O Homem/III

Wikisource, a biblioteca livre
< O Homem
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O Homem por Aluísio Azevedo
Capítulo III


Terminada a crise dos soluços, Magdá sentiu uma estranha energia apoderar-se dela; uma necessidade de reação; andar, correr, fazer muito exercício; mas ao mesmo tempo não se achava com ânimo de largar a cama. Era uma vontade que se lhe não comunicava aos membros do corpo. Ergueu-se, afinal, mandou chamar o pai, e este não se fez esperar. Ia pálido e acabrunhado; é que estivera conversando antes com o filho a respeito do ocorrido. A notícia do procedimento de Magdá fulminara-o; supunha-a já de todo esquecida dos seus projetos de casamento com o irmão e agora se arrependia de não haver dado as providências para que este se apartasse dela; sentia-se muito culpado em ter sido o próprio a detê-lo em casa, e doía-lhe a consciência fazer sofrer daquele modo a pobre menina. No entanto, quando o rapaz lhe pediu licença para confessar a verdade à irmã, negou-a a pé firme, aterrado com a idéia de ter de corar diante da filha. — Não! Tudo, menos isso!

Fernando protestou as suas razões contra tal egoísmo: não era justo que se expatriasse amaldiçoado por uma pessoa a quem tanto estremecia, sem ter cometido o menor delito para merecer tamanho castigo. Ah! se o pai tivesse visto com que profunda indignação, com que ódio, com que nojo, ela o havia encarado!...

— Não! nunca! Que se poderia esperar de uma filha, que recebesse do próprio pai semelhante exemplo de imoralidade?...

Foi nessa ocasião que o criado o interrompeu com o chamado de Magdá. O Conselheiro, quando chegou junto dela, sentiu-se ainda mais comovido: "Não seria tudo aquilo um crime maior do que os seus passados amores com a mãe de Fernando?... Sim; estes ao menos não se baseavam em preconceitos e vaidades, baseavam-se nos instintos e na ternura". E o mísero, atordoado com estas idéias, tomou as mãos da filha, falhou-lhe com humildade perguntou-lhe com muito carinho o que ela sentia.

— Quase nada! Um simples abalo... Já não tinha coisa alguma...

E tremia toda.

— Queres que mande buscar o Dr. Lobão? Estou te achando o corpo esquentado.

— Não, não vale a pena; isto não é nada. Eu chamei-o papai, para lhe pedir um obséquio...

— Um obséquio? Fala, minha filha.

— Pedir um obséquio e fazer-lhe uma declaração...

E, brincando com os botões da sobrecasaca do Conselheiro: — Sabe? Estou resolvida a casar com o Martinho de Azevedo; desejava que meu pai lhe mandasse comunicar imediatamente esta minha deliberação...

— Temos tolice!...

— E queria que o casamento se realizasse antes da partida do Fernando...

— Estás louca?

— Se estiver, tanto pior para mim. Afianço-lhe que hei de fazer o que estou dizendo!

— Não sejas vingativa, minha filha; Fernando contou-me o que se passou entre vocês dois, disse0me tudo, e eu juro pela memória de tua mãe que o procedimento dele não podia ser outro... Foi correto, fez o seu dever!

— O seu dever? Tem graça!

— Mais tarde verás que digo a verdade; o que desde já posso afirmar é que o pobre rapaz não tem absolutamente a menor culpa em tudo isto. Não o deves ver com maus lhos, nem lhe deves retirar a tua confiança e a tua estima...

— Mas fale por uma vez! Não vê que as suas meias palavras me põem doida?...

— Não posso; é bastante que acredites em mim; eu juro-te que Fernando, negando-se a casar contigo, cumpre o seu dever. Vou chamá-lo e quero que...

— Não, não! atalhou a filha, segurando-lhe os braços. — Ele que não me apareça! Que não me fale! Detesto-o!

— Não acreditas em teu pai!...

— Não sei; acredito é que entre o senhor e ele há uma conspiração contra mim! Querem engodar-me com mistérios que não existem, como se eu fosse alguma criança! Ah! mas eu mostrarei que não sou o que pensam!

— Então, minha filha, então!

— Creio que já disse bem claro qual é a minha resolução a respeito de casamento, e agora só me convém saber se meu pai está ou não disposto a tratar disso!

— Não digo que não, mas para que fazer as coisas tão precipitadamente?...

O velho sentia o suor gelar-lhe o corpo.

— Custe o que custar, eu me casarei antes da partida daquele miserável! Se meu pai não fizer o que eu disse, o escândalo será maior! Ao menos falo com esta franqueza — Não tenho "mistérios"!

Ela havia-se desprendido das mãos do Conselheiro e passeava agora pelo quarto, muito agitada, com as faces em fogo, os lábios secos e os olhos ainda úmidos das últimas lágrimas. E em todos os seus movimentos nervosos, em todos os seus gestos, sentia-se uma resolução enérgica, altiva e orgulhosa.

— Não há outro remédio! Pensou o velho, limpando a fronte orvalhada e fria da neve, não há outro remédio!

E aproximou-se da filha, para lhe dizer quase em segredo, com a voz estrangulada pela vergonha:

— Fernando não se casa contigo, porque é teu irmão...

Magdá retraiu-se toda, como se lhe tivesse passado por diante dos olhos uma faísca elétrica, e fitou-os sobre o pai, que abaixou a cabeça num angustioso resfolegar de delinqüente.

— Ora aí tens... balbuciou ele, depois de uma pausa, durante a qual só se ouviam os soluços de Magdá que se lhe havia atirado nos braços. — Já vês que aqui o único culpado sou eu; nunca devia ter consentido que vocês se criassem juntos, sem lhes ter exposto a verdade. Tua mãe ignorou sempre que Fernando fosse meu filho...

— Vá ter com ele... pediu Magdá chorando. — Que me perdoe! Que me perdoe! Diga-lhe que eu não sabia de nada, e que sou muito desgraçada!

Quando o Conselheiro saiu do quarto, ela tornou à cama, e daí a pouco delirava com febre.

Transferiu-se a festa; mandou-se chamar logo o Dr. Lobão, que receitou; e, só à tarde do dia seguinte, a enferma deu acordo de si, depois de um sono profundo que durou muitas horas.

Despertou tranqüila, um pouco abstrata. — Tinha sonhado tanto!...

Levou um bom espaço a cismar, por fim soltou um profundo suspiro resignado e pediu que conduzissem o irmão à sua presença. Ele foi logo, acompanhado pelo Conselheiro, e assentou-se, sem dizer palavra, numa cadeira ao lado da cabeceira da cama. Magdá tomou-lhe as mãos em silêncio, beijou-las repetidas vezes, e em seguida levou uma delas ao rosto e ficou assim por algum tempo, a descansar a cabeça contra a palma da mão de Fernando. Como por encanto, a sua meiguice havia se transformado da noite para o dia: já não eram de noiva os seus carinhos, mas perfeitamente de irmã. Não por isso menos expansivos, antes parecia agora muito mais em liberdade com ele; pelo menos nunca lhe havia tomado as mãos daquele modo. Ainda fez mais depois: pousou a face contra o seu colo e cingiu-lhe o braço em volta da cintura.

— E eu que cheguei a supor que eras um homem mau!... balbuciou, com uma voz tão arrependida, tão humilde e tão meiga, que o rapaz a apertou contra o seio e deu-lhe um beijo no alto da cabeça.

Magdá estremeceu todo, teve um novo suspiro, e deixou-se cair sobre os travesseiros, com os olhos fechados e a boca entreaberta. Chorava.

— Então, agora estão feitas as pazes?... perguntou o Conselheiro, alisando com os dedos o cabelo da filha.

Esta ergueu as pálpebras vagarosamente e deu em resposta um sorriso sofredor e triste.

— E ainda pensas no Martinho de Azevedo?... interrogou o velho, afetando bom humor.

Ela voltou seu sorriso para Fernando, como lhe pedindo perdão daquela vingança tão tola e tão imerecida.

Todo o resto desse dia se passou assim, sem uma nuvem que o toldasse; a paz era completa, pelo menos na aparência. Magdá não se queixava de coisa alguma. O Dr. Lobão, quando foi à noite, encontrou-a de pé, muito esperta, conversando com a gente de Brito. O médico desta vez olhou para a rapariga com mais atenção e fez-lhe um cúmulo de perguntas à queima-roupa: — Se era muito impressionável; se era sujeita a enxaquecas e dores de cabeça; o que costumava comer ao almoço e ao jantar; se tinha bom apetite; se usava o espartilho muito apertado; desde que idade freqüentava os bailes; se as suas funções intestinais eram bem reguladas; e, como estas, outras e outras perguntas, a que Magdá respondia por comprazer, afinal já importunada.

Ela sempre embirrara com o Dr. Lobão; tinha-lhe velha antipatia; achava-o sistematicamente grosseiro, rude, abusando da sua grande nomeada de primeiro cirurgião do Brasil, maltratando os seus doentes, cobrando-lhes um despropósito pelas visitas, a ponto de fazer supor que metia na conta as descomposturas que lhes passava.

— A senhora tem tido muitos namorados? interrompeu ele, depois de estudar, medindo-a de alto a baixo, por cima dos óculos.

Magdá sentiu venetas de virar-lhe as costas e retirar-se.

— Não ouviu? Pergunto se tem tido muitos namorados!

— Não sei!

E ela afastou-se, enquanto o cirurgião resmungava:

— Que diabo! Para que então me fazem vir cá?...

Ia já a sair, quando o Conselheiro foi ter com ele:

— Então?

— Não é coisa de cuidado; um abalo nervoso. Que idade tem ela?

— Dezessete anos.

— É...! mas não convém que esta menina deixe o casamento para muito tarde. Noto-lhe uma perigosa exaltação nervosa que, uma vez agravada, por interessar-lhe os órgão encefálicos e degenerar em histeria...

— Mas, doutor, ela parece tão bem conformada, tão...

— Por isso mesmo. Ah! Eu leio um pouco pela cartilha antiga. Quanto melhor for a sua compleição muscular, tanto mais deve ser atendida, sob pena de sentir-se irritada e esbravejar por’aí, que nem o diabo dará jeito! E adeus. Passe bem!

Mas voltou para perguntar: — E a barata velha, como vai?

— Minha irmã...? ao mesmo, coitada! Enfermidades crônicas...

— Ela que vá continuando com as colheradas de azeite todas as manhãs e que não abandone os clisteres. Hei de vê-la, noutra ocasião; hoje não tenho mais tempo. Adeus, adeus!

E saiu com os seus movimentos de carniceiro, resmungando ao entrar no carro:

— Não tratam da vida enquanto são moças e agora, depois de velhas, o médico que as ature! Súcia! Não prestam p’ra nada! nem p’ra parir!

A festa de Fernando realizou-se na véspera da sua partida. Magdá nuca pareceu tão alegre nem tão bem disposta de saúde; pôs um vestido de cassa cor-de-rosa, todo enfeitado de margaridas, deixando ver em transparência a ebúrnea riqueza do colo e dos braços.

Estava fascinadora: toda ela era graça, beleza e espírito; causou delírios de admiração. Nessa noite dançou muito, cantou e, durante o baile inteiro, mostrou-se para com Fernando de uma solicitude, em que não se percebia a menor sombra de ressentimento; dir-se-ia até que estimava haver descoberto que era sua irmã. Conversaram muito; ela contou-lhe, ora rindo, ora falando a sério, as declarações de amor que recebera; citou nomes, apontou indivíduos, pediu-lhe conselhos sobre a hipótese de uma escolha e declarou, mais de uma vez, que estava resolvida a casar.

No dia seguinte apresentaram-se alguns amigos para o bota-fora. Magdá foi à bordo, chorou, mas não fez escarcéu; em casa compareceu ao jantar, comeu regularmente e até a ocasião de se recolher falou repetidas vezes do irmão, sem patentear nunca na sua tristeza desesperos de viúva, nem alucinações de mulher abandonada.

Só dois meses depois foi que notaram que estava tanto mais magra e um tanto mais pálida; e assim também que o seu riso ia perdendo todos os dias certa frescura sanguínea, que dantes lhe alegrava o rosto, e tomando aos poucos uma fria expressão de inexplicável cansaço.

Alguns meses mais, e o que havia de menina desapareceu de todo, par só ficar a mulher. Fazia-se então muito grave, muito senhora, sem todavia parecer triste, nem contrariada; as amigas iam vê-la com freqüência e encontravam-na sempre em boa disposição para dar um passeio pela praia, ou para fazer música, dançar, cantar; tudo isto, porém, sem o menor entusiasmo, friamente, como quem cumpre um dever. Vieram-lhe depois intermitências de tédio; tinha dias de muito bom humor e outros em que ficava impertinente ao ponto de irritar-se coma menor contrariedade. Não obstante, continuava a ser admirada, querida e invejada, graças ao seu inalterável bom gosto, à sua altiva de procedimento e à sua aristocrática beleza. O pai votava-lhe já essa reverente consideração, que nos inspiram certas damas, cuja pureza de hábitos e extrema correção nos costumes se tornam lendárias entre os grupos com que convivem; tanto assim que, vendo o Militão forçado a retirar-se com a família par uma fazenda que ia administrar, o Conselheiro não os substituiu por ninguém, e a casa ficou entregue a Magdá.

Quanto à saúde — assim, assim... Às vezes passava muito bem semanas inteiras; outras vezes ficava aborrecida, triste, sem apetite; apareciam-lhe nevralgias, acompanhadas de grande sobreexcitação nervosa. Então, qualquer objeto ou qualquer fato repugnante indispunha-a de um modo singular; não podia ver sanguessugas ,rãs, morcegos ,aranhas; o movimento vermicular de certos répteis causava-lhe arrepios de febre; se à noite não estando acompanhada, encontrava um gato em qualquer parte da casa, tinha um choque elétrico, perfeitamente elétrico, e não podia mais dormir tão cedo.

Uma madrugada, em que a tia foi acometida de cólicas horrorosas e sobressaltou a família com os seus gritos, Magdá sofreu tamanho abalo que, durante dois dias, pareceu louca. Desde essa época principiou a sofrer de uma dores de cabeça, que lhe produziam no ato do crânio, que ora a impressão de uma pedra de gelo, ora a de um ferro em brasa.

Agora também o barulho lhe fazia mal aos nervos: ouvindo música desafinada, sentia-se logo inquieta e apreensiva; o mesmo fenômeno se dava com o aroma ativo de certas flores e de certos extratos: o sândalo, por exemplo, quebrantava-lhe o corpo; o perfume da magnólia enfreneziava-a; o almíscar produzia-lhe náuseas. Ainda outros cheiros a incomodavam: o fartum que se exala da terra quando chove depois de uma grande soalheira, o fedor do cavalo suado, o de certos remédios preparados com ópio, mercúrio, clorofórmio; tudo isto agora lhe fazia mal, porém de um modo tão vago, que ela muita vez sentia-se indisposta e não atinava porque.

Notava-se-lhe também certa alteração nos gostos com respeito à comida; preferia agora os alimentos fracos e muito adubados; tinha predileções esquisitas; voltava-se toda para a cozinha francesa; gostava mais de açúcar, mas queria o chá e o café bem amargos

As cartas de Fernando não a alteraram absolutamente; a primeira, entretanto, fora recebida com exclamações de contentamento. Ele dizia-se feliz e divertido, apoquentamento apenas pelas saudades da família. Magdá escrevia-lhe de irmã para irmão, afetando muita tranqüilidade, procurando fazer pilhéria, citando anedotas, dando-lhe notícias do Rio de Janeiro, falando em teatros e cantores.

E assinava sempre "Tua irmãzinha que te estremece — Madalena".