O Sertanejo/I/XI

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O Sertanejo por José de Alencar
Primeira Parte, Capítulo XI: Comadre

A COMADRE.

     Flor voltara a embalar-se na rêde, e Justa fazia outra vez corrupiar o fuso ás castanholas de seus dedos ágeis.

     A donzella correu com os olhos toda a casa, como se esperasse a presença de mais alguem : foi ao terreiro da casinha e frustrada em sua esperança, dirigiu-se á ama com uma carinhosa exprobração :

     — Que é feito de Arnaldo, mamãi Justa ? Há três dias que chegámos e ainda ninguem o viu.

     — Arnaldo ? Minha filha não sabe ? É verdade que eu nem me lembrei de contar-lhe.

     — O que ? perguntou a moça inquieta. Que lhe aconteceu ?

     — Nada de mal. Foi que, no mesmo dia da sahida do senhor capitão-mór, elle veio despedir-se de mim, que tambem ia fazer uma viagem.

     — Aonde ?

     — Não disse ; mas eu cuido que é para as bandas da Serra Grande, atraz de uns barbatões que o vaqueiro Ignacio Góes pediu-lhe para agarrar. Nisso de campear não ha quem lhe ganhe. Nem o pai que era afamado. Em todo este sertão não havia vaqueiro como o Sr. Louredo, meu defuncto que Deus tem. Pois o filho ainda passa. Minha Flor não se lembra daquelle novilho que elle foi pegar lá no fundo do Piauhy ? Gastou três mezes ; mas trouxe o mocambeiro amarrado á argola da cilha.

     A donzela prestava á ama vaga attenção, distrahida por uma idéia que a noticia suscitara em seu espirito. Mas, desprendendo-se dessa scisma interior, tornou á conversa.

     — E mamãi não tem medo que lhe aconteça alguma cousa, ahi por esses desertos ?

     A sertaneja abanou a cabeça com um gesto de confiança, e o rosto banhado de um ingenuo orgulho :

     — Que lhe hade acontecer ?

     — Eu sei ? algum perigo.

     — Está defendido. Enquanto tiver no pescoço o bentinho, não lhe acontece mal.

     — Aquelle relicario vermelho ?

— Ninguem sabe quem deitou, respondeu a sertaneja affirmando com a cabeça. No mesmo dia de nascido, appareceu com elle e não se viu entrar em casa viva alma, nem a criancinha sahíu da minha rêde. Só quando eu acordei, ainda assim como sonhando, senti um cheiro de incenso e vi uma alvura que me cegou. Havia de jurar que eram azas de anjo. Quando olhei para o pequeninho elle estava rindo-se e a brincar com o relicario, como si já tivesse juizo para entender.

— Nunca me contou isso, mamaãe Justa ! observou a menina sorpresa.

     — Meu homem não gostava que eu falasse nestas cousas, e então ficou no esquecimento o milagre do bentinho. Mas o senhor capitão-mór e a dona sabem tudo.

     — Então esse relicario tem a virtude de livrar a pessoa de qualquer risco e desastre ?

     — De todo o perigo, seja do fogo ou d'agua, de ferro ou veneno ; respondeu a ama com o tom da mais profunda convicção.

     — Esta certeza que você tem, mamãe Justa, é que eu não vejo. Só por que não se sabe donde veio o relicario ?

     — Pois não está se vendo, meu bem, que foi um anjo que o poz ao pescocinho da criança, mandado por Nossa Senhora da Penha de França ? Porque eu o tinha oferecido à Mãi Santissima para seu devoto, quando ainda o trazia nas minhas entranhas, e então ella quiz protege-lo. Agora repare que, sahindo Arnaldo um menino tão travesso que ninguem podia com elle, nunca lhe aconteceu nada, mesmo nada ; nem um arranhão de unha de gato, ou uma queda da goiabeira. Sumia-se um dia inteiro, mettia-se no mato, ou andava cercando os magotes para montar nos poldros brabos, e estava mais seguro por lá, do que se eu o guardasse aqui junto de mim, no terreiro. Não se lembra daquella pobre, ahi para as bandas de Russas, que emquanto ensaboava uma roupinha, os porcos lhe comeram o filho, mesmo dentro de casa ?

     — Coitada ! Esqueceu-se de fechar a porta.

     — Si tivesse proteção do céo pdia deixar aberta, ainda que lhe andassem as onças no terreiro. Era o mesmo que si um benzedor lhe fizesse o signo Salomão no batente : ninguém entrava.

     — Agora por fallar nas travessuras de meu collaço, mamãe Justa, lembrou-me de uma coisa que me sucedeu na viagem.

     — Pois conte, meu querubim, que estou mesmo anciosa de saber como lhe foi por lá pelo Recife, se achou muito bonita a cidade e teve festas e regosijo ?

     — Depois contarei tudo. Agora é só o que succedeu na ida.

     — Pois sim.

     — Estavamos já perto do Recife e tinhamos atravessado um rio chamado das Tabocas, onde se deu uma grande batalha no tempo dos Flamengos.

     — Sei ; o velho Anselmo sempre fallava nessa guerra que tambem elle andou por lá pelejando.

     — Eu ia adiante equipando, quando um cavallo bravio, que andava pela varzea á pastar, correu furioso para brigar com o lazão.

     — Jesús ! Que perigo !

     — Foi apenas o susto. Quando o cavallo se atirou como uma onça para morder o lazão, um homem appareceu não sei d'onde que o agarrou pelas orelhas e saltou em cima.

     — Bravo ! Já estou-lhe querendo bem sem o conhecer.      — O cavallo corcoveava pela varzea, que parecia uma cabra ; mas o sujeito metteu-lhe as esporas e lá se foram os dois aos trancos, pela varzea fóra. Foi então que me lembrei de Arnaldo quando montava em pello nos poldros bravos, e andava á escaramuçar pelo campo até amansa-los.

     — É verdade ; era um capetinha. Mas o susto não fez mal á minha filha ? perguntou a ama com terno disvello, como se fallasse de um perigo recente.

     — Não, nem disse nada á minha mãe para não affligi-la. O mais curioso, porém é que o tal sujeito que me livrou dava uns ares com Arnaldo.

     — Deveras ?

     — Eu não lhe vi a cara, porque elle tinha um lenço de rebuço, e tambem foi um relance, emquanto montava. Mas o corpo, nunca vi cousa mais semelhante.

     — Que me está dizendo, meu cherubim ?

     D. Flor fez uma pausa de hesitação, ao cabo da qual fitou os olhos na ama :

     — Quem sabe si não era mesmo meu collaço, mamãe Justa ?

     —Elle ? Arnaldo ? Que idéia ! se andava tão longe, por este sertão á dentro ! Capaz de fazer o que o outro fez, isso sim ; e mais, e muito mais, por meu cherubim, que elle é meu filho e criou-se nestes peitos.

     — Não podia ser elle ! disse Flor com a voz lenta, e recaindo na scisma anterior.

     Porventura seu espirito, recordando o facto e combinando-o com a noticia da ausencia que Arnaldo fizera da fazenda, laborava em duvida, apezar da denegação que lhe escapara dos labios.

     Ouviu-se um manso ballar e um piso rijo mas compassado. Com pouco appareceu na porta que dava para a cozinha uma bonita cabra rajada, das maiores que se criavam naquelles pingues sertões.

     Ao avista-la, Justa estendeu a mão dizendo :

     — Ande cá, comadre : venha dizer adeus á sua filha, que você ainda não viu.

     A cabra como se entendesse a sertaneja, caminhou com passo lento e grave qual convinha á uma matrona e veio apoiar a cabeça na espadua a donzella que abraçou e acolheu com meiguices ao lindo animal.

     — Adeus, mamãe bebé, como passou ? Vamos á saber... Teve saudades de sua filha ? Qual ! Você é uma ingrata !

     D. Flor que levantava com a mão esquerda a cabeça da cabra para fallar-lhe, fez com o indice da mão direita um gesto risonho de ameaça infantil :

     — Porque não me foi encontrar no terreiro com sua comadre, quando eu cheguei ?

     — Estava esperando por Arnaldo ; observou a Justa. É um faro que ella tem para conhecer aquelle filho, que é uma cousa por maior. Desde tres-ant'hontem á tarde, quando minha filha chegou, que ella começou á chamar, á chamar, e não sahiu mais lá do cocoruto á espera delle.

     — Então a senhora quer mais bem á elle do que á mim ? atalhou a donzella voltando-se para a cabra com uma feição graciosa que debalde pretendia tornar-se em carranca.

     — É para pagar o mais que eu lhe quero aá você, meu cherubim, replicou Justa rindo-se.

     — Não deve ser !

     — Mas si é !

     Flor dirigiu-se outra vez á mamãe bebé.

     — E que noticias me dá de seu querido, dona ? Bem mostra que é seu filho ; ingrato como a mamãi.

     — Ella que appareceu, é que Arnaldo não tarda por ahi.

     A cabra fitou seus olhos de topazio cheios de intelligencia na donzella ; volveu a cabeça para fóra e afastando-se com o mesmo passo cadente foi collocar-se no meio da varanda, voltada para a porta.

     Ahi ficou immovel até que, decorridos instantes, ergueu a pata dianteira e começou com ella a bater o chão, recuando á passo e passo para logo depois avançar e retrahir-se de novo. Afinal caminhou direito á porta.

     Arnaldo pisava a soleira.

     O sertanejo dos dias antecedentes, o filho do deserto, livre e indomito como o cervo das campinas, ficou la fóra. Quem entrou foi um mancebo timido e acanhado no qual todavia a apparencia rustica do trajo e o enleio do gesto não escureciam a nativa belleza do perfil e o molde airoso do talhe.

     O filho e a mãe abraçaram-se estreitamente no meio da varanda, onde se encontraram correndo um ao outro. Depois desse desaffogo das saudades, Justa voltou ao estradinho levando o filho pela mão até o lugar onde ficara D. Flor.

     — Adeus, Arnaldo ! disse a donzella com ingenuo prazer.

     O sertanejo parara em face da donzella com os olhos baixos e respondeu em voz submissa :

     — Adeus, Flor.

     Ou por espontaneo movimento, ou para subtrair-se ao enleio dessa posição, Arnaldo voltou-se para a cabra que lhe seguira os passos, e estendeu-lhe as mãos. O carinhoso animal pousou nas palmas de seu filho de leite as patas dianteiras, e dahi com um salto alcançou-lhe as espaduas.

     Ficaram assim os dois abraçados. Arnaldo prolongava de proposito a carícia, perplexo sobre o que devia fazer. Por fim a cabra separou-se e foi sentar-se defronte no seu canto, com os olhos fitos no grupo.

     — E á mim não se abraça ? perguntou D. Flor á sorrir.

     Arnaldo estremeceu. Vendo-o attonito e mudo, Justa impelliu-o ao de leve pela mão.

     — Anda d'ahi, Arnaldo ; abraça tua collaça. Estás tonto da viagem ?

     — Deixe-o ; eu vou abraçar mamãi bébé ; disse a donzella, zombando do vexame de seu irmão de leite.

     — Ora vejam que partes ! insistiu a ama.

     Levantando-se passou o braço pela cintura de cada um, obrigando-os ambos á approximarem-se.

     D. Flor pousou timidamente a mão no ombro do rapaz e sua cabeça roçando-lhe o peito ouvia-lhe as rijas e violentas palpitações. Quando desprendeu-se do rápido abraço leve rubor carminou-lhe as niveas faces; mas apagou-se logo no gesto da linda fronte, a qual erguera-se com a expressão altiva e senhoril que era o toque de sua belleza.

     Arnaldo não se animára á cingir o talhe da donzella. Si tocara-lhe o corpo, fora impulso da mãi ; logo, porém, recuára voltando as costas para esconder a vehemente commoção.

     Sua phisionomia tinha a livida rigidez de um espectro. Calcava a mão sobre o peito para comprimir o coração, que saltava-lhe aos impetos, como um poldro selvagem. Deu alguns passos para a porta vacilando como um ebrio.

     — Onde vás tão cedo, Arnaldo ? perguntou Justa.

     Nesse momento soou la fóra, para o lado da varzea, grande estrepito. O gado mugia ; os cães latiam furiosos e no meio do alarido destacavam-se vozes humanas á clamar :

     — Ecou !... Ecou !... Arriba, gente ! Isca, Roldão !... Valente !...

     Ao primeiro rumor, Arnaldo assumiu-se vibrando a fronte. Já era outro homem, ou antes, tornara ao que era. Do peito vigoroso rompeu-lhe o brado formidavel que nenhum vocabulo traduz, rugido humano com que o sertanejo affirma no deserto o imperio do rei da criação.

     De um impeto ganhou a porta e desapareceu.