O Piolho Viajante/XXIX

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XXIX


Estou posto num velho que tem os seus setenta no bucho mas com todos os vícios de um rapaz de vinte. Namorava com todos os ff e rr, punha cor, de noite emprensava as mãos e a cara, metia as pernas em talas para as endireitar, punha dentes postiços, fazia a barba duas vezes no dia, penteava o cabelo, (o que não deixava de me dar algum incómodo), trazia laços nos calções, anel no dedo, dois relógios, medalha de senhora entre o colete e a camisa, óculo ao peito suspendido em cordão preto, lugar efectivo na ópera, meia dúzia de escritos notados ao acaso e ao acaso dados, trocos miúdos para pobres, pratas taludas para terceiros, peças de seis e de quatro para chocalhar. Enfim, era um modelo do que já se sabe, etc.

Tinha uma senhora por quem morria e ela também morria pelo ver morto porque ele era alguma coisa impertinente e em tudo o era. Vê-lo vestir era um gosto. Era sempre no meio de dois espelhos e dois criados pelos lados. E primeiro que lhe ficassem as coisas à sua vontade, eram canas. Nunca calçou sapato sem calçador. Para calçar as meias deitava-se ao comprido no chão, puxava-lhe um criado por elas e outro arrochava-lhe bem a perna para não fazer rugas. Para os calções, tinha um aparelho no tecto com dois moitões. Desciam abaixo dois cabinhos que tomavam os calções pelos lados do cós e então içavam os criados até ficarem no seu lugar. E era um gosto vê-lo calçado. Sua camisa de holanda, véstia de cetim bordado, casaca de meio punho, óculo de punho, luneta, chapéu redondo, chibatinha e eis aqui um velho virado de dentro para fora, que ninguém diria senão que era em folha.

Tinha então um rapaz que lhe vendia todos os dias, por oito tostões, duas dúzias de escarros, para ele poder escarrar às moças, com força, que ele já não tinha senão saliva. Lá escarro puxado, para se ouvir, não podia, não tinha substância e em se lhe acabando aquela quantia ou se recolhia para casa, ou mandava um criado com toda a pressa buscar mais dois tostões deles, que eram meia dúzia. E muitas vezes não estava em casa o vendedor e ele queria sempre que fossem frescos. Se não fosse um homem rico não podia sofrer as despesas que fazia. Dava dezoito vinténs por dia a um poeta para lhe fazer as encomendas dos versos, que lhe davam as senhoras (que infeliz arte!, o que vendia os escarros ainda ganhava mais).

Tinha flatos e sempre andava a arrotar e, em se lhe acabando estes, tinha então um sujeito que lhe vendia arrotos. Punha-se então o velho a arrotar fidalguias, quintas, carruagens, criados, dinheiro, etc. Era um arroto contínuo, porque o tal sujeito, que lhos vendia, tinha para filhos e netos.

Já não ouvia bem. Mas não queria dar o braço a torcer e então era um gosto ouvi-lo conversar. Perguntava-lhe uma senhora: — Que anos tem? Respondia ele: — Se lhe quero bem? Ainda o duvida, ingrata? Abra-me este peito! Veja este coração e verá o seu retrato escrito e escarrado nele.

A senhora ria-se e ele saltava de contente. Estava tão capacitado que todas lhe queriam bem que ninguém passava a sua vida mais satisfeito. Que também há muito moço que vive no mesmo engano e que julga que uma senhora esmorece por ele e ela, muitas vezes, esmorece pelos seus vinte e cinco. E se aparece mais um, dizem que um quarteirão é vinte e seis, o usual, e não o botam fora. O que eu lhe louvo, porque é muito melhor haver por onde escolher. Presentemente também não há muito. É tudo petinga.

Depois de tantos trabalhos, entra o bom velho a querer casar. Ora isso foram canas, foram mosquitos por cordas. O namoro, os ajustes, as cerimónias que houve de parte a parte, não há tinta nem papel que chegue para escrever essa história, razão por que não me demoro aqui. Que eu não tenho génio de deixar as coisas por acabar, isso não, ou não principiar, ou dar-lhes fim. Contarei simplesmente algumas coisas que caibam no possível, como são:

A noiva queria trazer para casa cinco irmãs pequenas e três primos já grandes por ter sido criada com esta família e custar-lhe muito apartar-se dela. O velho remoía o queixo e tudo era dizer: — Pois não pode passar sem os primos? Se ao menos fosse um, mas três, e três alarves. Que mesmo sustentados a palha e cevada haviam de fazer muito boa despesa. Houve sobre isto suas histórias, mas a noiva arrumou os pés à parede, que sem esta cláusula não dava o seu consentimento. O noivo também embirrou e o mais que chegou a conceder eram dois, até que deu uma convulsão na senhora. Ele também teve faniquitos e ultimamente concedeu-lhe, cheio de lágrimas, uma comunidade de primos e primas que ela tivesse. Tornou a si, deitou-lhe uns olhos cheios de ternura e o velho ficou tão transportado e contente que, nessa noite, teve uma cólica que ia dando cabo das bodas. Houve também, daí a dois dias, outra dúvida que não deixou de ter o caldo entornado outra vez e versava sobre que libré haviam de trazer os lacaios. Ele queria as suas; ela queria as dela. Ultimamente o noivo resolveu que o boleeiro traria as suas e o da traseira as dela. Ela teimou pelo avesso e entrou-se a pôr nos bicos dos pés e a gritar que quando aquilo era antes de tomar posse dela, o que seria depois; que raivas não lhe meteria no corpo. E isto em cima de casar com um homem velho, baboso, tolo, enfeitado, etc. Então é que ele desmaiou deveras. Escumava que nem um arrátel de sabão em pouca água. Tornou a si, virou-se para ela e ela virou-lhe as costas. E cada um foi para a sua banda. Mas o pobre velho veio para casa e toda a noite não pôde pregar olho com o sentido na moça. Elas sempre são o demo, essa é a verdade! Em se andando com o sentido no casório tudo vai pela água abaixo. Não houve outro remédio senão, pela manhã cedo, ir-se-lhe botar aos pés, pedir-lhe perdão. E fê-lo erguer o dedo para o ar. O miserável estava por tudo e tudo se fez quanto ela quis. Não houve partilha de libré. Enfim, assentou-se de pedra e cal que ela faria o que muito bem lhe parecesse sem jamais ele lhe ir à mão e em algumas coisas nem sequer ser ouvido. Dobrou-se a pensão dos alfinetes, ajustou-se mais um criado e ela ainda muito de manto de seda. Quanto pode a velhice que é acompanhada de toleima e vício! Oh!, também ajustou que nunca havia de sair fora com ele, nem a pé nem em sege, sem ele primeiro lhe dar meia moeda. Vejam que esperanças tinha o basbaque da vida que havia de passar com a mulher. Eu não quis esperar para o noivado pois, como já disse, fiquei escaldado de um e prometi que na minha vida, enquanto eu pudesse, nada de noivos. E a cabeça do velho também estava seca, era morrer de fome. Ali, de cabeça, tudo era miséria.

Um dia apareceu por casa uma cigana e entrou a meter na cabeça do velho que lhe queria ler a buena-dicha; que, pelos olhos, conhecia que estava enamorado, que lhe queria dizer se havia de ser feliz com a sua dama. Tocou-lhe na tecla e ele deu logo mão, pés e corpo todo e, depois de lhe dizer muita arenga, disse-lhe que era preciso puxar-lhe por dois cabelinhos da cabeça. Eu não desgostei da puxadela. Passei para a cigana, só pelo gostinho de lhe saber da vida, de cuja faço a