O Matuto/XX

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Eis o que tinha acontecido no Cajueiro, ao escurecer do dia anterior.

Lourenço, que depois do que se passara no samba esperava a cada momento ser ofendido por Tunda-Cumbe ou por algum dos seus sequazes, vendo entrar um vulto desconhecido no caminho das carvoeiras, pegou da espingarda de Francisco, e, sem que Marcelina soubesse, encaminhou-se par aquele ponto.

Detrás da palhoça dos negros existia uma cova imensa, em que um homem podia meter-se até aos peitos. Com as ultimas chuvas tomara ela muita água, e se convertera em barreiro, donde os sapos estavam a essa hora soltando suas monótonas toadas. O rapaz avançou para ela por baixo das ramas rasteiras dos cajueiros. Na parte mais funda a água deu-lhe pela cintura. Lourenço pouco se importou com isto. O que ele queria era saber quem era o vulto e o que ia fazer ali. Eis o que viu e ouviu.

Estavam dentro da palhoça, com os habitantes do costume, um negro do serviço domestico de João da Cunha por nome Germano e o Pedro de Lima, cabra destemido do séquito de Tunda-Cumbe, braço direito deste, para assim escrevermos, que deixou nome na historia da guerra, pelas — extorsões, mortes, roubos e outras desenvolturas que cometeu em Goiana, de que fora o terror.

No momento em que Lourenço pode enxergá-los através das palhas da choupana, estava Pedro de Lima, a frente voltada para o casal de negros e o Germano, justamente a dizer-lhes estas palavras:

— É certinho o que digo; podem crer que terão vocês sua liberdade. Guardarei todo o segredo.

Lourenço compreendeu logo, por estas palavras, que o cabra prometia aos negros a alforria a troco de um levante contra João da Cunha.

— Então, então, Germano, que dizes a esta proposta? perguntou Moçambique ao negro da confiança do sargento-mór. Pois a liberdade é coisa que se engeite?

— A liberdade é boa coisa, e eu a não engeito, assim ela venha, respondeu Germano. Mas se os outros parceiros não quiserem aceitar a proposta, e meu senhor vier a saber que eu é que andei nisso, quem me livrará de ir ao carro ou à fornalha?

— És um pateta, moleque, disse Pedro de Lima. De hoje até amanhã hei de dar no engenho de teu senhor. Se acontecer o que eu cá espero, amanhã de manhãzinha o chumbo assobia nas urupemas de sua casa e a faca trabalha nas banhas da barriga dele. Se os negros que ele lá tem consigo prontos para dar e apanhar, faltarem na hora do apuro, não haverá santos que o livrem de ir direitinho para a bagaceira, servir de pasto aos urubus.

— Mas aí é que está a historia, observou Germano. Eu sei lá se eles querem faltar ou não?

— Negros safados são todos vocês. Não prestam nem para tratar de libertar-se. Não sabem nem ao menos deixar a senzala, onde andam curtidos de fome e sono, pela mata virgem. Negros de patente eram os dos Palmares. Aqueles sim. Foram quarenta os que primeiro meteram a cabeça no mato; daí a pouco já eram não sei quantos mil. Vocês são ao pé de duzentos e têm medo do chicote do feitor. Vai, Germano, falar a João-Congo, a Thomaz, a Januario e a Jacinto. Se eles não tiverem coragem para a tragédia, faze tu o que te vou dizer.

— Diga lá.

— Quando o engenho for atacado por nós, corre a botar água dentro dos canos das armas de fogo. Isto é coisa muito fácil, e que tu podes fazer sem ninguém saber, nem ser preciso que alguém te ajude neste serviço.

Germano nada disse, e, pelos modos, deu mostras de que dentre diferentes alvitres indicados pelo audaz bandoleiro, era este o que mais lhe quadrava. Mas súbito, com gesto de quem tinha tomado uma resolução decisiva, assim falou a Pedro de Lima:

Sabe que mais, seu Pedro de Lima? Eu não faço a meu senhor isso que vosmecê propõe. Ele para mim é bem bom senhor. Até minha senhora, que é uma soberbona, essa mesma já uma vez me prometeu alforia. Pateta! Estás com medo, moleque ruim.

— Este moleque é assim mesmo, disse Quiteria. Promete as coisas e não faz. Quer e não quer. Tem medo do bacalhau — disse o cabra despeitado. Não tem agora medo de minha faca, ou do bacamarte de Gonçalo Ferreira. Eu só digo uma coisa: encontrando-te diante de mim, no momento do ataque há de ser para ti a minha primeira facada ou o meu primeiro tiro.

— Não se zangue comigo, seu Pedro de Lima, disse Germano com certa expressão e revirado de olhos, para dar a entender ao mulato que ele tinha intenção reservada. Pois se eu visse Germano metido na dança, eu também me metia nela, disse Moçambique.

— Estás ouvindo? Olha lá o que perdemos. Eu porém não quero que ninguém me acompanhe contra a vontade. Nunca pensei que não aceitasses a minha proposta. Quando te vi passar de tarde para esta banda, eu logo conheci que vinhas ao sitio das carvoeiras, e disse comigo: ‘Vou falar com Germano para ver se ele quer, a troco da sua liberdade, prestar-nos um servicinho. Eu estava na mente de que havia de te chamar para nós; mas, como não queres, nem por isso te farei mal. O que eu disse há pouco foi gracejo. De ti, pobre negro cativo, o que eu tenho não é ódio, é pena. E adeus. Perdi meu tempo e minhas razões. De outra feita talvez a coisa já não seja assim’.

— Eu também me vou embora, que já é tarde; disse Germano. Adeus, tio Moçambique. Com Deus amanheça, tia Quiteria.

— Vai-te embora daí que tu não prestas senão para chotear de jaqueta de galão atrás de teu senhor, abrir-lhe as porteiras para ele passar, e limpar as botas dele quando vêm cheias de lama — respondeu Moçambique.

— Você também de que serve? Perguntou Germano despeitado. Não é também escravo dele, como eu sou? Não é mais que a gente se levantar contra seu senhor! Mestre Moçambique, sabe que mais? Vá contar a outro as suas valentias, que eu nelas não creio, e tanto caso faço delas como dos latidos de cachorro velho, carregado de rabuje, que já não morde, porque nem dentes tem.

— Está bom, está bom, vai-te embora, meu pimpão — disse o Moçambique. Amanhã, tu me dirás quem é o cachorro velho que não morde. Talvez que a esta hora tu estejas na ponta da faca de Pedro de Lima, e eu na mata virgem.

Germano deu o andar para a vereda, onde já entrara Pedro de Lima, que saíra antes dele.

Adiante, debaixo de um cajueiro, um vulto estava parado. Era o matuto.

— Eu bem te endendi, Germano. E para saber todo o teu pensamento, aqui fiquei à tua espera.

— Quando é que vão atacar o engenho?

— Para te falar verdade, eu não sei bem quando há de ser o ataque.

— Mas vamos cá saber uma coisa, seu Pedro de Lima: como posso Ter eu certeza de que serei livre se fizer o que vosmecê propõe?

Não há duvida que tudo há de ser conforme te digo. Pois queres melhor certeza do que a nossa vitoria? Olha cá. Se vencermos a nobreza, o governo passará a ser outra vez dos mascates, e passando a ser dos mascates o novo governo, está bem visto que todos aqueles escravos que nos tiverem ajudado a dar com o governo da nobreza em terra, terão em recompensa a sua liberdade.

— E se, em lugar de darem a eles a liberdade, os mascates ficarem com os negros na escravidão, não virá tudo a dar no mesmo?

— Mas se eu te afianço que tu pelo menos ganharás a tua alforria, que mais garantia queres do que minha palavra? Não duvides da promessa. Ajuda-nos a dar um ensino de mestre a esses senhores soberbões, e eu te asseguro que não te hás de arrepender. Pois sim, seu Pedro. Eu, como confio na sua palavra, estarei pronto, quando chegar o momento, a molhar as armas. Mas, olhe: todo o meu serviço não passará disso, porque eu não quero historias comigo.

— Nem eu exijo outro serviço além deste. Ficarei com ele muito satisfeito, e ele só será bastante para te forrares. Então, fica assentado isso mesmo, não é verdade?

— Isso mesmo. E eu vou já dizer ao Tunda-Cumbe a tua promessa, que é para não haver duvida. Os dois tinham chegado à beira da estrada.

— Ah! Esqueci-me do saco de batatas que Moçambique mandava lá para casa. Volto a buscá-lo.

Separaram-se, Germano para tornar, como disse, à palhoça dos negros, Pedro de Lima para tomar à direita a direção da mata.

Quando eles desapareceram, saiu do mato um vulto com passo sorrateiro e cauteloso. Era Lourenço, que por entre o arvoredo os havia seguido, amparado pelas folhagens, quase ombro a ombro com eles, sem que o vissem. Ele entretanto, que também os não vira, ouvira, sem perder uma palavra sequer, toda a conversa que tinham tido os dois conjurados desde a palhoça até a beira do caminho.

Marcelina estava na porta da casa.

Vendo o filho com a espingarda, as primeiras palavras que para ele teve foram estas:

— Que anda fazendo pelo mato a esta hora, Lourenço? Nem sabes que susto acabo de ter.

— Que foi que aconteceu, minha mãe?

— Passou por aqui mesmo, há instantinhos, um homem que, depois de passar, ficou ali de pé a olhar para cá e a fazer jeito de quem queria saber ou ouvir alguma coisa de cá de casa. Sabe quem era? Pedro de Lima.

— Pedro de Lima, aquele malvado?! Virgem-da-Conceição. Entra Lourenço, que quero fechar logo a porta. Ele que anda por aqui a esta hora, fazendo bem não é. Quer saber o que estava fazendo o cabra?

— Fala baixo, que ele ainda pode estar por ai. Mas o que foi?

— Uma das suas. Mas o pior foi o que fez o ladrão do moleque, o Germano. Em vez de ser pelo senhor, prometeu ser pelos mascates e botar água dentro das armas, quando o engenho for atacado. Que negro ingrato e perverso! Tive desejos de lhe dar um tiro na cabeça, quando lhe ouvi as traidoras palavras. Mas eu nunca atirei em ninguém.

— Virgem Maria! exclamou Marcelina. Pois querem atacar o engenho?

— Foi o que disse Pedro de Lima. Germano não tarda a passar por aqui. ah! Ali vem ele.

— E que queres fazer? Queres dizer-lhe alguma coisa?

— Quero, sim senhora.

— Vai para dentro, que eu falo ao moleque. Ele a mim há de atender mais do que a ti.

— Ainda bem não tinha Lourenço entrado, quando o negro passava pela frente da casa trazendo o saco de batatas nas costas. Se não me engano, é Germano que vai aí, disse Marcelina em voz alta, a fim de ser ouvida. Sou eu mesmo, sinhá Marcelina, respondeu o negro. Quer alguma coisa?

— Eu logo vi que tu ainda havias de andar por aqui. Porque diz vosmecê isso?

— Se não vais com muita pressa, dá-me cá uma palavra.

O negro parou à porta da casa.

—Senta-te nessa pedra que te quero dizer uma coisa.

— A pedra está muito quente eu oiço mesmo de pé o que tiver de me dizer. Pois olha; nessa pedra mesma esteve ele sentado, há pouquinho.

— Ó xentes! Ele quem, sinhá Marcelina?

— Anda cá. Pois tu não sabes quem podia ser? O Pedro de Lima.

— Seu Pedro de Lima?! perguntou o negro subitamente alterado. Ó xentes! Seu Pedro de Lima!

— Então, ele não andou por estas beiradas ainda agorinha? Quererás negar?

— Ele andou, é verdade, respondeu Germano, entre aterrado e tremulo.

— E que coisas te disse ele?

— Pois vosmecê sabe o que ele me disse?

— Chega-te para perto de mim, que eu não te quero botar a perder, Germano.

O negro aproximou-se, com passo tardo, porque em cada pé começou a sentir o peso de uma arroba, depois que ouvira as ultimas palavras da cabocla.

— Queres saber o que foi?

— Diga, sinhá Marcelina.

— Ele esteve contigo na palhoça de Moçambique, e falando-se aí sobre os motins que tem havido na vila e a revolta dos mascates do Recife, tu te ofereceste a botar água dentro das armas de teu senhor, para elas não pegarem fogo, quando o bando de Tunda-Cumbe atacasse o engenho.

Não se pode imaginar a impressão de medo, dor, arrependimento e cólera, que estas palavras produziram no espirito do negro.

Sem o querer, caiu-lhe do ombro o saco, e ele próprio, para sustentar-se de pé, teve de apoiar-se no ferro de cova que trazia em uma das mãos.

— Ora, dize-me, Germano, prosseguiu Marcelina: isto era coisa que tu dissesses àquele malvado? Podias tu prometer semelhante traição contra teu senhor, que te estima, e que, até já tem, por vezes prometido forrar-te? És um escravo indigno de ter liberdade.

O negro não respondeu. Triste, cabisbaixo, imóvel, não sabia o que dizer à cabocla.

Esta prosseguiu:

— Pois não seria muito mais bonito que, em vez de seres traidor e ingrato a seu sargento-mór, fosses o primeiro a defendê-lo na hora do ataque? Não terias tu muito mais segura a tua alforria, se, quando Pedro da Lima partisse contra seu sargento-mór, tu partisses contra Pedro de Lima, e com a foice, o facão, o chuço ou o bacamarte impedisses que ele fizesse mal a teu senhor ou à tua senhora?

Germano não era um negro bronco.

Ouvindo estas palavras, percebeu que nelas se lhe oferecia uma porta para sair da situação cruel e desprezível a que fora arrastado.

Então soltou-se-lhe a voz, que estava presa.

— Eu quero contar a vosmecê a historia como foi. Seu Pedro de Lima foi quem me fez esta proposta, com a promessa de minha liberdade. Vosmecê bem pode saber que todo cativo deseja ficar livre, ainda que seja muito bem tratado por seu senhor, como sou eu na escravidão. Eu prometi fazer isso que ele disse, mas depois que ouvi suas palavras, estou arrependido; e posso jurar que não cumprirei a promessa que fiz a seu Pedro.

— Estarás tu dizendo a verdade, Germano?

— Eu sou negro, sinhá Marcelina, mas não minto. Pode vosmecê crer que estou muito arrependido da minha ruim ação. Só uma coisa lhe peço: é que não vá dizer isso à minha senhora.

— Se eu quisesse fazer mal, já tinha corrido para lá a meter-lhe tudo no ouvido. Mas tu sabes que eu tenho bom coração. Antes quis aconselhar-te do que fazer-te a cama, mesmo porque esperava que mudasses de parecer. Tu estás muito moço; não te apresses que hás de Ter a tua liberdade, não pela mão de Pedro de Lima, ou do Tunda-Cumbe, mas pela mão de teu senhor mesmo. Vai-te embora descansado, que nada por minha boca se há de saber do que temos conversado. Pela boca de Pedro de Lima é que eu não respondo.

O negro levantou o saco, pô-lo novamente no ombro, e disse:

— Pela boca dele, sinhá Marcelina, respondo eu. o que ele acaba de fazer comigo, há de pagar-me com língua de palmo e meio.

— Olha bem, não te vais espetar em alguma tragédia. O cabra é malvado e traiçoeiro.

— Ele é cabra, e eu sou negro, mas porém se ele não andar muito ligeiro, eu passo-lhe o pé adiante. Ele não sabe com que negro está pegado. Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo. Ainda bem Germano não tinha entrado na mata, quando novo vulto se mostrava na estrada, do lado oposto.

— Não te recolhas já, Marcelina, disse o vulto de longe.

Quem falava era o padre Antonio.

— É vosmecê, seu padre? perguntou a cabocla admirada.

— Que será isso? disse Lourenço aparecendo. Seu padre por aqui!

— Vocês admiram-se, hein? E não deixam de ter sua razão.

Os três tornaram para dentro da casa. Marcelina, que foi a ultima a fazê-lo, encostou a porta de baixo, pois a sala era muito pequena, e daí mesmo, com os olhos na estrada e nos outros dois interlocutores, alternativamente, fez-se toda ouvidos. O padre então sentou-se em um tripeça, ao pé da mesinha da sala, enquanto Lourenço, de pé, com as mãos sobre o espeque onde descansava a porta da janelinha, quando estava aberta, esperava impaciente que o sacerdote quebrasse os selos do mistério que o levava ali.

— Venho pedir-te um serviço que, na ausência de teu pai, só tu me poderás prestar, Lourenço.

— Vosmecê não pede, manda, seu padre, respondeu o rapaz.

— Como tenho de fazer uma viagem esta madrugada para fora de Goiana, quero que vás agora mesmo ajudar o José a arrumar as minhas malas. Olha. Põe tudo o que é meu dentro delas. Deixa só o que absolutamente não puder ir.

— Se vosmecê quer, vou eu, disse Marcelina. Lourenço não sabe fazer bem estas coisas.

— Sabe, sabe, respondeu o padre. Demais eu tenho que te falar. Vai, Lourenço.

Quando se acharam sós o padre Antonio e Marcelina, disse aquele a esta:

— Marcelina, venho fazer-te uma confissão tão verdadeira e sincera como se a fizesse a um padre do Senhor.

— Uma confissão! Quem sou eu para merecer tanta honra e confiança?

— O que tu és, bem o sei eu. Tu és merecedora de honras e distinções muito mais altas do que esta, porque em ti a virtude fez sua morada, e a honestidade dá seus saudáveis frutos. Todos os elogios da terra ficariam ainda aquém do teu merecimento. O lar domestico ainda não encontrou nem encontrará jamais quem o represente melhor do que tu o representas.

— Seu padre está exagerando.

— Não estou, não. Há quatro anos que moro no Cajueiro. estou por isso habilitado a conhecer as tuas qualidades, a saber os teus sacrifícios, a admirar a rara beleza de tua alma. Mas venhamos já ao que importa. De duas partes se compõe a minha confissão. Começarei pela segunda. Estou-me vendo em uma colisão cruel. Avalia por ti mesma. Não viste entrar hoje em minha casa o sargento-mór?

— Vi, sim senhor.

— Veio pedir-me, antes impor-me, que eu partisse hoje até amanhã para Goianinha, a fim de, por meio de praticas publicas, chamar ao partido dos nobres o povo que se declarou e tomou armas pelos mascates. Se o pedido fosse exclusivamente dele, eu acharia logo meios de escursarme, posto que são muitos os obséquios e as atenções que me prendem ao sargento-mór. Mas infelizmente não é assim; e o sargento-mór foi portador de uma carta em que o bispo suplica que eu vá pacificar os ânimos daquele povo, e de lá siga até os limites da Paraíba com o mesmo fim. Alguém no meu caso recusaria este favor ao seu prelado e ao seu amigo? Ninguém. Pois eu acabo de recusar, quando já estava determinado a praticá-lo. Sabes porque recuei? Escuta lá, Marcelina. Não viste hoje de tarde sair de lá de casa um frade carmelita?-

— Não vi, mas Lourenço me disse.

Era o prior do convento do Carmo. Veio de propósito — vê lá tu como as coisas se ajuntam — com uma carta, antes ordem da recoleta do Recife, exigindo que eu sem perda de tempo me dirija a Paraíba, a fim de levantar os ânimos do capitão-mór João da Maia, que começam a resfriar. Esta providencia foi resolvida pelo padre João da Costa, a quem devo grandes benefícios, e pelos Drs. Ferreira Castro e Mendes de Aragão, conselheiros do governo dos mascates. Não contentes com incumbir-me deste gravíssimo mister, exigem que eu me ponha a caminho de hoje para amanhã. Neste sentido recebi, à entrada da noite, nova carta de frei José de Monte Carmelo, que Antonio Coelho me mandou trazer por Pedro de Lima. entre as três e as quatro horas da madrugada hão de estar por aqui os meus companheiros de jornada à Paraíba. Oh, que colisão cruel, Marcelina?

— E seu padre vai fazer este serviço aos mascates? Perguntou a cabocla.

— Eu deixo o Cajueiro, mas, aqui em particular, que ninguém nos ouça, devo dizer-te: não vou nem para Paraíba, nem para Goianinha. Vou para... Nem sei para onde vou eu. Vou fugindo de mascates e de nobres.

— Mas, meu Deus, como há de ser isso? Pois vosmecê nos deixa assim?

— Nem uns nem outros têm razão, Marcelina. São exagerados ambos em suas paixões. Cegou-os a vaidade, o interesse, o capricho condenável. Deviam estimar-se e auxiliar-se mutuamente como dantes; mas não; hostilizam-se, como se fossem dois povos bárbaros e inimigos, como se não tivessem laços comuns — a mesma nacionalidade, a mesma religião, a mesma língua, as mesmas leis. Porque é que brigam eles? Por um pedacinho de governo? Por uns vinténs de mais ou de menos? Por uma vila? Mas em uma terra imensa, como esta, que ainda por muitos séculos há de ser um mundo universo, onde poderão aposentar-se todas as nações da Europa, brigar por uma vila, por um engenho, um armazém, uma loja, um assento no senado da câmara, é dar testemunho de ter o entendimento obscurecido pelas trevas da ignorância ou da loucura. Querem destruir-se os dois loucos? Pois destruam-se, como querem; eu é que não hei de ir meter-me entre eles dois. Ambos são meus irmãos; mas como não posso nem mesmo com um só deles, quanto mais com ambos juntos? O recurso que tenho é deixá-los pegados até que, pela dor física, pelo sangue derramado, pela fome criem ambos medo à luta e volte um para a loja e o outro para o engenho a tratar, já com as paixões castigadas e o juízo claro, dos seus interesses particulares. O padre inclinou a cabeça, como quem meditava, e, passado um momento, voltando-se para Marcelina, disse-lhe com evidente desprazer e tristeza:

— Vou passar ao segundo ponto de minha confissão.

— Seu padre pode falar, que eu estou ouvindo com toda a atenção, respondeu a cabocla.

E sentou-se para escutar melhor.