O Homem/XIII

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O Homem por Aluísio Azevedo
Capítulo XIII


— Terceiro sonho... Era já o terceiro sonho!... cismava Magdá, muito impressionada e ainda recolhida na sua cama de erable com esculturas de mogno. — Três sonhos seguidos, de noite inteira, com aquele miserável trabalhador... E não poder reagir contra semelhante violência!... Não dispor de um único recurso contra esse misterioso tirano que a constrangia àquela convivência extravagante, àquele amor ignóbil por um ente, que ela na vida real malqueria e desprezava. Terrível cativeiro! Não poder dizer à sua imaginação: "Acomoda-te, demônio! Sossega!" Isto com quem não estava habituada a repetir uma ordem; com ela, que não fora nunca desatendida nos menores caprichos, como nas maiores imposições!... Que desespero — ter de submeter-se ao jugo da sua carne! Que inferno — sentir-se todos os dias ao acordar humilhada por si mesma, indignada contra os seus próprios sentidos.

E se aquilo desse para continuar?... Sim, como havia de ser, se nunca mais terminasse aquela nova existência que ela agora vivia com o cavoqueiro durante a noite?.... Oh, antes a morte! antes a morte!

Justina abriu o cortinado da cama, para saber se a senhora queria já o chocolate.

— Que horas são!

— Meio-dia.

— Não consigo acordar mais cedo...

E notava agora na boca um gosto acre e doce ao mesmo tempo, muito enjoativo, sabendo a sangue.

— Minh'ama sente alguma coisa? perguntou a criada, reparando que Magdá estalava com insistência a língua contra o céu da boca.

— Um gosto esquisito.

— E' do estômago! Não tenho dito a vosmecê que não é bom estar paparicando guloseimas todo o dia?... Como não! Está aí!

— Mas eu ontem nada comi que me pudesse fazer mal. Tomei um caldo e bebi um cálice de vinho; e à tarde... Ah! talvez seja do xarope... diz o doutor que leva muita estriquinina...

— Deve ser, como não? Estes remédios de hoje são todos uns venenos, Deus me perdoe!

— Prepara-me água para lavar a boca.

— Está tudo pronto.

Magdá ergueu-se da cama.

E, enquanto se preparava: — Ó senhores! que frenesi me mete aquilo!

— Aquilo que, minh'ama?

— Aquela maldita cantilena!

— Ah! Os homens da pedreira! Coitados! Diz que assim não sentem tanto o peso do serviço... Aquilo é um trabalho muito bruto! Vosmecê não imagina... Ainda outro dia...

— Sim, sim! Meu pai já saiu?

— Ainda não, senhora, e já veio saber como minh'ama passou a noite.

— 'Stá bem.

— ... Ainda outro dia, o Luiz...

— Que Luiz... ?

— Esse rapaz que está para casar com minha irmã, com a Rosinha; aquele que desceu minh'ama da pedreira!... O Luiz, vosmecê conhece, como não ?

— Sim, sim! Não quero saber disso... — Dá-me o chocolate e o remédio.

Justina precipitou-se logo para fora da alcova, e Magdá, contra a sua vontade repetia mentalmente: "O Luiz, esse rapaz que está para casar com Rosinha..." Mas a fisionomia não se lhe alterou e, como era do seu costume ao levantar-se do leito, tomou um espelhinho de mão e pôs-se a mirar de perto as feições. Achou-se extremamente abatida e muito descorada; em compensação sentia-se agora de melhor humor e até disposta a sair do quarto. O diabo era aquele maldito gosto de sangue que lhe não deixava a boca. Bebeu dois tragos de chocolate, rejeitou o frasco do xarope, e em seguida desceu ao primeiro andar, mais animada que nos outros dias.

O pai fez um espalhafato quando a viu.

— Assim é que ele queria!

E beijou-a na testa. — Assim é que Magdá devia fazer sempre! Hoje até, acrescentou risonho e afagando-lhe o queixo, bem podias dar um passeio comigo, hein? Mando buscar o carro? Que dizes?

— Onde o passeio?

— Onde quiseres; em qualquer parte. Está dito?

Ela aceitou, com grande contentamento do Conselheiro; e a surpresa deste subiu ao zênite quando viu a filha ordenar ao copeiro que lhe servisse um pouco dum roast-beef que estava sobre a mesa.

— Bravíssimo! Bravíssimo

Magdá, porém, logo que percebeu sangue no assado, repeliu o prato, a estalar a língua; mas exigiu que lhe dessem sardinhas de Nantes e comeu depois meia costeleta de carneiro, um pouco de pão, queijo com mostarda, um gole de vinho e ainda tomou uma chávena de chá preto. E não sentiu náuseas.

O pai ficou louco de contente.

— O xarope está produzindo efeito!... raciocinou ele, esfregando as mãos.

Ela pôs um vestido de cor, o que havia muito tempo não fazia; e daí a pouco embarcava no carro com o Conselheiro.

Mandou tocar para o lado da cidade. — Ah! Estava farta de árvores e de florestas; agora precisava ver casas, ruas com gente, movimento de povo; para deserto bastava-lhe o paraíso dos seus sonhos!

Durante o caminho mostrou-se de magnífica disposição, conversou bastante, chegou a rir mais de uma vez. Ao passar pelo Campo de Santana apeteceu-lhe entrar no jardim. O carro ficou à espera defronte da Estação de Bombeiros.

Eram três horas da tarde quando penetraram no parque. Fazia calor; a areia dos caminhos estava quente; os lagos reluziam e os côncavos tabuleiros de grama, que dão vontade à gente de rolar por eles, tinham reflexos de esmeralda nos pontos em que lhes batia o sol; os patos e os gansos amoitavam-se nas touceiras de verdura, à beira dágua, procurando sombra; a mole compacta dos crotons parecia formada de incontáveis retalhozinhos de seda de várias cores; os gordos cactos e as bromélias cintilavam como se fossem de aço polido. Mas toda esta natureza simétrica, medida como que metrificada e até rimada, parecia mesquinha em confronto com as luxuriantes paisagens, que Magdá sonhara naquelas últimas noites. Todavia, nem por isso deixou de impressioná-la, trazendo-lhe ao espírito recordações vexativas; por mais de uma vez sentiu a moça subir4he o sangue às faces, à maneira do seu delito; mas não falou em retirar-se; apenas propôs ao pai que descansassem um pouco.

O Conselheiro levou-a até à cascata. Aí estava com efeito muito mais agradável; fazia inteira sombra, e a água, que caía lá do alto, esfarelando-se contra os pedregulhos artificiais, refrescava o ar e punha-lhe um tom úmido de beira de praia. Magdá ficou um instante à entrada da gruta, apoiada na corrente da ponte, entretida a olhar os peixinhos vermelhos que nadavam em cardumes por entre as ilhotas de pedra. O velho esperava ao lado, em silêncio, sem nenhuma expressão na fisionomia, com uma paciência de pai; ao penetrarem na gruta, ele percebeu que o braço da filha tremia.

— Sentes alguma coisa?...

— Não. E' que isto escorrega tanto...

Lá dentro havia um casal que se retirou com a chegada deles, conversando em voz baixa e afetando grande interesse na conversa. S. Ex. teve um gesto largo de quem admira; Magdá olhou indiferentemente o teto de cimento, as grossas estalactites pingando sobre as estalagmites com um aprazível ruído de noite de inverno. A umidade da gruta fez-lhe sede; o Conselheiro procurou uma bica e descobriu afinal uma caneca pendurada a um canto, donde jorravam goteiras mais grossas.

— Eu bebo aí mesmo. disse Magdá, correndo para ele e arrepanhando as saias, porque o chão era nesse lugar muito encharcado. O Conselheiro notou a impropriedade daquelas estalactites numa rocha que fingia ser de granito; Magdá não prestou nota à observação científica do pai e enfiou por um corredor à esquerda. Foi dar lá em cima; assentou-se cansada no rebordo onde está a entrada para a caixa dágua. O velho ficou de pé.

— Aqui está bom, não achas? perguntou.

Ela não deu resposta. Olhava. A voz de um sujeito, que tinha subida pelo lado oposto, espantou-a; a nervosa soltou um pequenino grito e ficou ligeiramente trêmula.

— E' melhor descermos... aconselhou S. Ex., vendo que dois vagabundos se aproximavam com as suas calças de boca muito larga, a cabeleira maior que a aba do chapéu e grossos porretes na mão.

Voltaram pelos fundos da cascata. Um bêbado dormia aí, estendido por terra, meio descomposto, uma garrafa ao lado. O Conselheiro fez um trejeito de contrariedade e seguiu mais apressado com a filha. Quando se acharam fora da gruta, o sol declinava já e as ruas do parque enchiam-se de sombra. Corria então um fresco agradável. Anilavam-se as verduras mais distantes; desfolhavam-se os heliotrópios ao tépido soprar da tarde; as amendoeiras desfloreciam, recamando o tapete verde de pontos amarelos. Havia uma surda transformação nas plantas; reviviam as flores amigas da noite e começavam a murchar os miosótis e as papoulas; as árvores sacudiam-se, rejubilavam, aliviadas do mal que lhes fazia tanto sol; ouviam-se nas moitas suspiros de desabafo. Os patos e os gansos deslizavam agora vitoriosamente, rasgando com o peito a brunida superfície dos lagos; chilreavam pássaros, saracuras assustadas cortavam de vez em quando o caminho, olhando para os lados; ouviam-se grasnar marrecos e frangos dágua. Tudo estava mais satisfeito. Uma nuvem de gaivotas pairava sobre os tabuleiros verdes, debicando na relva; as cambachilras saltitavam por toda a parte. Via-se aparecer ao longe, por detrás dos horizontes de folhagem, a agulha da igreja de S. Gonçalo, destacando-se do límpido azul do céu toda esmaltada pelo sol das cinco e meia.

Principiava a chegar gente; surgiam homens de palito na boca, o colete desabotoado sobre o ventre; calcinhas brancas, curtas e mal feitas, mostrando botas empoeiradas; gorduras feias dos climas abrasados; hidroceles obscenas; chapéus altos ensalitrados de suor. Mulheres da Cidade Nova, com umas caras reluzentes, vermelhas como se acabassem de ser esbofeteadas; portuguesas monstruosas, com umas ancas que pediam palmadas, os pés turgidos cm sapatos de pano preto sem feitio. "Uma gente impossível!" Magdá via-os a todos, um por um, enjoada, com o narizinho torcido e cheia de uma secreta vontade de chicoteá-los.

Deteve-se para contemplar o grupo muito pulha de L. Despret, logo à direita de quem sai da gruta; um homem, auxiliado por um cão, a lutar com um tigre; mas o homem corta o peito da fera como se estivesse talhando pão-de-ló, e o cão raspa com os dentes a anca da mesma, como se tentasse morder um animal de bronze. Não obstante, Magdá parou defronte da escultura e parecia interessada por ela. Aquele homem de músculos atléticos prendia-lhe a atenção. Porque? — Sabia lá! O Conselheiro, intimamente estranhado pela importância que a filha dava a semelhante obra, falou-lhe no museu do Louvre, nos belos mármores que os dois mais de uma vez apreciaram juntos. Ela não ouviu e, depois de muito contemplar o lutador, disse:

— Não há no mundo um homem assim como este, hein, papai?

_ Assim como, minha filha?

-- Assim forte, musculoso...

-- Ah! de certo que não...

-- Mas já houve...

-- Ora, noutros tempos, quando os guerreiros carregavam ao corpo armaduras de dez arrobas.

-- E as mulheres dessa época? Deviam ser também bastante vigorosas...

-- Com certeza! Pois se uns descendiam dos outros...

Nisto passou perto deles um bêbado. muito esbodegado, a cambalear cantarolando; a camisa esfobada no estômago, o chapéu à ré; os punhos sujos a saírem-lhe da manga do paletó, engolindo-lhe as mão. O Conselheiro desviou-se discretamente com a filha para o deixar passar; o borracho parou um instante, cumprimentou-os com toda a cerimônia, quase sem poder abrir os olhos, e lá se foi aos bordos, empinando a barriga para a frente. Magdá soltou uma risada tão gostosa, que abismou S. Ex.

— Definitivamente aquele era o dia dos prodígios... pensou o extremoso pai — E qual não seria o seu espanto quando ouviu a rapariga soltar a segunda e a terceira, a quarta e, enfim, uma crescente escala de gargalhadas contínuas.

— Com efeito!... disse. Muita graça achaste tu naquele tipo!

Ela não podia responder; o riso sufocava-a

-- Está bom, minha filha, não vá isso te fazer mal...

Magdá procurava conter a hilaridade, mas não conseguia. Os transeuntes olhavam-na tomados de grosseira curiosidade; o Conselheiro, meio vexado por ver que ela chamava a atenção de todos, repetia-lhe baixinho:

-- Está bom... está bom...

Foi um capadócio quem afinal a fez calar; um que passou de súcia com outros, medindo-a de alto a baixo e que, depois de mirá-la muito, começou por caçoada a remedar-lhe o riso. Magdá ficou furiosa. Subiu-lhe sangue à cabeça e teve ímpetos de... nem ela sabia de que!... fazer um disparate! tomar a bengala do pai e quebrá-la na cara do tal sujeito.

— Atrevido! resmungava entre dentes cerrados, afastando-se com o Conselheiro.

E, apesar dos esforços que este empregou para distraí-la, o resto do passeio foi todo feito sob a impressão daquele incidente.

— Não penses mais nisso... insistia o velho, quando Magdá, já dentro do carro, se referia ao fato pela milésima vez.

Tocaram para casa; ela em toda a viagem não falou noutra coisa. Vinha-lhe agora um a inhabitual vontade de brigar, de fazer escândalo. Esteve quase a pedir ao pai que voltasse e fosse à procura do malcriado até descobri-lo, para lhe pespegar duas bengaladas, mas bem fortes!

E jurava que, naquele momento, seria capaz de estrangular o maldito. Não parecia a mesma. Ela, que fora sempre tão inimiga de tudo em que transpirasse escândalo e barulho, sentia agora uma estranha sede de provocações, de desordens; já não era com o capadócio do jardim, mas com qualquer pessoa. Quando entrou em casa, porque a Justina não respondeu logo a' primeira pergunta que lhe fez, bradou trêmula:

— Você também é um estafermo!

— Estafermo?

— Não me replique!

— Eu não estou replicando...

— Rua!

— Vosmecê despede-me?...

— Rua! Não a quero aqui nem mais um instante!

— Mas, minh'ama...

— Rua! Não ouviu?

O Conselheiro interveio:

— Então, minha filha, não te mortifiques

— Pois meu pai não vê como esta mulher me provoca, só pelo gostinho de me pôr nervosa?

— Tu parecias gostar tanto dela.

— Nunca! Não a posso olhar! Tenho-lhe ódio!

Justina, coitada, ia tentar a sua defesa, já banhada cm lágrimas, quando o pai de Magdá lhe fez sinal de que se afastasse; ao passo que a histérica, falando sozinha e praguejando contra tudo e contra todos, dirigia-se furiosa para o quarto.

Uma súcia! Todos uma súcia, resmungava, enterrando as unhas na palma da mão. E fechou-se por dentro com arremesso, atirando-se à cama, desesperada e arquejante.

Justina enxugava as lágrimas no avental, dando guinadas com todo o corpo a cada suspirado soluço que lhe vinha.

— Descanse que você não irá embora, disse-lhe o amo. — Quando a Sra. D. Madalena chamar por alguém, apresente-se e não se mostre ressentida com o que se deu. Aquilo passa! É da moléstia! Vá!

— Uma coisa assim!... lamuriou a criada. — Eu que tanto faço por agradá-la.

— 'Stá bem, 'stá bem! já lhe disse que você não será despedida.

— Não é por nada, mas é pela aquela que a gente toma às pessoas!. . Eu estava já afeita com minh'ama, e ter de deixá-la assim de um momento p'ra outro, sem lhe ter dado motivo... dói, como não dói?.

— Mas vá, vá sossegada, que não haverá novidade.

Justina afastou-se chorando a valer.

O Dr. Lobão chegava nesse momento e o Conselheiro passou a narrar-lhe as últimas esquisitices da doente. O médico escutou-o calado, fazendo bico com a boca sem lábios; olhando por cima dos óculos, com as sobrancelhas no meio da testa, arqueadas como duas sanguessugas.

— Ela tem tido as funç5es mensais com regularidade?... perguntou no fim da sua concentração. E rosnou, depois da resposta: — É o diabo! é o diabo!... Preciso examiná-la de novo! E lembrar-me de que tudo isto se teria evitado com tão pouco sacrifício para todos nós! Pensam que é brincadeira contrariar a natureza! Agora — o médico que a agüente!

Quando o doutor saiu, já a filha do Conselheiro dormia a sono solto e sonhava: escusado é dizer com quem.