O Piolho Viajante/LXX

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça LXX


Nesta casa tudo cheirava a vinho e não havia muita falta de dinheiro. Ouvi dizer muitas vezes ao dono da casa que em cada pipa ganhava os seus doze mil réis livres. E então este amigo sabia dos adubos para fazer bom vinho do mau, o que era um pasmo. É certo que lhe botava algumas michurufadas que não eram muito boas para a saúde, mas a isso respondia ele, quando o metiam em escrúpulos: — E quem é que faz caso da saúde? Quantos há por aí que a andam perdendo por todos os modos! Então vá mais este que, ao menos, é com utilidade minha e do próximo que eu, ao menos, dou as minhas esmolas à porta. Tinha alguns oito armazéns por sua conta e todos vendiam muito bem. Ele só o que recomendava aos seus caixeiros é que medissem mal para o que também dava a sua razão, e era: como havia muito bêbado, quanto mais fosse mal medido mais se demorava o toldarem-se. E, ao menos, já que ele não podia impedir que se embebedassem, que fosse o mais tarde possível. Porque sucedia muitas vezes que uma destas vasilhas viventes, que podia alojar duas canadas sem lhe fazer mal, muitas vezes mais um quartilho o punha a ver jurar testemunhas. E logo que o caixeiro, em duas canadas, lhe tivesse furtado um quartilho, ei-lo ali estava hábil para beber duas canadas e um quartilho sem lhe fazer dano.

Era tão curioso de garrafas que tinha a pachorra de andar escolhendo grosas e grosas das mais pequenas, daquelas que não levassem bem meia canada para engarrafar e pôr à venda.

Sabia fazer da aguardente fraca, forte, botando-lhe pólvora. Mas como aqui não havia lume, não havia perigo para quem a bebia. Então em petiscos, poucos lhe chegavam. Para pôr de conserva hortaliças e dinheiro, tinha grandes receitas. A primeira tinha-lhe ensinado um tio frade e a segunda um somitigo seu vizinho que tinha tido a habilidade, desde a meninice, que peça de seis mil e quatrocentos que lhe tivesse caído na unha, ninguém mais a tinha visto, mesmo ele nunca mais lhe punha a vista em cima. Porque se lhe tinha metido em cabeça que assim como a vista se gasta por ver as coisas, as coisas se podiam gastar por serem muito vistas.

Também se tinha nutrido com vinagres e o maganão tinha cara e génio bem avinagrado. Sabia composições que, se as imprimisse, teria ganhado muito dinheiro. Lá o fazer da água vinagre, isso para ele era receita de cacaracá. Ele já o fazia de coisa nenhuma, tão apurado estava nesta ciência. Também outra coisa: de sua casa não saía nada sem dinheiro e dizia que tinha escrúpulo nisso, porque como não era pão, quem não tivesse com que o comprar, podia muito bem passar sem ele. Que desalmado homem! Ora vejam vossas mercês quem é que pode passar sem vinho no tempo de hoje!

Só duas vezes na semana mexia na cabeça e era quando o barbeiro lhe fazia a barba, que apenas lhe passava o pente pelos cabelos. Porque pentear-se, isso passava muitas vezes um mês que não o fazia. Ele, a maior parte do tempo, estava com a camoeca, quero dizer, bêbado, para falar mais claro. Ainda que entre nós, os piolhos, esta palavra camoeca está muito em uso.

Também é preciso que diga a vossas mercês, para o ficarem sabendo, que quando alguma cabeça onde nós estamos, a toma, nós também não ficamos muito bons com aqueles fumos e eu me vi, muitas vezes, sem saber parte de mim. O que me valia era apenas me sentia assim, ir-me esconder no atado do cabelo e depois que tornava a mim é que saía. E andava mais de oito dias com olheiras e tão moído que me não podia ter em pé.

Cheguei a fazer tenção de me demorar toda a minha vida nesta cabeça porque ali não me faltava nada para encher os vícios piolhais. E passava uma vida tão mole que, se não fosse este desejo natural que eu tenho de escrever, ali morreria. Mas esta lembrança tornou a despertar a minha languidez. Ali não havia mais que ver nem que dizer. Resolvi-me a sair. E foi o caso: o meu patrão tinha um companheiro de negócio mas ocupava-se em diferentes ramos. Arrendava comendas, casais, quintas &c. e o outro ficava por fiador e depois dividiam os ganhos. Foi para esta que, uma noite, estando eles conversando sobre o projecto de uma negociação deste género, lhe fui à casa a fazer-lhe a