O Piolho Viajante/LII

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça LII


Vou mostrar um doido que, tomaram muitos com juízo, pensar como ele muitas vezes discorria. Em muitas cabeças tinha eu estado que se chamavam com juízo e que era mesmo uma vergonha chamarem-lhe de juízo. Eu, que não sou lá por isso dos que posso falar nesta matéria com o maior desembaraço, caíam-me as faces no chão quando ouvia dizer: — Vossa mercê tem muito juízo!

A um pedaço de asno que nem sabia diferenciar atum de presunto, que muitas vezes vi enganar-se nas horas porque não estava certo em ler letra romana! Vejam a que desgraça chegou o juízo! Uma coisa de tanta ponderação e que, sendo hoje tão rara, aparece a cada canto! Isto de juízo é como as medalhas antigas. É preciso ter um grande conhecimento, porque há muitas falsas e muitas vezes um curioso cuida que tem um gabinete de grande importância e, indagando bem a antiguidade, não vale nada. Mas como ele as não conhece senão pelo que lhe dizem, está na boa-fé que tem ali coisas de gosto e de valor e tudo é nada entre dois pratos. Assim é o juízo, não basta que eu diga: Fulano tem juízo. É preciso que eu tenha juízo para o conhecer. Eu bem sei que me podem dizer que há muitos bons provadores de vinho, mas não o bebem. Porém, a isso, posso eu responder: muita gente anda a cavalo e não aprendeu. Muita gente dá o seu coice e não tem feitio de besta. Numa palavra, muita gente tem bom paladar e não come bem, com que, provar vinho sem o beber, não é o mesmo que provar juízo sem o haver. Isto de juízo não vai por medida, vai a peso e, sem haver um fiel que o possa equilibrar, está tudo perdido. A canada, depois de cheia, não faz mais do que entornar por fora, mas nunca a medida leva mais do que a canada. E, no peso, não é assim. Na balança botam-lhe o que querem e o fiel é que mostra que tem mais do peso. Mas é certo que tudo isto tem analogia, porque tudo quer peso, conta e medida. Porém, vamos ao que importa. É certo que ele não discorria às vezes mal, mas também tinha infinitas ocasiões em que deixava ver o triste desarranjo em que estava a sua cabeça, ainda que mesmo nessas ocasiões ela deixasse ver os pensamentos mais acertados, unindo a moral com o riso.

A sua doidice nasceu de uns amores que tinha tido, os quais, na forma do costume, o tinham deixado por outro que não era melhor do que ele, mas que tinha tido a vantagem de aparecer depois dele. Ora esta qualidade de loucura é uma daquelas que muitas vezes tem tido remédio, curando-se com o cabelo do mesmo cão. Mas estava muito refinada, porque já era a segunda vez que endoidecia pela mesma causa e já a ferida tinha ficado com fístula e, ali, não aproveitavam mistos. Esta qualidade de loucura lançava-o, às vezes, numa melancolia profunda. Mas quando as suas ideias eram levadas para aquele tempo em que tinha sido feliz, era galante e terno e merecia ao mesmo tempo riso e compaixão.

Quando descansava desta principal fadiga da sua loucura, então passava a uma mania das mais extravagantes. Tinha-se-lhe metido na cabeça que dava remédio a tudo e, em se lhe propondo qualquer coisa desta natureza, já ele decidia e remediava. Quanto mais dificuldade havia numa questão, mais depressa ele a desembaraçava. Porém, estas idéias só o ocupavam de passagem, porquanto passava delas, com muita velocidade, ao motivo principal da sua moléstia.

Estava no estado de uma doidice pacífica, e até era arranjado no seu fato e, de tal forma, que lhe tinham entregue o cuidado dos outros doidos nos quais ele dava, às vezes, muito boas chicotadas e dizia -lhes: — Arre, já que são doidos, sejam doidos sossegados. Também eu, para o ser, levei muita pancada.

Mas, para mim, foi uma das piores cabeças onde viajei pelo perigo em que trazia a minha vida e, se não fosse o grande desejo que eu tinha de que não me escapasse esta cabeça, não ficaria nela minutos, porque o diabo do doido tinha tomado zanga com os piolhos e aquele que lhe ia à mão era desgraçado. Não só era morto, mas era morto com morte afrontosa, excogitando primeiro o modo de o mortificar e afligir o mais que podia. Ainda em cima de eu viver neste contínuo susto, não sei por que via lhe veio parar às mãos um pente de bichos. E em lhe lembrando, saltava na cabeça como um doido. Uma noite, desgraçadamente, lhe ia caindo nas unhas e, se não tem sucedido ter eu estado, essa noite, numa função de anos que se tinha dado em casa de uma lêndea, não era possível escapar pois lhe lembrou, lá alta noite, saltar com o pente na cabeça, talvez porque o tinham incomodado as contradanças em que nós tínhamos andado e quis ver se nos apanhava na folia. E, com efeito, ainda apanhou dois que pilhou descuidados, porque estavam conversando com os seus pares sem se lembrarem que quem contradança tem infalivelmente inimigos, e eu que o diga, que por ter tido a fortuna de ter um par efectivo um Inverno todo, tive um desafio e, para o evitar, foi preciso não ir a ele e o desafiante ter morrido de uma maligna no Verão próximo, do que a mim se me não deu nada por me ver livre daquele inimigo. E ele também pouco perdeu porque era tão tolo que ainda tomava desafios por semelhante coisa, num tempo em que há tanta mulher e uma boa parte delas andando na dança. Algum dia, para se dançar, era preciso, primeiro, aprender. Hoje, não senhor! já se nasce dançando porque, como as mães andam sempre aos saltos (sem ser os dos sapatos, porque até já isso não se usa), as crianças acostumam-se de tal forma aos boléus que apenas põem o olho no mundo já dizem jacé e fazem cadeia. Uma conheço eu, de três anos, que já diz que quer casar. As idades estão muito curtas!

Com efeito, passava eu uma vida incómoda na tal cabeça, porque o doido sempre estava a parafusar. De noite é que o ocupavam mais os amores que tinha tido com uma tal fulana, a quem ele punha acima das estrelas e de quem dizia que era mais formosa do que Vénus, mais casta que Diana e que tinha mais juízo que Minerva. Depois de ter dito isto, parava e desdobrava tudo quanto tinha dito e de novo tornava a dizer:

— Mas de que falo eu? A quem chamo eu Vénus? A quem chamo eu Minerva? A quem chamo eu Diana? E suponhamos nós que era bela como Vénus. De que lhe servia isso se o coração era de fera? E com pará-la eu a Minerva! Ainda isso é maior asneira. Ela enganou-me. Enfei-tou-me a cabeça com fitas de osso! Aquela cachorra, por quem eu morria de amores, e a quem eu com tantas veras patenteei o fundo do meu coração, não é Minerva, não é Vénus, é uma cara de ...! Não tem juízo, é uma simples, é um tigre, é esta, é aquela, é aqueloutra, é... Mas esperem! Eu também a comparei a Diana! Pobre deusa! Se ela tal sabe, castiga-me. Que até castigava os homens quando a viam. E esta magana tinha raiva de quando a viam mulheres. Pobre deusa!, que apenas se rosnou que tivera uns amoricos, lá com um, que se chamava manjericão! E esta grandessíssima tal e qual, teve amores com quantos valverdes lhe apareceram e deixou-me a mim por ser manjerona. Porque não gostava de árvores curtas! Pobre deusa!, que nunca andou à caça senão de feras! E esta, cá, à caça de homens. Pobre deusa!, que castigava as suas ninfas quando eram desenvoltas, e esta educava o seu sexo sabe Deus como. Eu não soube o que disse. Peço perdão do meu erro, do meu engano, da minha asneira. Nem ela prestava para deusa. Ela era talhada para uma diabreta. Que travessuras que me fez e eu... Mas quando ela me afagava! Quando ela me dizia, com os olhos em lágrimas, porque os olhos eram dela, mas as lágrimas eram minhas, que eu era todo o seu encanto! Que eu fazia as delícias do seu coração! Que eu... Mas que importa que ela dissesse tudo isto, se mentia? Ela nunca me quis bem; zombava da minha ternura. Ela... mas que tenho eu com isso? Zombava? Deixá-la zombar. Mas sempre é malfeito porque eu não zombava com ela e isso de amor é uma coisa muito séria. Mas, quem sabe, talvez que ela me não enganasse! Talvez que ela ainda me queira bem! Mas que é dela? Onde está? Onde a levaram? Ela fugiu de mim? Então é certo não me querer. Então é verdade que me aborrece. E porque não faço eu o mesmo? Mas, ah!, que eu não posso. Ela está longe de mim e eu estou a vê-Ia.