O Piolho Viajante/XXVI

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XXVI


Não desgostei desta vida e não é tão pobre como mostra o cabedal. Não faz vista mas é sólida. É negócio de seis por cento. O tal ferrozinho velho transforma-se em ouro e prata muito nova. Um lugar de ferro-velho, que não parece nada, é uma coisa de muita dependência e de muitos conhecimentos e amizades. Um negócio destes, para ser perfeito, precisa conhecer tudo que é ratoneiro ordinário e tem muita mecânica que não se aprende facilmente. É preciso teoria, prática, génio e uns grandes conhecimentos. É um ofício que compra a ferramenta de todos os ofícios. Ora já se vê que é preciso saber-lhe os nomes, a serventia, etc. O que não precisa é saber-lhe preço, porque isso é tarifa. O que custa dez réis, vende-se por três vinténs. É do Regimento.

Outra regra geral: toda a fazenda que se compra este ano é para vender para o que vem. Esta prevenção é porque se for alguma coisa furtada, ninguém tem a pachorra de andar dois anos a fio a ver se a encontra e se a chega a ver, passado um ano, ou não lhe lembra ou não a conhece e passa o roubo impunemente. Porque o tempo tudo consome. O tal, em cuja cabeça eu estava, tinha caixotes e caixotes de pregos que lhe vendiam, sobejos de obras, já se sabe. Mas só punha amostras no lugar e se alguém ia comprar, então é que se declarava com eles, que tinha mais em casa. E uma vez me deu a mim vontade de rir. Veio um que andava fazendo umas casas, compra-lhe uma boa porção de pregos para as acabar, cujos pregos eram sobejos da mesma obra para que ele os queria. Tinha sido curiosidade de um sujeito que os tinha vendido por lhe parecer que já não eram precisos.

Uma vez fez ele uma galantaria de que eu também gostei. Veio um maroto vender-lhe um par de fivelas que valiam bem quatrocentos e oitenta, pelas quais ele deu trinta réis. Não quis ter o dinheiro empatado na forma do costume e disse a outro companheiro que estava à ilharga: — Pega lá nessa fivela, põe-na no teu lugar que eu ponho esta no meu. Se ta quiserem comprar, vende-a barato que ele cá virá caira comprar a outra. E se aparecer o dono, como há só uma e lhe furtaram duas, passa adiante.

Saiu como ele o pintou. Apareceu um, pega na fivela, pergunta-lhe se tem a irmã. Respondeu-lhe que não mas que lhe dará aquela barata e que será muito fácil achar a outra. Vende-a por trinta réis. Oh, que fortuna! Logo mais adiante encontra a companheira. Mas por mais diligência que fez não a levou por menos de doze vinténs. Dizia-lhe então o comprador: — Quer-me vossa mercê dar um tostão por esta e ficam-lhe irmanadas? — Não senhor, que é muito nova e nós não podemos ter aqui senão trastes velhos ou desirmanados. Enfim, se quis fivelas, custaram-lhe treze e meio. Não houve mais remédio.

Traste que lhe viessem vender, em não sendo furtado, não tinha fé com ele. Era quezília que tinha tomado. O negócio já ia passando a mais. Já comprava seus trempes. Mas no que ele fazia melhor negócio, era em chaves. Tinha chave que lhe davam por ela as suas quatro moedas. No meu tempo, vendeu ele uma por oito, a um filho-família que estava com gosto em saber o que o pai tinha fechado num armário cuja chave nunca fiava de pessoa nenhuma. Mas o meu ferro-velho tantas lhe deu à mostra que acertou numa, de que ambos ficaram muito contentes à excepção do pai, porque dentro de poucos dias pôde fiar a chave de todos e o filho botou a sua fora, pois já não lhe servia para nada. Tinha perdido o gosto dela.

Também comprava o seu relogiozinho. Se era de prata, dourava-o. Se era amarelo, mudava-lhe a caixa e o mostrador e, muitas vezes, o dono andava-lhe com a mão por cima, e se acaso se queixava que lhe tinham furtado um por aquela mesma figura, respondia-lhe ele com uma cara mui simples: — Antes de ontem me vendiam aqui um assim, mas era de prata. Eu lá coisa de prata, sem me darem fiador, nada! Pobre de mim, mas graças a Deus, o meu capote muito redondo. Há vinte anos que contrato nisto, porém, nunca me foi preciso greda porque nunca me caiu nódoa, apesar de que muitas vezes cai no melhor pano.

O homem estava embasbacado de ver tanta virtude em tamanha pobreza. Mas acomodava-se lembrando-se que debaixo de uma ruim capa se encontra um bom bebedor. Porém, sempre lhe perguntava: — E vossa mercê lembra-se de quem lho vendia?

— Sim, senhor. Conheço-o de vista como as minhas mãos. Passa muitas vezes por aqui.

Ainda por cima, ia-lhe o pobre homem pagar o vinho, deixava-lhe dito onde morava e que lhe agarrasse o ladrão quando por ali passasse, que ele veria os seus agradecimentos. Pobre tolo! Nunca mais o vi! Nunca mais por aqui passou! Suponho que embarcou!, foi a resposta que teve e ainda em cima perdeu três meias canadas de vinho. Então que tal lhe parece o negócio? É bom ou não? Tomaram-no muitos! Ao menos é melhor que andar por aí feito vadio, sem ofício nem benefício. É ganhar a vida publicamente, não há nada às escondidas, a loja está toda à mostra e recolhe-se para casa num carrinho de quatro rodas[1]. É negociação com decência. Mas virando agora o negócio para outra face, que trastes não se encontram ali, em conta e precisos, e que não fizeram falta nenhuma a quem se furtaram? Por exemplo: um homem que tem trezentos mil réis de renda e que faz de despesa em sua casa um bom conto de réis, faz o seu cálculo e diz: — Se eu gasto mais do que tenho e vou vivendo, porque hei-de eu andar a pé? Quem gasta um conto, gaste mais uma história!

Compra o seu rabão, prepara-se de selim e freio e toca a choutear. Mas passado algum tempo acabam-se o milagre e os calotes. Vão-se vendendo os trastes. E, neste meio tempo, vai lá um, furta os estribos e vai vendê-los. Ora que falta faz uns estribos a quem não tem sela? Ou que falta faz a sela a quem não tem cavalo? E mesmo, que falta faz o cavalo a quem é cavalo? Ora eis aqui está um furto que não faz falta nenhuma. E vem lá um que quer pôr sege de aluguer, ou arenques para alugar e isto para ganhar a sua vida e que lhe faz mais conta comprar uns estribos baratos. Além deste caso, mil do mesmo teor e forma seguinte. Senhores, tudo tem tempo, forma e lugar: furtar a tempo, furtar em forma e saber escolher o lugar. Isto não escandaliza ninguém. Agora às avessas: furtarem a sela tendo eu ainda o cavalo. Isso é uma asneira, que é fazerem-me andar em osso. Pelo contrário, furtarem-me a cabeleira quando eu já tenho o cabelo crescido, é fazerem-me um favor, que é tirarem-me diante dos olhos um traste que fazia o meu aborrecimento. Mas eu sou miserável, a cada instante me desvio do caminho. Larguei o ferro-velho e vim-me meter em cavalarias altas. Mas eu já desço e torno à vaca-fria para a qual o meu ferro-velho tem muito espeto, que todos tem comprado por dez réis de mel coado. E não cuidem vossas mercês que há só ferro coado, também há mel.

Mas já que falei em vaca e espeto, lembra-me por isto o cozinheiro de cuja cabeça eu andava ao cheiro havia muito tempo. O tal ferro-velho tinha uma filha com quem um cozinheiro vizinho desejava fazer panelinha, quero dizer, queria casar. Ia à casa, tinha-a pedido ao pai, o qual tinha dado o seu beneplácito e a filha o sim, três vezes.

Uma noite juntaram-se os dois para fazer a partilha do ferro que havia de caber em dote à tal futura. E, nesta ocasião, eu fiz de taxa e preguei-me na cabeça do cozinheiro, tirando-lhe o barrete e pondo-lhe a

Notas[editar]

  1. As caixas onde metem este trem costumam ter quatro rodas para a facilidade de se conduzirem. [N. do A.]