íntimo.

ISABEL — Mas o amigo íntimo não é para isso que serve.

RODRIGO — Bem sei que muitas vezes só serve para ser o amante da mulher do outro; mas eu não pertenço, felizmente, a semelhante espécie de amigos íntimos. A amizade para mim é um fetichismo.

ISABEL — Dir-se-ia que o doutor tem ciúmes do seu amigo...

RODRIGO — Ciúmes? Quem sabe? Conheço-o desde pequeno. É um rapaz talentoso, bem preparado, de muito futuro, que eu não quisera ver perdido.

ISABEL — Perdido por quê?

RODRIGO — Pois imagina Vossa Excelência que um homem possa trabalhar e prosperar vivendo em luta aberta com seu orçamento, sacrificado a essa funesta mania de aparentar recursos que não existem, obrigado a pregar calotes, a viver do dinheiro alheio? Ângelo e Henriqueta só poderiam ser felizes se tivessem um bebê, mas foram tantos os bailes, as recepções, os espetáculos, etc... que pelos modos não tiveram tempo de tratar disso.

ISABEL (Enxugando os olhos.) — Minha pobre filha!

RODRIGO — Mas que tem ela?... qual é a sua enfermidade?...

ISABEL — Não sei. O médico não nos quer assustar, mas o meu coração de mãe adivinha que ela está muito doente. Tem constantes delíquios... perde os sentidos... delira, pronunciando sempre o nome do marido...

RODRIGO (Como se falasse consigo.) — Delíquios... Quem sabe?... Oh! se assim fosse... (Erguendo-se como quem toma urna resolução súbita.) Vossa Excelência permite que eu vá examiná-la? Também eu sou médico, embora o não pareça.

ISABEL — Pois não.

RODRIGO — Então vamos.

ISABEL — E... e ele? (Aponta para Ângelo.)

RODRIGO — Deixemo-lo entregue àquele sono reparador.

ISABEL — Não é o senhor o médico que eu vinha buscar.

RODRIGO — O outro não atende a chamados neste momento. Mas diga-me: por que foi Vossa Excelência que veio a esta casa, e não seu marido, a quem competia melhor semelhante diligência?

ISABEL — Não me fale em meu marido! Está incapaz de tomar uma resolução! Já era um pobre de espírito... Depois daquele dia fatal, em que com tanta inconsciência recebeu os cinquenta contos das suas mãos, perdeu a cabeça!

RODRIGO — Não vale a pena pôr um anúncio... não se perdeu grande coisa.

ISABEL — O exame das contas demonstrou claramente que Ângelo não dissera senão a verdade... A maior parte do dinheiro foi empregado no que ele chamava os alfinetes da filha... E qual não foi a nossa surpresa e a nossa vergonha, encontrando entre aqueles documentos uma apólice de seguro de vida, feito por ele em favor de Henriqueta! Um seguro de cinquenta contos!

RODRIGO — Justamente a importância do dote...

ISABEL — Ainda agora, quando soubemos que Ângelo estava aqui, a dois passos do hotel, pedi a meu marido que viesse... Ele hesitou... e então eu, desesperada, pus esta mantilha e saí, convencida de que vinha buscar a vida de minha filha.

RODRIGO — Em vez de lhe levar o marido, Vossa Excelência leva-lhe um médico. No estado em que se acha, é talvez mais prático. Amanhã conversaremos. Por enquanto, é preciso saber ao certo o que ela tem. Vamos!

ISABEL (Com um suspiro.) — Vamos!

RODRIGO (Ao Pai João.) — Eu volto já. (Saem Rodrigo e Isabel)

CENA IV[editar]

ÂNGELO, PAI JOÃO

ÂNGELO (Despertando.) — Pai João, a tua cantiga fez-me dormir... como outrora.

PAI JOÃO — Mas se siô moço dou tló dlomiu pouco. Pai Zoão canta otla veze...

ÂNGELO — Não! não é preciso! Vou para o meu quarto. (Vai erguendo-se, e repara na colcha que lhe envolve as pernas.) Quem me cobriu com esta colcha? Tu?

PAI JOÃO — Quem havela de sê?

ÂNGELO (De pé.) — Como és bom! Que santa velhice a tua! Que alma branca, tão alva como os teus cabelos, se esconde na negridão do teu corpo! Ficou em ti, sinto-o no coração, alguma coisa de minha mãe, que viste nascer e morrer. (Outro tom.) Não achas que estou poeta, Pai João?

PAI JOÃO — Asso, si, sió. Foi ploquê sió moço doutlô dlorniu... É tão bom dlomí!

ÂNGELO — Não; é porque a noite está belíssirna... Como é bonita e como é grande a minha terra! (Aproximando-se da balaustrada.) Vê, Pai João! a cidade lá embaixo parece dormir tranquila entre estas montanhas... e, no entanto, quanta luta, quanta paixão, quanto sofrimento por baixo daqueles telhados mudos!

PAI JOÃO — Há de turo, siô moço doutlô... Unse çola, otlo z’li... Unse bliga, otlo z’quele bem... Há de turo.

ÂNGELO - Uns brigam, outros se querem bem... É verdade, Pai João... mas os que se querem bem acabarão brigando, e os que brigam brigarão sempre.

PAI JOÃO — Semple non, siô moço doutló. Nosso Senhô tá lá no céu viziando, e quando ele quê, bliga turo acaba!

ÂNGELO — Tu és otimista.

PAI JOÃO — Pai Zoão é quê, sió moço doutló?

ÂNGELO- Otimista! Vês tudo pelo melhor. (Descendo.) Rodrigo está em casa?

PAI JOÃO — Non, siô; saiu.

ÂNGELO — Saiu? Admira! Nunca sai à noite.

PAI JOÃO — Saiu com... Pai Zoão non sabe se deve dizê.

ÂNGELO — Com quem?

PAI JOÃO — Com siá Dona Isabé.

ÂNGELO — Com minha sogra?

PAI JOÃO — Si, siô.

ÂNGELO — Sonhaste?

PAI JOÂO — Non sonou, non, siô moço doutô. Siá Dona Isabé z’teve aqui.

ÂNGELO — Aqui!

PAI JOÃO — Teve, si, siô... vinha falá com siô moço doutlô. . .mas siô doutlô Lodligo non quíse clodá siô moço doutló.

ÂNGELO — Que veio ela cá fazer?

PAI JOÃO — Non sê. Ele’zi falam bassinho pala siô moço doutlô non clodá... e Pai Zoão que z’tava ao pé de siô moço doutló non ouviu nada. Palecia que ela disse que siá Henlicleta z’tava doente, e anton siô moço doutlô foi vlê siá Henlicleta.

ÂNGELO — Doente? Ela está doente! Doente de quê?

PAI JOÃO — Pai Zoão non sabe, mase desconfia que é da mêma doença de siô moço doutlô.

ÂNGELO — Meu Deus! Como poderei saber!

PAI JOÃO — Non fica flito; siô doutlô Lodligo quando saiu z’disse que vlotava zá.

ÂNGELO — Já? Mas como poderá voltar já, se ela mora tão longe? (Caindo numa cadeira.) Doente! doente!...

PAI JOÃO — Sossega, siô moço doutlô, sossega... Dêça siô doutlô Lodligo vlotá

ÂNGELO — Doente!... E eu longe dela!... Separado dela!... (Erguendo-se.) Não! decididamente não resisto!... É um suplício terrível! ... é uma provação muito superior às minhas forças! Não posso viver sem ela! ... É minha mulher, pertence-me... Rodrigo que vá para o diabo com suas idéias de independência e liberdade! Quero ser desgraçado... trabalhar noite e dia sem descanso para sustentar o seu luxo.., endividar-me.., pregar calotes... sofrer penhoras e vergonhas, mas quero viver com ela!... É preciso que Rodrigo, ao voltar, encontre aqui, formidável, impetuosa, esta revolta do meu amor! Não quero que ele continue a dominar-me! Não sou nenhuma criança! Ela doente, doente e não posso voar para o seu lado! (Senta-se a soluçar.)

PAI JOÃO — Sossega... sossega...

ÂNGELO — Cala-te, Pai João, tu não sabes o que é isto! Amaste muito, mas nunca amaste uma mulher que te arrancassem dos braços.

PAI JOÃO — Pai Zoâo teve sua placela... e quise munto bem a ela. Siá Henlicleta tá aí, tá viva.., a placela de Pai Zoão moleu... moleu na senzala... no blaço de Pai Zoão... Pai Zoão çolou munto... mase non pledeu zuízo... Sossega, síô moço doutlô, sossega!

ÂNGELO — Como queres tu que eu sossegue? Se ela tivesse morrido, como a tua parceira, eu consolar-me-ia, talvez, com mais facilidade do que sabendo-a viva e separada de mim, sem que para isso houvesse um motivo de honra! (Chorando). Oh! Henriqueta! Henriqueta!

CENA V[editar]

OS MESMOS, RODRIGO

RODRIGO — Ângelo! Ângelo!

ÂNGELO — Ah! és tu? Onde foste? Viste-a? Falaste-lhe? Como está ela? Dize-me, dize-me tudo!

RODRIGO — Venho trazer-te uma bela notícia: tua mulher vem aí!

ÂNGELO — Ah!

RODRIGO — Eu vim na frente para preparar-te. É o que estou fazendo! Pronto! Estás preparado! (Ângelo, sem responder, sorri e abraça-o.) Vais cair das nuvens: fui o primeiro a promover esta reconciliação. As coisas mudaram inteiramente de face...

ÂNGELO — Mas Henriqueta onde estava?

RODRIGO — Ali no Vista Alegre.., com os pais... Dona Isabel veio cá disse-me que ela estava doente.., fui vê-la.

ÂNGELO — E então? o seu estado é grave?

RODRIGO — Grave, não: interessante.

ÂNGELO — Interess? ...( Compreendendo.) Deveras? Ela está?

RODRIGO — Está, sim! Não vês a minha alegria? Agora, que vocês vão ter um filho, conto que serão felizes!

PAI JOÃO — Um filo... Pai Zoão vai vlê nascê mase um!

ÂNGELO — Mas onde está ela? (Dá um passo para sair.)

RODRIGO (Embargando-lhe a passagem.) — Não é preciso. O: pais vêm traze-la. Olha! eles aí estão! (Falando para dentro.) Façam favor! Venham cá para o terraço. (Entram Isabel e Ludgero, este res­sabiado.)

CENA VI[editar]

ÂNGELO, PAI JOÃO, RODRIGO, LUDGERO, ISABEL

LUDGERO — Meu genro, minha mulher e eu viemos — como direi? —restituir Henriqueta ao seu marido. Pedimos-lhe que a aceite. Fui muito injusto com o senhor, mas espero que me perdoe, lançando sobre o que se passou o véu do esquecimento. Aqui tem minha mão.

ÂNGELO — Aperto-lha de bom grado.

ISABEL — Ângelo! (Estende-lhe a mão.)

ÂNGELO — Minha boa advogada! (Beija-lhe a mão.)

LUDGERO — As contas que o senhor me deu a examinar, são uma prova — como direi? — concludente da sua lealdade.

ÂNGELO — Espero que, de hoje em diante, meu sogro me tenha em melhor conta, e acredite que no Rio de Janeiro não é ele o único marido fiel à sua esposa.

LUDGERO — Somos nós dois. Duvido que haja mais algum.

ISABEL — Restituir-lhe-emos amanhã o dote de Henriqueta.

RODRIGO — Isso não! Ângelo só continuará a ser seu marido sob condição de ela não trazer o dote.

ÂNGELO — Naturalmente.

ISABEL — Mas nós não podemos consentir...

LUDGERO — Aí vem você, minha mulher! Ele não quer! Deixá-lo!

RODRIGO — O dote dá-lo-ei ao meu afilhadinho, daqui a cinco meses, no dia em que ele nascer.

PAI JOÃO — Pai Zoão vai reclodá todase sua z’cantiga!

ÂNGELO — Mas... Henriqueta? É Henriqueta que eu quero!

ISABEL — Agora podemos chamá-la.

RODRIGO — Não! Retiremo-nos todos... e mandemo-la cá para o terraço. Não perturbemos com a nossa presença a renovação de um noivado... Vejam! ... o luar, o formoso luar de Santa Teresa parece que esperava a deixa! — Vamos! (Saem Ludgero e Isabel.) Vossemecê também, Pai João! (Sai Pai João. Rodrigo sai por último. Ângelo fica ansioso, ao fundo, com os olhos fitos na porta. Henriqueta aparece no limiar da porta, envolvida num chale. Procura Ângelo com os olhos, e, vendo-o, corre para ele, e lança-se-lhe nos braços. Cai-lhe o cha/e, deixando ver o seu vestido branco. Ficam ambos muito tempo abraçados.)

CENA VII[editar]

ÂNGELO e HENRIQUETA

ÂNGELO — Nunca mais, Henriqueta! ... Sim?...

HENRIQUETA — Nunca mais!

ÂNGELO — Amemo-nos... e seremos felizes...

HENRIQUETA — Sim, vou ser feliz.., muito feliz...

ÂNGELO — Mesmo pobre?

HENRIQUETA — Não! Rica... riquíssima... porque tenho o teu amor... e hei de ter o amor do nosso filho. (Abraçam-se de novo, formando um grupo iluminado pelo luar)

A VOZ DE PAI JOÃO (Ao longe.) — Pleto-mina quando zeme, etc.

[(Cai o pano. Lentamente.)]