O Piolho Viajante/LV

Wikisource, a biblioteca livre
< O Piolho Viajante
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça LV

De um bêbado há muito que dizer pela imensidade de Autores que há neste género, ainda que quase todos têm concordado no mesmo.

Nas qualidades dos vinhos nada temos a falar pois que todos fazem o mesmo efeito com a pequena diferença de ser preciso mais gota, menos gota. Porque se a um lhe é preciso três garrafas de vinho do Porto para se embebedar (ainda que hoje, três garrafas de vinho não embebedam ninguém, ao menos dos meus conhecidos), conclui-se daqui que, de um que seja mais fraco, precisam-se seis. Também embebedar com bom ou mau vinho, isso não conclui nada, porque de um homem bêbado, não lhe lembra lá a qualidade que foi. Mas eu já ouvi dizer a um Autor desta faculdade que era melhor embebedar-se a gente com o mau porque, por isso mesmo, que se precisava maior quantidade, mais tempo para o deleite em que se estava. — Ora bebe tu! — Prova deste! — Lá vai à nossa! — Boa pinga!, etc. Nestes termos tenho mostrado que para um bêbado já encartado no ofício é melhor o mau. Porque o bom escrivão com toda a pena escreve e, para aquele que quer tomar a prenda, é melhor o bom porque melhor o engana e o leva ao grande caminho da bebedeira, caminho que a tanta gente boa faz passar a vida suave.

O bêbado de quem eu vou a falar era um pobre bêbado. Não era daqueles bêbados ricaços que chamam à bebedeira dormir a sesta, daqueles que desafiam a gula e que, entre cristais e porcelanas transfornam um rigoroso Inverno no ardente mês de Julho e que encaixam tanto calor no estômago que se lhe podiam semear ananases sem mais algum auxílio. Enfim, falemos claro, não era daqueles bêbados que, entre o círculo do ouro e dos prazeres, afogam a desgraça que não tem tempo de lhes chegar. Apenas não escapando de uma, que será mau chegar-lhes quando o vinho os possua... mas a mim não me toca falar sublime nem atirar a alvos a que não chego. E, demais, o meu estilo é rasteiro, a obra a isso pede e de um bêbado que anda por tabernas, que é justamente de que eu vou falar, não se pode escrever em estilo crespo e, mesmo se eu me entrar a meter em coisas de que não sei falar, não é possível que fique bem. Sabe Deus, se nestas mesmo de que eu até agora tenho escrito, parecendo-me que têm ido conforme, quanto se terá dito de mim! Mas é recíproco, que eu vou dizendo deles, e no fim do ano pode bem ser que ainda me devam alguma bagatela.

Vamos a ele. O meu bêbado era oficial de sapatos e não era dos maus. Trabalhava para senhoras e era muito asseado de mãos. Sapatinhos que lhe saíam delas, não estando ele com a tiorga, podiam pôr-se nas orelhas, porque eram uns brinquinhos e isto ouvi eu dizer a diferentes senhoras a quem ele levava obra e que a punham acima das nuvens. Mas ele tinha muito cuidado em não se embebedar nestas ocasiões por não cair abaixo, porque vossas mercês muito bem sabem que uma queda das nuvens à terra é uma grande queda, ainda para Faetonte, quanto mais para um pobre tirapé. Era casado, tinha alguns cinco filhos que não passavam muitas fomes porque ele tinha dado num método muito galante de lhes dar às vezes de comer e vinha a ser: vinha, às vezes, para casa como um cacho, mas um cacho que espremido não botava cinco réis. Punha-se a mulher a ralhar com ele, que não tinha dó algum daqueles inocentes que estavam morrendo de fome para ele se andar embebedando, perdendo o dinheiro e a vergonha! Ele ria-se e perguntava aos fihos:

— Vocês têm fome, rapazes?

— Sim, senhor, lhe respondiam eles em chusma e com uma voz muito miúda.

— Ora venham cá, cheguem-se ao pé de mim. Ora digam-me: vocês ceariam agora a sua posta de pescada cada um?

— Sim, senhor, lhe respondiam os rapazes com uma voz mais saída.

— Bem. Comeriam também o seu pratinho de salada? Comeriam, comeriam, que eu bem lhes conheço o génio. Não é assim, rapazes? — Sim, senhor, tornavam eles com uma voz mais encorpada. — Bem. Também não lhes faria mal a sua pinguinha de vinho, não é assim?

— Sim, senhor.

— Muito bem. Ora, pois, dêem graças a Deus e vão-se deitar que hoje já não ficou mal a barriguinha! Então mulher, estás descansada? Não cearam os rapazes muito bem? Tu queres o mesmo ou queres mais algum acepipe. Fala enquanto estou com as mãos na massa! A mulher mordia-se, ralhava e ele não tomava nada a peito. Outras ocasiões, quando a mulher o via menos bêbado, porque livre de todo nunca ele estava e já a vasilha tinha tomado sarro (o homem era belo para vestal porque nunca deixava apagar a candeia por caso nenhum que fosse), dizia-lhe ela:

— Então, filho, tu não tratas de arrumar o João que já está um homem (era o filho mais velho). — Pois não, dizia ele. Oh rapaz, anda cá.

Chegava o rapaz: — Arrima-te a essa parede! Então, mulher, quere-lo arrumado àquela ou a outra? Fala!

A mulher mais se desesperava e se afligia, mas nada vencia dele. Uma ocasião veio ele para casa a tempo que estavam os filhos a berrar com fome. A mulher entrou à ralha com ele na forma do costume. E ele tornou a sair e foi buscar cinco réis de alfazema e veio para casa muito contente e pô-la em cima da banca. Perguntou-lhe a mulher: — Que é isso que foste buscar?

— É alfazema. Vai defumar esses pequenos e abafa-os que tudo isso é frio que eles têm.

Outras vezes entrava pela porta dentro com uma pescada muito grande e ficavam todos muito contentes. Mas pedia-lhe a mulher dinheiro para pão e temperos. Respondia ele que não tinha nem mais um real. Dizia-lhe então a mulher: — De que serve uma pescada tamanha sem carvão para a cozer, sem pão nem molho para a comer? Não era melhor que fosse mais pequena, ficando dinheiro para comprar o mais?

— Olha cá. Convida os vizinhos para cearem connosco. Cada um que dê sua coisa do que falta e cearemos juntos que ainda é melhor galhofa.

Ia ele mesmo com a pescada na mão convidar os vizinhos, cada um supria as faltas e havia função na escada.

Era um bêbado que não deixava de ter tino. Tinha dado numa das mais finas. Quando não tinha dinheiro, com dez réis se embebedava. Comprava-os de azeitonas, sentava-se no banco da primeira taberna que encontrava e armava conversa aos circunstantes. Entrava um curioso e dizia: — Bote lá um quartilho, senhor dono da casa! Saía ele de cá com duas azeitonas, dizendo: — Vossa mercê há-de perdoar. Faça bico. E dava-lhas. O outro, por não faltar às leis de Baco, apenas vinha o copo logo lhe pedia que se servisse e, conforme o obsequiado estava endinheirado, assim eram as medidas que vinham vindo e ainda o pagador lhe ia louvando a cortesia. Quando findavam as azeitonas já o odre estava atestado. Ora isto é delicado e é saber negociar com pouco dinheiro. É certo que a pobreza é industriosa, assim como a riqueza é quase sempre preguiçosa. Eu julgo-me por mim, que em tendo comer para hoje pouco se me dá para amanhã e o meu bêbado seguia a mesmo norma. O caso era tê-la tomado hoje que logo dizia, muito satisfeito: — Para amanhã Deus dará!

Assim viviam este pobre homem e esta triste mulher, com cinco inocentes desgraçados, sendo disto a causa o sumo da cepa. Uma coisa tão bela como se torna perniciosa pela demasia! Em conta, conforta. Com excesso, estraga. Em conta, anima. Com excesso, enfraquece. Em conta, faz a alegria de uma companhia. Com excesso, a tristeza de uma família inteira. Nada de excessos, meus companheiros, eu vos lhes clamo. Tudo a tempo e verão que é um grande conselho, se o tomarem.

Assim ia este homem cada vez a menos: menos saúde, menos dinheiro, menos vontade de trabalhar e, ainda que a tivesse, menos que fazer porque as freguesas iam fugindo dele. Eu vivia descontente, principalmente quando vinha para casa porque tinha dó da mulher e dos filhos. Pois eu já disse a vossas mercês que, ainda que piolho, tenho um bom coração. Se pudesse remediar o meu próximo, antes o havia de fazer que metê-lo na barriga de uma burra, que em lugar de lhe meterem cevada lhe metem ouro. E quando uma pessoa morre, em lugar da burra dar os coices, dão-nos os parentes na burra para a abrir mais depressa. Não, meus senhores, se eu tivesse burra eu é que havia de mungir o leite para o repartir pelos doentes que o precisassem. Mas alguns, em as vendo prenhas, guardam-lhe a cria para os herdeiros que, muitas vezes, em dois dias matam mãe e filho ou lhe metem vícios no corpo, porque os ensinam a jogar e em dois dias passa de hidrópica a tísica. Mas aqui comecei eu a badalar e me desviei, na forma do meu costume, do caminho direito. Vamos ao caso, que é o bêbado, do qual, como já disse, me resolvi a sair. Mas para que cabeça havia de ir? Aí é que está a dificuldade porque todos os seus conhecidos podem vossas mercês julgar que tais seriam! Mas entre eles havia um que era cirieiro e com quem a tomava muitas vezes. Ao despedir-se eram abraços e mais abraços. Numa destas despedidas fui-lhe à cabeça, para fazer a Carapuça.