O Sertanejo/II/I

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O Sertanejo por José de Alencar
Segunda Parte, Capítulo I: A saída

Raiava uma formosa madrugada.

Os primeiros vislumbres desmaiavam no céu o azul denso das noites dos tróipicos; e para as bandas do nascente já estampavam-se os toques diáfanos e cintilantes da safira.

A frescura deliciosa das manhãs serenas do sertão no tempo do inverno derramava-se pela terra, como se a luz celeste que despontava trouxesse da mansão etérea um eflúvio de bem-aventurança.

A Oiticica, assim como em geral as vivendas campestres, despertava sempre aos primeiros anúncios do dia; e a labutação jornaleira começava alí ainda com o escuro. Nesse dia, porém, madrugara mais que de costume.

Quando o sino da capela bateu as matinas, e segundo uma usança militar observada nesta e em outras fazendas, com os rufos do tambor e os clangores da trombeta soou o toque da alvorada, já havia na herdade rumor e agitação, especialmente para o lado da cavalariça.

A luz das bugias e candeias do interior avermelhava os vidros das janelas; e por êsses painéis esclarecidos passavam as sombras das pessoas que moviam-se pressurosas dentro da vasta habitação.

Pouco depois ouviu-se no terreiro tropel de animais de sela, que os pagens para alí conduziam à destra. Ao clarão dos archotes, podia-se distinguir o vulto do Agrela e dos homens da escolta.

Abriu-se a porta principal da casa, e apareceu no patamar o capitão-mór com a família. As senhoras montaram rapidamente, servindo-lhes de escabêlo o degrau da escada, e a comitiva partiu à marcha batida.

Os cavalos aspiram ruidosamente as emanações do campo, e soltam os breves e alegres nitridos, que são o riso de contentamento do brioso animal. Ao estrépito do passo cadenciado, os passarinhos, adormecidos ainda, espertam assustados e batem as asas num vôo brusco.

Adiante vão Flor e Alina: seguem-se D. Genoveva com o capitão-mór e logo após o padre Teles, e o Agrela à frente de uma escolta menor da que sempre acompanhava o fazendeiro em suas jornadas.

Ao chegarem à várzea, saíu-lhes ao encontro Arnaldo, que também incorporou-se à comitiva, tomando lugar à esquerda do Agrela, depois de saudar ao fazendeiro e família.

Já o crepúsculo da manhã começava a bruxolear as formas indecisas das árvores, que todavia ainda flutuavam pela várzea como visões noturnas embuçadas em alvos crepes.

D. Genoveva e as moças, vestidas de amazonas, com seus roupões de fino droguete guarnecido de alamares, tranjavam com o mesmo, senão maior, luxo e primor das fidalgas de Lisboa; pois naquele tempo era sobretudo nas casas dos opulentos fazendeiros do interior que se encontravam o fausto e os regalos da vida.

O capitão-mór ia, como a Agrela e Arnnaldo, vestido à sertaneja, todo de couro, da cabeça aos pés; e empunhava como êles, à guisa de lança, uma aguilhada, que chamam hoje vara de ferrão, e cujo conto apoiava no peito do pé. Trazia também preso ao arção da sela o laço de rêlho trançado.

O trajo do fazendeiro distinguia-se dos outros pela riqueza. Era de uma camurça finíssima, preparada de pele de veado, e toda ela bordada de lavores e debuxos elegantes. A véstia, o gibão e as luvas tinham os botões de ouro cinzelado; e eram do mesmo metal e do mesmo gôsto, o broche que prendia a aba revirada do chapéu, e as fivelas dos calções ou perneiras.

A aguilhada também fazia diferença das outras. A haste cuidadosamente polida, tinha o lustre de um verniz escarlate usado pelos índios. O conto era de prata, como a ponteira, onde engastava o ferrão.

Todavia Arnaldo não trocaria por esta a sua vara de craúba, que êle com a ponta da faca havia nas horas de repouso coberto de toscos desenhos, onde talvez escrevera a história de sua vida. Cada uma daquelas miniaturas era uma cena do grande drama do deserto.

Nesse dia o moço sertanejo tinha juntado às suas armas habituais, que eram a faca de ponta e a larga catana, um par de pistolas que levava à cinta por dentro do gibão, e o bacamarte que herdara do pai. Sua fisionomia revelava atenção múltipla e intensa; enquanto o seu olhar rápido perscrutava os arredores, seu ouvido atento colhia o menor rumor da floresta.

Havia naquela época entre os abastados criadores da província essa bizarria de se vestirem de couro à sertaneja, e associarem-se assim por mero recreio às lidas dos vaqueiros, cujo ofício desta arte enobreciam. Nisso não faziam senão imitar os castelões e fidalgos da Europa que também se trajavam de monteiros, à moda rústica, para ir à caça.

O sertão do norte oferecia então aos ricos fazendeiros uma ocupação idêntica à das correrias de lôbos e outros animais daninhos, em que se empregava a atividade dos nobres no reino. Eram as vaquejadas do gado barbatão, que se reproduzia com espantosa fecundidade, por aqueles ubérrimos campos ainda despovoados.

Durante a sêca as boiadas refugiavam-se nas serras, e escondiam-se pelas lapas e grotas, onde passavam os rigores da estação ardente, que abrasa a rechã. Com a volta do inverno, logo que as vargens cobrem-se dos verdes riços de panasco e mimoso, saía o gado silvestre das bibocas onde buscara abrigo, e derramava-se pelos sertões.

Antes da grande sêca de 1793, foi tal a abundância do gado selvagem em todo o sertão do norte que, segundo o testemunho de Arruda Câmara, entrava nas obrigações do vaqueiro a tarefa de extinguí-lo, para não desencaminhar as boiadas mansas, que andavam sôltas pelos pastos.

O primeiro mês, deixavam-no tranquilo a refazer-se e engordar. Nem era preciso mais, tão forte é a seiva dêsses pastos, saturados do sal que alí deixaram as águas do oceano, quando cobriram toda a vastíssima região. Ao cabo daquele tempo, entravam as correrias dos fazendeiros, e também a dos vagabundos que viviam nômades pelo sertão.

Era a uma dessas montearias ou vaquejadas que naquela madrugada saía o capitão-mór, e a presença de sua família indicava ainda um traço de semelhança entre os nossos costumes sertanejos daquela época e as tradições da nobreza européia. Como as castelãs de além mar, as nossas gentís fazendeiras tomavam parte nesses jogos fidalgos, e animavam com sua graça o ardor e os brios dos campeões.

Quem observasse naquele instante as damas que faziam esquipar seus ginetes à frente da comitiva, notaria sem dúvida o contraste da afoiteza e galhardia que mostravam em seu gesto, com o recato e meiguice do trato familiar e íntimo. Nas destemidas cavaleiras que afrontavam sorrindo os tropeços do caminho, e saltavam por cima de um tronco derribado ou de barrancos e atoleiros, não reconhecera de-certo D. Genoveva, a modesta e laboriosa caseira, e as duas meninas tão mimosas.

São assim as filhas do sertão: eu ainda as conhecí de tempos bem próximos àqueles; suas tradições recentes ainda embalaram o meu berço. Espôsas carinhosas e submissas, filhas meigas e tímidas, no interior da casa e no seio da família, quando era preciso davam exemplo de uma bravura e arrôjo que subiam ao heroísmo.

A idéia da montaria tinha partido do dono do Bargado, o capitão Marcos fragoso, que por uma carta mui cortês mandara convidar o seu poderoso vizinho e a família.

O primeiro impulso do capitão-mór foi recusar o convite. Com a idéia que êle fazia de sua importância e da posição que tinha naquele sertão sujeito à sua vontade onipotente, aceitando favores de outrem.

A generosidade era um direito seu; êle a dispensava quando lhe aprouvesse, mas não a recebia. Como os antigos reis, êsse potentado não reconhecia igual dentro de seus domínios; todos os moradores, pobres ou ricos, de Quixeramobim, êle os considerava como seus vassalos.

Com muito jeito conseguiu D. Genoveva persuadir o marido da conveniência de fazer uma exceção daquela vez, a fim de que ela e sua filha melhor conhecessem o Marcos Fragoso, antes de ajustar-se o casamento. Campelo consentiu afinal; mas recomendou à mulher que observasse bem os aprestos do convívio, a fim de excedê-los em um festim para o qual se propunha a convidar o vizinho e seus hóspedes.

Do outro lado da várzea, ao entrar no tabuleiro, havia à borda do caminho um casebre de embôço coberto de palha. Ao avistar essa habitação isolada, o capitão-mór que investigava com olhar de dono os lugares por onde ia passando, observou-se atento.

— Agrela! disse estacando o ruço e apontando para o teto da casa.

O ajudante seguindo a direção indicada aproximou-se da cabana e examinou o tôpo da carnaúba que servia de cumieira:

— Cortada de fresco? perguntou Campelo.

— Não há uma semana; respondeu o ajudante.

— Traga já o atrevido à nossa presença, Agrela.

O ajudante imediatamente deu ordem à gente da escolta, e foi descobrir o dono do casebre numa rocinha de mandioca, a poucas braças de distância. O homem vinha assustado.

— Como te chamas? perguntou o fazendeiro.

— José Venâncio, para respeitar e servir ao sr. capitão-mór.

— José Venâncio, quem te deu licença de cortar aquela carnaúba?

— Saberá o sr. capitão-mór que eu não corte nas terras de Oiticica, mas lá na várzea do Milhar.

— A ordem que demos, José Venâncio, é de não cortar carnaúba, em qualquer parte dêste sertão.

— Eu não sabia, sr. capitão-mór; pois não seria capaz de desobedecer a vossa senhoria. Era preciso que estivesse doido.

— Acha que êle não sabia, Agrela? perguntou o Campelo a seu ajudante.

— O José Venâncio veio morar para estas bandas há pouco tempo e tem-se portado bem. Entendeu mal a ordem; mas não obrou com malícia.

— Por esta vez, e atendendo à informação do nosso ajudante, ficas perdoado; mas não caias noutra, José Venâncio.

— Juro, sr. capitão-mór!

— A carnaúba é um presente do céu: é ela que na sêca dá sombra ao gado, e conserva a frescura da terra. Quem corta uma carnaúba ofende Deus, Nosso Senhor; e nós não podemos deixar sem castigo tão feio pecado. Vai em paz, José Venâncio.

O matuto curvou de leve o joelho, fazendo submissa reverência ao capitão-mór, que prosseguiu no meio de sua comitiva.

Durante essa curta demora ocorreu um incidente no grupo das senhoras. D. Flor que havia parado perto de uma touceira de carnaúba, descobriu a umbela de uma trepadeira, aberta naquele instante e aproximou-se para colhê-la; mas não pode alcançar o pâmpano que ficava muito alto e entrelaçado com os talos da palmeira.

— Ajuda-me, Alina!

— Você vai ferir-se, Flor! exclamou a companheira.

— Medrosa! tornou a donzela, cedendo de seu intento.

A orvalhada da noite, de que estavam cobertas as fôlhas, a tinha borrifado. Ficara encantadora assim, com os cabelos salpicados de aljôfares. De longe ainda lançou à flor os olhos cobiçosos, e insensivelmente volveu-os na direção de Arnaldo, com insistência.

O sertanejo, que de parte acompanhava os movimentos de Flor, surpreendido por seu olhar, ergueu a cabeça com um gesto de revolta. A donzela voltou-se com uma dignidade fria e desdenhosa para um homem da escolta.

— Apanhe aquela flor, Xavier.

Antes que os outros ouvissem a ordem já Arnaldo arremessara o cavalo à touça de carnaúbas, e colhia a flor que veio apresentar à donzela.

— Obrigada! disse-lhe ela, e deu a flor a Alina.

A posição de Arnaldo na fazenda tinha-se modificado de certo modo desde a tarde do aparecimento da Bonina, quinze dias antes. É isso que explicava sua presença alí, naquele momento, reunido à comitiva.

O capitão-mór no dia seguinte o tinha declarado vaqueiro geral de suas fazendas; e todos o consideravam como tal, e o tratavam nessa conformidade, exceto êle próprio, que fazia suas reservas.

O rasgo do fazendeiro naquela tarde, se a todos admirou, a êle o comovera profundamente. Depois de sua desobediência, só uma graça especial podia mover o ânimo do capitão-mór em seu favor.

O Campelo não era cruel, como outros muitos potentados do sertão; mas o seu rigor em manter o respeito à sua autoridade, tornara-se proverbial. Nesse ponto mostrava-se inflexível.

Referiam-se como exemplo, casos de indivíduos a quem êle mandara buscar aos confins do Piauí e às matas da Bahia, onde se haviam refugiado, para castigá-los do desacato cometido contra sua pessoa, passando pela frente da Oiticica sem tirar o chapéu, ou pronunciando o seu nome sem a devida reverência do tratamento e título.

Eram faltas estas que êle não perdoava, nem esquecia. Embora decorressem anos, em tendo notícia do culpado, despachava uma escolta para prendê-lo, onde quer que estivesse. Satisfeito, porém, o seu orgulho, aplacava-se de todo a ira; assim a maior parte das vezes o castigo não passava de um ato de submissão e quando muito de uma prova expiatória. Obrigava o atrevido a pedir-lhe perdão de joelhos, ou mandava amarrá-lo ao moirão por um dia inteiro.

Arnaldo, que sabia dêstes fatos e conhecia a severidade do capitão-mór, julgava-se banido da Oiticica para sempre; pois não lhe consentia o seu gênio fazer contrição da culpa e pedir perdão da desobediência. Mas essa índole altiva que nenhuma condideração, nem mesmo o amor de D. Flor conseguia dobrar, não resistiu ao rasgo de generosidade do velho.

O caráter de Arnaldo tinha êste traço especial. Zeloso de sua independência, e de extrema suscetibilidade nesse ponto, a menor aspereza, qualquer gesto imperativo, bastava para revoltar-lhe os brios e torná-lo arrogante, como acontecera na mesma noite do aparecimento da Bonina, quando ofendido pela repreensão de D. Flor, lançara ao fogo o mimo da donzela.

Por outro lado também o coração indomável era de cera para os sentimentos afetuosos. Uma demonstração de amizade, um afago, obteria dele sacrifícios a que nenhum poder humano teria fôrças de o compelir jamais.

Porisso, depois do que acontecera, não teve ânimo de contrariar de novo e tão proximamente o desejo do capitão-mór. Prestou-se a desempenhar por algum tempo o emprêgo de vaqueiro, do qual o afastavam os seus instintos de liberdade, os hábitos de sua vida nômade, e mais que tudo uma repugnância invencível de servir a qualquer homem por obrigação e salário.

O vaqueiro não entra na classe dos servidores estipendiados; é quase um sócio, interessado nos frutos da propriedade confiada à sua diligência e guarda. Esta circunstância levou Arnaldo a condescender por enquanto com a vontade do capitão-mór. Fosse outro emprêgo, que a-pesar-da disposição de seu ânimo, não o aceitaria por uma hora.

É de presumir que mais tarde se revele a causa oculta desta repugnância do sertanejo. Talvez a inspire o mesmo sentimento, que, em todas as ocasiões e ainda mais durante o passeio, o conservava arredio da comitiva, como uma pessoa estranha à família.

— Onde ficou o capitão Fragoso de esperar-nos, D. Genoveva? perguntou o capitão-mór à mulher.

— Na marizeira.

— Ouviu, Agrela? disse o fazendeiro, voltando-se de leve para falar ao ajudante por cima do ombro.

— Ouví, sr. capitão-mór. É daqui a meia légua.