O Homem/V

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O Homem por Aluísio Azevedo
Capítulo V


Depois do ataque, Magdá sentiu um grande quebramento de corpo e pontadas na cabeça. O Conselheiro, quando a viu em estado de conversar, falou-lhe com delicadeza a respeito de casamento, apresentando-lhe as doutrinas do Dr. Lobão, vestidas agora de um modo mais conveniente.

— Mas eu estou de acordo! repontou ela, estou perfeitamente de acordo! A questão é haver um noivo! Eu não posso casar sem um noivo!

— Tens rejeitado tantos!

— Porque não me convinha nenhum dos que me apresentaram; hoje, porém, estou resolvida a ser mais fácil de contentar, e creio que me casarei.

— Ainda bem, minha filha, ainda bem!

E abriram-se de novo as salas do Sr. Conselheiro, e começaram de novo as festas, e de novo começou aquela canseira de arranjar um — marido.

E espalhem-se convites para todos os lados! E corre a gente à confeitaria e aos armazéns de bebidas! E contrate-se orquestra! E chama-se a costureira! E ature-se o cabeleireiro! — Que maçada! Que insuportável maçada!

Entre os novos arrebanhados, apareceu o Sr. Comendador José Furtado da Rocha, velhote bem disposto, orçando pelos cinqüenta, mas dando tinta ao cabelo e escanhoando-se com muita perfeição. Era português, e havia-se opulentado no comércio, onde principiara brunindo pesos e balanças. Magdá aceitou-lhe a corte quase por brincadeira, a rir; ou talvez para não contrariar o pai, que se mostrava muito afeiçoado por ele; ou, quem sabe? talvez ainda na esperança de ver surgir de um momento para outro novo pretendente.

O velho parecia adorá-la e falava, com meias palavras e sorrisos de misteriosa intenção, em arranjar títulos, deixar palácio, correr a Europa inteira e comprar objetos de arte.

Um ajo! Mas, quando o Conselheiro, em nome do amigo, perguntou à filha se estava resolvida a casar com ele, Magdá sorriu, espreguiçou-se e, afinal, para não deixar o pai sem resposta, tartamudeou:

— Não digo que não, mas... sabe?... é cedo para decidir... Havemos de ver! havemos de ver!...

Três meses depois, o Comendador, já desenganado, casava-se em São Paulo com uma viúva ainda moça, professora de piano.

Apresentou-se então, solicitando a mão de Magdá, p Dr. Tolentino. Não tinha a metade do dinheiro do outro, mas em compensação era muito mais novo. Muito mais! E com um belo prestígio de homem de talento e um futurão na advocacia, se os seus pulmões lho permitissem.

Sim senhor, porque o Dr. Tolentino não gozava boa saúde. Era ainda jovem e parecia velho; extremamente magro, vergado, um pouco giboso, olhos fundos, faces cavadas, cabelo pobre e uma tosse de a cada instante. Todo ele respirava longas noites de estudo, sobre grossos livros de direito ou defronte das carunchosas pilhas dos autos; todo ele estava a pedir, com seu magro pescocinho, um longo cache-nez bem quente, e as suas mãos, extensas e magras, queriam luvas de lã; e os seus pés, longos e espalmados, exigiam sapatos de borracha. Não produzia lá muito bom efeito o vê-lo assim desmalmado, muito comprido dentro da sua sobrecasaca abotoada de cima a baixo, olhando tristemente para a vida por detrás dos seus óculos de míope.

Muito bom efeito — não, não produzia; mas também não produzia muito mau, graças à delicadeza dos seus gestos e à expressão inteligente do seu rosto cor de palha de milho. Cheirava a doença; mas, palavra de honra, falava que nem o José Bonifácio.

Não! definitivamente merecia a fama de homem ilustre!

O seu namoro à filha do Conselheiro foi calmo, correto e persistente. Porém inútil: Magdá, depois de muita negaça, muita hesitação e muito constrangimento, resolveu não o aceitar.

Já lá se ia entretanto quase que meio ano depois do primeiro ataque, e ela começava a torcer o nariz à comida, a fazer-se mais magra, mais irritável e mais sujeita a sobressaltos nervosos.

Abatia.

O drama, a música triste, o romance amoroso, provocavam-lhe agora um choro, que principiava pelas simples lágrimas e acabava sempre em convulsivos. Ao depois — aí estavam as pontadas no alto da cabeça, o embrulhamento do estômago, os terrores infundados, o exagero de todos os seus atos e em estranho desassossego do corpo e do espírito, que a fazia andar inquieta por toda a casa sem parar três segundos no mesmo ponto.

— Temo-la travada! Exclamava o seu médico; até que, uma ocasião, avançando furioso de punho fechado contra o Conselheiro, gritou-lhe, cerrando os dentes e arreganhando-os: — Que diabo, homem! casa esta pobre rapariga, seja lá com quem for!

— É boa! Respondeu o outro! — Ainda mais esta!... Pois você acha que, se houvesse aparecido com quem, eu já não a teria casado?

— Ora o que, meu amigo! As minhas observações não me enganam: ela tem qualquer amor contrariado, que não me confessa; e você com certeza sabe de tudo e cala o bico por conveniência... É que para o sujeito, naturalmente, é um tipo sem eira nem beira!... Ah! Eu compreendo estas coisas... mas, em todo o caso, fique sabendo para o seu governo que você está mas é preparando uma doida de primeira ordem! Ora aí tem!

O Conselheiro deu a sua palavra que não sabia de nada, e afirmou em boa fé que a filha não tinha namoro oculto, nem claro; se o tivera, já ele o houvera descoberto.

— Pois se não tem, é preciso arranjá-lo e arranjá-lo já!

Surgiu então o Conde do Valado.

Trinta a trinta e cinco anos. Elegante, louro, meio calvo, barba rente espetando no queixo em duas pontas de saca-rolha; olho azul, monóculo, o esquerdo sempre fechado; uma ferradura de ouro guarnecida de pequeninos brilhantes, na gravata, que também era toda sarapintada de ferraduras; luvas de pele da Suécia com três riscões negros em cima; sapatos ingleses, mostrando meias de cor, onde havia ainda pequenas ferraduras bordadas a seda.

Este, quanto ao chamado vil metal, não tinha nem pouco, nem muito; era pobre, pobre como o país onde nascera; mas descendia em linha reta de uma família portuguesa muito ilustre pelo sangue, e em cujos primeiros galhos até príncipes se apontavam. Vivia a custa de um cavalo igualmente puro no sangue e na raça, com o qual apostava no Prado. De resto — falava inglês, fumava cigarrilhos de Havana, bebia cerveja como qualquer doutor formado na Alemanha e tinha o distintíssimo talento de encher cinco horas só a tratar de jóquei-clube.

Magdá ficou muito impressionada quando o viu pela primeira vez passar a meio trote na praia de Botafogo fazendo corcovear à rédea tosa um alazão do Moreaux. Achou-o irresistível de botas de verniz, elegantemente enrugadas sobre o tornozelo, calção de flanela branca abotoado na parte exterior da coxa, jaleco de pelúcia cor de pinhão com passamantes e botões de prata, chapéu alto de castor cinzento e luvas de camurça. Por muitos dias conservou no ouvido o eco daquele estalar metódico e compassado, que as patas do animal feriam no calçamento da rua. E, em família, tanto e com tamanha insistência falou do tal conde, que o pai, mau grado as informações contrárias que obtivera a respeito dele, deu providências para o atrair à sua casa.

Foi uma corte sem tréguas a do Valado. Perseguia Magdá por toda a parte; passava-lhe a cavalo pela porta todos os dias; convidava-a para todas as valsas; fazia-lhe declarações de amor em todas as ocasiões.

— Então? perguntou o Conselheiro à filha, depois de lhe comunicar que o conde acabara de pedir a mão dela.

— Não sei, respondeu Magdá. Mais tarde, mais tarde terão a resposta... É bem possível que aceite...

Deram todos como certo o casamento da filha do Conselheiro com o estróina do conde. Fizeram-se comentários, reprovações. Mas, nesta mesma semana, uma noite, estando aquela ao piano e o outro ao seu lado, a virar-lhe as folhas da partitura, ela de repente deixou de tocar, soltou um grito e foi logo acometida por um novo ataque, ainda mais forte que o primeiro.

Havia descoberto, a passear no colarinho do fidalgo, um pequenino inseto da cor do jaquetão com que ele se exibia a cavalo. Acudiram-na de pronto com sais e algodões queimados. Fez-se uma desordem geral na sala; Magdá foi carregada a pulso para o quarto dando de pernas e braços por todo o caminho. E, daí a pouco, levantava-se a reunião e retiravam-se os convidados.

Não pode erguer-se da cama no dia seguinte, nem no outro, nem nos cinco mais próximos. Detinham-na grandes dores de cabeça, amolecimento nas pernas, e uma ligeira impressão dolorosa na espinha dorsal.

— Olhe! disse o Dr. Lobão ao Conselheiro — Isto ainda não é precisamente a tal fome de três dias, mas para isso pouco lhe falta!...

O pai de Magdá resolveu aproveitar a primeira estiada da moléstia para casar a filha com o conde.

— Decerto! decerto! aprovara o médico.

Todavia a caprichosa, ainda de cama, declarou que — definitivamente — mão se casaria com semelhante homem. — Nunca!

— Não! exclamou, com este é tempo perdido! Façam o que quiserem, eu não me caso!

— Mas porque milha filha?...

— Não sei, não quero!

— Ele te deu algum motivo de desgosto?...

— Ora! Já te disse que não quero!

E ninguém, nem ela própria, sabia explicar a razão porque. — Era lá uma cisma.

Quando se levantou estava desfeita; apareceram-lhe náuseas depois da comida e uma tosse seca que a perseguia enquanto estivesse de pé.

Foi então que o Dr. Lobão, enfurecido com a sua doente, porque se recusara a entregar-se ao conde, aconselhou o tal passeio à Europa.