O Piolho Viajante/LXVI

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça LXVI


Era um homem já de setenta anos, cabelo cortado, sempre com a sua camisa de pano de linho, uma casaca com uns botões tamanhos que não deixavam ver a cor do pano, sua véstia assertoada, seu chapéu grosso com a armação com que tinha saído da primeira mão; uma bengala que, pelo seu peso, bastava deixá-la cair de leve para quebrar uma cabeça que leve fosse; dois rolos de tabaco nas ventas e alguma coisa rameloso. Mas tinha muita chelpa, coisa que aformoseia muito. No seu ofício sabia como aqueles que sabem e, em botando o olho a um porco e dizendo o que pesava, não lhe errava um arrátel. Até dizia quantos chouriços havia de fazer o sangue. A casa era muito farta e ele era como lá dizem, pé-de-boi. Não dava funções em casa mas nunca lhe vi ninguém à porta por dívida. O jantar era sopa e vaca, mas, com efeito, era vaca e sopa à farta. Ficava-se com a barriga cheia e cheia de sólido. Não tomava chá à noite mas rezava nas suas contas, ceava cedo e ia-se deitar na cama com um sossego que era de invejar. Pela manhã, mal luzia o buraco, punha-se a pé, ia para o seu montado, ordenava o que haviam de fazer os seus criados e vinha para casa comer uma tigela de sopas com um naco de presunto tal que, para uma destas casas que toma pela manhã o seu café com leite, era presunto que lhe chegava para temperar a panela uma semana. Eu mesmo, quando o via estar comendo, lhe estava lambendo os beiços. Bebia como um homem mas nada de toldar-se. E era capaz de servir um amigo se o ocupava e, se o via necessitado, era ele o primeiro que se ia oferecer e então não eram ofertazinhas destas da moda, que vêm a ser: — Faça conta comigo. Se eu lhe prestar para alguma coisa, não tem mais que ocupar-me, &c. E se no mesmo instante um pobre homem, que ouve isto, ocupa um amigo destes, no mesmo instante respondem: — Sinto muito não me ser possível servi-lo nesta ocasião, mas estou baldo. Em outra qualquer, conte comigo.

Não senhor. Cá o meu porqueiro, antes de abrir a bolsa para o oferecimento, já o dinheiro estava em cima duma banca. E se não lho aceitavam, tomava a coisa em trambolho de mal. Também favorecia os pobres. Era rústico mas tinha um bom coração. Coitado! Veio-lhe uma doençazinha e doençazinha foi ela que o pôs às portas da morte. Ele era casado, tinha a mulher viva e um filho, único herdeiro do muito cabedal que tinha. O pobre homem, vendo-se naquele estado, e que não escapava às garras de quem não lhe escapa nada, chamou a mulher e o filho. A este, deitou-lhe a bênção e à mulher fez-lhe uma fala cristã e de quem sempre a tinha estimado muito. E tratou de morrer.

A mulher não pôde conter as lágrimas, abraçou-se com o marido. E eu, que vi isto em estado de o ver defunto, não me cheirou bem e fui passando para a cabeça da mulher. E, com efeito, não me enganei porque ele não durou três dias. E agora verão, na sua santa companheira, a