O Piolho Viajante/XXXII

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XXXII


Esta pobre moça tinha de passar uma vida bem desgraçada. Acabava de viver com um homem que lhe não deixava a mais pequena acção livre e veio para este, que todas lhe deixava e não lhe importava nada o que ela fazia. O outro, aborrecia-o por amor de mais. Este mortificava-a por amor de menos. E nem mais nem menos eram as circunstâncias em que se via esta formosura que não encontrava um homem à sua satisfação. Só se mandasse fazer de barro, ou de cera. Eu gostava sumamente dele pela pachorra. Não lhe importava a mulher. Que ela estivesse à janela, que saísse fora, que conversasse com o vizinho, que não lhe aparecesse todo o dia, para ele era o mesmo. Não conhecia o ciúme, nem pela palavra. Era mesmo da terra, génio e costume dos que falou Camões quando disse:

Ditosa condição, ditosa gente,
Que não são dos ciúmes ofendidos.

A mulher enraivecia-se com isto o mais que podia e dizia ela a si mesma: — Não serei eu aos olhos deste homem formosa, não serei discreta, não serei bem-feita? Ele não gosta de mim. Ele não me ama. Ingrato! Morrerei desesperada. Esta indiferença é mais que morte.

Dizia eu cá com os meus botões: — Ah, que se eu fosse homem, assim como sou piolho, havia de fazer comer terra a estas minhas Senhoras, visto saber-lhes a balda. Um pouco caso, um desprezo a tempo, uma meiguice momentânea, uma indiferença com cautela, que não parecesse desprezo, uma confiança certa no seu juizo e virtude! Eu lhe protesto que havia trazê-la ligada ao amor e à obrigação, que não havia de olhar para ninguém ainda que lhe fizesse festa o Grão-Mogol. Mas alguns homens são uns tolinhos! Estão-lhes ensinando com os seus ciúmes o que elas hão-de fazer, duvidam da sua probidade. Ora isto é verdade. Se todos me hão-de julgar e chamar ladrão sem eu o ser, neste caso é melhor furtar.

Assim passavam a vida todos três: ele não lhe importando nada; ela dando-se-lhe de tudo e eu na chuchadeira e na observação. Até que ela lhe disse um dia:

— Meu marido, eu não posso viver assim.

— Pois vive de outra forma. Quem te pega?, respondeu ele. — Isso não é resposta que se me dê, tornava ela.

— Pois vê? Que resposta queres?, tornava ele. Dize-ma que eu ta darei ao pé da letra.

— Tu não me amas?

— Tu não me amas? Estás satisfeita?

— Não meu marido, não é isso que eu quero de ti. O que eu digo é que tu não gostas de mim, que não me estimas, que te é indiferente não me veres e, enfim, que ainda te não causei um só ciúme.

— Olha, mulher, eu tenho preguiça de responder a tanta coisa. Mas por te dar gosto, por esta vez sem exemplo te responderei a tudo por parcelas e então tu somarás a conta como bem te parecer, contanto, porém, que não me tornes a tomar estas contas. A respeito de eu não gostar de ti, é falso. Se eu não gostasse, não casava. Que te não estimo, é mentira, porque eu dou-te de comer. Que não faço caso de te ver a miúdo, é pela esperança e vontade que tenho de que vivas muito tempo, e como estou com tenção de que vivamos muitos anos, temos muitos anos para nos vermos. A respeito de ciúmes, não tenho de que me queixar, pois tu já não podes casar com outro senão quando eu morrer. Em eu morrendo, não me importa que tu cases e se gostas de alguém que te faça muito bom proveito. Se alguém gosta de ti, que muito bom proveito lhe faça. O homem, quando casa, não é para aborrecer o resto das mulheres, nem a mulher para aborrecer o resto dos homens. É para ter aquele homem por seu, para lhe guardar fé, para o ajudar nos seus trabalhos e ter parte nos seus prazeres. Mas isto não tem nada para viver com o resto do mundo em boa harmonia. Não, mulher, eu não confio mais em ti que tu mesma. Descansa, vive sossegada que eu não caso com outra enquanto tu fores viva. Olha, demais a mais, tu também já não estás muito para cobiçar, vais-te fazendo feia.

Oh, diabo, que tal disseste! Foi o demo em casa do alfacinha. Gritou, arrepelou-se, bateu com a cabeça pelas paredes, jurou que havia de fazer e de acontecer, botou todo o fato à rua, esbofeteou-se e não acalmou a tormenta senão com uma chuva. Pôs-se a chorar como uma Madalena, mas não arrependida do que tinha dito, porque de quando em quando tornava à mesma e o maganão do marido pedia-lhe com todo o amor que chorasse para desabafar, que aquilo era tudo melancolia.

Ele era um preguiçoso célebre. Podia-se ser piolho ou pulga em seu poder. Mordesse o que lhe mordesse, não se coçava só para não levantar o braço. Tinha dois funis por onde comia e bebia. Sempre estava deitado. À hora de comer, vinha o criado com o funil largo, metia-lho na boca e ia-lhe botando os bocados. Para beber água vinha o funil estreito. Nunca lavava a cara. Quando vinha o barbeiro fazer-lhe a barba, pedia-lhe que lhe desse uma demão de água pelos olhos e quando chovia punha as mãos de fora da janela e deixava-as ficar até fazer sol, que lhas enxugasse. Tudo quanto sentia molhado no corpo enxugava ao sol e assim, nem perdia tempo, nem lenha. Se a mulher alguma noite, de raivosa, não dormia com ele, levantava-se mais tarde no outro dia, quero dizer, erguia-se para lhe fazerem a cama. Se a mulher lhe perguntava a razão disto, respondia-lhe que tinha dormido tão consolado por ter estado só, que lhe continuasse o mesmo favor por algumas noites.

Cuidava muito pouco nos seus negócios, nunca saía para fora. E se lhe diziam que por aquele modo não podia ganhar de comer, dizia a isso:

— Quanto menos trabalho, menos como. E demais, como ele me chega para ir vivendo neste prazer de preguiça, e eu não pretendo comer depois de morto, para que é ajuntar dinheiro para mais do que preciso? Isso é tirá-lo aos que precisarem. Para o meu enterro, deixo essa incumbência ao senhorio das casas, se as quiser despejadas. Quando não, que faça o que quiser que eu não hei-de ser defunto de cerimónias, quando em vida é coisa que nunca tive. A respeito de minha mulher, pode comer dobrado depois de eu morrer, porque lhe fica uma boca de menos. Com os meus credores, que façam o mesmo quando morrerem. Com os amigos não tenho nada, porque trabalhar para amigos deste tempo é o mesmo que suster água numa peneira. Um amigo de agora o mais que faz, - se o amigo deixa alguém que represente ou dinheiro para representar-, é ir ao enterro, pegar no caixão com o lenço no nariz e a cara para a banda. E se não tem nada disto, nem lá vai, dando por desculpa que era muito seu amigo, que não se acha com ânimo de ir àquele acto; e isto quando um destes era capaz de o matar se lhe rendesse um copo de neve. Com que tenho assentado que o trabalhar muito não serve de nada para o que trabalha; é sempre para um que não trabalha nada. V. gr., meu pai trabalhou muito, deixou-me que comer. Eu não trabalho nada. Aquele que eu deixar, não lhe ficando nada, trabalhará para comer. Não senhor, o que faz a desordem de uns terem muito trabalho e outros nenhum, é não serem obrigados todos a trabalhar para comer. Estão, muitas vezes, dez ou doze a trabalhar toda a sua vida de pé descalço para um andar em sege, quando ele nasceu também para andar descalço. Mas estes abortos duram pouco tempo. Vem muitas vezes um de lá donde nosso Senhor é servido, anda a mourejar, passa por acesso a usurário, deixa um filho carregado com oitenta mil cruzados, este anda de sege, gasta o dinheiro, morre e deixa também um filho que torna a andar descalço como seu Avô. Enfim, somos terra e em terra nos tornamos.

Este era o modo de pensar do meu preguiçoso e ninguém o descia da burra. Vinha muitas vezes um amigo, teimava com ele que fosse tratar de tal ou tal negócio, respondia-lhe ele muito descansado:

— E tratando eu pessoalmente deste negócio quanto tempo me levará? Respondia-lhe o amigo, oito dias.

— Suponha você que eu morro amanhã. De que serve ter principiado o tal negócio?

— Mas podes viver, retrucava-lhe o amigo.

— Então também posso viver seis meses e o Procurador lá cuidará nisso.

— Mas, homem, o Procurador além de demorar, furta. — Deixá-lo furtar. São os pingos do seu ofício e eu não quero tirar a propina ao Andador.

Numa palavra, nunca o puderam tirar do seu modo de viver. Todas as diligências eram baldadas e eu gostava daquele modo de pensar.

A rapariga estava costumada a ver todos os semestres caras novas. Entrou-se ali a introduzir, em ar de vizinhança, um cavalheiro enfronhado em fidalguia, tolo de todos os quatro costados e ignorante por linha recta. Estas coisas todas deram no goto à moça. Ele falou-lhe em amor, ela disse que sim. Ele lembrou-lhe que seria bom fugir. Ela não lhe disse que não. Concluídos os ajustes, trataram de os pôr em execução e, numa madrugada, Bolaverunt de Galhetas.

O preguiçoso acordou, não achou a mulher, mas não lhe deu isso cuidado. Não perguntou por ela. Chegou o jantar, o mesmo. A ceia, o mesmo. Até que lhe disse uma criada:

— Senhor, a Senhora fugiu.

— Pois deixá-la fugir. Não invejo a felicidade de quem foi com ela. — Foi aqui com o vizinho Morgado.

— Deixá-lo ser. Tomara eu saber onde eles estão para lhe dar o abraço de despedida.

— Diz o moço que sabe onde eles param.

— Oh, isso agora é outra coisa. Só isso me faria vestir.

E, com efeito, assim o fez. Pôs-se a caminho com o criado e foi dar com o melro que ficou de cara amarela, visto não ter bico. Mas o preguiçoso entrou a animá-lo e a dizer-lhe:

— Não esmoreça! Vá avante! Eu não venho incomodá-lo, venho despedir-me e dar-lhe um adeus para sempre e beijar-lhe as mãos por tanto favor. Pode ir com todo o seu vagar. Dê cá esse abraço, dê outro à senhora por mim e façam muito boa viagem.

Ora confesso que desesperei vendo tanta pachorra e ao dar do abraço passei para a cabeça do cavalheiro ignorante, e em abraços passei para estas duas cabeças e nestas verão a minha