O Piolho Viajante/Prólogo da Parte IV

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Prólogo da Parte IV


Estamos no quarto prólogo. Ora os meus leitores certamente hão-de dizer: que terá ainda que meter nos seus Prólogos este curioso de vidas alheias? Certamente já não há-de ser muito. Pois asseguro a vossas mercês (perdoem este termo, vossas mercês, que eu não sei com quem falo) que são tantas as coisas que me ocorrem que eu me vejo confuso, sem saber por onde hei-de começar. E olhem que isto não é basófia. E demais a experiência é fácil de fazer. Teimem vossas mercês em comprar, enquanto eu for compondo, e veremos quem vence. Verão como eu, com todo o desenfado, em acabando a mil e uma carapuça, começo com toda a frescura outras mil e uma. E então, que cabecinhas que eu tenho guardado, que nem cabeças de gorazes têm tanto que chuchar! Ora façam a experiência só por ver se me pilham.

Eu tenho neste Prólogo muitas coisas a dizer aos meus Leitores. Mas principiemos por lhes advertir que pode ser muito bem que me escape alguma cabeça que se faça digna de atenção nesta minha obra. Neste caso, aquele que quiser que ela seja perfeita não tem mais que anunciar-ma e eu lhe protesto que a sua encomenda será executada e nada lhe quero pela obra.

Por agora deixemo-nos de Críticos, apesar de ser gente que eu sempre lhe ando com o olho em cima, para ver se o são segundo a arte. Neste caso, tiro-lhes o chapéu e dou-lhes lugar para passarem que eu sempre respeitei os talentos. Mas os outros meninos que quiserem satirizar sem saber no que se metem, hei-de lhes ir ao fole. Oh lá, como um homem!

Agora de que vou a tratar é de ver se livro esta minha obra de alguma doença. Mas para isso será preciso mostrar o que os homens são e, por consequência, o que eu sou. Olhem vossas mercês: o primeiro princípio para o homem se conhecer a si mesmo é tomar por base este sistema de que o homem é muito pouca coisa. Todas as suas idades lhe trazem alguma fraqueza ou alguma miséria particular. A infância não é mais que um esquecimento e uma ignorância de si mesmo; a mocidade, uma agitação contínua que, quase sempre, o que produz são loucuras; a velhice uma morte lânguida sob as aparências de vida. Ora que tal lhe parece a vossas mercês as três épocas da vida de um homem? Pois são estas, e deixem vossas mercês falar os outros o que quiserem. Vamos agora a mostrar as nossas ocupações nestas três divisões da vida. Na primeira brinca-se, fazem-se mil travessuras que todas passam por galantarias. E se neste tempo não há quem tenha cuidado de ir endireitando as árvores, o homem sai muito defeituoso e muito cheio de esgalhos que, cada um, é um vício que o acompanha até à morte. A segunda é aquela em que o coração está com toda a sua força para conhecer os prazeres. E se a educação da primeira não é capaz para refrear a segunda, esta carreira é muito desgraçada. Na terceira, entramos na mania de dizer mal uns dos outros, de querer ser namorados e de mostrarmos que a experiência nos tem feito sábios, ainda que nunca abríssemos um livro.

Eis aqui naquela em que eu estou: em vendo moça cuido que ela morre por mim e, apesar da experiência me ter desenganado, é tal a minha desgraça neste particular que ainda estou na mesma mania. Quis desafogar em dizer mal, coisa também pertencente à minha idade, mas, com efeito, o meu coração recusou esse vício. Por não ficar fora neste particular, assentei comigo de o dizer publicamente mas, ao menos, verdades. Quis também mostrar que o tempo me tinha feito sábio e quis escrever e "dar à luz" mas, por desgraça, escritos que o que precisavam era de fogueira. Ora vossas mercês devem ter dó de mim, confessando-lhes eu a minha fraqueza e a razão da minha mania em ser Autor. Mas eu espero mostrar a vossas mercês que sou capaz de mais alguma coisa do que esta minha obra. Quis seguir um método às avessas de muitos Escritores que querem logo, nos seus primeiros partos, mostrar o que são. E eu quis começar por uma frioleira de que vossas mercês fizessem escárnio e, depois, mudar de tom, e que vossas mercês venham a ler alguma coisa de que não se riam. Porque daqui tira-se um ganho que os outros não tiram e vem a ser: quando um Autor começa bem, é preciso ir subindo ou, ao menos, não descair nada. Porque, se acaso lhe sucede esta desgraça, não só dizem mal das últimas obras mas até começam a achar defeitos nas primeiras que eles acharam muito boas. E quando a gente começa mal e acaba bem, então até vão achar belezas e engenho naquelas mesmas que desprezaram. Que desgraça! Como se o bom não o fosse sempre e o mau, mau. Como me hei-de eu capacitar que há sábios, se um sábio de um século zomba de um Autor e, no outro século, vem outro sábio que o acha sublime e o que passou há cem anos por cobre acaba em diamante? Quem sabe se esta minha obra ainda virá tempo que lhe chamem boa? Mas sempre lhes quero dizer: sabem vossas mercês o homem que eu tenho por sábio? Ë aquele que é capaz de governar os outros homens. O que chegou a isto chegou a tudo. Tomem isto por axioma e não passem daqui. O nome de sábio, que foi o primeiro que tiveram os filósofos, o que significava era: um homem capaz de governar os outros. A Filosofia sempre foi a mesma, apesar da diversidade das formas sob as quais ela se mostra aos humanos. Não é sábio ter orgulho de parecer subtil. Até aqui chegam as minhas luzes e, embrulhado na minha plaustra muitas vezes me rio daqueles a quem o vulgo chama sábios [1] e tenho dó de muitos que, envolvidos na pobreza, andam desconhecidos. Mas tal é o tempo, tais são os homens.

Mas eu já não me lembra o que queria dizer com esta perlenga que tenho feito, nem o fim para que acarretei isto. Sou muito desgovernado a escrever. Enfim, aí vai o que me for lembrando.

Meus Senhores, escrevi em muito mau tempo. Um tempo em que oiço dizer a todos que têm faltas de memória e a ninguém oiço dizer que tem faltas de juízo. Um tempo em que ninguém lê e todos são Autores. E de que servem as obras? Vejam em que triste tempo eu me lembrei de escrever! César, Cícero, Luculo e Ático não pareceram tão grandes aos olhos de Roma, como eles o eram realmente porque, então, Roma era toda grande. Perdoem vossas mercês a comparação. Agora vejam lá que figura pode fazer o meu Piolho no Corpo Literário! Querer eu mostrar juízo no tempo em que todos o têm e querer que a minha fazenda tenha extracção, sempre é extravagância. Mas, Senhores, reparem vossas mercês que o eu escrever não é ser Autor. Isto é meramente um livro de lembrança do que tem sucedido. Seja o que for, recomendo-me àqueles que o entenderam e debaixo da sua protecção é que eu me acolho. Porque, quando todos geralmente chamarem à minha obra boa e verdadeira, onde estarei eu a essa hora?

Os meus escritos são, por ora, para gente pobre, gente que não tem medo de um piolho. Um rico até terá medo de ouvir falar nele e fará muito bem em não ler, porque terá precisão de coçar-se, porque o Piolho é muito natural que lhe morda. Uma donzela, que nojo não terá de um piolho! Mas se ela o ler com reflexão, pode ser que ninguém lhe morda. Um que se aplica a coisas grandes, que mal lhe não ficaria ler uma coisa tão pequena!

Fiz muito mal em dizer que este Piolho era de cá. Se eu digo que é de fora, se eu tenho tido a habilidade de o ter feito passar o mar e que tinha tido muito risco para o tirar de bordo, a estas horas tinha comprado, com o Piolho, três parelhas de machos novos. Apesar disso não me pesa. Uma obra que não tem uma só palavra que não seja verdade, seria mau que lhe misturassem uma mentira.

Sim, Senhores, o Piolho é português, é filho de Lisboa, é educado na Pátria e ele se honra muito disso. Não inveja a Nação nenhuma. Se os meus patrícios não fazem caso dele por isso mesmo, é por isso mesmo que eu o prezo muito. E não é melhor que um Piolho nacional vos morda, dizendo-vos com caridade e ao de leve os vossos erros, do que venha um de fora matar-vos, que vos leve o sangue, que não cuide na vossa emenda e que só trate da vossa desgraça? Ah, meus amigos, se nós um dia pensássemos bem, havíamos de ter mais dinheiro e o meu Piolho talvez não mordesse na minha Pátria e se fosse divertir nas alheias. Mas, enfim, deixemos a pregação e vamos ao que importa, porque, nem vossas mercês fazem caso do que eu digo, nem eu do que vossas mercês fazem. Mas, ai que me ia esquecendo: isto também já parece mal. Guardemos para o Prólogo que vem, que tenho bocadinhos de ouro para dar aos Leitores. Por agora contentemo-nos do que está dito neste Prólogo que parece-me que no seu tanto

Vale

Notas[editar]

  1. O sábio não vê muitas vezes mais que uma fraqueza naquilo que excita a admiração do Povo. [N. do A.]