O Piolho Viajante/XI

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XI


É escusado dizer que a experiência me tinha posto no estado de fugir de todos os perigos a que estão expostos os tristes piolhos. Mas, apesar dela, eu me vi uma vez nas mãos do meu Procurador, que por caridade (que ele tinha muita) me tornou a largar, dizendo: — Vive, desgraçado, vive. Tira-me o sangue que quiseres que não me faz falta.

A criação pode muito e creio que era amor que este homem me tinha; e a eu poder ser seu filho, nesta ocasião o julgara.

Nesta cabeça e nesta casa havia de tudo. Os presentes ferviam. Não comeriam as partes peru pelo Natal, mas ele vendia-os. Era muito hábil no seu ofício, nunca perdeu causa. Quem as perdia eram sempre os seus constituintes. Levava meia moeda por mês, mas bem empregada. Uma assinação de dez dias na sua mão era para dez anos.

Nunca pagou casas e se os senhorios lhe armavam demanda, muitas vezes pagavam as custas. Quem quisesse uma quinta que não fosse sua, não era mais que ir ter com ele. É certo que passava por alguns incômodos de ir à cadeia mas não se ganham trutas às barbas enxutas. Ele, por fim, sempre saía. No meu tempo esteve lá uma vez mas foi uma injustiça que lhe fizeram, segundo lhe ouvi dizer. Vejam vossas mercês porquê: por vender uma demanda! Dizia ele então: — Senhores, porque não prendem quem a comprou? Neste mundo tudo é um negócio. Hoje vendo, amanhã compro. Assim como eu vendi uma, posso comprar outra. Então, desta forma, ninguém mais venderá nem comprará.

Mas, enfim, a parte compôs-se por não perder tudo. Recebeu meio preço da venda e o juiz, que lhe queria ir ao fole, não teve tempo. Saiu para a rua e continuou no mesmo negócio.

Fazia muitas destas e tinha muito juízo. Noutra ocasião fez suspender uma execução mais de três meses com outra galantaria. Fez um escrito de dívida em nome de um fulano, tirou-o em pública-forma e veio com uns embargos de terceiro. O Autor clamava que era falso, que nem tal homem conhecia, que não devia nada a ninguém. A verdade deixava-se ver, mas era preciso correr os seus termos. Entretanto, o réu juntou dinheiro e tudo ficou em paz. Quantas vezes dizia ele consigo mesmo: — Eu merecia estar nas galés pelo que tenho feito. Era muito espirituoso. Tinha muita habilidade.

Noutra ocasião sumiu um feitinho. Era uma bagatela. Sobre uns vinte mil cruzados! Tinha o original escrito de dívida que nunca mais apareceu. E fez toda esta obra com a despesa de meia moeda recebendo seiscentos mil réis da parte. Cuidava nas demandas de um usurário que nunca emprestou dinheiro senão a quarenta por cento com hipoteca e fiador, e a noventa sendo a risco. Girava com trinta mil cruzados. Pois dentro de dez anos deu-lhe o meu Procurador conta do principal, e juros, e esteve sete vezes na cadeia e uma na Trafaria. E ultimamente acabou doido no hospital. E dizia então cá o amigo: — A usura sempre acabou mal.

Foi Tesoureiro de uma Irmandade e quando acabou o ano não se precisou mais daquele lugar.

Fez umas benfeitorias numas casas, tão bem feitas que no fim de dois anos para pagamento delas não chegou o chão, a obra velha, a nova e outras casas que arrematou e ficaram-lhe ainda devendo quarenta mil réis.

Achou uma vez uma bolsa de coiro com um quartinho. Pôs escritos e deu-a a seu dono. Era assim o seu génio.

Quando a parte não tinha dinheiro e a demanda era certa, punha-o da sua algibeira. Contanto, porém, que lhe fizessem uma procuração geral para ele poder cobrar o principal e custas. E podiam-se botar a dormir que tratava da causa como sua.

Numa destas demandilhas de setecentos e tantos mil réis, cobrou-os e foi levá-los à parte, juntos com o seu rol e ainda à parte lhe ficaram onze mil e tantos réis, que era o que restava das despesas que se tinham feito.

Mal de muita gente se não fora este bom homem!

Cuidou também do casamento de uma órfã que tinha três mil cruzados de dote. Querem ver o que ele fez? Emancipou-a, procurou-lhe noivo, pôs-lhe os banhos na Igreja, pôs-lhe a sua casinha, asseou-os, e por fim casaram. Pôs-lhe a loja de barbeiro, que não lhe faltava nada, e ficaram-lhe devendo só quinze moedas que ele lhes perdoou para que Nosso Senhor lhe perdoasse os seus pecados.

Fazia na verdade muito bem! Andou tratando do livramento de um preso que, dizia ele, se se demorasse na cadeia morreria. E, com efeito, pô-lo na rua, ainda que de pouco lhe serviu, porque depois de solto morreu de fome. Pois quanto tinha e não tinha gastou na soltura. E chamava-lhe o Procurador um ingrato, que não lhe tinha agradecido nem por palavras, nem por obras, tanto trabalho que tivera com ele.

Ficou por Tutor de um menor que quando chegou à idade não foi preciso emancipar-se. Tudo estava destruído e gasto. E chamava-lhe seu filho, que lhe devia a educação por tantos desvelos e cuidados que lhe tinha dado. E, ultimamente, capacitou-o de que era bom ir para a Índia. Fez o enxoval num dia e partiu no outro. Todos os anos lhe mandava o rapaz uma carta com uma comissão de pragas (que nunca lhe caíram) pelo bem que lhe tinha feito. Por fim já não as abria.

Só a defuntos fez ele três testamentos, que todos foram válidos. Depois casou com uma viúva que tinha três filhos e bastantes bens. Deu cabo da viúva, dos filhos e dos bens e ficou muito enxutinho.

Mas, enfim, depois de tantos trabalhos fez uma alicantina de trinta mil réis. E quem tinha escapado de tantas borrascas, afogou-se à vista de terra. Deu com um juiz sábio e recto. Pregou-lhe com os ossos na cadeia e lá deu terra e passou com toda a decência para o cemitério. Mas eu safei-me antes para a cabeça de um preso que se mostrava muito seu amigo e que esteve ao pé dele até dar o último suspiro da vida. E nesta infeliz cabeça é que eu vou fazer a