O Garimpeiro/V

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O Garimpeiro por Bernardo Guimarães
O Baiana


Já perto de dois anos eram passados, depois que Elias descoroçoado de encontrar no solo da Bagagem ao menos os elementos de uma riqueza, que se tornara condição indispensável para sua felicidade, ralado de saudades e com o espírito oscilando entre as mais sinistras a´preensões e as mais lisonjeiras esperanças, partira para longes terras em busca de fortuna, fiado na proteção de um homem que lhe era inteiramente desconhecido, abandonando seu destino à mercê da fatalidade.

A Bagagem já então apresentava o aspecto de uma povoação nascente, cheia de comércio, vida e animação, como são em seu começo todos os descobertos diamantinos. Já não eram simplesmente os toscos ranchos cobertos de baguaçu espalhados em desordem ao longo das margens do rio. Por entre eles alvejavam já não raras algumas casas caiadas e envidraçadas, como garças pousadas entre um bando de pardacentas pombas silvestres.

Algumas ruas menos irregulares se iam formando, e nelas viam-se já bonitas e bem sortidas lojas e casas de negócio de toda a espécie.

A Bagagem contava em seu seio talvez vinte mil almas à custa dos municípios vizinhos, que ficaram despovoados. Quase todo o Patrocínio, o Araxá, grande parte do Piracatu e Uberaba tinham-se mudado para as matas da Bagagem.

O Major também não ficara isento da mania geral, e, tentado pelo demônio do garimpo, deixou quase em completo abandono sua lavoura, e veio estabelecer-se na bagagem com sua família e quase toda a escravatura. Outro motivo também influiu no ânimo do Major para dar esse passo. Lúcia, depois da partida de Elias, tinha caído em profunda tristeza e abatimento; sua saúde se alterava e ela definhava, como a planta mimosa a quem falta a seiva da terra e o orvalho do céu. O Major bem conhecia o verdadeiro motivo daquela indisposição da filha; mas, ou para afetar que nem a possibilidade concebia de uma paixão amorosa, ou mesmo porque respeitava a delicada suscetibilidade dos sentimentos de Lúcia, fingia ignora-lo. Portanto, julgou conveniente arranca-la à solidão daquela fazenda, e, no meio da agitação e dos passatempos da sociedade, procurar alguma distração à constante e profunda melancolia da moça.

O Major tinha construído uma bonita e asseada casinha no lançante de uma colina à margem direita do ribeirão, algum tanto isolada do resto da povoação. Era um templozinho, de que Lúcia era a deusa tutelar, e onde afluíam uma multidão de devotos a render-lhe cultos e adorações. Mas ela, triste como a juriti, a quem exilaram da sombra silenciosa de seus bosques, sentia indizível saudade dos laranjais da fazenda paterna, de seu jardim, de sua fonte, e mais ainda de um ente, cuja imagem em seu espírito andava sempre ligada à daquela saudosa solidão. A carta que Elias escrevera ao sair da Bagagem fora-lhe fielmente entregue; a idéia da distância enorme que se ia interpor entre ela e seu amante ainda mais agravou o seu estado de prostração, aumentando-lhe os sustos e inquietações. A imagem de Elias estava sempre presente ao seu espírito, triste como a lua melancólica a mirar-se no seio imóvel de um lago solitário. De seus lábios nunca escapava um sorriso que exprimisse verdadeiro prazer. Se algumas vezes sorria, seu sorriso era como um clarão frouxo a custo escapado da alma por entre nuvens de tristeza.

Todavia, mais por efeito do tempo do que das distrações que seu pai lhe procurava, a feliz e vigorosa organização de Lúcia conseguiu triunfar e impor um termo aos progressos e estragos do sofrimento moral. Não lhe voltou aquela inalterável e serena alegria dos primeiros anos, nem se lhe desvaneceram as mágoas e inquietações do coração. Mas, ao pungir da dor violenta que a lacerava, substituiu-se uma melancolia calma e resignada, como noite de luar sucedendo silenciosa e triste aos horrores da tormenta.

A graça e gentileza de Lúcia, seu adorável recato e aquele toque simpático de melancolia que a envolvia como um véu, não podiam deixar de atrair a atenção e produzir impressão sobre a população da Bagagem, composta em grande parte de fazendeiros abastados dos arredores, que desprezando a enxada e o machado, puseram nas mãos de seus escravos o abrião e a bateia, e de jovens negociantes de todas as procedências, que vinham de remotas paragens tentar negócio com os garimpeiros. O Major por seu lado, para dar uma diversão às idéias melancólicas de sua filha, procurava entretê-la e distraí-la por todos os meios, e para esse fim costumava dar em sua casa freqüentes reuniões, a que convidava a melhor sociedade da Bagagem.

Muitos desses negociantes, muitos filhos de fazendeiros abastados, subjugados pelos encantos da gentil roceira, ofertaram a Lúcia suas homenagens; mas para logo desistiam, não achando brecha por onde pudessem entrar nos arcanos daquele coração misterioso. Outros, mais audazes ou interpretando mal a fria amabilidade com que ela os tratara, abalançaram-se a revelar sua paixão, e mesmo a pedi-la em casamento.

—minha filha, já tens vinte anos; acho que já é tempo de pensar no casamento, e tenho para ti um noivo que decerto não rejeitarás. É o senhor F. ; pediu-me hoje a tua mão. Acho— o muito capaz de fazer a tua felicidade.

Esta pequena alocução Lúcia ouvia sempre ao menos uma vez por semana, e todas as vezes com imperturbável e glacial frieza lhe respondia:

— Peço-lhe, meu pai, que não me fale ora em casamento; não me sinto com inclinação para esse estado. Talvez mais tarde... meu pai bem vê que minha irmã é ainda muito criança. Enquanto ela não crescer mais e não puder lhe servir de companhia, eu não posso nem devo casar-me. Julgo-me necessária para ambos.

O pai parecia aceder a estas razões e respeitava as repugnâncias da filha. É verdade também que dos pretendentes que até ali tinham aspirado à mão de Lúcia posto que fossem todos dignos e belos moços, todavia nenhum estava em condições de assegurar-lhe uma posição muito brilhante pelo lado pecuniário; e o Major, que como bom pai desejava a felicidade sem a riqueza, esperava que Lúcia encontraria ainda um marido milionário, e portanto facilmente condescendia com sua recusa.

Assim passaram-se mais alguns meses, sem que nada alterasse a monótona tristeza do viver de Lúcia, sem que uma esperança viesse alenta-la, e nem novo golpe da sorte reavivar a chaga de seus antigos sofrimentos.

Por esse tempo chegara à Bagagem um rico viajante, elegantemente trajado, com numeroso séqüito de pajens e camaradas e aparatosa bagagem. Era um jovem baiano, bem feito, bonito, e de maneiras agradáveis e insinuantes. Do Sincorá, onde se enriquecera com a compra de diamantes, viera à Bagagem continuar na mesma especulação, e examinar e explorar este novo descoberto. A chegada de um hóspede destes a uma de nossas povoações do interior produz tanta ou maior expectação do que a visita de um soberano a qualquer grande capital do mundo civilizado.

Leonel, assim se chamava o recém— chegado, tornou-se logo extremamente popular. Além de seu agradável exterior e da afabilidade de suas maneiras, era dotado de prendas e qualidades que o tornavam apreciado e desejado em todas as companhias, tocava admiravelmente violão e cantava com muita graça as modinhas e lundus da sua terra. Além de tudo era sumamente liberal, e tratava-se com luxo que, relativamente ao lugar, podia-se chamar suntuoso.

Não tardou muito que o Leonel fosse também apresentado em casa do Major. Como sabemos, este costumava dar em sua casa algumas partidas ou pequenos saraus para dar alguma diversão à melancólica disposição do espírito de sua filha. Com o aparecimento de Leonel, essas partidas, que já iam esmorecendo pelo nenhum resultado que produziam no espírito de Lúcia, recomeçaram com nova animação. O Major era calculista, e preparava as cartas para um grande jogo. Contava que a bela figura, as delicadas maneiras do jovem baiano não deixariam de produzir impressão no coração de sua filha, e a curariam para sempre de sua antiga e louca paixão. Por outro lado estava convencido, e não sem razão, que ninguém que tivesse coração de moço, podia chegar-se a Lúcia sem sentir a irresistível influência de seus lindos olhos; a experiência de todos os dias o estava confirmando. Leonel, que por sua conversação viva e alegre, por suas prendas e belas maneiras era a alma daquelas pequenas reuniões, não tardou com efeito em sentir o mágico influxo do brilho daqueles grandes olhos aveludados, daquele meigo e melancólico sorrir. Concebeu logo por ela uma paixão ardente que não podia mais dissimular.

Cerca de quinze dias depois que Leonel aparecera pela primeira vez em casa do Major, os dois, debruçados a uma janela em casa deste, travaram entre si a meia voz a seguinte conversação:

—senhor Major, não devo ocultar— vos por mais tempo que concebi por sua filha o mais ardente e extremoso amor, se é que já o não tem adivinhado. Seria para mim a suprema felicidade, se eu pudesse ganhar também o coração dela, como ela soube conquistar o meu. Desejaria saber se o senhor acolhe bem este meu sentimento, que lhe afianço é puro e sincero, para saber se devo ou não continuar minhas visitas à sua casa.

— Eu sempre o receberei com os braços abertos— retorquiu o Major com vivacidade— e de todo o coração folgo que minha filha inspirasse esses sentimentos a um moço tão distinto e de tão belas qualidades. Mas ela? ... sabe se lhe corresponde? o senhor não lhe fez ainda declaração alguma? ...

— Ela... é sempre afável e boa para comigo; mas acho— a sempre tão fria, tão reservada, que não sei o que deva pensar.

— Não lhe dê isso cuidado, senhor Leonel, é efeito do acanhamento; foi criada na roça, e ainda não sabe desenvolver— 0se em uma conversação. Mas não desanime por isso; quando se familiarizar mais um pouco com o senhor, há de perder esse acanhamento, eu lhe afianço. Dá-me muito gosto em continuar a freqüentar esta sua casa, e posso assegurar-lhe que Lúcia será sua...

— Assegura? mas, meu Deus! por que modo? se quer prevalecer-se da autoridade paterna para impor uma aliança, que talvez lhe desagrada, oh! nisso nunca consentirei.

— Eu, senhor Leonel, impor? ... nunca! Prezo muito a minha filha para obriga-la a casar com quem quer que seja, contra sua vontade, mas não creio possível que ela rejeite...

nesse momento tocou a música, e uma menina, chegando-se aos conversadores, chamou— os para dançarem ou verem dançar...

— Vá dançar com ela, disse o Major; ânimo e perseverança! sem isso nada se arranja neste mundo.