O Piolho Viajante/XXXIII

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XXXIII


Ora, enfim, deu a moça com um homem à sua satisfação. Tinha ciúmes dela e fazia dele quanto queria. Era tão material que nunca pôde juntar três letras. Um N, um A e um O para lhe dizer um não. Estava na sua quinta. Ele era um homem dos seus trinta anos e sabia tanto como quando tinha três. Tinha laivos de nobre, tinha bens e uma ignorância tão grande que para tolo não lhe faltava uma oitava. Mas ele prezava-se muito disso pela antiguidade em que a asneira andava na sua casa, que havia o melhor de trezentos anos. E mesmo não estudavam pelo assim mandar o instituidor e ele não querer perder o vínculo. E fazia muito bem que o tempo não está para perder.

Ora o Morgado tinha mais algumas anexas que eram: ter sempre sete bestas na cavalariça, ainda que não tivesse que lhes dar a comer e nem isso era o essencial, porque muitos racionais não comem porque o não têm. Ainda se o instituidor mandara que fossem pintadas. Mas nada, cinco vezes declarara que haviam de ser vivas. Também dizia que no caso de não haver dinheiro para as comprar, as comprassem fiadas, ainda que dessem cem pelo que valesse dez. Que perdessem a sucessão, no caso de não andar de sege, ainda que fosse na traseira.

Na verdade, era muito pensionado o tal Morgadinho. Assim não queria eu, safa! Deixarem-me alguma coisa e, ao mesmo tempo, o modo de o gastar! Como se todos tivéssemos os mesmos humores. Suponhamos nós que eu tinha uma obstrução e que o meu Médico e a razão me mandavam andar a pé. Havia por força andar a cavalo? O ser pobre tem muita coisa má, mas também tem muita coisa boa. Que gosto tem o pobre em comer pão de rala? Mas come-o à sua vontade. Que felicidade é o viver cada um como pode, sem se meter em barulho. Eu, pobre piolho, nasci para me sustentar de sangue e de sangue mau. Ninguém tem que me dizer por isso. Mas se eu intentar tomar café com leite, que dirão? Que admiração não causará? Já as linguinhas más a dizer: —- Olhem lá o Piolho! Já não pode passar sem café! Ainda o outro dia o conheci na cabeça de um tinhoso! Nada, nada, cada um nos seus limites. Entre camisas e anáguas de holanda não se estranha uma pulga e a mais gentil e virtuosa donzela a busca e entre pulos a apanha, sem nojo a mata. Mas se encontrasse um piolho, despir-se-ia logo e lavaria as mãos cheia de nojo e três vezes cuspiria fora. Pois deixemos o seu a seu dono. Ande a pulga por onde andar e o piolho siga o seu destino. Por isso quero dizer: como o homem devia andar em sege, deixá-lo andar. E que tenho eu com isso, nem os meus Leitores? Eu não lhe hei-de pagar as dívidas. Que me importa a mim somá-las? Deve? Deixá-lo dever. Gasta mais do que tem? Deixá-lo gastar. Dorme mal podendo dormir bem? Deixá-lo dormir. Passa os dias aflito, podendo-os passar à regalada de moira? Deixá-lo passar. Morre mais depressa e cheio de aflições? Deixá-lo morrer; eu não tenho que botar luto. E demais, para isso andou em sege e tinha sete bestas fora ele e eu cá, a minha sege há-de ser entre duas unhas que me esperam mais dia menos dia. Nem tudo pode ir direito. O mesmo mar tem seus altos e baixos, quanto mais cá por terra!

Assim vivia o meu ignorantão, sem saber e sem sabor. Pela manhã, erguia-se entre as dez e as onze, vinha um criado vesti-lo, porque ele, apesar de ter a idade que disse, não tinha aprendido a vestir-se, apenas sabia esfregar os olhos quando acordava. Almoçava, punha-se a jogar algum joguinho útil e que não escandalizasse. Quase sempre era o sete-é-ponto e quase sempre perdia. Jantava pelas quatro horas, acabava-se o café pelas cinco, penteava-se, fazia a barba, despia-se e vestia-se, punha a sege, fazia as suas trezentas visitas e ainda lhe ficava tempo para ir a quatro ou cinco Teatros, para aparecer na praça, e no fim disto é que principiava a noite. Toca a jogar e a escaramuças. Recolhia-se das três para as quatro. Entre ceia e conversa, deitava-se às cinco e assim mesmo dormia pouco, não tendo nada que fazer. O que é saber repartir as horas!

Tinha a vista tão costumada ao sono e às cartas que, se por acaso pegava num livro, punham-se-lhe logo os olhos a chorar quando, se o livro tivesse olhos, é que devia chorar por se ver nas suas mãos (era o mesmo que um cristão em Argel).

Leu uma vez um título a um livro bem conhecido: Arte de conhecer os homens, e ficou na maior admiração do mundo, chamando herege ao autor. Dizia ele:

— É pachorra compor um livro para semelhante coisa, como se alguém precisasse de tomar conhecimento, aprender o modo. Os conhecimentos tomam-se nas partidas, no Teatro, nas funções, nos negócios &c. Eu tenho mil conhecimentos e tomei-os sem o auxílio deste autor. Para eu conhecer um homem não tenho mais que ir procurá-lo, oferecer-lhe o meu préstimo e dizer-lhe que desejo a sua amizade. Bota esse livro no lume, rapaz.

E mandou-o queimar e acabou a rir-se e a dizer:

— Se todos os autores escrevem sobre matérias tão insignificantes, têm gasto o seu tempo muito bem.

Leu também outro, que era de versos e tinha por título Verdades singelas. Também se pôs a rir, dizendo:

— Se elas são verdades, por força que hão-de ser singelas. Mas neste caso lhe achei eu razão, porque a singeleza é filha legítima da verdade. Enfim, era um homem que em lendo os títulos aos livros decidia do resto.

Leu outro que se intitulava: Arte de furtar. Então este é que ele não pôde sofrer. Clamava ele, todo esbaforido:

— Que precisão temos nós de semelhante arte, se os costumes do século nos têm dado a natureza. Valham-se da Arte os que não tiverem natureza. Faça-se embora essa arte lá para o sertão, para os Campónios, para os homens que se alimentam do trabalho de seus braços, mas não para gentes civilizadas, gentes do grande mundo que sabem de tudo, que lêem de cadeira nesta pequena, insignificante e utilíssima Arte.

Eu creio que ele lhe chamava insignificante por muito corriqueira. Agora a razão de lhe chamar pequena e que eu não pude conceber. A respeito de utilíssima, está claro. Tudo quanto é venha a nós é útil. Lá o modo não faz ao caso, cada um como pode. Para se tratar de alguma coisa, é preciso que haja essa coisa. Para haver um ofício que cuide nos ladrões, é preciso que haja ladrões. Em não os havendo, está perdido o ofício. E, demais, dizia o tal amigo:

— Eu posso ser ladrão e não ter culpa. Por exemplo, saio todo ao meu pai nos olhos, e no rosado à minha mãe. Tenho culpa disto? Não. Meu pai morreu de estupor, meu avô do mesmo e eu também vou morrer. Eu, meu pai ou meu avô tivemos culpa? Não há tísicas por geração? Pois o mesmo é tudo. Meu avô furtava, meu pai pilhava, eu arrecado tudo que encontro. Que culpa tenho eu disso? São constituições. Os perdigueiros não nascem já sem rabo, e os filhos de branco e de preta não são mulatos? Quem tem culpa disso? Quando muito castigassem o primeiro que tomou o vício. Mas aquele que o herdou! Se meu pai passou impune, como hei-de ser eu punido por ter sido herdeiro a beneficio de inventário? Quando eu tinha sete anos já era guloso, furtava os vinténs a meu pai e mentia que era uma consolação. E eles riam tanto da minha esperteza que eu julgava que tudo quanto fazia era o mais acertado.

Desta forma discorria o meu ignorante e eu gostava de o ouvir porque eu sempre fui muito tentado com a curiosidade de murmurar e mesmo é coisa que não custa muito. Mas para tudo é preciso haver princípios, é preciso criticar e murmurar para emendar os vícios e não para desordenar famílias. Um murmurar de tal forma que o mesmo cúmplice se coce e se cale para sua honra. Pois quando a murmurar se ganha dinheiro, isso é tão belo, ainda que também às vezes se ouvem muitas boas, mas valha-me Deus! Tudo tem seu desconto. Isto de ganhar dinheiro há-de ter algum trabalho. Eles falam de mim, mas de graça. Eu falo deles por dinheiro. Ora repartam esta quantia por dois e vejam quanto sai a cada um e verão que na prova fica o primeiro com trabalho e sem dinheiro e o segundo com dinheiro e sem trabalho, porque quem tem dinheiro não tem trabalho. Mas estas coisas a mim não me importam, cada um seu caminho e vivamos todos. Eu, como piolho, cá estou nos meus pequenos limites e bem claro se deixa ver que não vou pastar a terras estranhas. Vivo, por ora, do que é meu. Se precisar, — também não sou capaz de o negar —, sou um pobre e triste piolho que ainda me meto, às vezes, por costuras. São aquelas que estão mal alinhavadas. Onde há pesponto passo-lhe por cima mas sempre é preciso ter muito cuidado comigo porque eu posso ir à cabeça de qualquer e contar depois o que são por fora e o que têm por dentro, se o têm. Alerta vive a galinha e vive com a sua pevide e se lha querem tirar, usem de vinagre e alho e não lhe importem as galinhas alheias porque lhe podem ir ao galinheiro. Governe cada um o seu carro que ainda que eu conheça que a madeira não é sua e os bois são emprestados, nem por isso hei-de dar a minha picadela. Adiante. Tornemos ao nosso Morgado, o qual tinha outro livrinho que se intitulava As chaminés caídas por força do fumo, cujo livro eu traduzi e tenho tenção de o dar à letra redonda no acabamento desta minha vida, assim como uma novela original que tenho composto, intitulada A cadelinha, obra que se tiver saída é de muito pouca utilidade para os cães.

Eis aqui de que era composta a livraria do meu pedante, e de folhinhas velhas, histórias que ele gostava muito de ler pela grande notícia das enchentes e vazantes das marés. Tinha um Burro Pai que lhe tinha custado vinte e quatro moedas que era a menina dos seus olhos. Era das melhores raças e das mais antigas. Descendia de uma tal geração donde vêm também os burrinhos velhos que fazem as crianças. Ele tinha-lhe a sua árvore de geração mas eu nunca fui grande genealogista. E as árvores da geração dos burros têm muito que entender, porque nunca se lê outro nome, senão burro Avô, burro Pai, burro Filho, burro tal, burro lá &c., de forma que em lugar de árvore de geração podia-se-lhe chamar burra de geração.

Tinha a sua carruagem de cinco rodas, quatro em que a sege montava e uma roda-viva em que andava noite e dia. Tinha duas parelhas, uma macha e outra fêmea. Tinha dois cavalos inteiros e um serrado, creio que em duas metades porque eu nunca o vi. Ouvia dizer que era serrado. Também não sei se ao comprido se à largura.

Tinha uma burra que servia a casa de escada abaixo. Nunca a vi em cima. Morava numas casas de que pagava de renda trinta moedas. Fiquei-lhe sabendo o preço pelas muitas vezes que ouvi falar nisso ao senhorio, quando lá ia visitá-lo, que era muito a miúdo. Cá o patrão estava já tão aborrecido das visitas que, as mais das vezes, negava-se-lhe. Tinha quatro criados vestidos de Arlequins, porque traziam as suas sete ou oito cores nas casacas. Tinha dois criados graves, mas os vestidos eram pouco honestos. Tinha cinco criadas, duas de almofada e três de travesseiro. Tinha um moço de cavalariça que tratava das bestas, dormia com elas e comia com elas. Quero dizer, furtava-lhe a cevada quando lha deitava mas as bestas não o deixavam dormir muito. Tinha uma Quinta de regalo do tamanho da ilha que governou Sancho Pança. O que lhe faltava era o passeio de urtigas, mas tinha-lhe semeado tojo.

Alumiava-se com cera e quando lhe pediam dinheiro para a comprar, respondia: — Sebo. Mas não se servia dele.

Basta de falar de um ignorante. Vamos a falar de um mentiroso a cuja cabeça eu fui e que era amigo do tal. Saíram ambos de sege para irem a uma função e eu não queria andar mais em sege por me não costumar mal. Passei para a cabeça do mentiroso, que a não tinha, isto é, sege. Que cabeça, tal qual, havia-a e nela vai a