O Piolho Viajante/LIV

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça LIV


Muitos hão-de julgar que eu já estou cansado de saber as vidas alheias. Como se enganam! Eu, criado com umas velhas que não falavam noutra coisa! Depois, quando tinha cinco anos, em lugar de ir para a escola, mandaram-me para a Mestra que eram outras duas velhas que na davam ponto que não levantassem um testemunho a alguém. Depois que passei para outros estudos mais sérios, meteram-me logo um livro na mão, cujo conteúdo era dize-tu-direi-eu. De indagador, passei a arrazoador e fui-me fazendo um endemoninhado. Depois deram-me um criado que tinha tudo consigo: era velho, teimoso, espreitava a vizinhança até alta noite, era guloso na quinta casa. Fora mais prendas que eu calo por vergonha. Eu, com tão bons adjuntos, podem vossas mercês supor o que sairia. Saí a pele de todos os... e tomei tão bem a lição que de todos tirei alguma coisa. Ao que me não pude acostumar foi a erguer-me cedo, embora o tal criado tivesse o costume de se levantar ainda de noite para sair fora a ver se achava alguma coisa que se tivesse perdido na véspera e ainda fez as suas fortunas muito boas. Achou uma vez uma meia que tinha perdido uma senhora, de que lhe deu umas alvíssaras por aí além porque a quis lá para um remédio que não sei o que era nem me importa. Aqui têm vossas mercês de onde me vem o costume de querer saber das vidas alheias. E, agora, vamos a tratar do meu taberneiro. Era um homem já dos seus cinquenta anos, jubilado no ofício, porque desde pequeno lhe conheceram propensão para o vinho. Sempre trazia a camisa de vinte dias porque, ainda que a vestisse de manhã, tomava logo a cor do corpo e daí a uma hora estava como disse. Usava o cabelo cortado à estudante, o colete, a sua véstia, calças de tripe, meia de linha crua e sapatos de duas solas por medo da humidade, que lhe entrava por cima que, por baixo, poucas vezes saía fora. Gastava todos os meses quatrocentos e oitenta em giz, doze vinténs ele e doze a mulher. Os dele eram para assentar as dívidas porque não sabia escrever; os da mulher eram para jogar os três-setes, que era quem fazia as honras da casa aos fregueses e aos entrados de novo. jogava-os já tão bem que um parceiro que tivesse jogado com ela três vezes já sabia que cartas ela tinha, porque para cada uma tinha um sinal. Recuar carta, arquear uma sobrancelha, mexer com o corpo, coçar o nariz, tocar com a perninha, dizer como a descuido posto que meu parceiro põe o ás de copas na mesa, que era o mesmo que dizer-lhe jogue copas, e outras assim, etc.

Não se metia com peixe grande. Em não havendo sardinha não frigia outra coisa, mas puxativos não lhe escapava só um. Para glosar vinho, até agora não houve quem desse melhores motivos. Fazia uma conserva de nada que não havia vinho que lhe chegasse. Freguês que ali caísse, nunca mais encarou com outra porta. Ora verdade seja, ele ali encontrava tudo, o bom vinho, o bom procurador do pimentão para tratar da causa e depois o joguinho com senhoras. Ide lá buscar disto a outra parte! Está brincando! Tinha dado numa descoberta galantíssima, o nosso taberneiro. Tinha feito um buraco redondo na porta, do tamanho de um cruzado-novo e que ficava assim pela altura de dar pela cova-do-ladrão de um homem e, dizia ele, que era para entrar por ali a claridade da manhã e para se pôr ao pino logo de madrugada. Mas não era tal. Era por amor da ronda não o pilhar fora de horas com a porta aberta. Vinha lá um seu conhecido alta noite gritar-lhe à porta:

— Ah, senhor aquele, está acordado? Respondia ele logo: — Que é lá isso?

— Faz-me o favor de me vender meia canada que é para um remédio?

Em ele ouvindo falar em remédio, já estava no meio da casa. Tinha, então, uma tripa de boi. Metia-a pelo buraco e dizia ao freguês que aparasse a boca se era para beber, ou metesse a ponta da tripa na garrafa se era para levar e botava-lho dentro. Já não havia ninguém que não soubesse da moca e quem queria vinho, de noite, ia à taberna do bebe-lhe que esta era a alcunha que ele tinha e que prezava tanto que em lhe não chamando por ela, escandalizava-se e dizia, que era tão antiga na sua casa, que já seu avô lhe chamavam o bebia e seu pai o bebeis, e à mulher podia-se-lhe pôr o bebamos. Porque ninguém chegava ali que pedisse vinho que lhe não oferecesse e a quem ela logo não dissesse bebamos. Ela também quase nunca saía fora. Estava ali presa com um cordão de ouro em cada braço e um no pescoço que, se fosse preciso enforcá-la, servia muito bem para isso. E passavam estes dois corpos uma vida de cão fraldiqueiro em poder de senhora que não tem o trabalho de lhe limpar as águas. Era comer, dormir, beber, jogar, nunca estar só e dinheirinho sempre na aljaba. Quem me dera a vida! Que eu também não deixava de ter jeito para ela! Ora a respeito de cabeça, nenhuma das que eu tenho andado chegava a esta! Nunca se penteava, nem lhe comia a cabeça. Se sucedia, por acaso, algum dia de Inverno dizer ele à mulher, cata-me aqui um bocado, como isso sempre era depois de jantar e ao sol, mal lhe punha as mãos na cabeça, já estavam ambos a dormir, de forma que, às vezes, lhe saía eu para o fato a tomar o sol e podia estar descansado que, para ele, piolho era o mesmo que alfenim porque lho podiam pôr adiante que não lhe pegava nem lhe punha os olhos.

Eu, se não fosse ter-me já acostumado a andar algumas vezes em sege, outras ir ao teatro e algumas a ouvir conversar ciências, de que eu não entendia nada, (mas sempre é bom ouvir porque lá vem uma vez que encalha), eu não tornava a sair desta cabeça enquanto ela fosse cabeça. Mas o que me desgostava mais era ele nunca sair fora e o cheiro do vinho já me trazia bastante atordoado e mesmo a porcaria era de mais. Não aparecia o acepipe de uma banha de cheiro, uns pós de Lubeque e outras bagatelas a que eu andava acostumado. Nestas circunstâncias, resolvi-me à passagem. Ia ali todas as noites um bêbado, ainda envergonhado, beber a sua canada. Mas sempre a bebia pela bexiga. Eu, uma destas, que fiz? Tirei-me da cabeça dele e pus-me sobre o balcão. Quando vi tudo acomodado, fui-me pôr na tripa do boi. O bêbado bateu, o taberneiro ergueu-se para lhe dar a ração, estendeu pelo buraco o funil de pele, no qual eu ia, e enquanto ele o punha à boca e o outro lhe vazava o vinho, tive eu tempo para passar à cabeça do bêbado, que justamente fiz a Carapuça.