O Piolho Viajante/XXVII

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XXVII


Quem está acostumado a escaldadelas, não faz caso da mordidela de um piolho. Passa-se uma vida bela na cabeça de um cozinheiro. Deus me livre de um vadio! Quanto mais a cabeça em que a gente anda tem que parafusar e em que se ocupe, tanto mais seguro vive o pobre piolho. Esse, creio que nem sabia que havia piolhos no mundo. Uma só vez o não vi coçar, nem tinha tempo.

Ele era cozinheiro de uma casa abundante e a sua vida era trabalhosa. Era obrigado a ir para a cozinha meia hora antes que os criados se levantassem, para poder aparar os comestíveis sem barulho. Aparava a carne para trazer a fêvera para casa e deixar a gordura e os ossos para o amo, para poder fazer uma boa sopa. A fêvera da vaca é desenxabida, não dá gosto nenhum. Aparava o presunto para o mesmo fim, o toucinho, a couve, o carvão, a manteiga, numa palavra, aparava tudo que havia em casa. A única coisa que o não vi aparar foi umas pancadas que lhe quiseram dar. Fugiu-lhe com o corpo e não as aparou. Ah, sim, também me esquecia: não aparava penas, nem aparava chuva. Enganei-me. Havia muita coisa que ele não aparava. Sustentava com estas aparas a sua casa, e a do sogro, e vendia para uma taberna. A sua ração dava-a por esmola a um brasileiro que lhe dava seis mil e quatrocentos por mês. Tinha o seu par de vinténs juntos e bem adquiridos. O amo estava contentíssimo com ele e dizia que o seu Brás não o deixava por coisa nenhuma. É certo que ele pagava-lhe muito bem, porque não tendo nunca recebido nem real, já se lhe deviam dois anos de ordenado e ele não abria a boca e, muitas vezes, emprestava as suas dez moedas para o vexame da casa. Onde se encontram destes criados presentemente? Está brincando! O que ele andava nas diligências, era de ser também mordomo e se o conseguisse, dizia ele: — Em quatro anos há-de ser meu amo meu criado, se quiser passar. E havia de ser, porque em ele proferindo uma palavra era um axioma.

Mas que paladar que tinha o bêbado! Não havia ninguém que o não gabasse! Afogava um repolho sem lhe apertar o pescoço, que o podiam comer os Anjinhos! Fazia pudins de caroços de azeitonas que lhe deram muito caroço! Burriés de molho à pantana, só ele os fazia. O que ele não sabia fazer, eram espargos, e mais deixou muitas vezes os criados, ao jantar, como o espargo do monte, sem lhe chegar nada. Pois morcelas azedas! Isso era comer e gritar por mais! E salada! Fazia tudo em salada.

Uma noite me lembra a mim que ele fez uma ceia que todos andavam a gritar pela ceia. E apesar de andar de amores com a tal rapariga não se descuidava de nada, que há pessoas que em andando desencabrestadas, não lhes lembra senão o tal namoro. Cá este, não senhor; todo o tempo que eu morei nele, sempre o vi erguer de madrugada para ir cuidar nas aparas, e nunca o vi uma só manhã beber uma xícara de café ou chá. O seu almoço era umas sopas de panela com o seu bocado de presunto, duas rodas de paio, quatro ovos e três quartilhos de vinho. E andava magro, era doente do peito! O que é a constituição! A tal rapariga, com quem ele estava para casar, também tinha convulsões e febre contínua. Mas diziam os Médicos que não era nada, que em casando talvez que logo morresse.

O que a mim me dava mais cuidado era o casamento. Porque eu já estava escaldado de uma catadela que tinha sofrido com uns noivos e que já contei a vossas mercês. Tinha protestado comigo que não havia de assistir ao tal casamento, ainda que eu cuidasse de passar para uma cabeça de alhos, se não houvesse outra e, por isso, estava de olho vivo e prestes para fazer a minha mudança a todo o custo, ainda que me botasse de uma janela abaixo.

Os negalhos; iam-se apertando e eu sem achar cabeça, isto é, cabeça que me contentasse, que cabeças havia muitas, tais e quais. Mas umas não gostava eu delas e outras não podia lá chegar senão com a boa vontade, — a qual me podem agradecer —, e os bons desejos. Mas quando eu mais descuidado estava, aparece um Estudante que era da terra do cozinheiro e ainda seu parente em longitude. Procurou-o logo, chamou-lhe tio. Ele tinha prosa e era tratante. O outro gostou de ver ao pé de si um parente que tinha laivos de Doutor e que falava como um papagaio.

O tio perguntou ao sobrinho qual era o forte dos seus estudos. Ele respondeu-lhe que língua de Preto e Retórica e que sabia língua dos cavalos perfeitamente, porque um filho de Gulliver fora seu condiscípulo, que lha ensinara em recompensa de ele lhe ter ensinado o jogo do pião. Com que, nestas circunstâncias, o tio ficou de pedra e cal, e assentou de nunca mais separar de si este Sábio, assim como eu tinha assentado de sair da sua cabeça apenas pudesse.

O tal estudante nunca largava o tio. Mas eu larguei-o e quis ser piolho estudante e ir a uma cabeça onde houvesse miolos. Eu queria provar de tudo e, uma noite, em que o tio contava ao sobrinho o seu casamento, neste entretenimento em que me pareceu que estavam descuidados, desci pelo cozinheiro abaixo e subi pelo estudante acima, até lhe chegar à cabeça para lhe pôr a