O Sertanejo/I/XII

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O Sertanejo por José de Alencar
Primeira Parte, Capítulo XII: Alvorôço

ALVOROÇO.

     O ponto de onde vinha o alarido era a varzea fronteira á casaria da fazenda.

     O capitão-mór Campello sahiu fora ao terreiro para conhecer a causa do alvoroço. Agrella o seguia.

     Não tardou que se reunissem ao grupo D. Genoveva e D. Flor, que chegara acompanhada por Justa, e curiosa de saber a razão do ímpeto de Arnaldo.

As criadas e escravas acudiam á janella emquanto os famulos e aggregados corriam ao logar do acontecimento para melhor verem o que ali estava passando, e sendo possivel, tomarem parte na funcção.

     Na varzea já estavam muitos individuos, pela maior parte moços ou creados do vaqueiro, que actualmente no sertão designam com o nome de fabricas. Fazia largo cerco ao redor de uma coroa de mato, balsa emmaranhada que irriçavam os talos espinhosos das carnaubas.

     Armados uns de arcabuses e clavinotes, outros de parnahibas e facas do mato, excitavam-se mutuamente á avançar ; nenhum contudo se resolvia a ser o primeiro. Não que lhes faltasse a coragem, provada nos azares da vida aspera do sertanejo ; mas o perigo desconhecido nunca deixa de infundir um vago assombro que si não abate o valor, entorpece a resolução. Não são todos que ousam affronta-lo á sangue frio.

     Até aquelle momento ignorava-se o que havia no capoão ; e a cousa tomava feição de misterio que nesses tempos supersticiosos dava thema para as mais absurdas visões.

     Um dos caens do curral tinha farejado o quer que era no matagal e dera aviso. Logo acudiu toda a matilha que não cessava de latir e com ella os rapazes, que a estumavam para investir.

     Entretanto a brenha permanecia silenciosa ; não se ouvia o menor sussurro e as folhas do arvoredo apenas afflavam com o brando sopro da viração. Esta placidez, que devera tranquillizar, era precisamente a causa do terror, porque transmittia ao accidente um aspecto estranho e inexplicavel.

     — É onça com certeza ! dizia o José Pina.

     — Se fosse onça, já tinha espirrado.

     — Eu conheço pelo latido do Ferro !

     — Para mim, não é sinão defuncto ! observou o Quinquim da Amância.

     — E mais de um.

     — Qual defuncto ! exclamou o João Coité, que chegava esbofado da corrida.

     — Então é o lobis-homem !

     — Cousa peior ! Sou capaz de apostar minha alma em como não é outro sinão o velho bruxo !

     — É verdade ! exclamaram muitas vozes em roda.

     — Vamos a ver, que é o mais curto  observou o Burity.

     — Não é o filho de meu pai que se mette nessa ; observou João Coité. Se fosse gente ou cousa deste mundo, aqui tinham um homem que vale por tres, mas como tinhoso não quero sucias.

     Esta profissão de fé arrefeceu o enthusiasmo dos companheiros e houve quem suscitasse a ideia de chamar o capellão para atacar o inimigo com as armas da Egreja, e obriga-lo á sahir do mato onde se encafuara.

     A' esse tempo chegou Arnaldo á várzea. Colhendo na passagem a nova do que havia, enrolou no braço direito o gibão de couro e com a faca desembainhada investiu para o mato, onde penetrou e desappareceu.

     Foi um instante de ansiedade para os que ali se achavam. Arrependidos uns de não terem acompanhado o destemido rapaz, outros de não haverem obstado aquella temeridade, aguardavam o desfecho do estranho accidente.

     João Coité, convencido de que Arnaldo já estava embruxado pelo velho, preparava-se para algum acontecimento e por causa das duvidas tinha o polegar á altura da testa promto para benzer-se.

     O Quinquim da Amancia, que lembrara-se do lobis-homem, fez com a vara de ferrão um grande signo-salomão e saltou dentro, no que o acompanharam todos os rapazes, crentes de que assim ficavam preservados de virarem raposas.

     — O que é ? o que é ? gritou o Manuel Abreu ? que chegava com o resto de sua gente.

     Nessa occasião ramalhou o mato ; logo depois abriu-se a folhagem e appareceu Arnaldo puxando pela orelha á um tigre enorme, que o seguia gacheiro e humilde.

     O assombro da gente durou até que o sertanejo com o singular rafeiro sumiu-se na ponta do mato, que se prendia á floresta e formava como um braço arqueado á cingir a varzea.

     Não foi menor a sorpreza das pessoas que observavam a scena do alto do terreiro. As mulheres não tiveram animo de a acompanhar até o fim, horrorisadas com a idéia de que a fera pudesse de repente lançar-se á Arnaldo ou á qualquer dos outros e estraçalha-los. D. Flor tambem sentiu um calafrio que obrigou-a á cerrar as palpebras ; porém tinha imperio sobre si e alma para admirar os rasgos de coragem.

     O que maravilhava á esses homens valentes e habituados ás façanhas do sertão não era a coragem de Arnaldo, mas a submissão do tigre.

     A luta de um homem só contra o tyrano das florestas brasileiras não era novidade : sabiam que o sertanejo affronta a onça e abate á seus pés. Se elles não o tinham feito, conheciam ou de fama ou pessoalmente mais de um caçador para quem essa proeza era divertimento.

     O tigre brasileiro, apezar de Buffon que o não conheceu, é um animal formidavel pela força e pela intrepidez. Há exemplo de penetrar em um rancho ou acampamento, e arrebatar delle um homem, zombando dos tiros com que o perseguem os companheiros da victima.

     Arrasta o cavallo ou boi que matou e faz frente aos caçadores, afastando-se com rapidez não obstante o grande pezo da carga. Azara refere o caso de um que levou com o boi morto outro boi vivo, preso à mesma canga.

     Toda essa força e braveza cedem á agilidade do homem. Não compreendia, porém, a gente da fazenda o imperio que o rapaz sertanejo exercia sobre a féra á ponto de a levar á tréla como a um sabujo.

     Da mesma forma que o leão, a panthéra e todo animal por mais cruel que seja, o tigre brasileiro pode ser domesticado. Naquella epocha havia caçador nos sertões que tinham dessas fantasias ; embora mais de uma vez fosse obrigado á ir á colla do fugitivo, á quem apertavam saudades da brenhas.

     Uma coisa, porém, era o tigre manso e outra muito diversa o tigre bravio, que sahira da matta açulado pela fome e que deixava-se arrastar por Arnaldo, sem oppor-lhe a menor resistencia, nem dar qualquer sinal de colera.

     Não atinando com a explicação natural do facto, buscava-a aquella gente na superstição. Attribuiam todos á feitiçaria esse poder incomprehensivel que o sertanejo exercia sobre a féra.

     João Coité era de opinião differente. Para o visionario aquella onça não era o que mostrava, porém o bruxo velho Job, que tomara a figura do animal, afim de não ser conhecido.

     — E sinão, vejam como veio correndo o outro enguiço de Satanaz que elle já enfeitiçou ? Aquillo é que sentiu o fortum de enxofre.

     Já se tinha dispersado a gente, e recolhidos aos aposentos ou tornados ás labutações jornaleiras, os aggregados cismavam sobre o caso, que dava thema vasto á tagarelice.

     No terreiro, á sombra da oiticica, ainda se achava o capitão-mór Campello com seu tenente Agrela e o padre Telles, capellão da fazenda.

     Já entrado em annos, porém ainda verde e bem disposto, o sacerdote, mais por indole do que por estudo e convicção, dava o exemplo de uma tolerancia benevola que todavia estava bem longe da simonia de certos padres desabusados, como então os havia nas colonias, e para os quais a religião era uma industria, o altar um balcão.

     Praticavam as tres pessoas acerca do facto á que tinham assistido, e o capitão-mór, perplexo na opinião que devia formar sobre tão estranho caso, ouvia aos seus dois ajudantes, o do espiritual e o do temporal  :

     — Tem-se visto sujeitos neste sertão que lidam com as cobras mais assanhadas, como a cascavel e a jararaca, as enrolam ao pescoço ou as trazem no seio sem que lhes façam mal ; observava Agrela.

     — Eu conheci nos Cariris, aderiu o capellão afirmando com a cabeça, um caboclo que tinha criação dellas.

     — Esse poder que uns tem sôbre as cobras, outros o terão sôbre as feras, como acabámos de ver ; tornou Agrela.

     — Mas esses não são feiticeiros, Agrela ? O seu poder não vem de artes occultas ?

     — Assim pensa toda a gente, Sr. capitão-mór. Mas para mim tenho que são cousas naturaes, ainda que não as sei explicar.

     — Que dizeis á isso, padre Telles ? perguntou o fazendeiro voltando-se para o capellão.

     — É fora de toda a dúvida que neste caso admiravel do qual fomos testemunhas, assim como no das cobras e outros semelhantes, ha uma virtude sobrenatural, que não pertence ao mortal, mas lhe foi transmittida por um poder superior.

     — Qual poder, padre Telles ? O do inferno ? interrogou Campello.

     — O do céo, Sr. capitão-mór. Deus, como ensinam as sagradas escripturas, póde operar o milagre, ou por si directamente, como fez Jesus ressuscitando o Lazaáro e restituindo a vista ao cego, ou por meio dos Santos e de suas reliquias. Assim foi que Moysés separou as ondas do Mar Vermelho e Jozué fez parar o sol ; e tambem que a tunica de Elias dividiu as aguas do Jordão, o sudario de Paulo curou os enfermos, os ossos de Eliseu ressuscitaram os mortos, além de outros innumeros exemplos.

     — Acreditaes então que fosse um milagre ? interogou novamente o capitão-mór.

     — Acredito que o Senhor quiz salvar o filho da Justa, ou por intercessão do santo da especial devoção da mãi, ou pela virtude de alguma reliquia preciosa que o rapaz traga consigo.

     — Elle tem um bentinho ! observou o capitão-mór pensativo ; e o traz desde que nasceu.

     — Si a onça conservasse seu natural feroz e carniceiro, com certeza estava perdido o rapaz. E como o modo de salva-lo era esse de amansar a féra, o que se viu mais de uma vez nos circos romanos, e que o Senhor especialmente usou com Daniel na cava dos leões, não ha cousa que nos espante naquella acção que presenciamos, pois infinito é poder de Deus, e mais estupendos milagres tem operado para manifestar aos mortais sua onipotencia.

     — Amem ! disse o capitão-mór que se descobrira respeitosamente, sendo imitado no gesto e na palavra pelo ajudante.

     Terminada a pratica religiosa, o padre Telles, obtendo venia, retirou-se ao seu aposento. Permaneceram no terreiro o capitão-mór e Agrela.

     Esses dois homens formavam no jphisico, tanto como no moral, perfeito contraste. De Campello já se disse que era sujeito robusto e corpulento, de marca superior ao estalão humano. Agrela, franzino e de exigua estatura, parecia ao lado do fazendeiro um espadim á fiveleta de um matamouro.

     Quanto ao moral, o que tinha o capitão-mór de pausado e formalista, pagava-lhe o ajudante em viveza e prontidão. O tempo que o primeiro consumia á tomar uma resolução, bastaria ao outro para realisa-la.

     Dahi provinha naturalmente a volubilidade e e inconstância do genio do moço, assim como a tenacidade do velho em sustentar sua resolução, uma vez tomada.

     Entretanto por contraprova do anexim, que — dois gênios iguais não fazem liga, — fora precisamente o contraste daquellas duas naturezas a solda que as unira á ponto de já não fazerem mais de uma pessoa, embora repartida por dois corpos.

     O capitão-mór Gonçalo Pires Campello, alli presente, não seria o mesmo opulento fazendeiro que era, commandante das ordenanças da freguesia de Santo Antonio de Quixeramobim e o maior potentado daquella redondeza, se arredassem delle o Agrela, seu ajudante.

     Equivaleria á amputar-lhe uma faculdade d'alma e a mais ativa. A energia, de que o velho dera tantas provas e que lhe granjeara admiração e rspeito, desappareceria como a rijidez do aço privado de sua tempera.

     Nem podia ser d'outra forma, pois essa energia resultava da combinação dos dois caracteres. Com a volubilidade de seu genio, Agrela tinha em qualquer circunstancia um alvitre pronto e o comunicava ao capitão-mór, em cuja vontade lenta, mas robusta, essa lembrança tomava logo a força de uma inabalavel resolução.

     A mesma transfusão operava-se ácerca do pensamento. O capitão-mór, que tinha aliás o senso claro e recto, para não dar-se ao trabalho de meditar, incumbia o seu ajudante dessa occupação secundaria e limitava-se á colher a summa. Não admira, pois, que, apenas retirado o padre Telles, se voltasse o Campello para o mancebo e lhe perguntasse  :

     — Que vos parece, Agrela ?

     — De que, Sr. capitão-mór ? Do que disse o padre Telles ?

     — Sim, homem ; estaes pelo milagre ?

     — Minha idéia é, como já disse ao Sr. capitão-mór, que estas cousas não são comuns ; mas tambem não se podem chamar impossiveis. Ellas tem uma causa natural, conhecida dos que especulam estes arcanos da natureza.

     — Ha então uma causa occulta ; e essa tanto pode ser milagre como feitiçaria.

     — O sr. capitão-mór hade ter visto muitas vezes como eu o passarinho que vae piando meter-se elle mesmo na boca da cascavel.

     — É verdade.

     — Ahi está uma cousa bem natural e de todos os dias que já ninguem estranha. Esse terror que a cobra causa ao passarinho á ponto de obriga-lo á entregar-se, eu acredito que um homem forte e valoroso inspire á outro homem, quanto mais á um tigre, á ponto de torna-lo manso e inoffensivo. E o Sr. capitão-mór tem em si uma prova desse predominio.

     — Então pensaes que em tudo aquillo não houve sinão a valentia do rapaz e o medo da onça ?

     — Assim me parece.

     — Acertastes, Agrela ; não foi outra coisa.

     Nesse instante viu o ajudante á Arnaldo que subia a encosta na direção do terreiro ; e indicou-o ao Capitão-mór.