O Homem/VI

Wikisource, a biblioteca livre
< O Homem
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O Homem por Aluísio Azevedo
Capítulo VI


A viagem, como ficou dito, pouco lhe aproveitou ao sistema muscular e agravara-lhe sem dúvida o sistema nervoso. Magdá voltou mais impressionável, mais vibrante, mais elétrica. De novo, verdadeiramente novo, o que se lhe notava era só uma exagerada preocupação religiosa; estava devota como nunca fora, nem mesmo nos seus tempos de pensionista das irmãs de caridade. Mostrava-se muito piedosa, muito humilde e muito submissa aos preceitos da igreja. Falava de Cristo, pondo na voz infinitas doçuras de amor.

É que, enquanto percorrera as grandes capitais do mundo católico, visitando de preferência os lugares sagrados e as ruínas, o seu espírito, como se peregrinasse em busca do ideal fora lentamente se voltando para Deus. Preferira sempre os ermos silenciosos e propícios às longas concentrações místicas. As multidões assustavam-na com a sua grosseira e ruidosa atividade dos grandes centros de indústria e do comércio; o verminar das avenidas e boulevards, as enchentes de teatro, a concorrência dos passeios públicos, a aglomeração das oficinas e dos armazéns de moda, o cheiro do carvão de pedra, o vaivém dos operários, o zunzum dos hotéis; tudo isso lhe fazia mal. Agora, a sua delicadíssima sensibilidade nervosa reclamava o taciturno recolhimento dos claustros; pedia uma vida obscura e contemplativa, toda ocupada com um perenal idílio da alma com a divindade.

Em França, chegou a falar ao pai em recolher-se a um convento. O Conselheiro disparatou:

— Estava doida! Pois ele tinha lá criado uma filha com tanto esmero para a ver freira?... Não lhe faltava mais nada! Ah! bem quisera opor-se àquelas incessantes visitas aos mosteiros, aos cemitérios e às igrejas! Não se opusera — aí estavam agora as conseqüências! — Ser freira! Tinha graça! Não havia dúvida — tinha muita graça que a Sra. D. Madalena fosse a Paris para ficar num convento! Mas era bem feito!... era muito bem feito, porque, desde o dia em que se deu o que se dera com a visita ao túmulo de Eloisa e Abelardo, que ele devia estar prevenido contra semelhantes passeios e tomar providências a respeito daquela mania religiosa!

A visita ao túmulo dos legendários amantes fora com efeito muito fatal à filha do Conselheiro. Esta, depois de contemplá-lo em silêncio e por longo tempo, estática, abriu num pranto muito soluçado, findo o qual, pôs-se a dançar e cantar, num ritmo, que ia aos poucos se acelerando. O pai quis contê-la; Magdá fugiu-lhe, correndo pelo cemitério, saltando pelas sepulturas, tropeçando aqui e ali, tão depressa caindo como se levantando, a soltar gritos que pareciam uivos de fera esfaimada. Afinal, já sem forças e com as roupas em frangalhos, abateu por terra, ofegante, mas encabujando ainda num rosnar convulsivo, até perder os sentidos, e logo pegar em sono profundo, do qual só despertou vinte e tantas horas depois, já no hotel, para onde a levaram, sem que ela desse acordo de si.

Estava no período da coréia e das convulsões.

Este acidente, porém, em vez de lhe servir de lição e de afastá-la de tudo que lhe pudesse causar novas crises, foi, ao contrário, como que o ponto de partida da sua declinação para as coisas religiosas. Começou desde então a sentir-se oprimida por uma ansiedade sem objetivo nem causa aparente; às vezes uma grande mágoa a sufocava, enchendo-lhe a garganta de soluços indissolúveis; outras vezes eram titilações por todo o corpo, uns pruridos que a irritavam, que lhe metiam vontade de morder as carnes, de açoitar-se, de beliscar-se até tirar sangue. E, quando cessavam estas tiranias da matéria, voltavam de novo as mágoas, e então o que a consumia era um desejo esquisito, que lhe comia por dentro, onde e porque não sabia dizer; e depois ma esperança de conforto, um como ideal despedaçado no seu interior, cujas incalculáveis partículas se lhe espalhassem por todo o ser e procurassem fugir, transformadas em milhões de suspiros.

Valia-se então das súplicas religiosas e ficava longo tempo a rezar, banhada em lágrimas, os olhos injetados, os lábios trêmulos, o nariz frio de neve. Porém a oração não a confortava, e a infeliz pedia a Deus que a matasse naquele mesmo instante ou lhe enviasse dos céus um alívio para a suas aflições.

Foi neste estado que Magdá tornou ao Rio de Janeiro. A velha Camila, cuja beatice emperrara com o tempo e já tresandara a idiotia, rejubilou ao vê-la assim; durante a viagem da sobrinha, ela se recolhera ao convento de Santa Teresa, onde tinha amigas e onde costumava dantes ir passar dias e às vezes semanas inteiras, no tempo em que ainda não estava tão mal de saúde. Qual não seria, pois, o seu gosto, quando Magdá, fechando-se com ela no quarto, abriu o coração e franqueou à devota todas as vagas mortificações e místicos arrebatamentos da sua pobre alma enferma?

— Fizeste muito bem, minha filha! aplaudiu a tia, abraçando-a transportada. — Fizeste muito bem em te voltares para a igreja! Deixa lá falar teu pai, que não entende disto e está tão contaminado de heresia como qualquer homem deste tempo. Deixa-o lá e entrega-te às mãos de Deus, que terás bem-aventurança na terra, como mais tarde a pilharás no céu.

A sobrinha falou em casamento.

— Se encontrares marido, respondeu a velha, e entenderes que deves casar — casa-te, menina, que essa é a vontade de teu pai; mas também se não casares, nem por isso serás menos feliz, uma vez que já estejas na divina graça de Nosso Senhor Jesus Cristo...

E, depois de cruzar as mãos sobre o peito e revirar os olhos para o céu, acrescentou: — Não tenho eu vivido até hoje tão solteirinha como no dia em que nasci?... E, olha, rapariga, que o homem nunca me fez lá essas faltas! Ainda em certa idade, quando andava no fogo dos meus vinte aos trinta, vinham-se assim umas venetas mais fortes de casamento; mas que fazia eu? — Disfarçava; metia-me com os meus santinhos; rezava à Nossa Senhora do Amparo, e com poucas — nem mais pensava em semelhante porcaria! A coisa está em tirar uma pessoa o juízo daí! Olha: decora a oração que te vou ensinar, e reza-a sempre que sentires formigueiros na pele e comichões por dentro!

A oração constava do seguinte:

"Jesus, filho de Maria, príncipe dos céus e rei na terra, senhor dos homens, amado meu, esposo de minha alma, vale0me tu, que és a minha salvação e o meu amor! Esconde-me, querido, com o teu manto, que o leão me cerca! Protege-me contra mim mesma! esconjura o bicho imundo que habita minha carne e suja minha alma! — Salva-me! Não me deixes cair em pecado de luxúria, que eu sinto já as línguas do inferno me lambendo as carnes do meu corpo e enfiando-se pelas minhas veias! Vale-me, esposo meu, amado meu! Vou dormir à sombra de tua cruz, como o cordeirinho imaculado, para que o demônio não se aproxime de mim! Amado do meu coração, espero-te esta noite no meu sonho, deitada de ventre para cima, com os peitos bem abertos, para que tu me penetres até ao fundo de minhas entranhas e me ilumine toda por dentro com a luz do teu divino espírito! Por quem és, conjuro-te que não me faltes, por que, se não vieres, arrisco-me a cair em poder dos teus contrários, e morrerei sem estar no gozo da tua graça! Vem ter comigo, Jesus! Jesus, filho de Deus, senhor dos homens, príncipe dos céus e rei na terra! Vem que eu te espero. Amém."

Magdá decorou isto e, desde então, todas as noites, antes de dormir, ficava horas esquecidas ajoelhada defronte do seu crucifixo de marfim, a repetir em êxtases aquelas palavras que a entonteciam com a sua dura sensualidade ascética. E os olhos prendiam-se-lhe na chagada nudez do filho de Maria e ungiam-lhe ternamente as feridas, como se ela contemplasse com efeito o retrato de seu amado. Mas, naquele corpo de homem nu, ali, no mistério do quarto, trazia-lhe estranhas conjeturas e maus pensamentos, que a mísera enxotava do espírito, coroando envergonhada da sua própria imaginação.

Foi a partir desse tempo que deu para andar sempre vestida de luto, muito simples, com a cabelo apenas enrodilhado e preso na nuca; um fio de pérolas ao pescoço, sustentando uma cruz de ouro, e mais nenhuma outra jóia. E, assim, a sua figura ainda parecia mais delgada e o seu rosto mais pálido. A tristeza e a concentração davam-lhe à fisionomia uma severa expressão de orgulho; dir-se-ia que ela, a medida que se humilhava perante Deus, fazia-se cada vez mais altiva e sobranceira para com os homens. O todo era o de uma princesa traída pelo amante, e cuja desventura não conseguira abaixar-lhe a soberbia, nem arrancar-lhe dos lábios frios numa queixa de amor ou um suspiro de saudade.

Os seus atos mais simples e os seus mais ligeiros pensamentos ressentiam-se agora de um grande exagero. Nunca se mostrara tão intolerante nos princípios de dignidade e na pureza dos costumes; nunca fora tão aristocrata, tão zeladora da sua posição na sociedade, nem tão convicta dos seus merecimentos e dos seus créditos.

Uma conduta irrepreensível! Se sofria ou não para sustentar os deveres de mulher honesta só o sabia a discreta imagem de marfim, a quem unicamente confiava os segredos das suas lutas interiores; os desesperos e as misérias da sua carne; se tinha desejos, tragava-os em silêncio com a mais inflexível nobreza e o mais afinado orgulho. Ao vê-la, na singela gravidade do seu trajo, o rosto descolorido pela moléstia, os movimentos demorados e sem vida, sentia a gente por ela um profundo respeito compassivo, uma simpatia discreta e duradoura. O triste ar de altiva resignação que se lhe notara nos olhos, outrora tão ardentes e tão talhados para todos os mistérios da ternura; a desdenhosa expressão de fidalguia daqueles lábios já sem cor, instrumentos que a natureza havia destinado para executar a música ideal dos beijos e cujas cordas pareciam agora frouxas e embambecidas; aquela respiração curta e entrecortada de imperceptíveis suspiros; aquela voz, poderosa na expressão e fraca na tonalidade, onde havia um pouco de súplica e um pouco de arrogância — súplica para Deus e arrogância para os homens; enfim — tudo que respirava da sua adorável figura de deusa enferma: tudo nos conduzia a amá-la em segredo reverentemente, como um soldado a sua rainha.

Agora a bem poucos dava a honra de uma conversa; falava sempre sem gesticular e em voz baixa, e ninguém, a não ser o pai, lhe alcançava um sorriso. A dança, o canto, o piano, tudo isso foi posto à margem; as partituras dos seus autores favoritos já não se abriam havia longos meses; a sua caixinha de tintas vivia no abandono; os seus pincéis de aquarela, dantes tão companheiros dela, já lhe não mereciam sequer um beijo. Iam-se-lhe agora os dias quase que exclusivamente consumidos na leitura, lia mais que dantes, muito mais, sem comparação, mas tão somente livros religiosos ou aqueles que mais de perto jogavam com os interesses da igreja; gostava de saber as biografias dos santos, deliciava-se com a "Imitação de Jesus Cristo", e não se fartava de ler a Bíblia, o grande manancial da poesia que agora mais a encantava; decorara o "Cântico dos Cânticos" de Salomão, principalmente o capítulo V que principia deste modo:

"Venha o meu amado para o seu jardim, e coma o fruto das suas macieiras.

"Eu vim para o meu jardim, irmã minha esposa; seguei a minha birra aromática; comi o favo com o mel; bebi o meu vinho com o meu leite. Comei, amigos, e bebei, e embriagai-vos, caríssimos!

"Eu durmo e o meu coração vela; eis a voz do meu amado que bate; dizendo: — Abre-me, irmã minha pomba minha, imaculada minha, porque sinto a cabeça cheia de orvalho, e me estão correndo pelos anéis do cabelo, as gotas da noite."

E estes, como todos os outros versículos de Salomão, lhe punham no espírito uma embriagues deliciosa, atordoavam-na como o perfume capitoso e melífluo de flores orientais ou como um vinho saboroso e tépido que a ia penetrando toda, até a alma, com a sua doçura aveludada e cheirosa. E, de pois de repeti-los muitas e muitas vezes, corria a tomar nas mãos a imagem de Cristo, e abraçava-a, e cobria-a de beijos, soluçando e murmurando: "Meu amado, meu irmão, meu esposo!" E dizia-lhe em segredo, num delírio crescente: "Eu sou a tua pomba imaculada; sou o mel de que teus lábios gostam; sou o leite fresco e puro com que tu te acalmas; tu és o vinho com que me embriago!"

— Isto acaba mal! Isto com certeza acaba muito mal! exclamava entretanto o Dr. Lobão, furioso contra o Conselheiro, sobre quem ele fazia recair toda a responsabilidade do estado de Magdá. — Pois já não bastavam os terríveis elementos que havia para agravar a moléstia?... Como então deixou nascer e desenvolver-se o demônio daquela beatice, que só por si era mais que suficiente para derreter os miolos a qualquer mulher?!

Uma tarde, na semana santa, ela saiu em companhia da velha e voltou sem sentidos no fundo de um carro. Tinham ido ouvir um sermão na Capela Imperial, e Magdá fora aí mesmo acometida por um ataque de convulsões em delírio.

O Conselheiro revoltou-se formalmente contra a irmã:

Aquilo era um abuso que orçava pela petulância! era um desrespeito ao que ele determinara dentro de sua casa e com relação à sua própria filha! Por mais de uma vez havia declarado já que a Sra. D. Madalena não podia ir à igreja e muito menos demorar-se aí horas e horas; e fazia-se justamente o contrário! Se D. Camila não podia passar sem isso, que fosse sozinha! Podia lá ficar o tempo que quisesse, fartar-se de sermões e rezas, deliciar-se com aquela bela atmosfera impregnada de incenso e bodum de negros! Que fosse; ninguém se privava de ir, mas, com um milhão de raios! não arrastasse consigo uma pobre doente para pô-la naquele estado! Era muito bonito, não tinha dúvida! Ele em casa a desfazer-se com cuidados de meses e meses para minorar os sofrimentos da filha, a fazer sacrifícios para a ver boa; e a besta da irmã a destruir tudo isso em poucas horas! Não! não tinha jeito! A continuarem as coisas por aquele modo, ele ver-se-ia obrigado a tomar sérias providências contra semelhante abuso! Se D. Camila não se queria conformar com o que ditava o bom senso, que tivesse paciência, mas voltaria por uma vez para o convento!

E o que mais o irritava era o modo fraudulento porque tudo aquilo se fazia; eram as confidências secretas, as combinações em voz misteriosa, a espécie de conspiração que havia contra ele, entre Magdá e a velha. Enganavam-no: saiam para "dar um passeio pela praia", e agora ficava descoberto o que eram os tais passeios! Roubavam-lhe até o amor e a confiança de sua filha! — Dantes, Magdá não dava um passo, nem mesmo pensava em fazer fosse o que fosse, sem primeiro consultá-lo, ouvi-lo; e agora — evitava-o; falava-lhe em meias palavras; parecia ter segredos inconfessáveis! Dissimulava!

— Tudo isso é da moléstia! Explicou o Dr. Lobão, cujas visitas à casa do Conselheiro rareavam ultimamente, porque o feroz médico vivia muito preocupado com o estabelecimento de uma casa de saúde, que acabava de montar fora da cidade. Mas o pobre pai não se consolava com a explicação do doutor e sofria cada vez mais por amor da sua estremecida enferma. Magdá, com efeito, estava agora toda cheia de dissimulações e reservas; parecia viver só exclusivamente para uma idéia secreta, um ideal muito seu, que ela colocava acima de tudo e de todos. Fazia-se muito manhosa, muito amiga de sutilezas, de disfarce, empenhando-se em esconder as suas mais simples e justificáveis intenções e fazendo acreditar que existiam outras de grande responsabilidade. Os passeios clandestinos que continuava a dar coma tia, cegando a vigilância do Conselheiro, para estar algum tempo na igreja, tinham para ela um irresistível encanto de fruto proibido, e a preocupação em esconde-los constituía o melhor interesse de sua existência.

As duas saíam em passo de quem vai espairecer um pouco pelas imediações de casa, mas a certa distância aceleravam a marcha, apressavam-se, conversando em segredo em segredo os seus assuntos religiosos. A rapariga, à medida que se aproximava do templo, ia ficando excitada, palpitante, olhando repetidas vezes para trás, como se receiasse que a seguissem. Afinal chegava, ofegante, com o coração na garganta e, depois de verificar que não erra seguida por ninguém, entrava na igreja, trêmula e assustadiça, como se entrasse no latíbulo de um amante. E aquele silêncio das naves; aquela meia sombra em que rebrilhavam os ouros dos altares; aquela solidão compungida; o ar fresco dos lugares de teto muito alto; tudo isso lhe punha no corpo um meigo quebranto de volúpia sobressaltada.

Ajoelhava sempre num ponto certo; tinha já a sua imagem predileta, era um grupo de Mater Dolorosa, de tamanho natural, com o Cristo deitado ao colo, morto, todo nu, os braços pendentes, o sangue a escorrer-lhe pelas faces e pela ebúrnea rigidez do corpo. Adorava este Cristo, amava-o, preferia-o, tinha íntimas predileções por ele; achava-o mais formoso do que todas as outras imagens sagradas. Embriagava-se com ver-lhe aquele rosto muito pálido, aqueles olhos de pálpebras mal fechados, adormecidos no negrume dos martírios, aqueles lábios roxos, imóveis, aqueles longos cabelos que lhe caíam pelos ombro, aquela barba nazarena que parecia ter bebido de cada mulher da terra uma lágrima de amor.

E Ela, no murmúrio das suas orações, dizia-lhe ternuras de esposa; pedia-lhe consolos e confortos, que ele não lhe podia dar; falava-lhe com o magoado orientalismo do "Cântico dos Cânticos"; e suas palavras eram quentes como beijos e ternas e doloridas como suspiros de quem ama. Por aquela imagem querida acentuava na sua imaginação e melancólica figura desse ente perfeito e desejado, de que na Bíblia lhe falavam as filhas de Jerusalém. Era esse o amado que, em sonhos, lhe pedia para pedir a porta, porque lhe estavam correndo pelos anéis do cabelo as gotas da noite; esse era o amado cândido e rubicundo, escolhido entre milhares; era esse, cujos olhos são ternos e doces, nem como as pombas que, tendo os ninhos ao pé do regato das águas, estão lavadas em leite e se acham de assento junto das mais largas correntes dos rios; era esse o amado, cujas faces são iguais a canteiros de flores aromáticas e cujos lábios destilam a mais preciosa mirra; era esse de mãos superfinas, feitas ao torno, cheias de jacintos; esse de ventre de marfim, guarnecido de safiras; esse de pernas de mármore sustentadas sobre bases de ouro; esse que era escolhido como os cedros e cuja figura a chorosa e lânguida sulamita comparava ao Líbano.

Era esse que ela supunha amar; a quem supunha dar tudo o que seu coração e alma possuíam; e, vendo-se descoberta e proibida de ir às místicas entrevistas com ele, foi tomada por um grande desgosto, sobrevindo as convulsões, e tendo de guardar a cama por muitos dias, porque lhe apareceu então uma febre de caráter especial, apresentando todos os sintomas da pirexia comum, mas que todavia não se subordinava aos medicamentos que a esta combatem.

— Ora aí tem! É a febre histórica! Classificou logo o Dr. Lobão. E, em resposta às perguntas do Conselheiro, despejou um chorrilho de nomes técnicos, dizendo que: "Aquilo não podia ser febre tifóide, nem ter sua origem na flegmasia encefálica, nem tão pouco na alteração de algum órgão esplâncnico, porque uma meningite, ou uma encefalite ou mesmo a febre tifóide comum não poderia chegar àquele grau, por que não havia doente capaz de resistir!"

O certo é que Magdá, ao levantar-se da tal febre, estava reduzida a uma fraqueza extrema. Voltaram-lhe a dor da espinha, a tosse e a inapetência completa; se insistia em comer, vomitava incontinente. O Dr. Lobão, na sua venerável pretensão de médico antigo, declarou sem cerimônia que, "pela contração tônica dos músculos, pressentia a aproximação da letargia".

— A letargia! Agora é que eram elas! Aí estava o que ele menos desejava que viesse!

Depois de praguejar contra todo mundo e ralhar cuidadosamente com o Conselheiro, aconselhou a este que levasse a doente para outro arrabalde mais campestre, onde não houvessem igrejas perto de casa e onde ela pudesse estar mais em liberdade e mais em movimento. E, logo que se sentisse melhor, convinha despertar-lhe o gosto por qualquer ocupação manual. "Nada de belas artes, nem leituras! Exclamava o cirurgião. — Jardinagem, serviço de horta, jogos de exercícios, como o bilhar, a caça, a pesca! E passeios! Muitos passeios ao ar livre, pela fresca manhã, sem chapéu, sem muito medo de apanhar sol! E, se os passeios fossem depois de um banho bem frio — melhor seria! Era preciso que Magdá não deixasse de tomar ferro e aquele xarope de Easton, que ele receitara. Na alimentação devia procurar sempre comer um pouco de carne sangrenta, mariscos, e tomar bom vinho Madeira."

— Ora, aí tem! Faça isto, concluiu ele, e veja se consegue esconder-lhe o diabo dos tais livros religiosos, que ela tem lido ultimamente.

E resmungou ainda, depois de novas pragas: — Pena é que se lhe não possa esconder também aquela barata velha, que é ainda pior do que todas as cartilhas da doutrina cristã!