O Homem/IV

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O Homem por Aluísio Azevedo
Capítulo IV


Decorreu uma no. O incidente romanesco do namoro entre os dois irmãos ia caindo no rol das puerilidades da infância; Magdá se lembrava dele com um criterioso sorriso de indulgência.

— Criancices! criancices!

Agora, no seu todo de senhora refeita, com as suas intransigências de dona de casa, com as suas preocupações de economia doméstica, ela estava a pedir um marido prático, um homem de boa posição, que lhe trouxesse tanto ou mais prestígio que o pai; mesmo porque este, ultimamente, e só por causa dela, havia-se alargado um pouco mais com aquelas festas e começava a sentir necessidade de apertar os cordéis da bolsa.

Não é brincadeira dar um baile por mês!

Foi essa a sua época mais fecunda em pretendentes; apareceram-lhe de todos os matizes, desde o pingue senador do império, até o escaveirado amanuense de secretaria; concorreram negociantes, capitalistas e doutores de vária espécie. Ela, porém, como se estivesse brincando a "Cortina de amor" em jogo de prendas, não entregou o lenço a nenhum. Não os repelia com denodo, antes tinha sempre para cada qual um sorriso amável; mas — repelia-os.

Todavia, de vez em quando, lhe vinham reações. — Precisava acabar com aquilo de uma vez, decidir-se por alguém. E fazia íntimos protestos de resolução, e empregava todos os esforços para se agradar deste ou daquele que lhe parecia preferível; mas na ocasião de dar o "Sim" hesitava, torcia todo o corpo, e afinal não se dispunha por ninguém.

Ah! Magdá sabia claramente que era preciso tomar uma resolução! bem parecia que o pai, coitado, já estava fazendo das fraquezas forças e morto por vê-la encaminhada; além disso, o Dr. Lobão, com aquela brutalidade que todos lhe perdoavam, como se ele fosse um privilégio, por mais de uma vez lhe dissera: "É preciso não passar dos vinte anos que depois quem tem de agüentar com as maçadas sou eu! compreende?"

Sim, ela compreendia, compreendia perfeitamente. — Mas por ventura teria culpa de estar solteira ainda? Que havia de fazer, se entre toda aquela gente, que o pai lhe metia pelos olhos, nenhum só homem lhe inspirava bastante confiança? — Não era uma questão de amor, era uma questão de não fazer asneira! Lá ilusões a esse respeito, isso não tinha; sabia de antemão que não encontraria nenhum amante extremoso e apaixonado; não sonhava nenhum herói de romance. — A época dessas tolices já lá se havia ido para sempre; sabia muito bem que o casamento naquelas condições, era uma questão de interesse de parte a parte, interesses positivos, nos quais o sentimento não tinha que intervir; sabia que no círculo hipócrita das suas relações todos os maridos eram mais ou menos ruins; que não havia um perfeitamente bom. — De acordo! mas queria dos males o menor!

Casava-se, pois não! estava disposta a isso, e até compreendia e sentia melhor que ninguém o quanto precisava, por conveniência mesmo da sua própria saúde, arrancar-se daquele estado de solteira que já se ia prolongando por demais. Estava disposta a casar, que dúvida! Mas também não queria fazer alguma irreparável doidice, que tivesse de amargar em todo o resto da sua vida... Nem se julgava nenhuma criança, para não saber o que lhe convinha e o que não lhe convinha! Enfim, a sua intenção era, como se diz em gíria de boa sociedade: "Casar bem".

Sim! uma vez que o casamento era arranjado daquele modo; uma vez que tinha de escolher friamente um homem, a quem se havia de entregar por convenção, queria ao menos escolher um dos menos difíceis de aturar; um homem de gênio suportável, com um pouco de mocidade e uma fortuna decente.

Bastava-lhe isto!

Nada, porém, de se decidir, e o tempo a correr! Os vinte anos vieram encontrá-la sem noivo escolhido; o pai principiava a inquietar-se, e o Dr. Lobão a dizer-lhe: "Olhe lá, meu amigo, é bom não facilitar! É bom não facilitar!...

"Que injustiça! o pobre Conselheiro não facilitava; não fazia mesmo outra coisa senão andar por aí arrebanhando para a sua casa todo homem que lhe parecia apto para casar com a filha; e tanto, que a roda dos seus amigos crescia largamente, e as suas festas amiudavam-se, e suas despesas reproduziam-se.

Uma notícia má veio, porém, enlutar a casa e fechar-lhe as portas por algum tempo — a morte de Fernando. O rapaz nas últimas cartas já se queixava da saúde; dizia que andava à procura de ares mais convenientes aos seus brônquios. Fugira da Alemanha para a França, de França para a Itália, desta para a Espanha, e fora morrer, afinal, em Portugal.

O Conselheiro ficou fulminado com a notícia, aparentemente mais sentido do quem a própria Magdá. Esta recebeu-a como se já a esperasse: saltaram-lhe as lágrimas dos olhos, mas não teve um grito, uma exclamação, um gemido; apenas ficou muito apreensiva, aterrada, com medo do escuro e da solidão. Durante noites seguidas foi perseguida por terríveis pesadelos, nos quais o morto representava sempre o principal papel, mas, durante o dia, não tinha uma palavra com referência a ele.

Não obstante, duas semanas depois, passeando na chácara, viu pular diante de si um sapo; e foi o bastante para que explodisse a reação dos nervos. Estremeceu com um grande abalo, soltou um grito agudo e sentiu logo na boca do estômago uma pressão violenta. Era a primeira vez que lhe dava isto; acudiram-na e carregaram-na para o quarto. Ela, porém, não sossegava; o peso do estômago como que se enovelava e subia-lhe por dentro até a garganta, sufocando-a num desabrido estrangulante. Esteve assim um pouco; afinal perdeu os sentidos e começou a espolinhar-se na cama, em convulsões que duraram quase uma hora.

Tornou a si nos braços das amigas da vizinhança, atraídas ali pelos formidáveis gritos que ela soltava. O pai e o Dr. Lobão também estavam a seu lado; o doutor, muito expedito, com os óculos na ponta do nariz, suando, rabujava enquanto a socorria:

— Que dizia eu? Ora aí tem! É bem feito! Acho ainda pouco! Quem corre por seu gosto não cansa! Se fizessem o que recomendei, nada disso sucederia! Agora o médico que a ature!...

E, voltando-se para uma das vizinhas que, por ficar muito perto dele, lhe estorvava às vezes o movimento do braço, exclamou com arremesso: — Saia daí! Também não sei o que tem a cheirar cá! Melhor seria que estivessem em casa cuidando das obrigações!

— Cruzes! disse a moça, fugindo do quarto. — Que bruto! Deus te livre!

Por esse tempo Magdá era acometida por uma explosão de soluços, e chorava copiosamente, o peito muito oprimido.

— Ora até que enfim! Rosnou o doutor. E, erguendo-se, soprou para o Conselheiro, a descer as mangas da camisa e da sobrecasaca, que havia arregaçado: — Pronto! Estes soluços continuarão ainda por algum tempo, e depois ela sossegará. Naturalmente há de dormir. O que lhe pode aparecer é a cefalalgia...

— Como?

— Dores de cabeça. Mas para isso você lhe dará o remédio que vou receitar.

E saíram juntos para ir ao escritório.

— É o diabo!... praguejava entre dentes o brutalhão, enquanto atravessava o corredor ao lado do Conselheiro, enfiando às pressas o seu inseparável sobretudo de casimira alvadia. — É o diabo! Esta menina já devia ter casado!

— Disso sei eu... balbuciou o outro. — E não é por falta de esforços de minha parte, creia!

— Diabo! Faz lástima que um organismo tão rico e tão bom para procriar, se sacrifique deste modo! Enfim — ainda não é tarde; mas se ela não casar quanto antes — um um! Não respondo pelo resto!

— Então o doutor acha que... ?

O Lobão inflamou-se: Oh o Conselheiro não podia imaginar o que eram aqueles temperamentozinhos impressionáveis!... eram terríveis, eram violentos, quando alguém tentava contrariá-los! Não pediam — exigiam! — reclamavam!

— E se não lhes dá o que reclamam, prosseguiu, — aniquilam-se, estrangulam-se, como leões atacados de cólera! É perigoso brincar com a fera que principia a despertar... O monstro já deu sinal de si; e, pelo primeiro berro, você bem pode calcular o que não será quando estiver deveras assanhado!

— Valha-me Deus! suspirou o pobre Conselheiro, que eu hei de fazer, não dirão?

— Ora essa! Pois já não lhe disse! É casar a rapariga quanto antes!

— Mas com quem?

— Seja lá com quem for! O útero, conforme Platão, é uma besta que quer a todo custo conceber no momento oportuno; se lho não permitem — dana! Ora aí tem!

— Não! Alto lá! isso não! A histeria pode ter várias causas, nem sempre é produzida pela abstinência; seria asneira sustentar o contrário. Convenho mesmo com alguns médicos modernos em que ela nada mais seja do que uma nevrose do encéfalo e não estabeleça a sua sede nos órgãos genitais, como queriam os antigos; mas isso que tem a ver com o nosso caso? Aqui não se trata de curar uma histérica, trata-se de evitar a histeria. Ora, sua filha é uma delicadíssima sensibilidade nervosa; acaba de sofrer um formidável abalo com a morte de uma pessoa que ela estremecia muito; está, por conseguinte, sob o domínio de uma impressão violenta; pois o que convém agora é evitar que esta impressão permaneça, que avulte e degenere em histeria; compreende você? Para isso é preciso, antes de mais nada, que ela contente e traga em perfeito equilíbrio certos órgãos, cuja exacerbação iria alterar fatalmente o seu sistema psíquico; e, como o casamento é indispensável àquele equilíbrio, eu faço grande questão do casamento.

— De acordo, mas...

— Casamento é um modo de dizer, eu faço questão é do coito! — Ela precisa de homem! — Ora aí tem você!

O Conselheiro suspirou com força, coçou a cabeça. Os dois penetraram no gabinete, e se o doutor, depois de escrever a sua receita, acrescentou, como se não tivesse interrompido a conversa: — Noutras circunstâncias, sua filha não sofreria tanto... nada disso teria até conseqüências perigosas; mas, impressionável como é, com a educação religiosa que teve. E com aquele caraterzinho orgulhoso e cheio de intransigências, se não casar quanto antes, irá padecer muito; irá vive em luta aberta consigo mesma!

— Em luta? Como assim, doutor?

— Ora! A luta da matéria que impõe e da vontade que resiste; a luta que se trava sempre que o corpo reclama com direito a satisfação de qualquer necessidade, e a razão opõe-se a isso, porque não quer ir de encontro a certos preceitos sociais. Estupidez humana! Imagine que você tem uma fome de três dias e que, para comer, só dispões de um meio — roubar! Que faria neste caso?

— Não sei, mas com certeza não roubava...

— Então — morria de fome... Todavia um homem, de moral mais fácil que a sua não morreria, porque roubava... Compreende? _Pois aí tem!