O Homem/XII

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O Homem por Aluísio Azevedo
Capítulo XII


Acordou muito nervosa e muito triste. O sonho deixara-a num grande abatimento físico e moral; pungia-lhe um como remorso de quem se arrepende de haver passado a noite em claro, no deboche. Sentia-se humilhada.

- Maldito homem! maldita a hora em que ela se lembrou de subir à pedreira.

Não é que não compreendesse perfeitamente que tudo aquilo era devido ao seu lastimável estado de doença; mas, por melhores esforços empregados para se convencer de que lhe não cabia a mais ligeira responsabilidade em semelhantes extravagâncias, um profundo vexame apoderava-se do seu espírito, constrangendo-a de vergonha contra si própria. Reconhecia-se criminosa por aqueles delitos de uma sensualidade tão brutal e tão baixa; não podia conceber como era que ela - ela! a filha do Conselheiro Finto Marques, a intolerante, a escrupulosa por excelência, a irrepreensível nos seus gostos e nas suas predileções, mantinha, segregadas nos meandros da sua fantasia, tais sementes de luxúria, que bastava cair uma única no misterioso terreno dos sonhos para rebentar logo uma floresta inteira de concupiscência. Lembrou-se de contar tudo com franqueza ao Dr. Lobão e pedir-lhe que lhe arranjasse um remédio contra aqueles desvarios; mas só a idéia de repetir, de confessar certos particularidades do seu delírio, faziam-na tremer toda de pejo. "Ah! se a tia Camila ainda fosse viva!." E o que ela não se animou de confiar ao médico, disse em confidência de alcova ao seu crucifixo, pedindo-lhe entre lágrimas, pelo amor da Virgem Mãe Santíssima, que a protegesse; que a livrasse daqueles pensamentos impuros; que lhe mandasse dos céus todas as noites um dos seus anjos para lhe velar o sono e impedir que a sua pobre alma, enquanto ela dormia, fosse vagabundear por ali, como a alma de qualquer perdida.

Cristo não a atendeu. À mísera, depois de um dia como os outros, dia arrastado entre colheradas de remédio e tédios de enferma, sem um riso, nem a sombra de uma esperança de alegria, mal adormeceu, animada no colo da Justina, acordou em sonho nos braços do cavoqueiro.

Continuava a sua existência fantástica. Despertou com um beijo dele.

- Ah! disse, e olhou em torno de si, procurando reconhecer o sítio da quimérica felicidade.

Sorriu logo, satisfeita: era o mesmo lugar em que na véspera havia pegado no sono acalentada pelo amante. - Era, que dúvida! - lá estavam as mesmas árvores, agora tranqüilas e confortadas; as mesmas paineiras sussurrantes, o inalterável regato de águas diamantinas em que se destacavam os nenúfares, formando pequenas ilhas cor de esmeralda e guarnecidas de grandes flores vermelhas e brancas. E, como para se certificar de que o seu amado ainda era também o mesmo, pôs-se a tatear-lhe a musculatura dos braços e do peito.

— Era ele mesmo! Era! Nem outro possuía aquela rijeza de carnes junto àquela maciez de pele.

Apalpou-o todo. Depois, como se ainda não estivesse bem convencida, esfregou o rosto nas barbas dele, meteu os dedos por entre os anéis do seu cabelo, cheirou-lhe a boca.

— Era! Era o mesmo! cheirava a murta.

E beijou-o.

Olha, falou o moço. — Enquanto dormias tu, andei por aí colhendo estas frutas. Deves sentir fome.

- E' verdade, respondeu Magdá. — Tenho uma fome enorme. Há muito tempo que não como.

E ergueu-se a meio para o banquete.

- Vê como são boas... observou o outro, trincando um cajá e levando-lhe à boca o pedaço que tinha entre dentes.

Ela comeu e pediu outro bocado, mas queria assim mesmo - de boca para boca.

— Como é bom! Como é bom! repetia batendo palmas.

— Estes, que estão picados de passarinho, são os mais doces. Olha! experimenta.

Ela afinal deitou-se no colo dele, para comer à moda das crianças. O rapaz escolhia os melhores frutos, mordia-os primeiro e dividia o pedaço com ela, ambos a rirem-se muito desta brincadeira.

— Mais! mais!

Ele mostrou uma grande manga.

— Oh! Que bela! exclamou a filha do Conselheiro, tomando em cheio nas mãozinhas a imensa manga que o companheiro lhe apresentava. E, farta de admirá-la, lembrou com um repente

— Vamos chupá-la os dois juntos?...

— Como?

— Deita-te aqui no chão, ao meu lado. Assim!

E, uma vez deitados, começaram, com o rosto muito unidos, a chuchurrear a manga, como se mamassem ao mesmo tempo por uma só teta. Magdá sentia com isto uma volúpia indefinível; de vez cm quando despregava os lábios da fruta, para poder olhar o amigo, soltava uma risadinha e continuava a mamar. Quando se sentiram satisfeitos, ele foi buscar água na parra de um tinhorão e deu de beber à companheira.

— Bem, disse depois. — Agora vamos dar um passeio.

— Sim, mas eu não posso ir muito longe. Sinto-me ainda tão fraca...

— Eu te carregarei, quando não puderes andar. Encosta-te a mim.

Magdá ergueu-se e pôs-se a caminhar vagarosamente ao lado do amante, toda reclinada sobre ele; os braços na cintura um do outro. Ouviam-se então cantar as aves e as plantas inclinavam-se com ternura e respeito por onde seguia o amoroso par; a folhagem tinha sorrisos; as boninas beijavam-lhes os pés.

Um cheiro delicado de baunilha enriquecia o ar.

Chegaram à beira do regato e Magdá mirou-se nágua com faceirice de noiva. Ao seu lado refletia-se a robusta figura do moço.

— Dá-me algumas flores, pediu ela. — Quero enfeitar-me para te parecer mais bonita. Estou tão magra!...

Ele afastou-se e voltou logo com um braçado de rosas, magnólias, jasmins e manacás. O ambiente trescalou de aromas. Magdâ soltou o cabelo e depois, a rever-se na própria imagem refletida a seus pés, fez novas tranças em que ia intercalando flores com o mimoso capricho de quem faz uma obra d'arte. O moço olhava-a sorrindo.

— Vaidosa... murmurou.

— Ingrato! E' para te agradar... E ela, quando deu por pronto o seu toucado, foi colocar-se defronte do amigo para receber os afagos da aprovação.

— Senta-te aqui, disse este, em seguida a um beijo.

A amante obedeceu; ele deitou-se na relva e pousou a cabeça no colo de Magdá, que começou a afagar-lhe os cabelos, segredando ternuras, vergando-se sobre o seu rosto, para alcançar-lhe os lábios. Estiveram assim um tempo infinito; alheios e esquecidos de tudo, bebendo pela boca um do outro o vinho da sua animalidade, embriagando-se de camaradagem, aos poucos, voluptuosamente; até que, ébrios de todo, se deixaram rolar ao chão e se quedaram abraçados, mudos, inconscientes, quase mortos na deliciosa prostração do coma venéreo.

Só deram por si ao declinar do dia. Continuaram o passeio.

— Que ruído é este? perguntou Magdá, parando em certa altura da floresta.

— Não tenhas medo, meu amor, é o trapejar de uma cascata que fica do outro lado da montanha. Havemos de lá ir um dia.

— Espera! Parece que vai chover... Senti uma gota dágua cair-me na face.

— Vai, sim, mas não faz mal; nós nos recolhemos à gruta.

— Que gruta?

— Verás. Fica muito perto daqui. Vamos.

Principiava com efeito a chuviscar. Ele tomou Magdá nos braços e correu para a gruta, que em verdade, era muito perto dali. Consistia numa grande rocha negra, toda encipoada de heras e parasitas com uma pequena fenda que mal dava passagem a uma só pessoa de cada vez. O cavoqueiro transpôs a brecha e em seguida fez entrar a companheira.

— Agora pôde lá fora chover a cântaros! Declarou — estamos perfeitamente agasalhados.

Magdá olhou em torno de si na meia escuridão da caverna, e notou que se achava num lugar muito aprazível, de atmosfera de alcova. Os seus pés eram embebidos em armelina e doce alfombra; suas mãos tocavam nas paredes uma penugem macia que lembrava a pluma do algodão. Era um ninho, um verdadeiro ninho de musgo cheiroso, aveludado e tépido.

O rapaz deixou-se cair em cheio sobre o tapete de relva, arrastando Magdá na queda. E, fechando-a nos seus braços, disse-lhe com o rosto unido ao dela:

— Não ouves lá fora um arrulhar mavioso e triste?...

— Sim, porque ?

— É o urú que anuncia a noite. Vamos dormir.

E ela sonhou que adormecia, justamente na ocasião em que acordava na vida real. O gemebundo piar das rolas desdobrou-se na monótona e pesarosa cantilena dos trabalhadores da pedreira.