O Garimpeiro/XII

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O Garimpeiro por Bernardo Guimarães
Moedeiro falso


Lúcia, abalada violentamente em todo o seu organismo pelo inesperado aparecimento de Elias e pela triste cena a que dera lugar na noite de sábado, caiu em uma prostração febril e profunda, que nos primeiros dias chegou a causar sérios cuidados a respeito de sua existência. Aquela alma forte, aquela feliz e vigorosa organização enfim sucumbiu à luta atroz que há tanto tempo trazia travada com os sentimentos do coração. Às vezes delirava, e então o nome de Elias lhe vagava sempre pelos lábios no meio do tropel de suas idéias confusas e incoerentes. Só então seu pai reconheceu que o amor de sua filha não era uma simples veleidade de criança, um capricho da imaginação, mas uma dessas paixões veementes e profundas, que com os obstáculos mais se exaltam, e que nunca mais se desalijam do coração onde uma vez entraram. Mas era tarde; o mal já estava feito, e era irremediável.

Leonel, como era seu dever, foi visitar sua futura esposa com vivas mostras da maior angústia e consternação, mas dizendo dentro de si: — Oh! se ela sucumbiu já, que redenção para mim! Como noivo foi sem escrúpulo introduzido no quarto da enferma em ocasião em que esta parecia estar mais tranqüila. Lúcia em um estado de marasmo mal se percebeu da visita que era apresentada, e respondeu à sua saudação e a suas perguntas com tal indiferença, que bem mostrava não saber ela com quem estava falando. Por fim Leonel para despertar sua atenção tomou-lhe uma das mãos entre as suas, e debruçando-se sobre o rosto da enferma que se achava reclinada sobre o travesseiro, dirigiu-lhe em tom afetuoso estas palavras:

— D. Lúcia, olhe-me; não me conhece? ... sou eu; é o Leonel... é o seu esposo...

— meu esposo! meu esposo! ... quem é? É Elias?

E levantando um pouco o rosto e abrindo os olhos, que até ali conservara quase fechados no torpor da febre, fitou— os em Leonel...

— Ah! gritou ela espavorida, e recuando para o canto da cama. Não! não é Elias! não é meu esposo! é o ladrão... lá está a marca na cara! ... fuja, senhor! fuja daqui! ...

Leonel pálido e horrorizado levantou-se bruscamente, e saiu do quarto sem dizer palavra.

Para qualquer outro homem, que amasse verdadeiramente, aquela revelação do delírio— como o sonho da esposa do conde d’Este-teria sido um raio fulminador. Mas naquela ocasião Leonel, dissipado o primeiro assombro e terror que lhe causaram as palavras delirantes de Lúcia, viu nelas uma aurora de esperança, um sinal de redenção. Depois do desacato que sofrera em casa do Major, tinha-se mil vezes arrependido do compromisso que tomara pedindo em casamento sua filha, compromisso que agora o envolvia nas mais sérias dificuldades; e posto que fosse grande o desejo de possuí-la uma noite sequer, contudo maior era a necessidade que tinha de se pôr a salvo, evitando algum futuro incidente que o viesse perder completamente, e não sabia que meio excogitasse para conseguir esse fim sem comprometimento seu. Quando pediu a mão de Lúcia, não lhe ocorrera que corria então a quaresma e que forçoso lhe seria espaçar por tanto tempo o seu casamento. Se de tal se lembrasse, talvez não se arriscasse a tanto. O aparecimento de Elias e a cena da noite de sábado chamavam as atenções sobre ele. As folhas da corte começavam a falar muito no aparecimento de notas falsas, e nos esforços e diligências que o governo empregava por todo o império para descobrir e prender os moedeiros falsos. Estava-se na terça— feira, e até domingo próximo Deus sabe o que poderia acontecer. Portanto, por mais lisonjeiro que fosse o conceito de que ainda gozava na Bagagem, por mais confiança que nele depositassem, a posição do jovem baiano era das mais críticas e arriscadas.

Já pelas ruas lhe tinham constado os antigos amores de Lúcia e Elias, e posto que esse rumor vago não fosse ainda um motivo bastante sólido para determinar um rompimento, todavia Leonel estava disposto a prevalecer-se dele, e agarrar-se a essa única tábua de salvação que a sorte lhe deparara.

Pode-se pois calcular com que íntima e viva satisfação saiu da casa do Major, posto que levasse no rosto a máscara da tristeza, depois que a revelação de Lúcia, posto que resultado do delírio, veio romper de um só golpe todas as malhas da rede terrível em que tão imprudentemente se tinha enleado.

A visita de Leonel foi feita pela manhã; o pai de Lúcia não estava em casa. Nessa mesma tarde Leonel voltaria para retirar sua palavra, desfazer o contrato, e despedir-se, e nessa mesma noite desapareceria da Bagagem; tal foi o projeto, que imediatamente formulou em seu espírito.

Elias, ao sair da prisão tratou imediatamente de abandonar aquela terra, onde tinha visto quebrarem-se um por um todos os elos da cadeia dourada de seus sonhos, terra de maldição, como dizia ele, coito de fariseus vis e desalmados, que só rendem culto ao ouro e ao diamante, e que seriam capazes de entregar até o próprio Cristo, se entre eles aparecesse, à sanha de seus algozes por um punhado de ouro. Despediu os camaradas que ainda lhe restavam, vendeu animais e bagagens que lhe eram desnecessários, e, sem nada dizer, nem despedir-se de ninguém, montou a cavalo sozinho e subiu pelo caminho que vai para o Patrocínio. Essa estrada passava pela frente da casa de Lúcia a algumas braças de distância. Ao avista-la, Elias sentiu um horrível aperto de coração. Mas um irresistível atrativo como que o detinha ali; retardou o passo do animal, e perscrutou com as vistas todos os lados da casa a ver se avistava Lúcia, ou alguém da casa; não viu ninguém. Aplicou o ouvido à escuta de alguma voz, de algum rumor, que dali partisse; mas reinava na casa o maior silêncio e quietação, como se nela ninguém morasse. Ainda mais se lhe anuviou o coração de melancolia.

— Adeus, Lúcia! adeus! murmurou o moço lançando um triste e derradeiro olhar sobre a casa do Major. Perdoa o estouvamento que cometi; não serei eu mais que irei perturbar teu sossego e tua felicidade. Mas ah! queira Deus que em breve não experimentes o rigor do castigo do céu. Adeus!

E esporeando o cavalo desapareceu na mata pelas voltas do caminho.

Na tarde desse mesmo dia Leonel, montado em um lindo ginete, subia o caminho da encosta que o conduzia à casa de Lúcia. Ia desfazer o contrato de casamento, e despedir-se, e ia altivo e resoluto, porque de feito o motivo que tinha para assim proceder era o mais legítimo e nobre; mas tal motivo não bastaria para demover de seus perversos desígnios aquela alma obcecada e habituada ao crime, se não fora o risco que corria sua pessoa demorando-se por mais tempo na Bagagem. Sua intenção era desaparecer nessa mesma noite, para o que já dera as necessárias providências.

Para arredar de si qualquer suspeita, deixaria uma carta para ser apresentada a todos os seus amigos, na qual lhes faria ver que retirava-se porque não lhe era possível, nem lhe ficava airoso por modo nenhum demorar-se, nem mais um instante, em uma terra onde acabava de ser vítima do mais escandaloso desacato e do mais profundo dissabor por que pode passar o coração do homem. levava contudo a mais grata lembrança daquele país e de seus habitantes, e protestava seu reconhecimento a todos que o honraram com sua amizade.

Exultando com o acontecimento que lhe dava tão plausível motivo de pôr-se a salvo sem despertar suspeitas, o jovem baiano chegou à porta da casa do Major.

No momento de apear-se achava-se bem junto à porta um homem de grotesca figura, pobre e andrajosamente vestido, mas calçado e com uma gravata esfarrapada ao pescoço, e da aparência a mais benigna e submissa que se pode imaginar. Este homem, depois de tirar respeitosamente o amarrotado chapéu de pêlo, fazer uma profunda reverência e pegar no estribo para apear-se, desdobrou e apresentou a Leonel um papel sem lho entregar.

— Ah! já sei! exclamou com impaciência o mancebo, sem ao menos olhar para o papel. É alguma subscrição... é um chuveiro delas todos os dias. Em outra ocasião, meu amigo... apareça em minha casa.

— Perdoe-me V. Sª. ; não é isso de que se trata; tenha a bondade de ler o papel.

Leonel tomou o papel, passou por ele um ligeiro lance de vista, empalideceu, e num instante desarmou-se-lhe todo aquele ar de segurança e imponência que o revestia. Depois, com ar espantadiço olhou para todos os lados como quem queria correr. O homem lançou-lhe a mão ao punho, e disse-lhe com solenidade:

— V. Sª. está preso à ordem do senhor delegado de polícia.

— Infâmia! ... eu! ... eu mesmo! ? é impossível; há engano da sua parte, meu caro.

Dizendo isto, Leonel ia entrar para a casa do Major. O homem o deteve.

— Perdão; V. Sª. há de acompanhar-me.

— Vou só dar um recado, e volto neste instante.

— Não, senhor; tenho ordens apertadas.

O moço mordeu os beiços de raiva.

— Pois bem! disse, vamos lá! onde quer me levar?

E ia montar a cavalo.

— Perdão, meu senhor; tenha paciência. V. Sª. há de ir a pé. Eu vou puxando seu cavalo.

— Biltre! bradou o moço encolerizado e levantando o chicote, o cavalo é meu; tenho de ir à casa, e não quero ir a pé.

E já ia pondo o pé no estribo. O meirinho apitou, e súbito dois soldados, surgindo por detrás de uma cerca vizinha, acudiram prontamente, e colocaram-se aos lados de Leonel. Este abaixou os olhos trêmulo e convulso de raiva e de vergonha, e disse aos guardas em tom rápido:

— Vamos! ... vamos depressa! quero saber que maroteira é esta.

O que ele queria porém era evitar a vergonha e humilhação de ser visto naquelas circunstâncias pelo Major e Lúcia. Lúcia estava doente em seu quarto; mas o Major e algumas outras pessoas da casa já tinham acudido à janela.

— O que é isto, senhor Leonel! ? o que é que estou vendo! exclamou o Major. Camaradas, que quer dizer isto? aqui há decerto algum engano. Que fez este homem?

— Ele melhor o sabe do que nós, senhor Major, disse um dos soldados; pergunte a ele.

— Não se inquiete, Major, disse Leonel. Estou preso, é verdade; mas há sem dúvida algum equívoco. Eu vou já deslindar tudo isto, e breve estou de volta.

E foi saindo a passos rápidos no meio dos dois guardas, e acompanhado pelo meirinho.

Nesse momento vinha descendo pela estrada que passava pela frente da casa a uns cem passos de distância, um cavaleiro todo embuçado em seu ponche e com o rosto quase inteiramente encoberto por seu largo chapéu desabado. Ao presenciar aquela cena, parou, deixando que primeiro passassem a escolta e o preso. Quando iam passando por diante dele, ergueu o chapéu e descobrindo o rosto, clamou com acento de voz satânico:

— Ainda bem, que a vingança do céu veio mais cedo do que eu esperava!

A esta voz Leonel, que marchava rapidamente e com os olhos cravados no chão, levantou sobressaltado a cabeça, estremeceu, cambaleou, e teria caído, se não se tivesse escorado ao braço de um dos guardas. Tinha reconhecido Elias.

Elias, que na manhã daquele mesmo dia tinha partido com o firme propósito de nunca mais voltar a Bagagem, ao sair da mata e avistar as vastas e formosas Campinas que se estendiam diante de seus olhos, sentiu cobrir-lhe o coração uma nuvem da mais sombria tristeza, e a custo se arrancava daqueles sítios onde deixava para sempre sepultadas suas esperanças e sua felicidade. As rédeas bambaleavam frouxas ao pescoço do animal, que marchava como lhe aprazia, enquanto o cavaleiro se esquecia no abismo de seus melancólicos pensamentos. A cada espigão que transpunha, cada buritizal que via atrás de si pelos imensos chapadões, sentia-se-lhe desfalecer a alma, a fraquear a resolução. Seu imenso amor, talvez também uma réstia de luz de esperança, que ainda lhe bruxoleava no fundo d’alma, ou mesmo algum oculto pressentimento o arrastava para junto de Lúcia. Enfim, tanto refletiu, calculou, devaneou, que, depois de ter cismado muito e andado bem pouco, estaria apenas a três léguas de distância, quando já o sol descambava, torceu bruscamente as rédeas ao cavalo, e voltou a galope.

— Vamos! exclamou; quero ir ver com meus próprios olhos a consumação de minha desgraça. Sim! quero ver, assistir a tudo; e seja para ela a minha presença como imagem viva do remorso, e como prelúdio da vingança que não tardará a cair do céu.

Quis o acaso que Elias chegasse exatamente a ponto de assistir ao ato da prisão de Leonel. Depois desta cena a que já assistimos, Elias enterrou outra vez o chapéu sobre os olhos, esporeou o cavalo e seguiu seu destino, murmurando consigo:

— Ah! Lúcia! Lúcia! tu me traíste, mas nem assim meu coração pode odiar-te, e agora sinto-me feliz por te ver livre das garras daquele malvado, do que por me ver tão cabal e solenemente vingado!