O Hóspede (Pardal Mallet)/XIII

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo XIII


Receberam-na com grandes alegrias e expansões de desejando saber por que passara tanto tempo sem aparecer. Sá Jovina ouvia-as com um sorriso benévolo, procurando responder às interrogações que lhe faziam, explicando as razões da sua tardança. Estivera muito doente com umas febres que se manifestaram em casa do conselheiro Pedrosa, onde teve de ficar duas semanas de cama! E louvava muito o conselheiro e a d. Ritoca, que se lhe tinham mostrado extraordinariamente desvelados e cuidadosos, chegando mesmo a mandar chamar um médico que fora visitá-la de dois em dois dias. Depois tivera de ir ao casamento da filha de d. Juvência e a d. Sinhazinha levara-a para Petrópolis de onde tinha chegado na véspera. Entrava então em pomposas descrições da viagem, não poupando nenhuma minudência, entusiasmada com o trem da serra, dilatando-se principalmente no tocante aos passeios que fizera e nos quais por diversas vezes encontrara-se com o imperador, que ela achava muito parecido com o pai e quase se admirava de ver tão acabado.

Depois desta ligeira prosa foi tratando de entrar em seus cômodos. Ela já tinha o seu quarto reservado, ali junto à sala de jantar, por baixo da escada que ia para o sótão. E dirigiu-se para lá, a fim de tirar a saia - uma saia de seda preta com rendas de vidrilhos que lhe dera a d. Rosinha e que afecionava dentre todas as coisas. Acompanharam-na e assistiram-lhe à toalete, ajudando-a a tirar o chapéu, numa grande expansão de contentamentos, continuando a fazer-lhe perguntas, caçoando-a pelo cuidado que dava às suas vestimentas. Mas sá Jovina ouvia-as com o seu sorriso benévolo, sem lhes dar resposta, ocupada em escovar e dobrar cuidadosamente a sua saia, um pouco inquieta porque estava a despregar-se uma das plumas do chapéu, querendo consertar imediatamente o estrago, e só volvendo à sala de jantar quando deixou tudo convenientemente acondicionado na gaveta da cômoda e não lhe pareceu haver mais possibilidades de encontrar uma qualquer avaria nas suas vestes domingueiras.

Foi então que d. Augusta e Nenê lhe deram parte do ocorrido, de toda essa brusca revolução a perturbar-lhes o calmo da existência. Insistiam sobre o fato. Admirava-as muito que o Pedro, assim sem mais nem menos, trouxesse para casa um companheiro. Concordavam em que o Marcondes era muito atencioso e bem-educado. D. Augusta gabava-lhe mesmo o trato ameno e a consideração que lhe mostrava; mas apesar de tudo isto o genro devia tê-la previamente consultado a respeito e não fazer as coisas estouvadamente, sem prevenir a ninguém! Nenê por seu lado não deixava de louvar o talento musical do rapaz que a acompanhava tão bem ao piano. Em todo caso a gente não devia formar opinião pelas primeiras impressões e era possível que mais tarde tivessem a lamentar algum desaguisado! Enfim, de comum acordo, tinham resolvido conservar-se na mais estrita reserva, não poupando recriminações ao Pedro, que seria o único responsável de qualquer coisa que porventura acontecesse mais tarde, por isso mesmo que não quisera ouvir conselhos sobre o negócio.

Sá Sovina, porém, mostrava-se conciliadora e desculpava ao Pedro. Ela conhecia muito o que eram amizades de colégio! E citava fatos. O filho do conselheiro Pedrosa levava todos os dias uma porção de companheiros para casa do pai, e quando era de noite a rapaziada juntava-se toda lá no sótão e punha-se a fazer uma barulhada infernal! Demais, elas não tinham nada a recear! Ainda se existisse em casa alguma moça solteira haveria possibilidade de suceder alguma desgraça! Mas nem isto tinham que temer! O melhor era tratar o Marcondes com muita cerimônia porque ele perceberia logo que estava se tornando incômodo e procuraria um leito de ir-se embora! Em todo caso não achava bom o fazerem-lhe má cara, nem aprovava as tensões que tinha Nenê de ficar zangada com o marido por uma coisa que não valia a pena.

Nessas questões de marido e mulher a sua longa experiência do mundo lhe tinha ensinado que a gente, de qualquer lado que se voltasse, só saía perdendo!

Entretanto o Pedroca, que ouvira calado todas essas explicações, vendo que a conversação começava a esfriar, pediu a sá Jovina para lhe contar uma história. Ele gostava tanto quando a boa velha o sustentava ao colo, lhe falava de umas princesas encantadas e muito bonitas que viviam acorrentadas e sofredoras até a chegada de algum príncipe que lhes restituísse a liberdade! E insistia ante as negaças da senhora. Trepava-lhe pelo colo acima, não obstante as advertências de Nenê, e tanto fez que a obrigou a satisfazê-lo. Antes porém de dar princípio à sua história era preciso que sá Sovina merendasse qualquer coisa. Dona Augusta chamava pelo Valentim e pela Marocas para que trouxessem uns pratos e talheres e pusessem em cima da mesa o queijo e o doce. O Pedroca quis fazer companhia à sua boa amiga e as duas senhoras, apesar de não terem o costume de comer qualquer coisa entre o almoço e o jantar, resolveram-se a acompanhá-la. Foi então, ali em derredor da mesa um grande redobramento de confidências íntimas ditas baixinho, a despertar a curiosidade do menino, que distraidamente ia mastigando o doce de laranja.