O Garatuja/I

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O Garatuja por José de Alencar
Capítulo I: Três antigos luzeiros escapos a poeira dos tempos

No dia 3 de novembro do ano que se contou 1659 da graça e nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, a leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro estava em grande alvoroto.

Não era a então nascente capital, sossegada e pachorrenta, como a grande corte em que se transformou. Se não mente a crônica, tinha naqueles tempos afonsinhos o gênio trêfego, e um sestro de intrometer-se com as cousas da governança para não deixar que os oficiais d'El-Rei lhe tosquiassem muito cerce o pêlo e a bolsa.

Promovida a corte, lembrou-se no principio alguma vez da balda antiga; mas com a vida palaciana, breve esqueceu de todo os ardores da juventude, e aquelas desenvolturas de rapariga.

Agora dá-se a respeito. Já não é a carioca faceira e petulante, de saia de crivo e olhos brejeiros, estalando castanholas ao som do fadinho. Fez-se dama; traz anquinhas, e arrasta a cauda com donaires de matrona.

Sete horas acabavam de soar na torre do mosteiro, e apesar do muito cedo o povo enchia as poucas ruas que formavam naquele tempo o âmbito da cidade, ainda conchegada às abas do Outeiro de São Januário, que a protegia com seu castelo roqueiro.

Onde porém mais alvoriçava o arruído era no Rossio do Carmo, nome que tinha então nos livros da vereança o Largo do Paço, ao qual não obstante a arraia-miúda continuava a dar a alcunha popular de Terreiro da Polé.

Golpes de gente azoinada e assustadiça borbotavam uns após outros da Rua Direita e Beco dos Barbeiros, mas sobretudo das bandas da Misericórdia, Castelo e Ajuda, área onde mais se condensava o povoado.

Vários ajuntamentos se haviam formado aqui e ali no circuito da vasta praça, separados pelo refluxo dos mais alvoroçados, que não se podendo ter parados um instante, ferviam, à maneira das ondas em torno de abrolhos, e burburinhavam sôfregos de colher pormenores da grande nova.

Desafrontada do paço, que só muitos anos depois devia ser construído, a praça estendia-se até a Rua da Misericórdia, onde se erguera a nova Igreja de São josé3 cuja capela-mor, de recente fábrica, entrava pelo mar adentro.

Do lado oposto, desde o canto da Rua Direita alongava-se um renque de lojas e tercenas, esboço do opulento empório que derramando-se pela várzea, havia de cobrir antes de dois séculos a vasta marinha. No lugar onde mais tarde se edificaram as casas do Teles e o arco, famoso na crônica fluminense, via-se ainda a velha tenda do ferreiro, que dera nome ao lugar.

A face de terra era ocupada pela Capela de Nossa Senhora do Ó e pelos dormitórios dos Carmelitas cuja cerca terminava na Rua da Cadeia. Ainda não existia o templo que hoje serve de capela imperial, erguido um século mais tarde sobre as rumas daquele.

A face do mar descortinava o formoso panorama da baía. Junto à Ilha das Cobras balouçavam-se os galeões da frota próxima a partir para o reino.

Na praia, onde brincavam as ondas, ainda não rechaçadas por cais ou aterro, abicavam de instante a instante as canoas da outra banda e as barcas dos pescadores que tornavam do mar.

Dentro da praça, mas encostada à Igreja de São José, destacava-se a casa da Câmara, com o seu campanário, e as enxovias da cadeia, corridas de um e outro lado do pavimento térreo.

Em frente, a alguns passos de distância, no lugar onde fica atualmente a ucharia imperial, erguia-se o pelourinho, esse padrão do governo da cidade, ao qual o povo chamava cruamente — a polé.

Era justamente em torno da coluna da governança, que se apinhava a multidão, cujas vistas inquietas, desenganando-se de achar na picota qualquer edital da vereança acerca da grande novidade, voltavam-se para as janelas inda fechadas da Casa das Sessões.

Uma canoa de voga acabava de chegar à praia; e dela saltava nas costas do escravo remeiro um velho seco e alto, de rija têmpera, e cujos movimentos vivos e articulados davam-lhe ares de um grande grilo em posição vertical, vestido de garnacha preta, com os competentes calções e meias da mesma cor. Tinha de mais um casquete de abas reviradas, sapatos de cordovão com fivela de prata, e uma desmedida bengala, cujo castão de ouro, representando uma borla doutoral, lhe roçava o queixo adunco, quando a empunhava direita.

Era esse o licenciado João Alves de Figueiredo que aproveitara os dias feriados para refocilar em sua quinta de São Lourenço, à outra banda. Tornando à cidade, e surpreso do alvoroto em que a vinha encontrar, mal pisou em terra, barafustou à cata de novas.

Foi dar em uma pinha de gente, que imprensava-se para ouvir a narrativa do caso, feita por uma voz fanhosa e estrídula.

Pertencia essa fala de arrepiar os nervos, a um sujeito pequeno, rolho, já velhusco, vestido pelo mesmo teor e forma do licenciado, como oficial que era do mesmo ofício. O letrado acompanhava os esguichos nasais da palavra com um acionado consoante; seu gesto oratório mais valente era uma lançada que dava ex-abrupto na cara do auditório, com os dois dedos indicador e máximo, espetados à guisa de sovelão.

Havia seu perigo em escutar de perto um tão valente casuísta; nos momentos de calor seria capaz de vazar um olho, ou esbrugar um dente ao incauto para mostrar-lhe ao vivo a força da sua dialética.

Defronte do orador estava um frade, que pelo hábito negro, os cordões brancos e as alpertacas se conhecia ser dos mendicantes. Era também cheio do corpo, mas de uma obesidade balofa, que não sobressairia tanto, se não fosse a fradesca indolência com que ele se entulhava sobre si mesmo, metendo a cabeça pelos ombros e o ventre pelos quadris.

Com os olhos abotoados e a comer a boca do orador, por vezes tentara o frade tomar-lhe a palavra, e afinal decidiu-se a arrancá-la à viva força. Mas o guincho do letrado lhe retalhara como uma navalha a voz de baixo profundo, por modo que era impossível perceber-se uma sílaba.

Reconhecendo de longe nos dois émulos o Padre-Mestre Frei João de Lemos, da Ordem de São Francisco, e o Bacharel Dionisio Mendes Duro, que fazia profissão de letrado forense, o licenciado desconjuntou-se na guinada do costume, e fendida a mó de gente com um rasgo da enorme bengala, surdiu avante.

Os três sujeitos que ali estavam em trempe, no centro da pinha de gente, eram tidos e havidos pelo bom povo fluminense como as três grandes luminárias da época.

Ao frade, reputavam o primeiro pregador do século. Como o licenciado, não havia outro para decidir o mais intrincado caso in utroque jure. Quanto ao bacharel, esse levava as lampas a qualquer no manejo dos negócios, tanto na audiência como nas cousas da governança.

Tal era a nota e conceito das três respeitáveis cacholas, e tão firmada estava sua voga, que os únicos a discernir eram eles próprios, mas a respeito dos dois outros, porque em relação a si dignavam-se de concordar com o vulgo.

Fr. João de Lemos, além de primeiro pregador, guindava-se à honra de mestre em teologia, e grande sabedor nos cânones, o direito por excelência. Assim, nos dois letrados, via ele apenas uns leigos, com fumaças de doutores.

O licenciado João Alves, acreditando piamente ser um portento na jurisprudência e sem contestação a primeira cabeleira do mundo, tinha o frade e o bacharel na conta de dois rábulas, lardeados de sabença de orelha e latim de algibeira.

Por sua vez o Dionísio Duro apregoava que os seus êmulos não passavam de portadores de bulas falsas, alisadores dos bancos da escola, onde haviam encruado umas letras gordas. Ele, sim, que estudara na prática e era um poço de ciência, capaz de afogar em um espirro a tonsura do frade e a guedelha do licenciado.

Com a súbita chegada de João Alves, estacou o bacharel no meio de uma campanuda digressão.

— Então, qual é a novidade? perguntou o licenciado.

— Pois não sabe? acudiu o frade.

— Se agora ponho pé em terra! ...

— Foi o prelado, que lançou a excomunhão sobre o ouvidor, tornou o bacharel.

— Que me diz?

— Esta manhã, quando o Doutor Pedro de Mustre se ia embarcar para a capitania do Espírito Santo, intimou-lha o Padre Rafael Cardoso, da parte do vigário geral.

— Depois das três admoestações canônicas, concluiu o frade.

— É a praxe; observou os cânones.

— Como ordenam as decretais, corrigiu o licenciado, Mas o porquê do caso é que ainda estou por saber.

— Falam na devassa que tirou o Doutor Pedro de Mustre contra os familiares do prelado no negócio da assuada ao tabelião. Parece que se procedeu injuste et malitiose.

— A devassa foi este seu servo quem a requereu, Sr. Dionísio Duro, como patrono do Sebastião Freire, atalhou o licenciado; e na melhor forma e via de direito, ex vi juris et legis, ut. Ord. liv.. 5º, tít. 48: "Dos que fazem assuadas", etc.

— Que era o caso dela, non est disputandum, tornou o bacharel; mas se o julgador a tirou ab irato, eis o ponto da questão.

— Sem falar da exceção, inímico et suspecto judice, ponderou o padre-mestre, porque o estarem os minorenses de tonsura e hábito ín actu delictis, é de notoriedade pública.

— Suspectus et varicator judex, sr. padre-mestre, seria o ouvidor se não guardasse a ordenação, quando por ela requerido, ou mesmo que o não fosse, pois era o caso de proceder-se ex offício, sicut-Filipina no liv. 5º, tít. 45 § 3, "Mendes a Castro" — Praxe, Parte 1ª, livro 1º, cap. 2º, n. 38, e Senator Sardinha, alegação 96, n. 22, ubi refert judicatum.

O licenciado, erriçando a cabeleira com o castão da bengala, ameaçava despenhar sobre os dois êmulos uma cascata de citações atinentes ao caso, sem esquecer os comentários e castigações dos respectivos doutores. Infelizmente um rebuliço do povo atalhou aquela torrente de erudição forense.

As janelas da casa da Câmara se abriam; e a sineta do campanário anunciou que o Senado da leal cidade de São Sebastião ia entrar em vereação, para deliberar sobre os negócios da república.

Entre os de maior monta que naquele dia tinham de ocupar a atenção dos conselheiros do povo fluminense, avultava o caso gravíssimo da excomunhão do ouvidor.

Quem refletir na disciplina rigorosa que ainda naquela época exercia a Igreja sobre o poder temporal, embora já decaída do que fora em antigas eras, compreenderá quanto a pena severa fulminada contra o primeiro ministro da Justiça de El-Rei, por ele posto na capitania, devia abalar os povos sujeitos à sua jurisdição; e derramar na cidade o terror e a consternação.

Apesar de não ser então a população fluminense como atestam os documentos da época, das mais fervorosas no zelo católico e exemplares na prática do catecismo, todavia dominava na massa geral o respeito tradicional que infundia a religião de seus maiores, e aumentado pela superstição própria daqueles tempos de ignorância.

O conflito que o prelado levantava com a majestade secular, colocava os moradores da terra em colisão terrível, perplexos entre o acatamento que deviam como fiéis às censuras da Igreja,. e a obediência que tinham de guardar como súditos aos ministros da república.

Imagine-se pois a ansiedade com que esperavam todos a junta dos vereadores em Câmara para destrinçar com a parecer dos doutos caso tão abstruso e emaranhado, livrando os povos do perigo iminente de ficarem, ou excomungados ou rebeldes.