O Piolho Viajante/XXXV

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XXXV


Talvez que vossas mercês cuidem que o tal homem amigo de todos era um bom homem. Pois não, senhores, era um daqueles, como lá dizem, que tinha cabelo no coração. Espreguiçava-se nos males do seu próximo. E chorava com ele, se era preciso, aqueles mesmos males.Que palavras tão doces, tão brandas. Não se lhe ouvia senão Deus o ajude!, Deus o acompanhe!, Seja tão feliz como eu lhe desejo!, Dê cá esse abraço que há tanto tempo que o não vejo! Que saudades que tenho tido suas!, Quero-lhe como a meu irmão! Não fazia senão oferecimentos mas se o procuravam não era aquela ocasião própria para o servir. Espreitava quanto se passava na vizinhança, o que no outro dia depunha, chorando a infelicidade daquela pessoa, que Deus lhe acudisse. Mas ia contando o que tinha visto. Se via uma rapariga botar um escrito da janela abaixo, contava que tinha visto um homem subir por uma janela acima. Era tão farto que coisa que visse nunca a contava senão em dobro. Recolhia-se sempre às Ave-Marias, e mais, deitava-se pelas cinco horas da manhã. Todo este tempo que mediava, ocupava-o em contemplar na sua vizinhança. Se via um pobre com uma chaga nalguma das partes do corpo, virava a cara para a banda, sem ter ânimo de pôr os olhos naquela miséria nem de lhe dar cinco réis. Ajudava muito o próximo!

Todas as crianças que via eram malcriadas e contava então o ensino que lhe tinha dado seu pai. que era uma coisa por aí além. Contava sempre histórias cheias de caridade. Se via um rapaz gostar de uma rapariga, amaldiçoava-o, que era um perdido, um mau homem, sem honra, sem fé, sem probidade. E ele tinha as suas duas ou três e não se lhe podia fiar nem a fêmea de um colchete. Era capaz de desinquietar o diabo se lhe aparecesse com boa cara.

Talhado para uma denúncia como ninguém! Se lhe pedissem que fosse jurar, que João tinha roubado uma igreja, ainda que o não soubesse, ia só para dizer bem do seu próximo e não ter ânimo de dizer que não. Se o descompunham pedia perdão de joelhos e acabava dizendo: — Pois apesar de tudo quanto vossa mercê me diz, sou muito seu amigo; tomara eu ter ocasião de lho poder mostrar, que mal sabe quanto o estimo; eu lhe perdoo de todo o coração tudo quanto me tem dito e o que me deseja, se é que mo deseja. Muito mais devo eu sofrer aos meus semelhantes.

No fim de tudo isto deu em ladrão e contarei a vossas mercês um caso que lhe sucedeu que me parece digno de ser ouvido.

Ia todas as tardes para casa de um boticário onde conversava pelo modo que tenho dito e todos o tinham por um santo. Em chegando à volta das Ave-Marias, despedia-se. Os amigos teimavam com ele que se demorasse. Mas ele não convinha e o que respondia era: — Nada, meus amigos, recolher com as galinhas. E não houve forças humanas que uma só vez o pudessem fazer recolher depois de elas dadas. Mas que fazia ele? Recolhia-se para casa, punha-se a passear e a rezar de rijo, ceava, deitava-se e em sendo meia-noite levantava-se, vestia o seu jaleco, as suas calças e metia a faca e as suas duas pistolas na algibeira. Saía pé ante pé e ia ter com a companhia de ladrões aonde estava alistado. Feitas as caravanas daquela noite, repartiam os despojos e ele nunca queria senão dinheiro. Uma bacia de prata que lhe coubesse e valesse vinte moedas, em um dos companheiros lhe dando duas em dinheiro não queria mais nada, de forma que o que lhe tocava do negócio sempre era em dinheiro. De madrugada recolhia-se muito de mansinho para sua casa, deitava-se outra vez, levantava-se pelas oito horas, tornava a passear e a rezar, saía depois. Ia ouvir missa, jantava, recolhia-se a casa, dormia a sua sesta e, em sendo quatro horas, de Verão, ia para a botica conversar com os amigos, e de Inverno saía às duas, ia primeiro tomar o sol, depois botica e outra vez casa, recolhendo-se sempre com as galinhas. E assim ia passando a vida às mil maravilhas. Mas o mundo, que já estava enfastiado de o aturar, e o diabo que queria lá um que ao recolher das galinhas estivesse em casa para descansar o cão que lhe guarda a porta, fez com que prendessem o capitão da tal quadrilha por uma galantaria mais avultada que tinham feito uma daquelas noites, em que coube ao nosso amigo de todos perto de seiscentos mil réis, (já se entende, em dinheiro). Pregaram com o capitão no segredo e ele foi logo depondo quem eram os companheiros, entre os quais entrou o meu bom homem Foi preso e vasculhada a casa em que não encontraram coisa alguma de suspeita. Encaixaram-no também no segredo mas ali não havia que arranhar. Ali não tinha o Ministro que fazer nada de confissão, apesar de que quando estava solto se confessar a miúdo. O capitão teimava e reteimava que aquele era um dos ladrões. O Ministro chamava-lhe insolente, que era mentira, que todos diziam bem daquele homem. Ao que o capitão clamava: — É falso, senhor. É um dos principais. Metam-no aqui num segredo ao pé de mim, espreitem o que eu converso com ele e verão se é quanto digo.

Assim se fez. Puseram-no paredes meias e puseram-se à escuta. Quando foi alta noite, gritou o capitão: — Ah, senhor Zacarias? — Senhor Zacarias?, respondeu o amigo. Que é lá isso! Quem me chama

— Eu, senhor Zacarias.

— Não o conheço pela voz.

— Pois vossemecê não conhece o seu amigo e companheiro Mamede? Ah, senhor Zacarias, este último furto botou-nos a perder! Nunca tal intentássemos! Mas, ao menos, negue vossemecê que eu farei o mesmo.

— Bata lá para outra porta, amigo, não é cá para esta. Se é ladrão, pague o que tem feito, mais os seus camaradas, que eu, graças a Deus, não tem ninguém que me dizer. Sempre trouxe o meu capote muito redondo.

Desenganaram-se. O homem deu uma justificação com toda a sua vizinhança e com os amigos da botica, que sempre se recolhera com as galinhas. Os outros nada provaram, antes às avessas, tudo lhe provaram. Apenas declarava a sentença que o amigo de todos saísse livre e solto com o corpo todo, e os outros que deixassem primeiro a cabeça num lugar que lhes destinaram e que dispusessem do resto à sua vontade. Tornámos para nossa casa e, por acabar esta história, sou obrigado a contar o que ouvi dizer alguns anos depois (porque eu pouco mais me demorei na sua cabeça, como verão), que quando morreu se acharam no seu testamento estas significativas palavras: Quem quiser roubar e matar a seu salvo na terra onde fui nascido, é preciso que tenha o cuidado de se recolher com as galinhas. E é assim que um maroto destes estabelece o seu crédito no bairro aonde mora e nos outros faz toda a qualidade de desaforo. Mas por onde se indaga da conduta do homem é pela vizinhança. Tem roubado nos outros bairros trinta para dar dez no céu e o negócio é maravilhoso. Este tal homem era tão gírio que quando tinha na sua rua algum doente pobre, saía de tarde para o campo a furtar uma galinha, no que era eminente, e vinha para casa depená-la, apesar de a já ter depenado à dona. E ia dá-Ia pelo amor de Deus ao doente e todos ali pela rua lhe chamavam santo e, na verdade, parecia-se com eles, mas das aparências nem sempre se tiram realidades. Tenho visto pessoas com duas rosas na cara que parecem que vendem saúde e são doentíssimas. Não senhores, não está o caso em mostrar bondade. Está em tê-la no coração. Quantas vezes a boca está cheia de açúcar e o estômago amarga como fel. As vezes dá-se um beijo e nele um bico de alfinete envenenado. É preciso cuidado com estes negociantes de palavras de caramelo feito de açúcar mascavado. Há tal que ajoelha para melhor dar uma facada. Eu conheci um que dava, por amor de Deus, um remédio para sezões e misturava-lhe vidro moído.

Mas damos por concluída a vida deste bom homem, amigo de todos, e vamos contar o modo como eu fui ter a outra cabeça. Continuámos no mesmo costume de ir para a botica e de recolher com as galinhas mas, como então não havia que fazer pelo ofício, porque ainda se não tinha metido com nova quadrilha, não tinha dinheiro, pois o que a justiça lhe tinha achado tinha sido justiçado. E, nestes termos, tentou negociar e até para mudar de vida, para ter outra que fosse mais decente e que ninguém tivesse que lhe dizer. Sentou de negociar em contrabandos para o que procurou um companheiro e achou-o de molde. A tal botica ia um homem com o semblante acarrancado, jogava à arrenegada e ele mesmo era arrenegado de ofício. Era um homem que nunca tinha sido amigo de pessoa alguma. Chamava-se Germano e era inimigo do género humano. Com este tal é que tratou a empresa e a negociação. Foram-lhe aceitas as condições e uma das quais foi que viveriam juntos para maior economia.

Veio para casa o novo dono e companheiro e eu, que tinha viajado na cabeça de um homem que era amigo de todos, tive vontade de ir à cabeça de um que não era amigo de ninguém para o que, uma noite, (que eles deixavam luz acesa), despedi-me do meu bom homem em latim e fui para a cabeça do mau, na qual faço a