O Garimpeiro/III

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O Garimpeiro por Bernardo Guimarães
Na Roça


Festas acabadas, músicos a pé. Por vir muito a pêlo, cai-me agora do bico da pena este anexim popular.

Acabada a festa, tudo caiu na tristeza e monotonia, não direi ordinária, porém muito pior ainda, pois contrastava horrivelmente com a alegria e festivo alvoroço dos dias que acabavam de escoar-se, e dos quais somente restavam as saudades.

Elias, de garboso e brilhante cavaleiro que era, passou a não ser mais que mero peão, isto é, voltou à sua condição de moço pobre e sem posição.

O Major teve de demorar-se alguns dias ainda na vila. Elias durante esse tempo não deixou passar um dia sem ir à sua casa; era, porém, muito maior a freqüência de seu rival, cuja importuna assiduidade já escandalizava os olhos do público. Lúcia raras vezes lhe aparecia, e só quando era chamada por seu pai. Outro tanto não praticava com Elias, a quem vinha sempre cumprimentar com ar modesto, mas com as faces incendiadas em certo rubor, que significava muito. Este procedimento enchia de despeito e feria dolorosamente o amor— próprio do negociante:

—sempre é da roça! — dizia ele com seus botões para desabafar seu desgosto. — Estas matutas são assim mesmo; parece que têm medo dos homens de certa classe e de certa educação mais elevada, e só se ligam com os da sua ralé. Quando lhes aparece em casa alguma pessoa mais bem trajada e de maneiras mais polidas apenas animam-se a espiar por trás das portas... Mas esta moça... julguei que tivesse um bocadito mais de espírito... qual! É como as outras, ou pior. Lá se avenha ela com o palerma do seu cavaleiro andante. Lê com lê, crê com crê. Admira que o bobo do Major não perceba certas coisas e não veja que aquele lorpa lhe anda fazendo corte à filha. Queira Deus que dali não saia alguma alhada! Muito me hei de divertir com isso.

Falando assim, porém, o nosso negociante nem por isso estava desanimado, nem abandonava o campo. Sabia que o rapaz não era do lugar, e tinha de ir-se embora. Mesmo que não fosse, estava firmemente convencido de que o Major, homem de fortuna, jamais se resolveria a dar sua filha a um pobre diabo, que não tinha onde cair morto, só porque sabia correr cavalhadas. Assim pensava, e guardava-se para melhores tempos.

Elias, que viera de Uberaba expressamente para tomar parte nas cavalhadas, — pois tinha bem merecida nomeada de bom cavaleiro por todos aqueles sertões — Elias viera recomendado ao Major por pessoas importantes daquela localidade, e portanto a sua assiduidade em casa deste tinha explicação muito natural, e o Major estava longe de presumir que o moço tivesse a veleidade de pôr os olhos apaixonados em sua filha. Estulto e cego, que pensava que o amor calcula as dificuldades e mede as distâncias das posições, e que não via que aquelas duas criaturas eram próprias para se inspirarem mútuo e ardente amor!

Mas, ai deles! aproximava-se o tempo de se separarem, e esta lembrança os enchia de angústia e melancolia. Viram-se, amaram-se e sabiam que eram amados; mas nunca, por uma palavra que fosse, tinham confessado um ao outro aquele sentimento, e agora iam separar-se sem um adeus, um aperto de mão, um protesto, que os confortasse naquela longa, e quem sabe se eterna separação.

Elias andava excogitando um meio de despedir-se de Lúcia e protestar-lhe seu eterno amor, quando o Major o veio tirar desse embaraço e encher da mais viva alegria. O Major tomara simpatia e afeição pelo jovem uberabense, e, como lhe era recomendado por pessoas a quem não podia deixar de servir, o convidou para sua fazenda, onde, dizia o Major, teria muito em que emprega-lo, até que pudesse procurar melhor arranjo.

Faça-se idéia do prazer e ufania com que Elias partiu, atravessando a vila ao lado da sua amada, montado no próprio rosilho em que tantas brilhaturas fizera nas cavalhadas.

Instalado na fazenda do Major, Elias foi ali tratado com afetuosa bondade, como se fora um membro da família. Era o escriturário, ou antes secretário particular do Major, e posto que a escrituração de um fazendeiro do sertão seja quase que nenhuma, todavia o pai de Lúcia, na sua qualidade de Major de estado-maior e ocupando um cargo de polícia, que raras vezes exercia, tinha vários ofícios a fazer e a responder, e não deixava de tirar proveito da boa letra e das luzes de Elias.

Elias era também excelente músico: tocava diversos instrumentos, tinha um boa voz, e toas as noites divertia os serões da família cantando modinhas e cançonetas, acompanhando-se com uma viola, único instrumento que havia em casa. Portanto, além de gentil cavaleiro, Elias era também insigne trovador. Tudo isto reunido a alguma instrução e a uma conversação agradável, tornava a sua companhia sempre amável e desejada. Assim, quando acontecia ausentar-se por alguns dias em algumas comissões, de que às vezes o Major o encarregava, sua falta era muito sentida no seio daquela pequena e respeitável família.

Lúcia e sua irmã mostravam muita vontade de aprender um pouco de música. tendo um tão bom mestre em casa, o pai não pôde deixar de condescender com os desejos de suas filhas, e encarregou a Elias de, nas horas vagas, dar-lhes algumas lições.

Todos os dias, pois, em horas indeterminadas, via-se Elias, na espaçosa varanda, assentado em um comprido e antigo banco de cedro entre as duas meninas, debaixo das vistas do Major, bem entendido, ocupado em ensinar-lhes os rudimentos de música e a dar-lhes lições de solfejo. A perspectiva que tinham em frente era magnífica: a vista se perdia por vastas e risonhas Campinas e remotos horizontes, banhados pela luz de um sol esplêndido. E por entre a algazarra dos melros, pintassilgos e patativas, que chilravam em torno da casa, e os gorjeios cadenciados do sabiá que cantava ao longe, ouviam-se os ensaios tímidos daquelas duas vozes infantis. Era de sobejo para encantar e exaltar a imaginação impressionável do mancebo, que nessas horas de doce ocupação esquecia-se de si, de sua pobreza, do seu futuro, para se

entregar ao enlevo do mais puro e do mais ideal dos amores. As duas alunas também, por sua parte, e principalmente Lúcia, tinham aquelas horas pelas mais bem empregadas da sua vida. Mas Elias já tinha lido a “Júlia” de João Jacques Rousseau, e no meio de suas doces emoções às vezes estremecia ao lembrar-se da sorte dos dois amantes no romance do imortal filósofo de Genebra.

O contato íntimo daqueles dois corações, que pareciam criados um para o outro, acabou de abrasa-los em uma paixão enérgica e profunda, dessas que não se extinguem senão com a vida. No seio da solidão as paixões tomam maior vulto e se enraízam mais na alma, do que no meio do bulício e das distrações do mundo. A alma solitária é como a fonte do deserto, resguardada dos ventos, que no regaço límpido e imóvel guarda fielmente a imagem do arvoredo que a sombreia.

Lúcia e Elias amavam-se; todavia nem uma só palavra de amor lhes havia ainda escapado dos lábios; os olhares e os sorrisos diziam tudo; eles sabiam muito bem que se amavam, e era quanto bastava para sua felicidade. Como dois cisnes, deixavam-se levar descuidosamente pela torrente plácida e voluptuosa das emoções presentes, sem se lembrarem que mais além podiam ser arrastados e despedaçados por furiosas cachoeiras, ou engolidos em trevos sorvedouros.

Elias suspirava por uma ocasião de poder estar a sós com Lúcia, e de declarar-lhe de viva voz o seu amor; mas essa ocasião por si mesma não podia oferecer-se. Todos os dias tomava a firme resolução de pedir furtivamente à moça uma entrevista, cujo lugar e hora já tinha premeditado. Mas, quando era ocasião de falar-lhe, um invencível acanhamento como que lhe paralisava a língua; receava profanar com aquele pedido a pureza Angélica daquela criatura.

Um dia enfim revestiu-se de ânimo a superar os seus escrúpulos.

— Ah! Se eu um dia pudesse falar sem testemunhas, e revelar-lhe tudo quanto sinto! — disse ele baixinho a Lúcia numa ocasião em que o pai se ausentara por um momento.

—mas... isso... não pode ser, -murmurou Lúcia com voz breve e decisiva, mas cobrindo-se de tal vermelhidão, que se teria traído completamente, se ali houvesse olhos perspicazes e perscrutadores.

—talvez possa — continuou Elias sorrindo. -sei que a senhora passa ás vezes horas inteiras sozinha na fonte do quintal. Ficará muito assustada, se eu um dia lá aparecer?

—sem dúvida! ... não; não vá; senão, nunca mais lá voltarei.

— Nada receie; eu a respeitarei tanto ou mais do que se estivéssemos aqui, em presença de seu pai.

— Não vá, não... tenho medo. Agora nunca mais irei lá sozinha.

— Perdão, minha senhora! Não lhe teria feito este pedido, se soubesse que me tinha tanta aversão.

— Aversão! ...

Os tamancos do Major, ressoando no soalho, anunciavam a sua volta, e impuseram silêncio aos dois amantes.

No primeiro dia que se seguiu a este colóquio, Lúcia cumpriu restritamente a ameaça que fizera de não voltar mais à fonte; mas só Deus sabe quanto isto lhe custou. No segundo dia foi, porém acompanhada de sua irmã e de Joana; pensava seriamente nas conseqüências daquele passo, e tinha medo; mais o coração a arrastava para lá. Elias, que tudo observava com a vista perspicaz do amante, que ouvia a voz dela, sentia-lhe os passos, e quase adivinhava quando estava em casa, e que, além disso, subindo um pouco pela encosta do espigão podia atravessar o estreito trilho que embrenhando-se pelo pomar ia ter à fonte não pôde deixar de manifestar seu descontentamento não por palavras mas por seu ar triste e taciturno.

Ao terceiro dia Lúcia não pôde conter-se, tomou sua cestinha de costura e lá desceu a sentar-se à sombra no gramal da fonte. Elias bem o pressentiu; mas era já muito tarde para ter tempo e dar as voltas necessárias a fim de ocultar seus passos; e portanto lá não apareceu.

— Cumpriu a sua promessa de não ir mais à fonte? — perguntou-lhe ele no outro dia à hora da lição.

— Cumpri sim senhor; sozinha não vou lá mais.

— Entretanto se me não engano parece-me que a vi ontem descer sozinha para lá.

— Quem? A mim? O senhor viu? ...

— Sim, senhora, vi; e creio que era mesmo a senhora.

— Pode ser... à tarde faz tanto calor aqui em casa; e demais estou certa que o senhor lá não há de aparecer, não é assim?

Elias sorriu-se, e Lúcia sentiu o rubor afoguear-lhe as faces.

Elias costumava caçar pelos campos do arredor, mui abundantes em perdizes, codornizes e outras caças.

No dia seguinte, logo após o jantar, arreou seu cavalo, pegou na espingarda, chamou seu cão, e saiu. Deu longas voltas para poder, sem ser observado, entrar pelo capão que desde as cabeceiras bordejava o córrego até os fundos do quintal. Apenas se embrenhou no mato, apeou-se, atou o animal a uma árvore, e desceu costeando o córrego por estreitos trilhos feitos pelos pés do gado e de animais silvestres.

Elias contava quase com certeza encontrar Lúcia na fonte, e não se enganou. Ela já estava com efeito, não naquele doce descuido d’alma, em que a temos visto outras vezes, mas inquieta, anelante, como a corça espavorida, que cuida ouvir a cada instante o latir dos cães e as vozes do caçador.

A entrevista durou apenas alguns minutos. Elias, que tinha estudado mil frases apaixonadas, apenas disse, tomando-lhe a mão e beijando— a:

— Eis-me aqui, D. Lúcia; perdoe-me esta audácia... se soubesse quanto a amo! ...

— O senhor é bem mimoso — disse ela entre risonha e enfadada. — Não lhe tinha pedido que não viesse aqui? .. — Bem lhe queria obedecer; mas o amor foi mais forte que eu. Vim para ouvir de seus lábios uma só palavra de que depende a minha felicidade, a minha vida. Diga-me, a senhora me tem amor? ...

Lúcia hesitou um instante, fitou os olhos no chão, e murmurou timidamente:

—muito! ...

— Anjo! — exclamou Elias caindo a seus pés e procurando derramar em palavras de ternura o prazer que lhe transportava a alma; mas não pôde dizer mais nada. Quando o coração está cheio de felicidade, a vida toda se concentra ali, a cabeça fica erma de idéias, e a língua fica paralisada.

Mas Lúcia imediatamente o tirou daquele embaraço, dizendo-lhe com ar inquieto.

— Está satisfeito o seu desejo. Agora retire-se, retire-se quanto antes. A cada momento pode aqui chegar alguém...

E, tirando uma flor que tinha no cabelo, a entregou a Elias. Este enlaçando-lhe o braço em torno ao colo, tomou-lhe a mão e beijou— a com ardor. Foi tudo quanto ousou fazer.

— Adeus!

— Adeus!

Quando Lúcia, tendo dado alguns passos, voltou o rosto para ver ainda uma vez seu amante, avistou— o de joelhos, beijando a relva em que ela estivera reclinada. Fez-lhe vivamente aceno com a mão, para que se retirasse, e sumiu-se entre o laranjal.

Eis em que consistiu aquela entrevista tão ardentemente desejada. Parece que não valia a pena tomarem tanto trabalho, sujeitarem-se a tantos sustos e inquietações, para trocar duas palavras, dar um beijo na mão e receber uma flor. Mesmo debaixo dos tetos do Major não faltaria ocasião azada para fazerem outro tanto muito a seu salvo. mas era sempre uma entrevista, e uma entrevista tem grande importância aos olhos dos amantes, principalmente se tem lugar ao ar livre, tendo por testemunhas o céu, o bosque, a fonte. É mais uma prova de confiança mútua, uma garantia mais solene da lealdade e pureza do amor. O beijo da entrevista é o selo imposto ao contrato que liga para sempre duas almas.

Os amantes são de ordinário mui fáceis em capacitar-se de que ninguém adivinha o sentimento que lhes ocupa o coração; cegos, não se apercebem que em cada palavra, em cada gesto, em cada olhar estão traindo a todo o momento a paixão que julgam escondida nos mais íntimos seios d’alma e que entretanto lhes vai transparecendo em todo o seu ser.

O Major não era dotado de grande perspicácia, nem tinha muito conhecimento do coração humano, coisa que nem em si mesmo tivera ocasião de estudar, pois nunca vivera a vida do coração. Todavia chegou a desconfiar, e em breve se convenceu da existência de uma mútua afeição entre Lúcia e o seu jovem protegido, e já bem tarde arrependeu-se de ter dado a este tão franco agasalho em sua casa. Casar sua filha com um pobretão, que além da roupa do corpo só possuía um cavalo, um cão e uma espingarda, um estranho, sem nome, sem fortuna, sem posição era coisa cuja possibilidade nem por sombra passava-lhe pelo espírito. Seu primeiro cuidado foi, portanto, atalhar logo o mal, antes que tomasse maior vulto. desde logo tratou de suprimir as lições de música. Não o fez, porém, abertamente; mas todas as vezes que era ocasião de tomar lição, achava pretexto para atrapalhá-los, inventando algum serviço urgente, ora para o mestre, ora para as discípulas. Além disso, ocupava mais que de costume a Elias em comissões e viagens, de modo que este pouco tempo parava em casa. Assim julgava ele impedir o progresso do mal, enquanto procurava ajeitar um meio suave e natural de se ver livre de tal hóspede.

Lúcia e Elias, portanto, já raras vezes se viam. Estava mais que claro que tudo aquilo era manobra do Major, que por certo já suspeitava a existência de sua recíproca afeição. Elias compreendeu que era tempo... de quê? de pedir Lúcia em casamento... não por certo. Na posição precária e quase desvalida em que se achava, não se abalançaria a dar semelhante passo; só podia esperar um não redondo, categórico e humilhante. Era tempo de dizer adeus a Lúcia, ao amor, à felicidade, e também à última esperança que lhe restava n’alma.

A persuasão de Elias ainda mais se confirmou, quando um dia o Major, com o tom mais benévolo e paternal do mundo lhe disse:

—meu amigo, creia que lhe quero bem, e sinceramente desejo o seu adiantamento. Um moço como o senhor, que teve estudos, e tem tantas habilitações, não deve estar-se perdendo em uma roça, onde as suas prendas e habilidades de nada lhe podem servir. Em qualquer povoação que se estabeleça, pode com facilidade ganhar dinheiro e posição, ao passo que aqui, na roça, falo com franqueza de amigo, está perdendo completamente o seu tempo. De minha parte, qualquer que seja o lugar para onde deseje ir, pode contar sempre com o meu pequeno empréstimo naquilo em que lhe puder ser útil... e...

—tem razão, Sr. Major— interrompeu vivamente Elias; V. Sª. preveniu-me em um propósito que eu já há muito tinha formado. — Vejo que aqui em sua casa sou um ente inútil e que não é à sombra de seu telhado que poderia encontrar fortuna, nem felicidade.

— Agastou-se comigo? ... não o estou mandando embora... é apenas um conselho e amigo.

— Não me agastei, Sr. Major; já lhe disse que era o meu propósito, só receava que V. Sª. o não aprovasse; agora, que sei o contrário, dê-me as suas ordens, que pretendo partir o mais breve possível.

Elias bem sabia o motivo daquele procedimento do Major, e nada tinha que lhe replicar. Era um modo polido de despedi-lo. De feito não era possível de modo mais benévolo e lisonjeiro cravar-se o punhal no coração de uma vítima. As palavras do Major caíram-lhe como rochedos sobre o coração com peso esmagador. Forçoso lhe era deixar Lúcia, talvez para sempre!

— Ah! Pobreza! Pobreza! Maldita pobreza— exclamou Elias em transportes de frenesi, entrando para o seu aposento. — Pobreza! Tu és o pior dos males que afligem a humanidade, pior que a fome, pior que a lepra, pior que a morte mesmo. De toda parte és repelida, como se fosse um mal contagioso. Além de faltarem ao pobre todas as comodidades materiais da existência, são-lhe vedados todos os prazeres do coração. O pobre não pode, não deve amar... Ah! Se eu fosse rico! ... Por que não quis a sorte, que eu possuísse um pouco de dinheiro? Mas quem me impede de o ter? Os outros, que o ganham, são porventura melhores do que eu? ... Sou moço, e, graça ao céu, tenho saúde, robustez e a inteligência necessária para saber ganhar dinheiro... A Bagagem está ali perto... é um garimpo riquíssimo... pouco custa cavar a terra, e lavar o cascalho. Major! Major! ... Tu me expeles de tua casa por ser pobre... mas, ah! Major! queira Deus que bem cedo não te arrependas do pouco caso que hoje fazes de mim, e não venhas humilhado implorar o perdão a meus pés. Major! Por ti só, tu nada vales; e esse teu vil procedimento eu o lançaria ao desprezo, sem que me custasse um só momento de sono. Mas tua filha vale um tesouro e é por ela e para ela que eu juro e protesto... serei rico, ou do contrário nem tu, nem ela, nem mais ninguém neste mundo me verá a face.

As relações entre Lúcia e Elias estavam, pois, completamente interceptadas. Há muito tempo não se viam senão à hora do jantar com a família. Este era para eles o pior dos martírios. Iam-se separar sem poderem dizer-se um adeus... Um medianeiro seria para eles naquela ocasião um presente do céu, para se comunicarem suas angústias, receios, e esperanças, se esperanças podiam ter. Só Lúcia poderia achar um meio de comunicação entre eles. Lúcia lembrou-se de Joana; era a única pessoa a quem podia incumbir de tão melindrosa tarefa. Ela sabia muito bem que a velha e matreira crioula já estava ao fato de seus amores com Elias, e portanto nada arriscava encarregando— a de um recado ou de um bilhete.

— Joana, tu hás de me fazer uma coisa! ...

— Por que não, sinhazinha? ... qual é essa coisa?

— Entregar-me este bilhete a.. meu mestre.

— Para que isso, minha sinhá? ... esqueça-se desse moço! amanhã ele vai-se embora...

— É por isso mesmo; quero dizer-lhe adeus. Entregas?

— Eu sei! ... Nhonhô sabendo não há de gostar; ele já anda ressabiado, e me recomendou que não deixasse sinhazinha andar sozinha.

— E que necessidade há de que ele saiba? ... isso não faz mal; o moço tem de retirar-se e talvez nunca mais nos encontremos— disse a moça suspirando.

— Ah! sinhá! eu... não... sei...

Vai; leva isso e cala-te. Se ele te der alguma coisa para trazer-me, entrega-me fielmente, ouviste?

— Sinhá mandou... que remédio tenho eu...

Nessa noite Elias recebia o seguinte bilhete:

“Meu pai já tem conhecimento de nosso amor, e, como bem está se vendo, não o aprova. Vejo que nossa separação é inevitável. Não posso explicar quanto tenho sofrido. Não sei o que será de mim, e nem vejo remédio para nossa desgraça. Tudo poderão fazer de mim menos arrancar-me do coração este amor que lhe consagro. Adeus, não se esqueça desta infeliz, que, aconteça o que acontecer, há de amá-lo sempre, sempre. ””

Na manhã seguinte Elias mandou-lhe a seguinte resposta:

“Teu pai tem dado a entender claramente que não me quer mais em sua casa. Devo deixar-te e amanhã mesmo estarei longe de ti; este golpe feriu-me cruelmente, mas não me desalenta. Sou pobre, e essa é a razão por que teu pai me despreza. Mas devia lembrar-se que seu moço, e, louvado Deus! Tenho robustez e inteligência, sei trabalhar, e amanhã posso ser rico. Adeus, Lúcia; não percas a esperança, e ama-me sempre, que para tudo há remédio. Eu vou trabalhar para me tornar digno de ti aos olhos de teu pai. O teu amor me alenta e me enche de coragem e de confiança em minha estrela. Ah! possas tu nunca faltar-me com ele! Eu parto com o coração ralado de angústia e de saudade. Terás notícias minhas... dentro em dois anos estarei de volta ou... Adeus. ””

No dia seguinte Elias seguindo caminho de Bagagem via sumir-se além no horizonte longínquo a fazenda do Major, e sentia como que um véu de luto abafar-lhe o coração, ao passo que aquela aprazível morada, que antes formara as delícias de Lúcia, ia Dora em diante tornar-se para ela um deserto horrendo, um exílio insuportável.