O Piolho Viajante/XXXI

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XXXI


O Ciúme não serve aos homens senão de se atormentarem uns aos outros. Arte de envenenar os prazeres, método de comer e dormir pouco, caldo substancial que fortalece a vaidade do amável sexo, enfim, remédio que nunca curou ninguém e que tem morto muita gente. Não se admirem de um Piolho falar assim. Porque eu tenho ciúmes, apesar de ser insecto, e verão, no decurso da minha vida, alguns amoricos que me trouxeram aparvoado e que não são qualquer coisa. Por isso tenho muito dó dos ciumentos e, ao mesmo tempo, muita raiva. Isto de amores, Senhores, é o mesmo que negociar. É preciso ter dinheiro, bons caixeiros, boas correspondências, conhecer a intriga, ser político, mentir com toda a verdade, semear aqui para colher acolá, conhecer os géneros, os terrenos para onde exporta e importa, os câmbios, &c. E depois de tudo isto, fortuna. Há por aí alguns indivíduos que em tendo um palmo de cara menos má, uma boa perna, um corpo bem talhado, têm assentado de pedra e cal que devem andar as moças atrás deles. Como estão enganados! Coitadinhos! A praça não se rende pela boa cara do soldado, mas sim pelo valor, pelo estratagema e pelo milagroso dinheirinho. Eu, se me demorasse aqui, tinha que dizer até amanhã e coisinhas menos más. Mas é tirar-me do fio da história e dizer mal, coisa que não é do meu génio. Deus me livre! Quem boa cama fizer, nela se deitará. Sua alma, sua palma. E demais, aonde hás-de ir, não hás-de mentir.

Partiu, enfim, o Cioso com a Cigana tendo a viagem mais trabalhosa que se tem visto. Entrou-lhe logo a pôr preceitos sem ela estar endemoninhada. Que não havia de aparecer a pessoa viva e então isso a uma rapariga que tinha muito medo de defuntos. Estas coisas entraram a desgostá-la e o amor que lhe tinha foi degenerando em ódio, que é quase sempre o que se ganha com o negro ciúme. Ora, demais a mais, todos gostam de ver objectos que lhes sejam agradáveis à vista e muito mais aqueles com que fomos criados. O ar pátrio sempre melhorou o enfermo. A rapariga estava acostumada a ver homens. Não fazia caso deles, nem para eles ria de graça, da forma que lhe tinha ensinado a Mestra. Agora que os não via senão por indulgência, alegrava-se, e já não precisava de dinheiro para se rir. Ria-se de graça e cada risada destas era uma sezão de bater o queixo no meu cioso. Acabava o frio, entrava na febre, seguia-se o delírio, amofinava-se a si, afligia a pobre moça e não havia senão choros, amuos e descomposturas. Depois seguiam-se os preliminares da paz que ficavam concluídos em doze artigos, quatro lágrimas, quatro protestos e quatro meiguices. E no outro dia começava tudo como na véspera. A moça ia-se a entisicar, o moço pondo-se héctico e eu a chuchar um sangue enfrenesiado. Iam-me aparecendo os ossos.

Ora que se lhe há-de meter na cabeça a este homem? Querer que a rapariga fosse cega para a metade do género humano. Que não visse homens. Se ele teima com ela, que não visse mulheres, tinha conseguido o negócio. Porque ela em que caprichava era que, quando ele lhe dizia: — Não faça isto, respondia lá consigo: — Por isso mesmo. E levava-o avante. Sempre fez tudo quanto ele não queria que fizesse. Pregou-lhe ópios que nem o mais hábil boticário. Eu tinha vontade de os contar mas tenho medo que me digam que os não conte. Calemos o bico.

Ultimamente deu noutra: queria que ela não soubesse ler nem escrever depois de ter aprendido. Ora isto não é frenesi que merecia azorrague? Queria que ela estivesse a chorar quando ele vinha para casa mais tarde. Mas nisto lhe fazia ela o gosto porque sempre a encontrava a chorar, mas era por ele vir tão cedo.

Quando estava em casa, andava sempre a sacudir as moscas por amor dos moscas. Enfim, o homem era uma espécie de coelho. Não consentia noutro macho em casa. A rapariga andava já tão arrenegada que, em vendo outro homem que não fosse ele, era uma alma nova que lhe entrava no corpo e estava já pronta a largá-lo e safar-se, ainda que fosse com quem fosse. E ele, tolo, parecendo-lhe que era amado e que, como ela não via outro homem, por força que havia de gostar dele. Vejam quem pode lá amar uma pessoa que lhe serve de sombra e que não olha para parte nenhuma que o não veja! Por mais que se ame, é preciso liberdade. Tanto o homem como a mulher têm ocasiões de catar a sua pulga e de matar o seu piolho (por meus pecados) e querem-se ver sós. O homem não tinha génio para amante. Amava com todas as suas forças e o tempo não está para esses pesos. As mulheres não querem amor platónico, mas também não querem um amor de forçado, sempre de braga ao pé. Meio termo, meio termo, meus Senhores, e antes de menos que de mais, que onde há menos pode ir a mais e onde há mais pode ir tocar na impertinência e as impertinências nem no amor se aturam. Eu já ouvi dizer a uma Tia: — É muito amor de Sobrinho.

Morava um vizinho paredes meias connosco, porta fronteira, servia-se pela mesma escada, tinha muito de tudo porque tinha muito dinheiro e tinha também amor à tal Cigana porque a tinha visto algumas vezes e comunicado outras, apesar das cautelas do meu cioso. Tinha bastante habilidade para se fazer querido. Mas era muito preguiçoso e aqui era o seu forte.

A preguiça vencia o amor, de forma que era preciso à moça ir ter com ele. Porque ele, apesar do muito que lhe queria, não se levantava estando bem sentado, para a ir ver. Ela, por isso mesmo, morria por ele. Nestas entrevistas que tiveram, ajustaram-se a casar, o que fizeram muitas vezes às escondidas do cioso. Mas no dia do casamento foi a mulher para casa do marido. O meu patrão veio para casa e, não achando a sua amada, berrou, botou as casas abaixo e chorava que nem uma criança de mama. Disseram-lhe onde estava, foi bater à porta do noivo, no que o dito não teve dúvida alguma em lha abrir, contando-lhe que estava casado com aquela menina. O cioso dava-se a perros. Mas o preguiçoso estava muito sossegado e seguia outro método muito diferente. Ofereceu-lhe a casa, a sua amizade, que confiava muito nele e na honra de sua mulher, que mesmo quando ele não estivesse em casa ela estava muito às suas ordens e concluiu esta oração dando-lhe um abraço. Em cujo eu passei para o preguiçoso porque gostei do seu sossego e é nesta cabeça que vai a